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O objetivo é apresentar o argumento positivado em torno da modalidade de organização do tempo e espaço – home office – tratado nos estudos acadêmicos como teletrabalho. A construção social em relação ao home office tem difundido discursos que defendem essa modalidade de trabalho como possibilidade de ganhos de liberdade e autonomia. Os dados da pesquisa têm mostrado, porém, que não só os ganhos de liberdade devem ser relativizados, como merece atenção à intensificação desse trabalho, pois trabalha-se mais em casa do que no escritório da empresa; assim como discursivamente os ganhos de produtividade parecem ser maiores quando o trabalho está para fora do escritório, ainda que temporariamente.

A SOBRATT (2013), a partir do cruzamento de diferentes bases de dados47, estimou a existência de quase 11 milhões de pessoas trabalhando em casa no Brasil. Esses números devem ser relativizados em virtude da dificuldade de mapear os trabalhadores que se encontram na informalidade freelancers/autônomos, além do tipo de atividade que desenvolve, dada a amplitude dos setores envolvidos. Além disso, os dados não estratificam as ocupações, de modo que não é possível indicar o percentual de trabalhadores digitais atuando nesta modalidade.

Com a expansão da internet no Brasil em fins dos anos de 1990 pesquisas48 em áreas como administração e a engenharia de produção passaram a analisar as várias formas do trabalho remoto. Os estudos procuram traçar um caminho “virtuoso” que os empreendimentos deveriam seguir, a fim de implementar o teletrabalho enquanto um sistema de organização do tempo e do espaço. Alguns aspectos importantes para o processo de implementação dos programas são discutidos, destacando-se as ferramentas comunicacionais utilizadas; o papel da segurança da informação; o gerenciamento de

47 A SOBRATT utilizou dados gerais sobre o acesso dos brasileiros a computadores e internet, levantados por diferentes pesquisas de diferentes instituições (PNAD/IBGE, TIC Domicílios, TIC Empresas, Painel IBOPE/NetRatings), foi realizada uma avaliação sobre o consumo de mídias digitais no Brasil, com o objetivo de apontar tendências e avaliar possibilidades de expansão do setor no mercado brasileiro.(SOBRATT, p. 19, 2013). É com base nesse conteúdo de pesquisa que a instituição estimou a quantidade de trabalhadores remotos.

48 Para um panorama sobre o enfoque das pesquisas realizadas no campo da engenharia de produção e da administração consultar Balsan (2001), Sobreira (2001), Clementino (2001), Machado (2002), Otero (2002) e Schweitzer (2003). Trata-se de pesquisas centradas em apresentar as possibilidades do trabalho remoto em termos de ferramentas de comunicação, que facilitariam a gestão dos trabalhadores deslocados; enumerar as estratégias de gestores na coordenação de trabalhos e trabalhadores à distância; traçar um perfil dos teletrabalhadores.

dados; e a gestão de equipes de trabalho considerando seus membros alocados em distintos espaços.

Em relação aos trabalhadores, os estudos descrevem o perfil do trabalhador listando atributos e competências necessários e adequados para aqueles que desejam fazer uso dessa forma de trabalhar. É o caso da pesquisa de Otero (2002), que procurou medir as motivações que levaram os trabalhadores a escolher o teletrabalho e concluiu que o estresse da atividade de trabalho, o sentimento de isolamento e o distanciamento entre a equipe supervisora e os trabalhadores colaboram com o sentimento de desmotivação em relação à permanência no teletrabalho.

Tachizawa e Mello (2003) analisaram a implementação de programas home office em empresas de teleatendimento, detendo-se sobre as características individuais dos trabalhadores. Enumeraram como características necessárias para o trabalho remoto cinco elementos: a disciplina, a organização; capacidade de auto-supervisão; auto- organização de tempos de trabalho e descanso; e capacidade comunicativa. Na perspectiva dos autores observamos que é sobre o trabalhador que incide a análise sobre as dificuldades enfrentadas na aplicação de programas de teletrabalho. Não há uma análise crítica sobre uma lógica organizacional que transfere ao trabalhador a responsabilidade de desenvolver práticas, comportamentos, habilidades e competências para a permanência no mercado de trabalho. Não se adaptar ou resistir ao trabalho remoto é interpretado como uma incapacidade de atender ao atual perfil de trabalhador desejado – dotado de autonomia e liberdade que responde pela administração de seu tempo.

