A codificação e análise dos dados são procedimentos centrais na Grounded Theory e ocorrem simultaneamente com a seleção e coleta dos dados, por meio do método da
comparação constante, o que é traço distintivo dessa metodologia. A codificação é o momento de questionar os dados e refletir sobre eles de modo analítico e conceitual.
De acordo com Charmaz, “codificar significa nomear segmentos de dados com uma classificação que, simultaneamente, categoriza, resume e representa cada parte dos dados” (CHARMAZ, 2009, p. 69). E acrescenta que:
Diferentemente dos pesquisadores qualitativos, que aplicam categorias preconcebidas ou códigos aos dados, um pesquisador adepto à teoria fundamentada elabora códigos qualitativos ao definir o que ele ou ela percebe nos dados. Dessa forma, os códigos são emergentes, eles se desenvolvem conforme o pesquisador analisa os dados. O processo de codificação pode levar o pesquisador a áreas e questões de pesquisa imprevistas (CHARMAZ, 2009, p. 250).
No procedimento da codificação, categorizamos segmentos de dados atribuindo-lhes uma identificação, uma etiqueta, por meio de um ou mais termos que lhe resumem e lhe representam conceitual e analiticamente. Os códigos já são um primeiro exercício interpretativo e analítico sobre os dados, na busca por explicá-los e compreendê-los, e por consequência formular uma explicação e compreensão do fenômeno estudado. Charmaz recomenda diretrizes posturais e procedimentais de codificação, que chama de “código para a codificação”. Recomenda os seguintes pontos:
Permaneça aberto. Fique próximo aos dados.
Mantenha os seus códigos simples e precisos. Construa códigos curtos.
Conserve as ações.
Compare dados com dados.
Desloque-se rapidamente pelos dados. (CHARMAZ, 2009, p. 76-77)
Quanto aos procedimentos de codificação, Charmaz (2009, p. 73) considera pelo menos duas as fases de análise dos dados, que trataremos a seguir.
4.1.3.1 Codificação inicial ou aberta
Na primeira fase de análise, com a codificação inicial ou aberta, os dados devem ser analisados o mais detalhadamente possível. Recomenda-se codificação palavra a palavra, frase a frase, incidente por incidente, acontecimento por acontecimento.
Essa fase já se inicia com primeira leitura dos dados e, no caso das entrevistas, pelo próprio processo de transcrição, que longe de ser um trabalho técnico enfadonho, deve despertar sensibilização e as primeiras intuições e análises. Tarozzi se refere à transcrição das entrevistas já como um primeiro “trabalho interpretativo, mesmo utilizando-se rígidas convenções de transcrição, [...] que abrem o texto fazendo emergir todas as direções
interpretativas possíveis, identificando as unidades mínimas de significado” (TAROZZI, 2011, p. 70).
Nesse momento, são importantes aquelas duas primeiras diretrizes posturais recomendadas por Charmaz (2009, p. 76), ou seja, permanecer aberto aos dados, permitindo que o texto “fale” e “se revele” ao pesquisador, com todas as suas nuanças e detalhes, e permanecer próximo aos dados, fixando-se rigorosamente aos textos, no desenvolvimento, ainda que exploratório, dos primeiros exercícios de codificação.
Charmaz recomenda nessa fase toda atenção em “observar as ações em cada segmento [...] codificar com palavras que reflitam a ação” (CHARMAZ, 2009, p. 74), pois essas técnicas procedimentais em relação aos dados, com atenção voltada para as ações neles expressas, evitam os chamados “saltos conceituais” e a tentação de adotar “teorias existentes, antes que tenhamos realizado o trabalho analítico necessário” (CHARMAZ, 2009, p. 74).
É também uma recomendação de Glaser (1978), nessa etapa das análises iniciais e abertas, a codificação mediante a utilização do gerúndio, pois isso tende sempre a indicar ação e movimento.
Outra técnica que também pode ser utilizada nessa fase é a da “codificação in vivo”. Esse tipo de codificação utiliza diretamente as expressões formuladas pelos autores (no caso dos textos de arquivo) ou pelos participantes (no caso das entrevistas). Essas expressões, que condensam e conservam significados atribuídos pelos próprios autores ou participantes, são então selecionadas pelo pesquisador diretamente do texto e analisadas na sua condição de “códigos in vivo”. Uma das vantagens da codificação in vivo é a de permanecer o mais fiel possível aos dados e suas origens, ou seja, à interpretação que lhe dão seus próprios autores. Sobre isso Tarozzi considera: “A designação de um nome a uma categoria interpretativa exige permanecer fiéis à intencionalidade de quem fala e de não impor denominações que sejam demais univocamente interpretativas, por exemplo, derivadas da literatura sobre o tema” (TAROZZI, 2011, p. 70).
Em síntese espera-se nessa fase obter um conjunto de “códigos curtos, simples, ativos e analíticos”, representados na Figura 4 (Charmaz, 2009, p. 77). E esse procedimento já deve ser acompanhado do emprego do método da comparação constante dos dados, dentro de um mesmo texto, entre diferentes textos e entre os códigos, anotando-se conclusões, mesmo que preliminares e ensaísticas, nos memorandos de trabalho, que servirão posteriormente para evoluir a análise na etapa seguinte, alcançar a(s) core category(ies), emergir a teoria substantiva e redigir o relatório de pesquisa.
