Através de associações, conferências, imprensa, livrarias, confeitarias, clubes e mobilizações populares, durante a década de 1880 o espaço público sofreu uma ampliação significativa e a campanha abolicionista foi bastante espaçosa na sua ocupação, ultrapassando os limites do parlamento e alcançando os mais diversos públicos da sociedade, inclusive nas escolas 306.
Ao longo da década de 1880 a tensão antiescravista repercutiu por no interior do campo intelectual e político, tornando-se parte do repertorio de assuntos associados às noções de liberalismo, civilização, progresso, ordem e a liberdade 307. Opiniões antiescravistas espalharam-se pelo interior do Estado Imperial através de suas instituições e agentes, e pelo espaço público em debates que envolviam intelectuais, políticos, escritores, jornalistas, imprensa e várias instâncias da sociedade civil.
Conforme dissemos nos capítulos iniciais, os ambientes escolares não se constroem alheios a sociedade em seu entorno, eles dialogam com ela. Pensando nisso, procuramos observar como e se os debates em torno da abolição da escravidão apareceram nos discursos professados pelos professores, nos anúncios por eles publicados no Diário de Pernambuco.
Em primeiro lugar constatamos que nenhum dos docentes, em seus anúncios, fez menção à palavra “liberdade”, mas tal silêncio talvez, se relacione mais ao fato das escolas serem espaços rígida e metodicamente disciplinadores do que a um possível alheamento por parte dos docentes, em relação a essa questão notadamente central durante o período estudado.
Na lista das sócias efetivas da sociedade abolicionista “Ave Libertas” documentada no “Catálogo da Exposição Realizada no Teatro Santa Isabel”, em
306
MELLO, Maria Tereza Chaves. A República Consentida: cultura democrática e cientifica do final do Império. Rio de Janeiro: Editora FGB; Editora da UFRJ (Edur), 2007.
307
SALLES, Ricardo. Abolição da escravidão, classes sociais e intelectuais no Brasil do século XIX: notas de pesquisa. V Simpósio Nacional Estado e Poder: Hegemonia, p. 3. Disponível em www.simposiohegemonia.pro.br/15_Salles_Ricardo.pdf, ultimo acesso em 01 de Maio de 2011.
137 maio de 1953, em comemoração ao cinquentenário da Abolição, consta entre os nomes das sócias o de Dona Olympia Afra de Mendonça 308, diretora do “Colégio do Amor Divino”. Seu nome foi anunciado a partir de 1884, tanto nos Almanaques “Administrativo, Mercantil, Industrial e Agrícola da Província de Pernambuco 309”
como na seção de “Publicações a pedido” do Diário e Pernambuco, como estando à frente de um “Colégio especial para crianças do sexo masculino”, situado na “Rua da Imperatriz nº 32 310.
Na “Folha do Norte”, entre os textos publicados em homenagem à extinção total da escravidão no Ceará, em 25 de março de 1884 311, consta um texto publicado por Clovis Beviláqua, diretor de uma instituição escolar particular em funcionamento no bairro do Recife, um externato para o “ensino primário e secundário” 312
para meninos situados na Rua do Sol cujo funcionamento também foi anunciado no Almanaque Administrativo da Província 313.
O texto do professor Beviláqua “As festas de hoje” e, nele, o professor saudou o ocorrido, descrevendo as comemorações desse dia nos seguintes termos:
“Eu penso também convosco; é um dos eventos mais avultosos e talvez o mais moralizador de que a alma de nosso povo foi capaz depois que constituiu-se independente. (...) Eu penso também convosco; é luminoso, é esplendente como um sol o acontecimento que solenizais. Merece bem que se o glorifique com as mais belas expansões do entusiasmo” 314
.
308
Cinquentenário da Abolição em Pernambuco. Catálogo de exposição realizada no Teatro de Santa Isabel de 13 a 31 de maio de 1838”. In: SILVA, Leonardo Dantas (org.). A Abolição em Per-
nambuco. Recife: Massangana, 1988, p. 70. 309
ALMANAQUE Administrativo, Mercantil, Industrial e Agrícola da Província de Pernambuco para o ano de 1884. Recife: Typ. Mercantil, 1884, p. 229. Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, Biblioteca. Recife – PE.
310
Amor Divino, Publicações a Pedido, Diário de Pernambuco, Ano 60, n. 47, terça-feira, 26 de fevereiro de 1884, Caixa 143, p. 3, FUNDAJ, Recife – PE.
311
COSTA, F. A. Pereira. Pernambuco ao Ceará: o dia 25 de março de 1884. Fortaleza: Secretária de Cultura e Desporto, 1984, p. 96-97.