A segurança das informações para as empresas é outro tema de pesquisa e o aspecto da segurança é utilizado, em alguns casos, como justificativa para a não implementação de programa home office. Machado (2002) afirma que os principais obstáculos à expansão do trabalho remoto no Brasil, são as poucas ferramentas de proteção das informações. É importante notar, que se trata de estudos realizados no início dos anos 2000 e que nesse intervalo de 15 anos muito se produziu em termos de segurança de dados e outros avanços tecnológicos.

Brik e Brik (2013) publicaram alguns dados de empresas que mantém programas de teletrabalho, destacando um ganho econômico variando entre 30% a 70%. O caso da

IBM (EUA) é destaque, sendo que em um período de dez anos economizou US$ 70049 milhões em custos que seriam direcionados para pagamentos de imóveis. De acordo com os autores – que são consultores em elaboração e implementação de programas home office–, o meio mais rápido de economizar a partir do teletrabalho é a redução de espaços físicos. O que está colocado aqui e na maioria das publicações preocupadas com vantagens econômicas é como mobilizar adesão dos empreendimentos econômicos para criar um programa de trabalho remoto. Os ganhos seriam da ordem da competitividade, associado à diminuição de instalações físicas (escritórios), gastos com energia, transportes, alimentação.

Esses estudos apresentam uma representação positivada do trabalho remoto, entendido como novo lugar e modo da realização do trabalho na sociedade contemporânea. E por isso mesmo o teletrabalho, na concepção dessas pesquisas, deveria ser adotado pelas empresas, seja do setor público, seja pelo setor privado. A pesquisa de Pinto (2003) sobre a viabilidade da implementação do trabalho remoto na empresa pública Serpro – Serviço Federal de Processamento de Dados – é um exemplo disso, que analisou os cargos, funções e trabalhadores aptos ao trabalho remoto e ao final da pesquisa apresenta uma série de proposições para a implementação do programa.

O teletrabalho nesses estudos apresenta-se enquanto um construto social que incide pouco foco nas condições de trabalho e vida dos trabalhadores, apesar de as publicações destacarem em suas análises e discursos a existência de vantagens para o trabalhador em termos de qualidade de vida. O construto em torno do home office mobiliza argumentos com o objetivo de validar sua defesa e adoção e é atravessado por justificações associadas à sustentabilidade, mobilidade urbana e acessibilidade de pessoas portadoras de necessidades especiais. Nesse sentido, é interessante pensar o significado da contratação, pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo (SEMA), dos serviços de consultoria da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividade (SOBRATT), cujo objetivo é a elaboração de estratégias de gestão de mobilidade, viabilizadas pela adoção de teletrabalho e teleatividade no estado. O estudo associa a prática do trabalho remoto à redução da emissão de gases de efeito estufa, apostando na diminuição de veículos em circulação nas cidades (SOBRATT, 2013).

Relacionar o home office com os discursos de sustentabilidade ou de mobilidade urbana são pouco ou nada fundamentados em elementos factíveis, isto porque trabalham com projeções e não, necessariamente, com dados da realidade. Além disso, não identificamos pesquisas que relacionem a prática dos teletrabalho (no caso brasileiro) com dados que apontem para a redução da poluição ou da circulação dos veículos particulares. A percepção de que ao trabalhar remotamente os trabalhadores deixaram de circular com seus carros é uma assertiva no mínimo ingênua, afinal não há como garantir que os trabalhadores não realizarão deslocamentos com seus transportes particulares, sobretudo em uma sociedade pautada na lógica do deslocamento por automóveis, como no caso brasileiro. A pressuposição desta ideia é frágil também por que desconsidera a possibilidade de o profissional utilizar o carro para realizar outros compromissos pessoais que, aliás, a realização combinada de trabalho e atividades pessoais é um dos fundamentos do argumento favorável ao home office – trabalhar remotamente permitiria ao trabalhador conciliar trabalho e vida pessoal, podendo realizar atividades privadas em horários que não o faria, se estivessem na empresa.

Mendonça (2010), nessa mesma linha de questionamento, apresentou resultados de pesquisa realizada pelo ministério dos transportes da Finlândia que relacionara trabalho em home office e mobilidade urbana. O estudo finlandês apontou que o estágio atual do teletrabalho no país não apresenta resultados favoráveis quanto à hipótese de redução do tráfego da cidade, embora o teletrabalho apresente potencial para contribuir com problemas relacionados às questões ambientais e de mobilidade.

CAPÍTULO IV

4. Diferentes arranjos do home office no setor de desenvolvimento de software