Les impacts du projet
Chapitre 4 La justification du projet
No final da década de 1970 surgiu em Serrolândia um time de futebol feminino que ficou muito conhecido por ganhar alguns campeonatos na micro-região. De acordo com uma de suas jogadoras72, o time foi formado por volta de 1977 com alunas do Colégio Estadual73 da cidade e tinha como técnico um professor do Colégio. No início dos anos 1980 o time deixou de pertencer ao Colégio, tornando-se independente e buscando realizar um trabalho mais profissional. Nesse momento o técnico Marcelo assumiu o papel de treinador, acompanhando o time por quase duas décadas. De acordo com ele:
Foi na década de... foi logo quando eu cheguei de Salvador, de 1982 em diante. Porque nós... porque quando veio, veio, que eu comecei treinando lá com elas. Eu já conhecia mas não treinava, que elas já vinham há muito tempo jogando sozinhas e tal. Quando se organizaram mesmo, que a gente pegou, que eu peguei e organizei, porque antes ficava a toa, não tinha noção de nada. (...) Ai depois tinha gente que, não tinha como ser técnico, mas ajudava. Tinha um jogo ai aparecia um lá que ficava gritando elas. Mas pra treinar mesmo de segunda a sexta-feira, ai foi comigo. Que ai a gente treinava direto. Ai, eu via também que o pessoal sabia jogar bola, ai peguei ainda uma parte de muita gente que tinha começado, né?74
Na fala de Marcelo aparece a idéia de que as mulheres do time, apesar de “saberem jogar bola”, não entendiam de futebol, tornando-se necessário o auxílio de um técnico. Durante um pequeno período uma mulher fez o treinamento do time, mas de acordo com Maria José, ela assumiu as funções de treinadora em um momento em que não havia homens disponíveis para treinar:
71 Estatuto do CRESS, 1979.
72
Entrevista com Maria José, em 29.12.2005.
Eu fui na década de 1980, não lembro precisamente o ano, mas eu fui treinadora e presidente. Eu acredito que assim uns seis meses. Não foi muito tempo não, porque eu deixei aí já passava pra outro. Porque eu só ficava quando não tinha nenhum homem pra treinar. Aí justamente quando as jogadoras perdiam o interesse, não queriam treinar, só queria jogar, eram teimosas. (...) Aí essa questão a gente assumia pra não deixar o time cair. O time tava evoluindo e aí. Eu lembro que eu era muito assim de reclamar, era reclamona na hora de dizer as coisas. As vezes as meninas zangavam comigo. Eu era muito perfeccionista, né? Reclamava muito do time: “Passa a bola! Vai na bola! Passa a bola, deixa de moleza!” Eu era assim exigente, talvez eu não fosse tão boa de bola, como era exigente. Reclamava demais no campo. Eu jogava e treinava ao mesmo tempo.75
Apesar de se considerar exigente, sua fala sugere que ela não se sentia capaz de assumir a função de treinadora. A opinião de que os homens são mais eficientes para dirigir times ou organizações esportivas, presente ainda hoje na nossa sociedade, parece ser compartilhada nesse caso pelas próprias mulheres. De acordo com Fabiano Devide, embora as mulheres estejam cada vez mais participando dos esportes como atletas, isso não se reflete nas organizações esportivas: elas quase não assumem cargos de lideranças, como o de treinadoras, e não participam da administração em federações, clubes e comitês. As poucas que assumem o cargo de treinadora “são vistas como perturbadoras do status quo do espaço “masculino” do treinamento”.76
Segundo Devide a associação dos esportes com o mundo masculino estaria relacionada às representações sobre o masculino e o feminino construídas historicamente. Em relação aos esportes afirma:
(...) As mulheres têm enfrentado muitas barreiras ao longo da história para conquistar seu espaço: sendo questionadas quanto a sua feminilidade, por terem de assumir uma postura competitiva, de combate, em busca da vitória, valores pouco associados às mulheres, mas valorizados em relação aos homens; tendo que lutar contra ideologias culturais, pseudocientíficas e religiosas, que as identifica com fragilidade e, quando atletas, com um desvio sexual, além da própria violência simbólica e do abuso sexual no esporte.77
Um dos problemas apontados como motivadores da exclusão ou seleção das mulheres no esporte é a forma como este é organizado. Os parâmetros de julgamento do desempenho dos atletas são geralmente baseados na estrutura corporal masculina, o que leva as mulheres a serem criticadas pela sua má atuação em determinados esportes, a exemplo do 74 Entrevista com Marcelo, em 16.02.2006.
