A estrutura curricular organizada em módulos visa atender as dimensões da flexibilidade, interdisciplinaridade e contextualização, garantindo a eficiência no sistema de gestão. Uma integração de todas as modalidades favorece a educação permanente, o primeiro emprego, a reconversão e o aperfeiçoamento profissional. Dentro dessas perspectivas, é necessário organizar as propostas curriculares, levando-se em conta a ampliação dos
referenciais, do posto de trabalho, para os processos produtivos e os resultados. A proposta integrada tem a ver também com as determinações para que os docentes atuem em conjunto com os técnicos. A despeito da exposição anterior da (auto)avaliação efetuada pelas instituições acerca da natureza de atuação dos seus recursos humanos, apontando a centralidade das decisões e a separação da concepção e execução, como considerar as propostas de descentralização, delegando maior autonomia aos docentes e mesmo, integração com os técnicos, sendo que tradicionalmente, esses últimos exercem um status demandado pela aparência de poder que possuem? Parece complicado imaginar que aqueles que se consideram “superiores” irão submeter-se a compartilhar seus conhecimentos e segredos profissionais com aqueles que agora pretendem (ou são designados como) ser parceiros.
5.5 Metodologias de ensino
Como forma de diversificar o campo de atuação, as instituições querem assumir para si as incumbências dos processos de certificação como rotinas a serem incorporados, sistematicamente. Além disso, elas pretendem instituir a prática de pesquisas e atividades diversas para enriquecer a formação profissional e as competências afins. A disposição nessa área estaria voltada efetivamente ao que se propõem ou seria uma forma de ampliar o espaço ocupado nos meandros das instituições de ensino superior, como já faz o Instituto Euvaldo Lodi (IEL), desde sua criação? Na vedete de outras formas de atuação propostas encontra-se a modalidade de educação a distância (EAD), como meio de aproveitar os recursos da tecnologia e estender a prática a públicos considerados inacessíveis na forma tradicionalmente concebida. Essa é mais uma das excelentes possibilidades de maximizar receitas, para não dizer, lucros e minimizar despesas. A EAD permite a tão decantada racionalização da gestão dos recursos humanos e dos custos físicos e materiais. Representa, portanto, uma forma adequada ao bom desempenho institucional.
As instituições propõem uma atuação por meio da pedagogia de projetos, como meio de viabilizar o direcionamento do modelo pedagógico à problematização e ao questionamento constantes e buscar soluções criativas e críticas, tendo em foco a formação de um profissional que não se imobilize face as mudanças e reaja de maneira positiva às dinâmicas do mundo do trabalho. Esses argumentos são expressos com tanta naturalidade, como se fosse real (e possível) aos trabalhadores exercerem sua criatividade e serem críticos diante da realidade do trabalho no modo de produção vigente! Essa criatividade é, normalmente, acompanhada de
um planejamento estratégico com vistas à ampliação das possibilidades do aumento de produtividade. É, portanto, uma criatividade controlada a serviço e, nos moldes do capital.
A valorização das experiências do aluno é algo requisitado e indicado à ação pedagógica como pauta para a alteração nos currículos, conteúdos e metodologias de ensino. Na bandeira dessas exigências, o professor é uma figura que merece destaque tendo em vista a incumbência inquiridora de adquirir meios apropriados ao desenvolvimento e aprimoramento de sua competência. A reciclagem e atualização tanto em nível técnico-pedagógico, como de relacionamento, são atributos essenciais exigidos do corpo docente, pois afinal, como os professores vão lidar com a orientação dos alunos nas propostas ancoradas na pedagogia de projetos que supõe integração e interdisciplinaridade? Além disso, se os trabalhadores devem, à partir de então estar em constante aprendizado, torna-se fundamental que a dimensão técnico-prática seja valorizada como subsídio de busca e crescimento pessoal e profissional, caso contrário fica difícil convencer os estudantes dessa “necessidade”. Isso implica em que tanto alunos como professores estão na mira das exigências criadas pelos mercadores da Educação Profissional.
Com relação à dimensão do relacionamento, o docente deve adquirir habilidades que o permitam trabalhar em equipe, desenvolver projetos interdisciplinares, participar de tomadas de decisões e soluções de problemas. Além disso, sua competência envolve todas as demais funções de cunho específico, tais como: o planejamento, as metodologias e estratégias de ensino, o sistema de avaliação etc. Resta saber como se daria essa capacitação. O que esperar, então, dos docentes com relação à sua capacitação? Estariam as instituições oferecendo meios adequados a essa reciclagem ou, ao contrário, o compromisso seria assumido apenas pelos professores? Nesse caso, e à experiência da remuneração dos trabalhadores na área acadêmica do país, estariam os docentes em condições financeiras de bancar tais dispêndios? Ou, as responsabilidades pela capacitação seriam individuais ou estariam as instituições participando desse investimento?
Pelo teor das reflexões contidas nos documentos, bem como em grande parte da literatura produzida pelos órgãos de classe dos quais representam, os empresários, a incumbência pela qualificação é atribuída diretamente ao indivíduo, seja ele aluno ou professor. Ele é considerado individualmente responsável pela busca incessante de aperfeiçoamento, haja vista a ideologia impregnada da “educação permanente”, por “toda a
vida”, “continuada”, discurso intenso dos representantes do capital. Estariam os professores, “isentos” dessas prerrogativas?
Os documentos analisados imprimem um tom de intimação ou mesmo de intimidação diante do quadro de exigência de atualização, aprendizado constante e avaliação dos itinerários de formação que deixam evidentes os padrões de conduta de desempenho cujos critérios são determinados como mecanismo de cobrança e competição entre os pares, estabelecendo um clima de hostilidade no ambiente de trabalho educativo, a exemplo do que normalmente ocorre no contexto das empresas.
O SENAI entende que vem considerando essas tendências nos últimos anos; atuando por rotas diferentes desde sua origem, tem investido em parcerias, oferecendo tecnologia de ponta, assistência técnica e tecnológica, cursos técnicos, tecnológicos, captação de recursos etc., apontando para um cenário que tende à ampliação de “seu campo de ação” e racionalização de “defesas”. Nesse caso, além da tão propalada redução da contribuição compulsória, que outras circunstâncias estariam atingindo sua estrutura? De quem, ou de que estaria ele com medo? Seria apenas o fator da tendência à redução das receitas, ou teriam outros elementos agindo no seu quintal e competindo com ele? A expansão da oferta de Educação Profissional por inúmeras outras instituições com e sem fins lucrativos como, por exemplo, as ONGs, bem como as iniciativas próprias das empresas em prol de atender ao apelo das atitudes “socialmente responsáveis”, cujos dados de amostragem indicamos no Capítulo I, estaria agindo como ameaça ao espaço e poder tradicionalmente ocupado pelo SENAI?
Por fim, como já era esperado, os documentos terminam com Premissas, propostas de reformulação, diretrizes orientadoras das mudanças que seriam implementadas em nível nacional em todas as unidades dos sistemas institucionais. Nessas orientações, chama a atenção o tom prescritivo e não propriamente orientador dos seus discursos. Decidimos reapontar as premissas do SENAI como um caráter reafirmativo dessas condutas.
O fato de repetirmos informações constantes de outros capítulos foi intencional, no sentido de apontar para uma das características mais marcantes desses documentos que é o posicionamento enfático do DEVER, denotando uma postura que, ao nosso ver, é muito mais impositiva que propositiva. Além disso, fica estampada a ideologia do marketing social, politicamente correto numa roupagem disfarçada em torno das pretensões de ampliação do
leque de atuação, visando expandir cada vez mais a fatia desse mercado que tende a ser promissor.