312
Ensino primário e Secundário por Clovis Beviláqua, Rua do Sol, 17, Publicações a Pedido,
Diário de Pernambuco, ano 60, n. 18, terça-feira, 22 de janeiro de 1884, p. 3 Caixa/Rolo 143,
FUNDAJ, Recife – PE.
313
ALMANAQUE Administrativo, Mercantil, Industrial e Agrícola da Província de Pernambuco para o ano de 1884. Recife: Typ. Mercantil, 1884, p. 229. Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, Biblioteca. Recife – PE.
314
BEVILAQUA, Clóvis, As festas de hoje, Folha do Norte. In: COSTA, F. A. Pereira. Pernambuco ao
138 O professor Ascêncio M. Meira de Vasconcellos, diretor do Colégio Meira, apesar de demonstrar não ignorar o furor dos conflitos entre as opiniões anti- escravistas– emergidas mais fortes do que nunca após a agitação gerada pela Abolição do Ceará na capital da província de Pernambuco– e a oposição a elas levantadas pelos produtores de cana de açúcar interessados em adiar ou em obstruir a abolição– mandou publicar, em abril de 1884, um anúncio bastante peculiar sobre a disciplina de filosofia ensinada em sua escola:
“A cadeira de filosofia é regida pelo Dr. José Soriano de Souza Filho, um dos moços de mais merecimento da nova geração, e a quem os pais podem com segurança confiar a direção da inteligência de seus filhos no meio das doutrinas perniciosas que de todos os lados os assalta: com tal mestre os meninos tem certeza de só beber princípios sãos e ideias boas” 315
. Aberto em janeiro de 1882 pelo professor Ascêncio M. Meira de Vasconcellos, na Rua Velha do bairro da Boa Vista 316, em janeiro do ano seguinte teve suas instalações transferidas para o 2º andar do sobrado de nº 63 a Rua da Imperatriz, no qual funcionou durante todo o período por nós investigado 317. No anúncio o professor Meira de Albuquerque fala em “princípios sãos e ideias boas”, mas cuida de não explicitar quais seriam esses princípios.
A Rua da Imperatriz foi uma das ruas nas quais as casas embandeiraram-se e iluminaram-se de forma mais efusiva, junto com a Rua do Barão das Vitórias e do Imperador (lócus das escolas), para as festas de março de 1884 318. Imaginamos ter sido impossível, a professores e alunos, estarem blindados às movimentações ocorridas tão próximas de seu ambiente de trabalho e estudo.
Tanto os abolicionistas quanto os proprietários de gente compunham, provavelmente, a clientela do professor Meira e, talvez, poderia não ser do seu interesse posicionar-se explicitamente em relação à filosofia ensinada em sua
315
Colégio Meira, Rua da Imperatriz, n. 63, Publicações a Pedido, Diário de Pernambuco, Ano 60, n. 92, terça-feira, 22 de Abril de 1884, p. 3, Caixa 144, FUNDAJ, Recife – PE.
316
Colégio Meira, Rua Velha, n. 49, Publicações a Pedido, Diário de Pernambuco, Ano 58, nº. 2, terça-feira, 3 de Janeiro de 1882, Caixa/Rolo 135, p. 2, FUNDAJ, Recife – PE.
317
Colégio Meira, Publicações a Pedido, Diário de Pernambuco, Ano 59, n. 24, terça-feira, 30 de Janeiro de 1883, p. 4, Caixa/Rolo 139, FUNDAJ, Recife – PE.
318
COSTA, F. A. Pereira. Pernambuco ao Ceará: o dia 25 de março de 1884. Fortaleza: Secretária de Cultura e Desporto, 1984, p. 19.
139 escola. Para qual lado caminha a sensibilidade do diretor não se pode definir partindo apenas de suas palavras no jornal, talvez, sua intenção fosse deixar a cargo dos pais ou responsáveis a interpretação do que fossem “sãs e boas ideias”, pois, quaisquer que fosse elas, seriam ensinadas às crianças.
Este, talvez também, tenha sido o posicionamento adotado pelas Sras. Dona Felicidade Rebello da Silva Santos e Dona Amelia Fiock de Miranda que, em 15 de abril de 1884, anunciaram o funcionamento do “Colégio 25 de Março para o sexo feminino” situado:
“(...) no excelente prédio sito à Rua de Gervásio Pires n. 83. Além das primeiras letras e trabalho de agulha, ensina-se também francês, português, geografia, aritmética, desenho, música, piano, dança, flores artificiais, etc. Recebem-se alunas internas, meio-pensionistas e externas” 319
.