75 Depoimento citado.
76 DEVIDE, Fabiano Pries. Gênero e Mulheres no Esporte: história das mulheres nos jogos olímpicos modernos. Ijuí: Ed. Unijuí, 2005, pp. 42-43.
futebol, mediante a sua comparação com os homens. Para Devide “A construção cultural do corpo feminino no esporte foi feita seguindo um paradigma heterossexual, (...) a partir de diferenças biológicas”78. Desta forma, alguns esportes foram definidos como femininos e outros como masculinos79. Isso está relacionado à idéia de que o corpo da mulher é frágil e que alguns tipos de esportes podem prejudicá-la, comprometendo sua capacidade reprodutiva. A participação das mulheres no esporte iniciou-se na Inglaterra no final do século XIX, quando elas praticavam o hóquei, considerado um esporte feminino. Porém no início do século XX, esta prática passou a ser criticada, sob o argumento da perda da feminilidade e do perigo de masculinização das mulheres80. Essa preocupação vai perpassar todo esse século,
inclusive no Brasil, quando se desenvolveram campanhas na mídia contra a participação das mulheres no futebol.
A atuação das mulheres no futebol teve início na Europa por volta dos anos 1910. No Brasil é difícil sabermos exatamente quando esse tipo de esporte passou a ser praticado pelo “sexo frágil”. No entanto, segundo Fábio Franzini, tem-se notícia de que o primeiro jogo de futebol feminino disputado no Brasil ocorreu em 1913 “entre times dos bairros da Cantareira e do Tremembé, de São Paulo”. Em 1940 outro jogo marcou a história do futebol feminino: desta vez o confronto foi entre paulistas e cariocas no Pacaembu81. Apesar desses dados obtidos pelo autor em consulta à nossa “historiografia futebolística”, não há informações muito precisas sobre a história do futebol feminino ao longo do século XX no Brasil. Contudo podemos afirmar que este esporte se institucionalizou em meados da década de 1980, sendo sua primeira liga fundada no Rio de Janeiro em 198182.
As tentativas de impedir que as mulheres “invadissem” os campos de futebol como jogadoras foram inúmeras. Segundo Franzini, nos anos 1940 a imprensa foi implacável na divulgação do discurso médico-científico, que condenava a prática das mulheres jogadoras de futebol. Esses discursos estavam baseados tanto na “fragilidade” feminina como na preocupação com as “futuras mães”, visto que alguns argumentavam que os esportes “inadequados” às mulheres poderiam causar sérias conseqüências à reprodução. Esses
78 Idem, ibidem, pp. 44.
79 Tênis, voleibol, críquete , natação e ciclismo – os dois últimos, desde que praticados moderadamente -eram os esportes recomendados para as mulheres pelo Conselho Nacional de Desportos em 1941. Ver FRANZINI, Fábio. “Futebol é ´coisa para macho´?: pequeno esboço para uma história das mulheres no futebol” In Revista Brasileira de História. Vol. 25, nº. 50. São Paulo, jul/dez, 2005. pp. 315-328.
80 DEVIDE, Fabiano Pries. Gênero e Mulheres no Esporte: história das mulheres nos jogos olímpicos modernos. Ijuí: Ed. Unijuí, 2005, pp. 41-42.
argumentos não ficaram apenas no noticiário dos jornais; eles se tornaram concretos com a proibição da participação das mulheres em esportes considerados impróprios para elas em 1941, no Decreto que instituiu o Conselho Nacional de Desportos (CND)83. A partir desta lei, o CND definia quais tipos de esportes eram “recomendáveis” para as mulheres: para “proteger” a “natureza feminina”, o futebol foi um dos reprovados para elas. Não é possível saber quais foram as possibilidades de resistência a essa lei. Entretanto é provável que alguns jogos continuassem a ser realizados, visto que em 1965 houve uma nova proibição84. Desta
vez, no entanto, o texto era mais claro: ficava proibida a prática do futebol de campo e de salão para mulheres, reservando-os como uma prática esportiva masculina. Esta proibição só foi revogada na década de 1980, quando foram criados departamentos de futebol feminino em vários clubes do país.
