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Jurisprudence du Conseil constitutionnel

Dans le document Décision n° 2016 - 597 QPC (Page 21-24)

No fim do século XIX, a Espanha imperial conheceu o ocaso, fato que ficou mais evidente após a derrota na Guerra Hispano-Americana em 1898 e o conseqüente declínio do que havia restado de seu poderio colonial. Se, por um lado, 1898 pode representar a decadência espanhola, com o fim dos antigos modelos econômico e administrativo, é possível, por outro lado, avaliar como renovadoras as mudanças provocadas por 98, pois daí surgem as bases da Espanha contemporânea. Essas mudanças, originalmente vinculadas ao processo de industrialização espanhol, logo chegaram às artes e ao pensamento humanista em geral.

Várias editoras publicaram traduções de obras que poderiam, de alguma forma, preparar o cidadão espanhol para os novos tempos. Autores que discutiam a industrialização européia e suas conseqüências para a vida social foram traduzidos para o castelhano e para o catalão. Entre esses autores encontra-se John Ruskin.

Ruskin já era conhecido por círculos da intelectualidade espanhola da década de 1890 e traduções de suas obras começaram a circular no território espanhol nessa mesma década. Ele exerceu profunda influência sobre os modernistas catalães, que encontraram nele eco de suas próprias angústias de fim de século, aliando tradição e inovação:

Els modernistes van basar bona part dels seus principis estètics i ideològics en John Ruskin, Thomas Carlyle i William Morris, doncs moltes de les seves idees, promogudes pel grup cultural L'Avenç, eren admirades i van tenir molt de ressò entre artistes tan polifacètics com Adrià Gual, Alexandre de Riquer i Santiago Rusiñol (Valls 1989).

Joan Maragall, o maior dos poetas modernistas catalães, foi admirador da obra de Ruskin principalmente pela sua posição anti-positivista e pela sua admiração pela natureza. Reconhecia nele a qualidade de excelente observador, embora ressalte que lhe falta força para ser um grande poeta:

La substancia de Ruskin es, en efecto, su amor a la naturaleza, y de este amor brotan todas sus teorías estéticas, morales, económicas y sociológicas [...]. Si Ruskin hubiera tenido el don de la poesía habría sido un gran poeta, todos los aspectos de la vida le emocionam y en todos ejercita sus ojos de vidente. Este interés general emocionado y esta facultad de entrever el alma del mundo a través de las formas son características de los grandes poetas; pero en ellas hay además la fuerza poética [...] (Quintana Trias 1993, pp. 80-81)

Gaudí, outro expoente do modernismo catalão, também foi influenciado pelos escritos de Ruskin que versavam sobre sociedade e arquitetura. Gaudí acreditava no preceito de Ruskin segundo o qual “ornament is the origin of architecture” (The Seven Lamps of Architecture) e dessa influência, entre outras, surgiram suas obras tão originais :

“Os escritos de Viollet-le-Duc, Ruskin e Richard Wagner foram parte do cabedal cultural adotado por Gaudí. À parte essas influências extramediterrânicas, sua obra parece ter-se originado de dois impulsos um tanto antitéticos: o desejo de reviver a arquitetura indígena e a compulsão de criar formas totalmente novas de expressão” (Frampton 1997, p.69).

Os escritos de Ruskin angariaram a simpatia de intelectuais de outras regiões da Espanha que questionavam a industrialização crescente do país e a perda de valores humanistas. Entre eles estava Miguel de Unamuno. Em muitos de seus ensaios, Unamuno retoma idéias de Ruskin e as aplica em suas análises da sociedade espanhola de seu tempo e em sua defesa do socialismo. Em um ensaio em que analisa Don Quijote, por exemplo, lança mão de um argumento de Ruskin para sustentar sua própria visão sobre o papel social e moral das vestimentas na vida e na arte:

Enseña Ruskin, en sus Mañanas Florentinas, que el cuidado en la pleguería y la minucia en su expresión, son signos de idealismo y misticismo, citando los pliegues de las canéforas del Partenón y las sobrepellices de nuestros sacerdotes; mientras el amplio ropaje, por grandes masas, el del Tiziano, verbi gracia, revela artistas menos preocupados del alma que del cuerpo. (2007, p. 13)

