Diante do contexto religioso visto acima e também das transformações políticas/econômicas/sociais da época, já era de se esperar que entre os metodistas também houvesse tensões. O conservadorismo predominante na cúpula da Igreja foi gradualmente confrontado pelo movimento progressista, inflado por um sentimento profundo de mudança das estruturas.
No jornal Expositor Cristão, alguns artigos com teor político ressaltavam diretamente a necessidade de mudanças. Em abril de 1960, Daniel Silveira (1960, p.8) escreveu: “[...] O interesse pela justiça social está inscrito através da Bíblia inteira, mas o Comunismo é que tem tomado a dianteira na luta contra a injustiça e contra a exploração, ao passo que nós temos vivido gozando complacentemente das coisas boas da terra”. Até então era possível associar o comunismo a aspectos positivos.
9O Conselho Mundial de Igrejas (CMI) é uma organização ecumênica em nível internacional, fundada em 1948, em Amsterdam, na Holanda. Congrega mais de 340 igrejas e denominações em sua membresia.
10A Confederação Evangélica do Brasil (CEB) surgiu em 1934 e é um dos mais atuantes veículos de cooperação interdenominacional no meio protestante. Teve a Igreja Metodista como membro fundadora.
Por meio dos documentos oficiais da Igreja, como o Expositor Cristão e a revista da juventude metodista Cruz de Malta, pode-se afirmar que grande parte da pressão veio dos jovens. Os eventos promovidos pela denominação na década de sessenta também mostram como as discussões aumentavam sobre o papel da igreja frente aos problemas e dilemas da sociedade.
Em 1960, a juventude promoveu o V Congresso Geral da Mocidade Metodista com o tema Discernindo o Corpo do Senhor, para discutir a vocação da igreja com a ação social. O VI Congresso, realizado em julho de 1964, foi emblemático. Com o tema Para Mim o Viver é
Cristo, os jovens se mobilizaram para promover o desenvolvimento de uma espiritualidade mais
encarnada.
O VI Congresso Geral da Mocidade Metodista teve como preletor o Rev. Almir dos Santos, secretário geral de Ação Social da Igreja Metodista na época. Ele incitou os jovens a viverem “como revolucionários e participassem da transformação da Igreja para que ela se envolvesse na transformação da sociedade”, conta Jorge Sampaio (1998, p. 37).
Nossa identificação com a humanidade, em seus problemas, em suas lutas, em suas angústias é o primeiro passo decisivo na expressão “PARA MIM VIVER É CRISTO”. Uma Igreja alienada da realidade presente é uma Igreja que se nega a ser o sal e a luz do mundo. Os membros da Igreja não devem ter medo de conspurcar- se, pois o Senhor Jesus não deu tal exemplo (SANTOS, 1964, p.19).
O discurso situado poucos meses após o golpe militar é significativo. Os jovens foram motivados a caminhar na contramão do discurso teológico conservador predominante na Igreja Metodista da época. A proposta defendida no evento e que passou a ocupar um clamor na mocidade requeria ações concretas da igreja na sociedade. A missão não estaria apenas em levar a salvação para a alma, mas incluía em dar respostas às necessidades materiais das pessoas. Tal concepção teológica criticava a maneira como a Igreja pautava suas ações evangelísticas na época.
Na edição de 15 de janeiro de 1965, do Expositor Cristão, Almir dos Santos escreveu: “Vamos salvar almas, mas vamos salvar corpos também. Aliás, a distinção entre corpo e alma não é bíblica nem cristã, mas pagã”. Tais afirmações revelam como as divergências teológicas entre salvação da alma e a salvação do homem total estavam presentes na Igreja.
As ênfases do movimento ecumênico e as reações da juventude foram interpretadas como descabidas pela liderança da Igreja Metodista. Essa divergência ideológica repercutiu no
Expositor Cristão, que foi utilizado como um importante veículo para difundir o discurso
julho de 1964, três meses após o golpe, um novo editor assumiu o comando do jornal dos metodistas: o Rev. José Sucasas, que atuou como informante do DOPS11 a partir de 1969. Este assunto será tratado com mais detalhes no capítulo 3 desta pesquisa.
A repressão dentro da Igreja Metodista ficou mais acirrada a partir da reunião do seu órgão máximo de governo, o Concílio Geral de 1965, quando a maioria conservadora assumiu a liderança nacional. Até este momento, o levante da juventude crescia e se tornava cada vez mais enfático. O secretário geral de ação social da Igreja, Rev. Almir dos Santos, seguia estimulando os jovens ao comprometimento social, inclusive por meio do jornal Expositor
Cristão:
Meu irmão, você que está aí na fronteira do Reino de Deus (a fronteira do Reino não está nos templos, nas salas de escola dominical; não, a fronteira do Reino está nas fábricas, nos partidos políticos, nas organizações de classe), você que está vivendo na fronteira do Reino tem uma missão a cumprir: participar ativamente de todos os movimentos que buscam tornar uma realidade a justiça e a paz entre os homens (SANTOS, 1962, p.4).
Para a juventude metodista, a transformação da sociedade passava pela transformação da própria Igreja. Por meio da revista editada em nível nacional pela juventude metodista Cruz
de Malta os jovens manifestavam suas opiniões, buscando estimular o sentimento de mudança.
As críticas eram constantes e abundantes: contra o Pietismo12, o conservadorismo e a estrutura clericalizada das comunidades de fé.
A juventude metodista se posicionou no início da década de 60 contra a espiritualidade individualista e o conservadorismo da Igreja. Propôs uma comunidade de fé mais engajada nos problemas da sociedade, como explica Reily (2003, p. 341). “A juventude universitária e os acadêmicos de teologia pleiteavam uma Igreja mais voltada para a ação social e a política, e exigiam as mudanças estruturais necessárias para tanto”. A reação da ala conservadora da Igreja Metodista não demorou a dar os primeiros sinais.