Apesar das proibições do futebol feminino no Brasil, é muito provável que assim como em Serrolândia, outras cidades tenham tido mulheres praticando o esporte “símbolo da masculinidade”, e embora sofressem os preconceitos discutidos acima, elas não deixaram de praticá-lo. Maria José e Marcelo falaram em suas entrevistas da associação das jogadoras com a masculinização em Serrolândia:
Tereza, tinha Tereza, Mariza, dizia: “Ó pra Marizão!” porque ela já tinha jeito de homem. “Cuidado pra vocês não ficarem com perna de homem, perna musculosa!” “Tá caminhando como homem, feito homem, perna máscula...”.85
(...) falava que era coisa de homem, “Isso é coisa de homem, não sei o que” Tinha gente que apoiava, né? Tinha gente que ia pro estádio, gostava, apoiava. (...) Mas o pessoal falava mesmo, falava muito, falava. “Ah, esse negócio de mulher jogando bola, é coisa de homem e não sei o que”, “que as mulheres de hoje perderam a vergonha”. E ai outras falava, os pais, as mães falavam que ia trazer varizes, que aquilo ia dar varizes, que a mulher ia ficar deformada. (...) E muitas vezes tinha esse negocio que as mães falava muito, que tava virando homem, que o corpo ia ficar igual de homem e tinha caso até que dizendo que os seios iam ficar tudo quebrado porque a mulher corria. Rapaz era muita coisa que a gente... eu ouvia (...) O futebol, futebol feminino melhorou muito assim, em termos de discriminação, mas ainda há muita coisa.86
82 DARIDO, Suraya Cristina “Futebol Feminino no Brasil: do seu início à prática pedagógica” In Revista Motriz / UNESP. vol. 8, nº 2. Rio Claro, agosto/2002. pp. 43-50.
83 FRANZINI, Fábio. “Futebol é ´coisa para macho´?”: pequeno esboço para uma história das mulheres no futebol” In Revista Brasileira de História. Vol. 25, nº. 50. São Paulo, jul/dez, 2005.
84 DEVIDE, Fabiano Pries. Gênero e Mulheres no Esporte: história das mulheres nos jogos olímpicos modernos. Ijuí: Ed. Unijuí, 2005, p. 44.
85
Depoimento citado. 86 Depoimento citado.
A associação entre futebol e masculinidade estava muito presente em Serrolândia, ao ponto de alguns pais e namorados das jogadoras tentarem proibir sua participação nos jogos:
Houve, na época assim de década de 80, de namorados que não queria que suas namoradas jogassem. Mas eles censuravam, que futebol ficou pra homem, não pra mulher. Não recordando a pessoa, mas existiu assim. E até alguns pais que censuravam que não queriam que as filhas jogassem futebol, que fosse estudar, cuidar de outras atividades, menos o futebol porque poderia se machucar e era mais voltada pra homem né? Mas a gente tava em frente, queria aproveitar o nosso talento e quebrar esse tabu.87
(...) O mais que eu lembro mesmo, tinha mesmo, tinha muitas meninas que, depois que, até no tempo, no meu tempo até de 1995 por ai assim, já tinha gente assim que ia jogar e os pais não queriam. (...) E tinha vez que era problema pra jogar, tinha vez que você fazia a escalação, quando era na sexta-feira, né? Quando era no sábado me disse: “Oh, fulana de tal não vai mais não, porque o pai não quer”, “A mãe disse que não vai não, porque o pai não sei o que” . Ai cortava. Ai as meninas ia lá a noite, com, ia sábado a noite que era pra domingo me dar a resposta, pra saber se ia ou não, e ai tinha vez que a gente saia cedo, ai chegava lá o pai não... Ai conseguia trazer, mas era esse sofrimento.88
Apesar dos entrevistados terem contado essas histórias sobre as discriminações sofridas pelas jogadoras, eles fizeram questão de afirmar que o time era bem aceito na cidade e que não havia rivalidade entre os times masculino e feminino. Na entrevista de Maria José, ex-jogadora do time, percebemos uma visão idealizada daqueles tempos tão importantes para ela, que afirmou que o time foi sendo construído com a colaboração das pessoas da cidade, de amigos, de políticos e principalmente com o esforço das próprias jogadoras:
Mas a gente tava lá. Eu era presidente, eu era treinadora do time, eu comprava bola com meu próprio salário. Ia em Jacobina e comprava uma bola de couro, bola oficial. Porque às vezes a gente treinava com uma bola simples, assim de borracha assim, não tinha uma bola específica de futebol. (...) a gente fazia assim alguma coisa pra angariar fundos, justamente pra comprar o nosso material. (...) Mas, a princípio cada cidade faz o seu timinho, a gente fala timeco, porque era pequeno não tinha recurso algum. Mas aí as próprias pessoas foram ajudando a gente né? Foram patrocinando, foram doando o uniforme pra gente, um amigo dava uma chuteira...89
De acordo com Maria José o primeiro nome dado ao time foi Rolândia Esporte
Clube sendo que depois este se tornou Jovelândia Esporte Clube. O primeiro uniforme foi
87 Entrevista com Maria José, em 29.12.2005. 88
Entrevista com Marcelo, em 16.02.2006. 89 Depoimento citado.
doado pelo prefeito da cidade no início dos anos 1980. A foto abaixo apresenta o time com esse uniforme, após um jogo entre o Rolândia Esporte Clube e o time da cidade de Santa Luz em 25.09.1983: