Section IV: ASDI Country Analyses
4.5. Kenya
O relato e a discussão sobre a história da capoeira desde o século XIX até os dias de hoje, além de nos ter apresentado um resumo das principais transformações ocorridas nessa prática, trouxe dados fundamentais para entendermos como a sua narrativa identitária atual se constrói pela conjunção de elementos da modernidade com resquícios de representações e códigos tão antigos.
A representação da sociedade sobre a capoeira no século XIX deixou-lhe marcas profundas. “É certo que [até hoje, essa atividade, bem como toda] a sociedade brasileira carrega o peso da tradição de um país com passado escravagista e que fez sua entrada na modernidade capitalista no interior de uma concepção patriarcal” (TELLES, 1993, p. 10). Neste estudo, pudemos observar, em todos os períodos relatados, os esforços dos atores sociais da capoeira para minimizar ou até mesmo anular a imagem negativa que ela adquiriu. A inserção da capoeira no projeto de construção da “brasilidade” foi o acontecimento “chave” para a sua entrada na vida da social moderna, mas ainda portando estigmas de “marginalizada”.
De “flagelo” a capoeira torna-se “símbolo da nação”. Essa “nova” imagem agrega à capoeira elementos que representam uma brasilidade idealizada que foi, predominantemente, orquestrada pelos sistemas de poder da época. No entanto, mestre Bimba e mestre Pastinha foram importantes mediadores culturais, pois, por meio de suas redes de relações e de suas visões de mundo, ampliaram as possibilidades de trocas de informações sobre a capoeira entre diversos campos de conhecimento e espaços sociais. Uma atividade que antes era colocada à margem da sociedade começa, no século XX começa a acompanhar as tendências das instituições modernas e as suas constantes reconfigurações.
E, em meio a esse processo ilimitado de reapropriação de conhecimento, desenvolve-se a Capoeira Contemporânea, aqui representada pelo Grupo de Capoeira Humaitá. Embora esta pesquisa traga dados específicos de um núcleo de um grupo de capoeira – dentre tantos outros espalhados pelo globo -, as minhas experiências prévias como praticante, o contato com outros grupos durante a pesquisa de campo e a aquisição de informações por meio de estudos sobre “capoeira” e sobre “identidade” trouxeram informações relevantes para elaboração de nossas interpretações sobre as narrativas da capoeira “moderna” e, principalmente, sobre modos de afirmação da identidade nacional.
Ainda que se tenha levantado uma gama de informações sobre o grupo, devemos chamar a atenção para uma característica que foi crucial neste estudo, pois ela demonstra, claramente, o funcionamento dos mecanismos reflexivos da modernidade no universo prático da capoeira. Essa peculiaridade seria o uso freqüente do conhecimento especializado – principalmente, da Educação Física - nos discursos e nas atividades do Humaitá.
Desde o seu surgimento, o Grupo de Capoeira Humaitá, por meio de seus principais mediadores – os mestres e professores – busca manter um contato contínuo e direto com os estudos sobre a capoeira e sobre temas congêneres, utilizando-se dessas informações para legitimar suas atividades e seus ideais. Nesse cenário, seus membros são incentivados a pesquisar e a adquirir conhecimento por diversos meios. Conseqüentemente, os integrantes do núcleo Humaitá-ES investigado possuem uma liberdade de discutir os mais variados assuntos, mantendo sempre o respeito às diversas opiniões, independente da posição ocupada pelo sujeito no mundo da capoeira ou na sociedade. Além disso, seus docentes possuem a formação em Educação Física que, como destacado, lhes dá competência técnica para justificar e adaptar seus métodos de ensino a variados contextos.
Esses elementos já apontam para presença de mecanismos reflexivos na constituição identitária desse grupo de capoeira. No processo de análise dos dados, verificamos - por meio dos comportamentos e dos discursos dos praticantes - que esse processo de troca de informações e de abertura ao diálogo são mais do que hábitos, são necessidades inerentes as instituições e aos atores sociais na atualidade. Nesses termos, “[...] a reflexividade moderna deve ser lida como uma maior autonomia dos sujeitos, reflexividade essa propiciada e, ao mesmo tempo, exigida pela sociedade atual” (PAIXÃO et al., 2004, p. 94).
Investigando detalhadamente os documentos do grupo, a sua história e a sua realidade atual, evidenciamos que o acesso aos debates acadêmicos sobre a capoeira é bastante facilitado aos integrantes, seja pelo próprio material que lhes é disponibilizado para o estudo, seja pela troca de idéias e discussões entre eles. Diante disso, as comparações realizadas entre os discursos167 dos praticantes sobre a capoeira e as interpretações dos discursos veiculados na RBCE nos levaram à comprovação da existência de um processo de “reflexividade ou circularidade” (GIDDENS, 1991, apud
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Vale relembrar que aqui, quando falamos dos discursos dos praticantes, estamo-nos referindo não somente às suas falas, mas também aos códigos e condutas desses sujeitos no ambiente da capoeiragem.
SILVA, 2005, s/p.) de informações entre esses dois campos. Enquanto os articulistas se apropriam de elementos pertinentes ao ambiente prático da capoeira para estruturar suas ideologias, os praticantes, de modo estratégico, se apropriam de algumas informações acadêmicas para legitimar seus “projetos” e suas atividades.