O dia 25 de Março era data de um dos três feriados nacionais do Império, o dia oficial de se festejar a “Constituição de 1824”, ou seja, era uma efeméride escolar. No entanto, após 1884, tornou-se sinônimo da ideia de libertação, em especial na cidade de Recife, visto a dimensão das festas ocorridas naquela ocasião
320
, ao nomearem seu colégio através da utilização dessa data podiam esta fazendo referencia tanto a um evento quanto a outro deixando a cargo dos pais e/ou responsáveis pelos alunos a interpretação.
Em relação ao apoio às ideias abolicionistas por parte dos professores anunciantes do Diário de Pernambuco, a ação da professora Miss Anna Carroll, diretora do Colégio de Nossa Senhora da Graça, em Ponte de Uchoa– na festa promovida para a realização dos exames finais do ano de 1883– descrita por “Alguns espectadores” na manhã de 27 de novembro de 1883, no Diário de Pernambuco, foi sui generis:
“A Exma. Sra. D. Carroll, querendo comunicar a felicidade, que sentia nesse dia um ser infeliz, surpreendeu-nos com um ato que por si só caracteriza a bondade de seu coração
319 Colégio 25 de Março para o sexo feminino, Publicações a Pedido, Diário de Pernambuco, Ano 60,
n. 86, terça-feira, 15 de abril de 1884, Caixa 144, p. 3, FUNDAJ, Recife – PE.
320 CASTILHO, Celso. “Ao teatro, pelos cativos!”: uma história política da abolição no Recife. In:
CABRAL, Flavio José Gomes; COSTA, Robson. História da Escravidão em Pernambuco. Recife, Editora da UFPE, 2012, p. 333.
140 nobremente cristão. Ela trás entre seus braços a escrava única, legada de seus antepassados, chama-lhe irmã dando-lhe o precioso dom, sem o qual os outros nada valem, a liberdade”
321.
Ainda segundo a descrição a reação dos funcionários empregados pela Sra. Carroll diante da sua atitude:
“(...) inspirando-se nessa grande ideia, felicitou ambas por se ter, nessa feliz ocorrência, rompido os grilhões do cativeiro que atavam esses braços” 322
.
Ora, os exames escolares de fim de ano, na província de Pernambuco, em fins de 1883 representavam uma grande ocasião no calendário escolar. O professor Manuel Portugal, propagador do método João de Deus de Leitura, durante a sua passagem pela província, registrou em carta enviada ao seu editor, Dr. João da Costa Terenas, o seguinte:
“Preciso que mande imprimir 300 cartas de convite em bom papel e pode mandar conjuntamente igual número de envelopes. Mande também um retrato em ponto grande do Dr. João de Deus para colocar na sala. É preciso dar o maior resplendor possível aos exames, pois esta gente é muito de coisas aparatosas, por isso não seria mal também alugar uma banda de música” (grifo meu) 323.
Os professores particulares da cidade do Recife, aos olhos de Manuel Portugal, gostavam de fazer do momento dos exames públicos uma ocasião resplendorosa, aparatosa e musical! Os exames finais poderiam se tornar um momento no qual toda comunidade escola estaria reunida; pais, mães, autoridades provinciais, professores, alunos eram convidados a tomar parte da festa “aparatosa” dos exames.
321
Os exames no Colégio de Nossa Senhora da Graça em Ponte de Uchôa, Publicações a Pedido,
Diário de Pernambuco, ano 59, n. 273, terça-feira, 27 de Novembro de 1883, p. 3, Caixa/Rolo 142.
FUNDAJ, Recife – PE.
322
Idem.
323
Carta de Manuel de Portugal e Castro para João da Costa Terenas. Recife, 20 de outubro de 1879. In: Correspondência para João de Deus [1876-1880]. A. Y. P. 1-41 [Museu João de Deus], fls. 617- 624. Apud, MENEZES, Roni Cleber Dias de. Reverberações do debate decadência/atraso em
Portugal e no Brasil em fins dos Oitocentos: histórias conectadas. São Paulo: FEUSP, tese de
141 O Regimento das Escolas Públicas Primárias da Província de 1886, que vigorou até 1888, estabelecia para o curso primário um plano gradual de três anos progressivos, no qual, para galgar o segundo grau, seria preciso alcançar a aprovação no primeiro. E para conquistar o terceiro, seria necessário ser aprovado no segundo ano. Para se chegar ao secundário ou aos preparatórios para o ingresso nas Faculdades do Império, seria necessário obter a aprovação no terceiro grau primário.