Sendo Ruskin um autor tão lido por intelectuais espanhóis na virada do século XIX para o XX, traduções para o castelhano e para o catalão não demoraram a circular no país. A primeira tradução de uma obra de Ruskin na Espanha data de 1897, com a publicação de uma tradução de A Joy Forever para o castelhano. Em 1901, Cebrià Montolíu publica na revista “Joventut” sua tradução do ensaio Natura, de Ruskin, para o catalão. Em 1905, a Biblioteca Popular L‟Avenç lança a tradução de Manuel Montolíu para o catalão de um dos ensaios de Sesame and Lilies, intitulada Ells lliris del jardí de la reina (Of Queen’s Gardens). Aqui cabem algumas informações sobre os

tradutores catalães de Ruskin e, mais especificamente, sobre a edição catalã de Of Queen’s Gardens.

Os irmãos Cebrià e Manuel (Manel) Montolíu foram importantes pensadores catalães da virada do século XIX para o XX. Cebrià Montolíu foi precursor, na Espanha, da preservação ambiental em um meio de rápido desenvolvimento urbano e industrial. Em 1903, continuando com seu propósito de divulgar as idéias de Ruskin sobre a natureza, a beleza e a arte, publica Aplech d’Estudis y descripcions de sas belleses triats entre les obres de John Ruskin. A tradução de obras do Ruskin proto- ecologista e pensador social coaduna-se com as idéias desse advogado e humanista catalão que adotou a concepção de “cidade orgânica” de Ruskin e propós o conceito de cidade-jardim quando ocupava o cargo de diretor do Museu Social em Barcelona (Masjuan 2001, Roca 2007). Sua divulgação da obra de Ruskin e sua tradução de Natura receberam críticas extremamente favoráveis em artigo assinado por E. Moliné y Brasés no “Calendari Catalá” de 1902:

Devém mencionar com á treball únich en catalá de psicología artística, lo del jove escriptor Cebrià de Montolíu. Son llibre John Ruskin es un estudi primorós é intens de la obra del gran filosoph del art [...]. Cal llegirlo aquest estudi d‟en Montolíu y‟ls hermosos fragments d‟en Ruskin traduhits per lo mateix autor del estudi, per ferse cárrech de la nova corrent t de la importancia d‟aquest llibre que „ns posa en contacte ab la Europa intelectual i artística. (1902, pp. 36-37)

Manuel Montolíu, filólogo, crítico e ensaísta, era contrário ao niilismo e à imoralidade nas letras catalãs de sua época. Como Ruskin, acreditava no poder do humanismo para a transformação da sociedade industrial nascente:

Creiem, encara que a oïdes de molts aixó soni a paradoxa, que la manca d‟humanitats en la cultura intel.lectual de les nostres classes il.lustrades, és més greu que la deficiència de llurs coneixements científics [...] (Pòrtulas 2003, pp.278-279)

A publicação de Els lliris del jardí de la reina como parte de uma das doze coleções da Avenç, editora à qual estava fortemente ligado Montolíu, servia bem ao propósito manifesto da editora, que era levar aos catalães obras significativas em várias áreas do conhecimento. Essas obras tanto podiam ser originalmente escritas em catalão como traduzidas de vários idiomas.

Els lliris del jardí de la reina foi traduzido do inglês como texto autônomo, sem a ligação com a conferência intitulada Of King’s Treasuries que normalmente se observa desde sua primeira publicação na Inglaterra, em 1865. A fim de adaptar o texto aos propósitos da editora, que era o de formar cidadãos preparados para os desafios dos novos tempos, Montolíu acrescenta paratextos ao original de Ruskin. O primeiro paratexto é uma dedicatória do tradutor às jovens catalãs a quem se destinava a obra:

A vosaltres, dònes catalanes [...] vos dedica „l seu humil treball, destinat a enriquir-vos amb una nova bellesa interior que farà encara més seductora la que ara constitueix el vostre i el nostre orgull,

EL TRADUCTOR (1909, pp. 3-4) A seguir, há uma nota breve na qual o tradutor explica as origens do texto e faz menção às três conferências originalmente feitas por Ruskin em Manchester em 1865. Nessa nota, Montolíu reforça o que já havia exposto em sua dedicatória: a conferência é destinada às mulheres, para que elas possam tomar consciência de seu papel na sociedade, tanto no lar como fora dele.

