2. les analyses sensorielles :
2.4. La jutosité :
Os espaços verdes até ao séc. XIX apresentam um papel estético e são essencialmente locais de estadia, de passeio público, mas com as consequências provocadas na cidade pela Revolução Industrial, os espaços verdes ganham uma nova tónica, e a sua criação impõe-se como forma de melhorar o ambiente urbano, como resposta às questões higienistas e sociais, adaptando-se às novas exigências da vida urbana.
Enquanto que os urbanistas progressistas, como Garnier ou Corbusier, respondem à cidade industrializada, assumindo o espaço verde em questões de quantidade, e arrisca-se a dizer como elemento estético, como pano de fundo. Outros como Ruskin, Howard, Olmsted e Forestier (na proposta para Lisboa), assumem-nos como parte integrante da cidade, como elemento de composição desta. São estes os exemplos que constituem a base de vários conceitos ainda hoje essenciais na abordagem da cidade e dos seus espaços verdes, e nomeadamente, dos conceitos que orientam e se defende neste trabalho.
Howard, com o modelo da cidade-jardim, acrescenta às preocupações higienistas a questão da contenção do crescimento das cidades, através da proposta de um cinturão verde (green belt), a zona agrícola, como interface entre a cidade e o campo. Considera-se que no
38
Anderson in Poldermans (2006:10)
39European Environment Agency (2006:46) 40
Lynch (2007, 407), Walmsley (1995:124), Ryder (1995:418), Carvalho (2003:220-223)
seu modelo está latente uma estrutura verde contínua, que organiza e articula a cidade; no entanto, ela não é assumida como tal, mas existe efectivamente, e desempenha o papel estruturante que aqui se defende.
Mas uma das maiores contribuições a nível de espaços verdes urbanos consiste num conceito que Olmsted desenvolve, e que assenta num sistema de parques (já defendido pelo culturalista, Ruskin) articulados por corredores verdes, os parkways, que fazem a ligação desde o bairro à envolvente rural, constituindo elementos efectivos de composição da cidade, estruturando-a.
É a partir do conceito de sistema de parques que é desenvolvido, no séc. XX, o de
continuum naturale. É com este conceito que as preocupações referentes à ecologia,
nomeadamente os fluxos e processos ecológicos, começam a ganhar alguma importância assentes no princípio da Continuidade, originando o conceito dos corredores verdes e por conseguinte o movimento dos greenways, em que assenta a Estrutura Ecológica Urbana.
Mas é apenas com a crise ecológica e com a criação do conceito de desenvolvimento sustentável, que as componentes ambientais e ecológicas começam a ser integradas no planeamento, aparecendo por todo o mundo diversos termos para a implementação dos conceitos de continuum naturale e corredores verdes, que vão desde os greenways, estrutura ou rede ecológica ou infra-estrutura verde. Apesar da diferenciação de termos, as abordagens, não variam muito, relacionando-se com as funções pretendidas ou a escala de implementação. No entanto, a constante em todos eles é a necessidade da continuidade, conectividade dos espaços fragmentados, ligando-os em rede.
Inicialmente os vários termos assentam fundamentalmente em objectivos com funções ecológicas, mas posteriormente vários autores dividem-nos em três categorias, ecológica, recreativa e cultural. No entanto, actualmente a compatibilização das funções, a polivalência, a promoção da multifuncionalidade é defendida e vista como preferencial. Na Europa, e nomeadamente em Portugal, ao contrário dos EUA, esta pretensão é apenas preconizada para a escala de municipal, contudo, pelo menos em Portugal, mesmo sendo preconizada, essa realidade não é de todo evidente.
A Estrutura Ecológica Urbana (EEU) existente nas cidade portuguesas, apresenta-se diversas vezes de modo descontínuo, sem a articulação e multifuncionalidade pretendida, deriva de intervenções isoladas, não fazendo parte de uma visão de conjunto, de continuidade, e tão pouco de integração e articulação com a estrutura edificada, resultando apenas em peças soltas, sem identidade e sem leitura na cidade.
Os espaços verdes urbanos, apresentam várias funções, que se agrupam em quatro grandes grupos, ecológicas, ambientais, socioculturais (percurso, recreio/lazer, protecção/enquadramento, pedagógicas e estéticas), e económicas (produção e turísticas), contribuindo para a minimização de alguns problemas da cidade e assim para o melhoramento do ambiente urbano, e qualidade de vida da população. No entanto não resolvem ou minimizam
todos os problemas da cidade, principalmente se distribuídos pela cidade sem qualquer articulação.
Para além dos problemas ambientais que a cidade enfrenta actualmente, um outro, de cada vez maior importância, é a sua falta de forma, identidade, legibilidade, resultado da sua fragmentação, dispersão, sendo necessária uma nova abordagem de conjunto, relativamente aos espaços verdes urbanos, ou melhor à EEU, e à cidade, dotando a EEU de uma nova função, a de elemento estruturante constituinte da Rede Estruturante, um modelo organizacional, que se pretende que funcione como o esqueleto de suporte desta nova cidade, a cidade alargada, e na qual, a EEU, a par dos percursos viários, tem um papel fundamental.
É na reintegração da EEU como elemento de composição da cidade, e na redescoberta das relações e potencialidades que ambas têm, se forem abordadas como um todo, que deve assentar o compromisso para a organização da cidade emergente.
Pretende-se que a EEU, pela sua multifuncionalidade, adaptabilidade, versatilidade e continuidade no espaço urbano (através do seu elemento chave – o corredor verde), devolva à cidade uma forma, uma imagem com que se identifique, uma estrutura que a articule, sendo esse o papel que a EEU deve desempenhar na Rede Estruturante da cidade, e assume-me aqui que esta tem todas as capacidades para desempenhar esse papel, aliás vários autores desde o final do séc. XIX e início do séc. XX o defendem.
A EEU, como elemento estruturante, abordada dentro de uma visão global e integrada da cidade, tem a capacidade de:
articulação das várias partes da cidade constituindo espaços de fronteira, que permitam a permeabilidade, encontro, evidenciando cada parte, mas não as separando, dotando-as de identidade mas articulando-as, contribuindo para um todo, uma imagem de cidade coerente;
ligação aos e dos outros elementos estruturantes da cidade, colocando-os em rede, qualificando-os, reconhecendo-os como parte integrante de uma estrutura, associando-os a sistemas de percursos, valorizando-os à escala de cidade e de parte de cidade, com vista a ligações e relações coerentes, para que cada elemento, cada parte de cidade e a cidade num todo possam beneficiar;
contenção/controle do crescimento urbano, direccionando a expansão urbana, para zonas já infra-estruturadas.
Assume-se, assim, a EEU como elemento estruturante por excelência, como suporte para a organização e articulação da cidade actual, assente em intervenções selectivas e articuladas numa abordagem holística, apresentando a capacidade de restabelecer as relações espaciais da cidade, dotando-a de uma forma coerente e contínua, de legibilidade, tornando-a perceptível, e identificável nas suas partes e no seu conjunto como um todo.
CAPÍTULO 4. FORMULAÇÃO DE METODOLOGIA PARA DELINEAÇÃO DA ESTRUTURA