Figura 4 – Processo da codificação
Fonte: Elaboração nossa.
4.1.3.2 Codificação focalizada ou seletiva e teórica
Na segunda fase, realiza-se um trabalho já mais sofisticado e refinado com a codificação focalizada ou seletiva e teórica. Embora Glaser e também Charmaz considerem esses tipos de codificação numa mesma fase, o que pode parecer que seja a mesma operação, trata-se de dois momentos e modos complementares de codificar, cujos objetivos são os de ir alcançado a saturação na análise dos dados, a densidade conceitual e a emergência da teoria substantiva.
Glaser considera a codificação seletiva8 como o procedimento de “[...] delimitar a
codificação somente àquelas variáveis que se relacionam com a variável central de forma suficientemente significativa, para produzir uma teoria parcimoniosa”9 (GLASER, 2004, não
paginado). Quando Glaser se refere aqui às “variáveis”, isso tem o mesmo sentido que “categorias”. Ou seja, a codificação seletiva acontece quando o trabalho de codificação inicial ou aberta já alcançou um certo grau de maturidade, a ponto de poder identificar, ainda que de
8 Selective coding (GLASER, 2004, não paginado). Codificação focalizada é o termo empregado por Charmaz
(2009, p. 87). Focused Coding (CHARMAZ, 2006, p. 57).
9 […] to delimit coding to only those variables that relate to the core variable in sufficiently significant ways as
to produce a parsimonious theory.
CATEGORIAS CONCEITUAIS ANALÍTICOS SIMPLES CURTOS CODIFICAÇÃO CÓDIGOS CORE CATEGORY (S)
modo não definitivo e consistente, uma ou mais core categories ou núcleo de categorias, “[...] quer dizer, aquela categoria que é considerada como o centro ao redor do qual a teoria emerge e sobre o qual se sustenta”10 (ARIAS, 2012, não paginado).
Na codificação focalizada ou seletiva, grandes porções de dados são analisados e sintetizados, etiquetados sob códigos centrais elevados ao nível de categorias centrais pelo trabalho de comparação e análise já desenvolvido a partir dos códigos iniciais ou abertos. Se na codificação inicial ou aberta os códigos ainda estão um tanto descritivos, trata-se agora de obter categorias muito mais conceituais e que cristalizem a significação de pontos essenciais à explicação e compreensão do fenômeno estudado, com tendência e potência para consistir numa ou mais core catetories e gerar teoria substantiva no momento seguinte do processo. Conforme Charmaz, “a codificação focalizada exige a tomada de decisão sobre quais os códigos iniciais permitem uma compreensão analítica melhor para categorizar os seus dados de forma incisiva e completa” (CHARMAZ, 2009, p. 87).
Tarozzi (2011), referindo-se a esse momento da codificação focalizada e seletiva, considera que o procedimento acontece por meio de dois processos principais: a) identificação de macrocategorias, ou seja, “conceitos mais amplos, temas salientes capazes de interpretar mais exatamente amplas porções de dados” (TAROZZI, 2011, p. 136); e b) interligação de categorias “entre si e estas com subcategorias e definir suas propriedades”, na linha do que propõe a perspectiva straussiana com a “codificação axial”.
Embora não utilizemos neste trabalho a perspectiva straussiana, apenas deixamos registrado que Strauss e Corbin (2008, p. 123) introduziram ainda nessa fase outro tipo de codificação que denominaram de “codificação axial”, cujo procedimento, que tem por objetivo “[...] relacionar categorias às suas subcategorias, é chamado de ‘axial’ porque ocorre em torno do eixo de uma categoria, associando categorias ao nível de propriedades e dimensões” (STRAUSS; CORBIN, 2008, p. 123).
Por fim, como momento culminante e mais sofisticado dessa segunda fase, a codificação teórica é o ápice da busca, identificação e consistência de uma ou mais core categories, que são conceitos-chave e centrais com alto poder explicativo do fenômeno, que amalgamam em si a teoria emergente substantiva que estava sendo buscada nos dados.
A core category trata-se de um conceito (ou conceitos) que:
[...] representa o processo social de base, que sintetiza um conceito ao mesmo comportamental e social, psicológico e sociológico, em que os atores agem em um contexto com relação a um tema. Esse conceito unifica as categorias e dá a razão das
10 [...] es decir aquella categoría que es considerada como el centro alrededor del cual la teoría emerge y sobre
variações nos dados. É um conceito que exprime uma intensa potência analítica, é saturado, denso, mas poroso, capaz de integrar as categorias porque é extremamente ramificado nas mesmas, é completo e tem grande poder explicativo (TAROZZI, 2011, p. 140).
Esse é, portanto, o esperado momento heurístico culminante para quem utiliza a metodologia da Grounded Theory em qualquer campo de pesquisa.