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De acordo com Bonde (2009), compreender a relação entre a genética, as respostas comportamentais e as capacidades de adaptação dos peixes-bois ajudará os gestores a recuperar a espécie. Esta tese é produto do empenho em se obter o conhecimento científico necessário para sugerir medidas de gestão para conservação do peixe-boi (Trichechus manatus) ameaçado no Brasil. A maior parte do esforço da pesquisa teve como foco uma detalhada investigação genética para entender a diversidade genética, a estrutura da população e o corrente estado genético do peixe- boi ao longo da costa do Brasil, com sugestões para ajudar na conservação da espécie.

Frankham e colaboradores (2002) sugeriram que a aplicação de conceitos genéticos deve ser uma prioridade da biologia da conservação. Suas duas primeiras prioridades eram estabelecer manejo genético de espécies naturais em risco, especialmente das populações fragmentadas, e manejar populações cativas de espécies ameaçadas de extinção, para minimizar a perda da diversidade genética e a adaptação genética em cativeiro.

Esta tese descreve a diversidade genética do peixe-boi (T. manatus) no Brasil baseada na aplicação de marcadores genéticos de DNA mitocondrial e de DNA nuclear, bem como na citogenética. Quatro assuntos gerais foram investigados no presente estudo: i) a diversidade genética mitocondrial do peixe-boi (T. manatus) no Nordeste do Brasil (Capítulo II); ii) a diversidade genética nuclear e a estrutura genética populacional do peixe-boi (T. manatus) ao longo de sua área de distribuição no Brasil (Capítulo III); iii) a ocorrência de hibridação entre os peixes-bois T. manatus e T. inunguis (Capítulo IV), e iv) o grau de relação entre os peixes-bois e a ocorrência de endogamia em cativeiro no CMA/ICMBio (Capítulo V).

A discussão a seguir, será baseada na análise comparativa das diferentes investigações genéticas realizadas com peixes-bois ao longo da costa do Brasil, e

LUNA, F. O. Population genetics and conservation strategies for the West Indian manatee…. Chapter VI

apresentará sugestões de manejo e ações, já descritas nos capítulos anteriores, que podem ajudar no incremento dos esforços de conservação e proteção dessa espécie ameaçada.

VI.I

– Filhotes dependentes de peixe-boi e decisão genética para

soltura

No Nordeste do Brasil, o nascimento de filhotes tem ocorrido em ambientes dinâmicos em vez dos calmos mangues normalmente preferidos pelos peixes-bois. Isto é devido à degradação ambiental e à destruição do habitat do peixe-boi ao longo da costa litorânea, decorrentes do adensamento demográfico e da crescente pressão de ameaças antropogênicas, como: exploração de petróleo; pesca predatória, falta de regulamentação para uso de redes de pesca de forma que evite o emalhe; assoreamento dos estuários, aumento do turismo com elevado trânsito de embarcações e fluxo de pessoas; incremento de atividades que utilizam intensamente as áreas de mangue a exemplo da aquicultura; agricultura e os impactos da indústria de cana-de-açúcar localizada perto da costa.

Os peixes-bois preferem águas de enseadas tranquilas, protegidas, calmas e não muito utilizadas por seres humanos. A costa do litoral leste do estado do Ceará e oeste do estado do Rio Grande do Norte é formada por praias de alta energia, com ondas e correntes fortes. Estas áreas dinâmicas são menos adequadas para peixes-boi que, por necessidade, tiveram de adaptar uma estratégia de comportamento diferente para sobreviver. Infelizmente, os peixes-bois jovens não têm a capacidade de adaptação bem desenvolvida e, portanto, sofrem consequências, como o encalhes nas praias.

Um grande número de filhotes jovens se separa de suas mães durante as primeiras semanas de vida e acabam encalhando nas praias, sendo incapazes de

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voltar para o mar. Esse é um problema sério para a sobrevivência do filhote e, em consequência, para a conservação da espécie na região.

Para minimizar os impactos sobre a população, muitos desses filhotes têm sido resgatados com vida pela Rede de Encalhes e Monitoramento de Mamíferos Aquáticos no Nordeste do Brasil (REMANE) e reabilitados nas instalações do Centro Mamíferos Aquáticos - CMA/ICMBio para posterior soltura. Durante os primeiros anos do programa, o objetivo da soltura dos peixes-bois era devolver os animais à natureza. No entanto, a prévia identificação dos locais de soltura não levava em conta as consequências genéticas da translocação e soltura na natureza dos indivíduos reabilitados.

A hipótese 1 do estudo foi verdadeira para H0, uma vez que se verificou que há

implicações filogeográficas que podem influenciar a escolha da área de soltura de filhotes reabilitados de peixes-bois no Brasil. Através deste trabalho, as análises filogeográficas permitiram a identificação genética dos haplótipos existentes ao longo da costa do nordeste do Brasil e possibilitaram a indicação de locais de soltura baseados na similaridade genética.