A passagem de um grau a outro de instrução deveria ocorrer apenas mediante o resultado satisfatório diante de uma prova escrita, somada a uma prova oral, a serem realizadas em uma ocasião pública, na qual os alunos eram avaliados por seus professores, pelo Delegado Literário e por alguma autoridade provincial convidada. As famílias e os responsáveis eram convidados a comparecer na ocasião como previa o regulamento: “são convidados os pais e famílias a comparecer, a fim de que verifiquem o aproveitamento de seus filhos” 324
.
Nas escolas particulares esse momento de passagem de um grau a outro de instrução, através dos exames, era marcado por festas e celebrado com pompa, descritas em publicações no Diário de Pernambuco, tanto pelos diretores como por algum convidado da festa (pais de alunos ou alunas ou ex-alunos).
Para a banca avaliadora das crianças eram convidados professores, pessoas ilustres e autoridades ligadas à administração da instrução pública, membros do Conselho Literário ou professores destacados. O Dr. Ayres de Albuquerque Gama, membro do conselho literário entre 1885 e 1887 325, foi convidado para compor a comissão que avaliou em dezembro de 1886 os alunos de instrução primária do Instituto Dezenove de Abril 326. O Sr. Olympio Marques da Silva, delegado literário, foi convidado pela a professora Dona Anna do Rego Barreto de Almeida, diretora do
324
Regimento das Escolas Públicas da Província de Pernambuco, PERNAMBUCO. Legislação Provincial de. Estante 29. Prateleira 03. Número 54. Ano (1885/1887). Ano de 1886. Pp. 52-54.
325
Fala com que o exmo. sr. presidente, desembargador José Manoel de Freitas, abriu a sessão da Assembleia Legislativa Provincial de Pernambuco no dia 1 de março de 1884, p. 35. Recife, Typ. de Manoel Figueiroa de Faria & Filhos, 1884. Disponível em http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/701/, último acesso em 20 de fevereiro de 2012.
326
Instituto Dezenove de Abril, Exames da aula Infantil, Publicações a Pedido, Diário de
Pernambuco, Ano 62, n. 281, terça-feira, 7 de Dezembro de 1886, p. 3, Caixa/Rolo 155, FUNDAJ,
142 colégio de Santa Lúcia, para compor a banca examinadora de suas alunas em 1887
327.
Música também era um elemento dessas celebrações. Dona Anna do Rego Barreto contratou, para a festa de sua escola, a banca de música do Arsenal da Guerra, a qual esteve “tocando sempre nos intervalos” e, uma vez finda todas as atividades das alunas, brindes e discursos, seguiu-se de “um sarau dançante prolongado, até quase duas horas da manhã 328.
Em dezembro de 1882, uma aluna ex-aluna do Colégio de São José fez publicar no Diário de Pernambuco uma elogiosa descrição de como ocorreu os exames das alunas do primeiro grau dessa escola:
“(...) como é de costume, mais uma vez fez públicos os exames e a distribuição dos prêmios às educandas, as quais, depois de examinadas, no dia 7 do corrente, às 10 horas da manhã, reunido numeroso concurso de pessoas gradas e respeitáveis, numa das salas internas do colégio, senhoras e alguns pais das meninas, começaram os exames, dando princípio uma linda poesia recitada por uma aluna, sendo logo depois executadas diversas e bonitas óperas e músicas de piano, intercalando alguns cantos análogos ao ato; duas representações cantadas por duas das educandas, e mais um dueto buffo cantado também por duas meninas, que souberam, pelo seu desenvolvimento e graça, merecer muitos aplausos das pessoas de respeitável auditório” (grifos itálico do autor, sublinhados meus) 329.
Segundo a ex-aluna, o exame público, já em 1882 era costumeiramente feito de forma pública e nessa ocasião foi celebrado com pompas de grande festa, regada a canto, piano, recital de poesias, aplausos e presença de pessoas eminentes.
E no caso do Colégio de São José, o relato acima citado compreende apenas o primeiro momento do exame. Seguiu-se a ele a entrega das medalhas “das mãos do 2º governador do bispado, e lhes foram colocadas no peito pelos pais ou pela
327 Colégio de Santa Lucia – Exames Primários, Publicações a Pedido, Diário de Pernambuco, Ano
63, n. 290, terça-feira, 20 de Dezembro de 1887, p. 5, Caixa/Rolo 159, FUNDAJ, Recife –PE.
328 Colégio de Santa Lucia – Exames Primários, Publicações a Pedido, Diário de Pernambuco, Ano
63, n. 290, terça-feira, 20 de Dezembro de 1887, p. 5, Caixa/Rolo 159, FUNDAJ, Recife –PE.
