O que me iguala ou me diferencia de outras profissões... Bom, eu percebo que as pessoas são muito parecidas em todas as profissões, o ritmo está sendo o mesmo, de uma coisa mais individual, todo mundo correndo individual para tentar alcançar tudo aquilo que ele representa para o consultório, para a clínica e sei lá mais o que. E nós da unidade, fica todo mundo correndo, pedindo e sofrendo por um coletivo que não existe, que ele é virtual e com essa correria que não nos leva a nada, isso é o que eu acho que está comum em várias profissões, isso eu vejo com as pessoas que eu tenho mais contato, que são da área da docência e dos profissionais liberais que a gente frequenta. A gente vê que a roda viva deles tem sido isso.
O que diferencia, deveria diferenciar, é a possibilidade que eu tenho de dividir essa experiência com pessoas que estão em formação, isso difere de outras profissões, esse contato com quem está em formação deveria ser melhor utilizado. Eu acho! Então hoje de manhã, na verdade ontem de manhã eu encontrei com uma aluna, e eu fiz um comentário da correria, que eu tinha esquecido o material e ela falou assim: “Ah, professora! Está todo mundo desse jeito”, aí eu voltei para casa triste, porque eu pensei: “Nossa! O nosso ritmo docente está colocando o discente no ritmo, nesse mesmo ritmo e isso não deveria acontecer”. Não é isso que a gente quer, a gente quer um profissional preparado, organizado, mas nós não estamos tendo organização. Portanto, não se pode falar em organização quando não se age organizado, então é muito confuso e os meninos estão... eu passei a noite pensando triste que as disciplinas estão colocando os meninos nesse ritmo, porque nós vivemos isso e achamos que isso deve ser posto também. Nem pensamos que tem que ser posto não, colocamos. Colocamos isso no nosso plano de curso, várias atividades porque pensamos que quanto mais coisas forem
feitas você amplia a formação e na verdade não é por aí. A gente precisa pensar e dizer: “Vamos fazer”, algumas coisas eu tenho visto e tentado! Mas, eu acho que a gente está muito próximo de todo mundo, nessa correria, nessa loucura. Até médico quando você vai, tirando o geriatra que tem um pouquinho mais de tempo para você, os outros já conversam fazendo a receita. Porque já tem...
3.5.9. A relação entre o tempo destinado ao trabalho e à família
Então, Taita, por essa minha desorganização, eu perdi completamente o referência de uma boa administração de tempo. Então, isso se reflete no meu dia-a-dia, no meu... fica um dia cansativo porque você pensa em muita coisa ao mesmo tempo, então eu gostaria de ter um tempo, de retomar o tempo onde eu estudo o conteúdo que eu preciso. Mas, não. Eu estou estudando, as coisas estão acontecendo, as pessoas estão me chamando toda hora para resolver coisas. O fato de a gente ter uma estrutura que ainda estamos aprendendo a administrar, essa estrutura faz com que você às vezes extrapole aquilo, por exemplo, eu tenho uma excelente técnica no laboratório que trabalha comigo, mas ela precisa de mim para decidir algumas coisas, porque o sistema não favorece a autonomia dela.
Entendeu?! Então a falta de autonomia, a burocracia de certas coisas, a falta de entendimento de quem presta um serviço em determinado setor faz com que a nossa vida fique muito tumultuada. Então eu brinco muito com o , que a gente passa o dia inteiro na universidade correndo atrás de questões administrativas e a noite a gente chega em casa para trabalhar, cansados e com filhos. A família precisando da sua atenção. Então hoje nós trabalhamos de segunda a segunda, nossa casa é uma confusão, isso é uma coisa que eu tento o máximo que eu posso diminuir, mas eu não consigo. Não existe um sábado e um domingo em Uberlândia que eu não trabalho, a não ser que eu não esteja em Uberlândia. E assim mesmo, ainda tem hoje a questão de vamos sair de Uberlândia - leva o laptop, que pelo menos eu fico sabendo o que está acontecendo! A internet que tem que responder as minhas mensagens. Então isso tem me atrapalhado muito, me desorganiza, me frustra, com isso o meu trabalho não é bom. Então, eu estou mais triste comigo, porque eu sei que o meu trabalho não é bom. Eu não atendo adequadamente as pessoas, porque são tantas para atender que eu não consigo; e não atendo o meu filho, e não atendo o meu marido, não atendo a minha casa. Então, a confusão hoje é por causa de uma falta de planejamento que eu tenho que retomar. Mas, essa falta de planejamento não é por eu ser desorganizada, é por eu não saber dizer não. “Não faço”. “Não me proponho”. “Não cabe nesse momento, nesse projeto”. Eu preciso aprender a fazer isso, mas na ânsia de poder ajudar, eu acabo entrando. A gente não quer dizer não. Mas, a gente tem que colocar limites. Limites até para ter qualidade e quando a gente fizer esse movimento aí sim, a gente vai melhorar a nossa formação docente, porque a gente vai refletir isso para o aluno: “Se organize, pense, opte por aquilo sem sofrer por ter deixado outras”, porque hoje a gente ainda não aprendeu a fazer isso ?! A gente sofre, Taita.
Eu agora faço um exercício grande, depois de terapia, que é estar com o meu filho sem o sentimento de culpa de não estar na UFU ou de deixar coisas atrasando. Porque eu sofria ficando com ele, e ele sente.
Então estar com ele, o período que eu me dispus a me deslocar para fazer as coisas para ele, eu estou fazendo um exercício imenso para não sofrer por não estar na UFU. Porque eu sofria muito sabe?! Porque eu estava com ele sofrendo porque não estava na UFU e na UFU sofrendo por não estar com ele. Não adiantou nada, porque aí eu não estou em nenhum lugar inteira. Então não resolve. Nessa história, eu tenho um tempo só dedicado a UFU e a vida fora da UFU. Não consigo separar ainda.