O estudo indica e incentiva a soltura dos peixes-bois no norte do estado de Alagoas e/ou sul de Pernambuco, o que é importante para o estabelecimento de um corredor que promoverá a ligação entre a população de peixe-boi de Pernambuco com a população localizada em Alagoas, vez que esta área compõe o limite sul de ocorrência do peixe-boi (T. manatus) no Brasil e no mundo. É importante que não se repita o processo de extinção que já ocorreu nos estados do Espírito Santo (ES), Bahia (BA) e Sergipe (SE; Albuquerque e Marcolvaldi, 1982; Lima, 1997). Além disso, o aumento da área de distribuição e a oferta de mais habitat para uso pelos peixes-bois permitirá o crescimento da população e reduzirá a chance de extinção da espécie.

Portanto, a soltura de peixes-bois nos estados em que a espécie atualmente se encontra extinta pode promover a recolonização em locais mais ao sul, onde historicamente existia a ocorrência da espécie. Um exemplo de que é possível a

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recolonização ocorreu no estado de Sergipe, onde um peixe-boi chamado “Astro”, que foi solto no estado de Alagoas, migrou mais de 350km para o sul e chegou na praia do Mosqueiro, no estado de Sergipe, onde vive há 14 anos (Foppel and Ferrari, 2012). Essa nova área foi descoberta e é utilizada por “Astro” e se revela como adequada e apropriada para peixes-bois. A área pode promover a sobrevivência de peixe-bois devolvidos ao habitat natural, já que possui condições de suprir as necessidades amplas dos indivíduos, tais como: comida, água doce, reduzido tráfego de embarcações, águas calmas, com baixa densidade demográfica e baixa utilização por humanos. Como, no entanto, “Astro” foi o único peixe-boi que migrou para aquela área, não se pode classificá-la como uma recolonizada, a menos que se tenham novas migrações ao longo do tempo.

Como o local se insere numa região de ocorrência histórica da espécie, a experiência de “Astro” confirma que a área apresenta potencial efetivo para existência de peixes-bois nativos. Adicionalmente, como provê habitat adequado, a área poderia ser utilizada para as próximas solturas, objetivando formar uma nova população. Portanto, se recomenda que o CMA/ICMBio promova a soltura de alguns peixes-bois, nascidos ou reabilitados em cativeiro e geneticamente aptos, na área do “Astro” para incentivar o estabelecimento de uma nova população.

A soltura de indivíduos geneticamente divergentes pode resultar no swamping genético de populações e, eventualmente, causar a perda de alelos ou genótipos adaptados localmente (García-Ramos e Kirkpatrick, 1997; Lenormand, 2002; Frankham et al., 2002). De acordo com Allendorf e Luikart (2007), esforços devem ser feitos para que indivíduos sejam soltos em locais com a mesma assinatura genética haplotípica. Os haplótipos encontrados no estado do Maranhão foram identificados como M03 e M04, portanto, os filhotes reabilitados dessa área devem para ela voltar. A soltura desses peixes-bois em outros estados mais ao sul não deverá ser mais permitida, uma vez que resultaria em um swamping genético, podendo causar efeitos deletérios em populações residentes.

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O swamping de um pool gênico local também pode ocorrer quando indivíduos de diferentes populações reproduzem e seus descendentes são soltos em áreas onde os indivíduos são localmente adaptados (Allendorf and Luikart, 2007). Portanto, os filhotes de peixes-bois reabilitados e os nascidos em cativeiro não devem ser soltos no estado da Paraíba, uma vez que essa população é pequena e tem baixa diversidade genética. Somente peixes-boi que originaram de áreas próximas ao local de soltura deverão ser considerados aptos para liberação nesse estado.

Animais soltos em locais diferentes ao de origem (geneticamente ou em relação ao habitat) talvez não se adaptem bem a nova vegetação, doenças locais ou alterações sazonais do habitat (Frankham et al., 2002). Nesse sentido, mesmo considerando a importância de se soltar peixes-bois em locais que possibilite conectar populações ou recolonizar áreas de ocorrência histórica, a soltura de indivíduos no local original onde foram resgatados continua sendo a ação mais apropriada para garantir a estabilidade populacional.

VI.II – Estrutura populacional, diversidade genética e estratégias para

conservação do peixe-boi na costa do Brasil

Diversos programas genéticos foram utilizados neste estudo para, através da alta similaridade de DNA nuclear, atribuir os peixes-bois às populações, descrevendo a estrutura genética populacional do peixe-boi na costa do Brasil. Analisando amostras de peixes-bois ao longo da costa do Brasil, e amostras adicionais da Guiana e Venezuela, os peixes-bois foram primeiramente agrupados em três populações: i) Costa nordeste do Brasil (NEB); ii) Noroeste do estuário do rio Amazonas (NWA), composto pelo estado do Amapá/Brasil, a Guiana e a Venezuela; e iii) Estuário do rio Amazonas (EAR), que inclui os peixes-bois amostrados na boca do rio Amazonas.

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