À nota, segue uma introdução intitulada “A una noia” que é, na verdade, um trecho da introdução de Ruskin para a edição de 1871 de Sesame and Lilies. Montolíu explica que o trecho que serve de prefácio para seu Els lliris del jardí de la reina complementa os argumentos da conferência e que não traduziu o prefácio integral porque já havia uma tradução dessa, de Claudi Grau, publicada na revista Universitat Catalana e que Montolíu julga excelente. Assim, Montolíu preferiu juntar à sua tradução um trecho da introdução já traduzida por Grau, que era artista de muito prestígio na Catalunha

do início do século XX e era frequentador da célebre taverna Els Quatre Gats (que funcionava como uma espécie de clube e espaço para manifestações artísticas) junto com Rusiñol e Picasso, entre outros expoentes das artes catalãs. O que se tem, nesse caso, é mais um exemplo de tradução canônica, desta vez manifesta em um paratexto.

Montolíu traduz as escassas notas de Ruskin e acrescenta algumas poucas notas de tradutor, indicadas como “N. del. T”. São notas que situam o leitor catalão catñlico no texto protestante de Ruskin e que elucidam algumas referências que o autor faz a outros textos e a situações específicas da realidade inglesa. Há uma nota do tradutor, na página 65 da edição de 1909, que foge do padrão de fornecer apenas informação. Nela, Montolíu lamenta que certas considerações de Ruskin não se apliquem à Espanha. O que se vê portanto, é um texto que mescla admiração por outro tradutor, a visibilidade do próprio Montolíu em seus paratextos, com a exceção das notas (a única nota em que manifesta comentário ao texto traduzido é justamente a que mencionei acima) e respeito à organização original do texto em seções.

A segunda tradução de textos de Sesame and Lilies na Espanha foi feita para o castelhano por Julián Besteiro sob o título Sésamo y azucenas. Tres lecciones por John Ruskin e publicada em 1907. Diferentemente da edição catalã, a edição castelhana compõe-se das três conferências originais de Ruskin, afastando-se, nisso, da própria edição original em inglês datada de 1865, que era composta apenas por Of King’s Treasuries e Of Queen’s Gardens, edição que costuma ser observada como padrão até hoje tanto para reedições de Sesame and Lilies em inglês como para traduções.

A tradução de Besteiro foi publicada pela Biblioteca Científico-Filosófica. A tradução não possui notas de tradutor, apenas as notas do autor, e não apresenta nenhuma das introduções de Ruskin. A capa da edição de 1907 é o paratexto mais eloqüente. Nela estão impressos os seguintes dizeres: Sésamo y azucenas. Tres lecciones por John Ruskin. Traducción del inglés por Julián Besteiro, catedrático del Instituto de Toledo. O nome do tradutor está impresso em tipo aumentado, em posição central na capa e com bastante destaque. Esse destaque pode ser explicado pela biografia do tradutor. Julián Besteiro, contemporâneo da geração de 98 e simpático a seus princípios, foi

filósofo, ensaísta, tradutor de Kant, membro do Partido Socialista Obrero Español e autor de várias obras em defesa do socialismo. A tradução de Besteiro foi mais uma de uma série de traduções de Ruskin para o castelhano na última década do século XIX e na primeira do século XX, traduções motivadas, entre outras razões, pela busca de um modelo socialista que fosse alternativo à sociedade industrial.

Se o tradutor é digno de destaque pelo papel que ocupou na intelectualidade espanhola, a tradução em si não chama a atenção; porém, destaco a data de sua publicação. Em 1907, a tradução de Proust já estava havia um ano no mercado francês. Besteiro, tradutor também do francês, ao que parece não teve acesso à tradução francesa, ou pelo menos não manifestou nenhuma influência dessa sobre sua tradução. A ausência de Proust da tradução castelhana de Besteiro pode ser explicada pela atuação incipiente de Proust como autor na primeira década do século XX. Se tomarmos como princípio para validação da tradução de Proust seu êxito posterior como autor, não como tradutor, essa ausência não causa estranheza. Seria preciso aguardar quase cem anos até que a tradução de Proust, já autor consagrado, se manifestasse em uma tradução castelhana. O mesmo ocorre em catalão: apenas em 1996 surge uma tradução catalã de Sur la lecture, publicada como texto independente do Sésame et les lys a que servira de prefácio e ignorando a tradução catalã Els lliris del jardí de la reina, de Montolíu.

Dans le document Décision n° 2016 - 597 QPC (Page 21-24)

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