Contudo é importante frisarmos que o grau de reflexividade varia de um grupo para outro, mesmo porque a apropriação do conhecimento não se dá de modo homogêneo entre os indivíduos, e as trocas de informações não acontecem somente entre dois campos. Minha experiência prévia no mundo da capoeira e o meu trabalho de pesquisa nesses sete meses demonstraram que uma minoria dos praticantes se interessam ou se apropriam das informações provenientes dos debates acadêmicos sobre a capoeira. Atentando para os dados coletados, podemos perceber que esse tipo de conhecimento surge nas falas e ações daqueles atores que transitam nos dois campos em questão - como o mestre Magno e o graduado Dunga. Já entre os outros membros do grupo, os discursos e as condutas se mostraram mais guiados por elementos tradicionais e informações que se transformaram em senso comum168 no ambiente da capoeira atual. Embora a apropriação constante do conhecimento gere um rompimento com modos de pensar e agir mais tradicionais, o ambiente da capoeira ainda é, predominantemente, dependente do “[...] simbolismo tradicional e de maneiras preexistentes de se [sic] fazer as coisas” (GIDDENS, 1994, apud PAIXÃO et al., 2004, p. 99), demonstrando assim, o nível de reflexividade social baixo dessa atividade se comparada a outras práticas corporais modernas. Seus códigos e as condutas dos seus atores, embora demonstrem estar articulados ao amálgama da globalização, buscam mais a conservação e preservação de traços etnoculturais e de um passado “autêntico”. Esse cenário retrata a realidade de um processo que está em andamento (PAIXÃO et al., 2004). O contraste entre o “antigo” e o “novo” representa a transição de uma ordem tradicional para uma pós-tradicional169 que é pautada na expansão da reflexividade social. No entanto, cada sociedade se apresenta em um nível diferente dessa mudança, pois a reflexividade reconhece os limites pessoais e preserva a individualidade (PAIXÃO et al., 2004) dos atores sociais. O conhecimento (científico, especializado e leigo) não é apropriado por todos os sujeitos da mesma maneira. Ele é
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Podemos aqui citar o uso de diversos métodos de aquecimento e alongamento específicos de alguns esportes que foram levados para as aulas de capoeira e que hoje já se tornaram prática corrente nos mais variados grupos.
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A ordem social pós-tradicional surge como resultado direto da globalização. “Isto é, um tempo em que a tradição, enquanto exemplo de conduta, perde espaço, e os sujeitos passam a escolher sobre seus destinos, sem a obrigação de seguir os valores e modos tradicionais” (PAIXÃO et al., 2004, p. 96).
filtrado por alguns fatores (SILVA, 2005, s/p.) que vão designar o grau de reflexividade dos grupos e das instituições. Esses fatores seriam:
1) Poder diferencial: a depender da capacidade individual (ou de grupos) de se apropriar do conhecimento especializado;170
2) Papel dos valores: valores e conhecimento empírico se vinculam através de uma rede de influência mútua;
3) Impacto das conseqüências não-pretendidas: o conhecimento sobre a vida social transcende as intenções dos sujeitos;
4) Circulação do conhecimento social: o conhecimento aplicado altera as circunstâncias às quais ele originalmente se referia (SILVA, 2005, s/p.).
O que explica as diferenciações entre os campos e os grupos no trato com a capoeira. Enquanto os discursos da academia assumem o tom conservador e nacionalista de afirmação de uma identidade étnica e cultural, os discursos e ações dos capoeiristas do grupo Humaitá nos apresentam um caráter mais inovador, pois agregam à estrutura simbólica da capoeira traços de modernidade. Cabe dizer ainda que, embora alguns grupos de capoeira não busquem a informação que é produzida academicamente, em maior ou menor grau, direta ou indiretamente, suas realidades serão influenciadas pelas conseqüências da circulação global desse conhecimento.
Mesmo com essas nuances, verificamos que o sentido central dos discursos dos acadêmicos e dos praticantes é semelhante. Por meio de ideologias, projetos e/ou representações ambos valorizam traços culturais de uma brasilidade forjada e reproduzem valores de um país ainda marcado por tradicionalismos. Essa tendência dos discursos além de buscar realçar o “valor” da capoeira nos mercados, também representa uma maneira de fortalecer os vínculos com a nação em meio aos riscos e incertezas da modernidade.
Nesse sentido, concluímos que a narrativa identitária da capoeira se constrói por meio de uma reflexividade que se manifesta de modo incompleto, o que apresenta a realidade atual de um país que se encontra em processo de modernização e, conseqüentemente, de ressurgimento do nacional.171 Por meio dessa construção, entendemos como alguns modos de afirmação da identidade nacional se manifestam nos grupos culturais e compõem as subjetividades dos atores sociais.
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“A apropriação do conhecimento não ocorre de maneira homogênea, mas é com freqüência diferencialmente disponível para aqueles que estão em posição de poder, que são capazes de colocá-lo a serviço de interesses seccionais” (GIDDENS, 1991, apud SILVA, 2005, s/p.).
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Oliven (2006) esclarece que diante do processo de globalização da economia e mundialização das culturas o “nacional” ganha uma nova proeminência e ressurge conjugando modernidade e tradição.