329
Colégio S. José, Publicações a Pedido, Diário de Pernambuco, Ano 58, n. 283, terça-feira, 12 de Dezembro de 1882, p. 3, Caixa/Rolo 138, FUNDAJ, Recife – PE.
143 diretora” e, para encerrar a festa, “uma banda vocal executada por 32 meninas” fez- se ouvir.
A diretora do Instituto de Nossa Senhora do Carmo, no anúncio publicado em 1880, descreveu as dependências da escola, os graus de instrução oferecidos na instituição (primária e secundária) e as matérias ensinadas, com a seguinte promessa:
“No fim de cada ano haverá exames públicos no Instituto com assistência de autoridades literárias da província, recebendo os alunos do 3º ano que forem aprovados diplomas conferidos pelo colégio, assinados pelo presidente do ato, examinadores e diretores” 330.
Além de apreciar as provas orais dos alunos enaltecidas por apresentações musicais de canto e piano e/ou bandas marciais, os convidados às festas poderiam apreciar a exposição de trabalhos realizados pelos alunos da escola. A ex-aluna do Colégio de São José que relatou os acontecimentos da festa de dezembro de 1882 pontuou:
“... estava exposta na sala de visitas, uma linda coleção de trabalhos feitos a agulha, seda, froco, etc, que bem demonstravam a delicadeza e perfeição com que estavam acabados” 331
.
Assim como o anunciante do Colégio de Santa Lucia explicitou: “Em um quarto convenientemente preparado estavam expostos trabalhos de agulha e outros, feitos pelas alunas do colégio, que foram bem apreciados” 332
.
Coerente com o relato referente a esse colégio, no romance “O Ateneu”, Raul Pompéia também narrou detalhes de como eram as ocasiões dos exames públicos e premiações dos alunos do ensino primário. De suas memórias emerge a seguinte descrição:
330
Instituto de Nossa Senhora do Carmo, Publicações a Pedido, Diário de Pernambuco, Ano 56, n. 15, terça-feira, 20 de Janeira de 1880, p. 3, Caixa/Rolo 134, FUNDAJ, Recife – PE.
331 Colégio S. José, Publicações a Pedido, Diário de Pernambuco, Ano 58, n. 283, terça-feira, 12 de
Dezembro de 1882, p. 3, Caixa/Rolo 138, FUNDAJ, Recife – PE.
332
Colégio de Santa Lucia, Publicações a Pedido, Diário de Pernambuco, Ano 63, n. 290, terça-feira, 20 de Dezembro de 1887, p. 5, Caixa/Rolo 159, FUNDAJ, Recife – PE.
144 “Transformara-se em anfiteatro uma das grandes salas da frente do edifício, exatamente a que servia de capela... Desarmado o oratório, construíram-se bancadas circulares, que encobriam o luxo das paredes. Os alunos ocupavam a arquibancada. Como a maior concorrência preferia sempre a exibição dos exercícios ginásticos, solenizada dias depois do encerramento das aulas, a acomodação deixada aos circunstantes era pouco espaçosa; e o público, pais e correspondentes em geral, porém mais numeroso do que se esperava, tinha que transbordar da sala da festa para a imediata. Desta antessala, trepado a uma cadeira, eu espiava. Meu pai ministrava-me informações. Diante da arquibancada, ostentava-se uma mesa de grosso pano verde e bordas de ouro. Lá estava o diretor, o ministro do império, a comissão dos prêmios. (...) houve discursos de alunos e mestres; houve cantos, poesias declamadas em diversas línguas. O espetáculo comunicava-me certo prazer respeitoso” 333
.
E continuou descrevendo, para além do cenário dos exames públicos, como os alunos preparavam seus trabalhos para aquela festa:
“Para a exposição dos desenhos foram retiradas as carteiras da sala de estudo, forradas de cetim escuro as paredes e os grandes armários. Sobre este fundo, alfinetaram-se as folhas de Carson, manchadas a lápis pelo sombreado das figuras, das paisagens, pregaram-se, nas molduras de friso de ouro, os trabalhos reputados dignos desta nobilitação” 334
.
Os exames– através dos quais os alunos eram avaliados em seu desempenho durante o ano letivo– eram o momento no qual os pais podiam avaliar o trabalho da escola e decidir se os alunos permaneceriam ou não naquele ambiente, no ano seguinte. Todo espetáculo oferecido aos olhos dos pais de alunos e autoridades governamentais do dia dos exames tinha o fim último de provar o mérito dos professores e métodos da escola, como o disse a diretora do Colégio da Imaculada Conceição: “O colégio oferece um corpo docente de reconhecido mérito, o que provou com os exames os quais foram publicados por esse jornal” 335.