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7. Syntax

7.1. The Join Header

Como vimos até aqui, com suas diferentes linhas teóricas e metodológicas, a Sociologia das Profissões contribuiu para analisarmos e refletirmos sobre a incidência das profissões e do profissionalismo nas sociedades. Para os autores funcionalistas, a organização do trabalho social nas sociedades capitalistas ocidentais modernas gerou, espontaneamente, uma maior divisão do trabalho social. Essa divisão do trabalho social levada ao extremo por um mercado de trabalho guiado exclusivamente por critérios econômicos e, portanto, sem normatização moral, induz a uma simplificação exacerbada de algumas atividades de trabalho, de tal forma que o trabalho se esvazia de sentido para quem o realiza e de conteúdo para que seja socialmente

reconhecido como contribuição para o bem-comum, colocando em risco a coesão social. Caberia, então, às organizações profissionais o papel de defender uma estrutura mínima das atividades do trabalho de sua categoria, contendo o ímpeto econômico do mercado e mantendo o prestígio das(os) trabalhadoras(es) e sua saudável integração social. Os autores dessa linha teórica fazem uma distinção clara entre profissões e ocupações. Para eles, profissões são ocupações que desenvolveram características específicas: possuem um percurso formativo de longa duração formalizado, responsável não apenas pela aquisição dos saberes e habilidades necessários à boa execução das atividades profissionais, mas também pela transmissão dos valores e hábitos profissionais (ética) e de uma identidade de grupo (comunidade profissional); possuem um caráter altruísta no serviço prestado à sociedade, interesses privados (econômicos ou sociais) não são prioridade na ação de uma(um) profissional; possuem autonomia e autoridade profissional derivadas da formação de longa duração, mas também, e principalmente, da prestação de um serviço específico, qualificado e eficaz à sociedade; por último, em geral, possuem o reconhecimento e a proteção jurídica estatal de suas atividades e campos de atuação profissionais, por vezes com prerrogativas de exclusividade em suas áreas de atuação.

Para o grupo de autores identificados como interacionistas dentro da Sociologia das Profissões, as profissões são sistemas de atividades em evolução permanente e, portanto, existem atividades mais e atividades menos profissionalizadas. O grau de profissionalização é sempre tensionado pelas modificações do mundo e do mercado de trabalho, como o advento de novas tecnologias ou o surgimento de novas ocupações que disputem os campos e os objetos de trabalho. A distinção entre profissões e ocupações não é uma questão fundamental para os interacionistas, muito embora as diferenças existam, conforme podemos concluir de sua definição de profissões. Os interacionais estão mais preocupados em compreender quais são as estratégias utilizadas por grupos ocupacionais para manter ou aumentar o grau de profissionalização de suas atividades de trabalho. Os interacionistas acrescentam à reflexão da Sociologia das Profissões a influência entre as experiências no âmbito do trabalho e outras características identitárias sociais das pessoas. Apesar da crítica que os interacionistas direcionam aos funcionalistas de que a premissa teórica de uma distinção natural entre ocupações e profissões está fundada em um dado não natural, mas legal, a lei estadunidense Taft-Hartley Act de 1948, e que esse fato incorre no risco da abordagem funcionalista reproduzir e fortalecer as desigualdades sociais ancoradas em algumas ideologias profissionais, eles concordam que quanto maior o grau de profissionalização de uma atividade mais seguros

estão os saberes e habilidades específicas de um grupo das conturbações do mercado de trabalho e maior é o prestígio social de suas(seus) praticantes.

A terceira e última vertente teórica da Sociologia das Profissões que vimos foi o weberianismo. O tema principal dos trabalhos das(os) autoras(es) weberianistas é a relação entre as profissões e o poder nas sociedades. Sendo assim, essas(es) autoras(es) compreendem as profissões como grupos de privilégios e status do subsistema econômico do capitalismo. Para elas(eles), os grupos profissionais são formas elitistas de organização das atividades econômicas pois buscam sempre se legitimar socialmente por meio do isolamento social e da proteção política, o que lhes garante o monopólio do saber e do saber fazer em uma determinada área de trabalho e, consequentemente, um monopólio econômico. As críticas levantadas pelas(os) teóricas(os) weberianistas da Sociologia das Profissões ao posicionamento e ações corporativistas de alguns grupos profissionais que, com o auxílio do Estado, alcançaram, em diferentes países e épocas, um alto grau de controle e exclusividade sobre um conjunto considerável de atividades de trabalho, um verdadeiro monopólio do campo de atuação, é bastante relevante. Mas nos parece haver, apesar da negação, uma leitura acentuada das profissões como “entidades econômicas” ou grupos de interesses econômicos privados, representativas de grupos economicamente e socialmente já privilegiados, antes mesmo de sua identificação com determinadas profissões. Parece-nos que, em razão dessa atenção acentuada à questão econômica, as(os) teóricas(os) weberianistas descuidaram-se das características do altruísmo e do serviço qualificado e útil à sociedade, identificadas pelos teóricos funcionalistas como as bases legitimadoras da autonomia e da autoridade profissionais. Dessa forma, Sobottka (2013) nos parece elaborar questões que nos ajudam a analisar de forma mais adequada o tema da validade do controle corporativo das atividades profissionais:

A questão que a organização e o controle corporativo das profissões coloca, em especial quando elas envolvem atividades essenciais para a vida em sociedade e para as quais não haja substitutos equivalentes externos, é como conciliar os interesses privados que as corporações defendem com o interesse público, que é a razão que legitima a existência daquela forma de organização da profissão. Ou, mais especificamente, se a realização de interesses privados dos associados à corporação contribui prioritariamente para a realização do interesse público ou se, ao contrário, a obstrui. (SOBOTTKA, 2013, p. 518, grifos nossos).

Além disso, Bourdieu e Boltanski, os últimos teóricos que vimos dentre os identificados como weberianistas na Sociologia das Profissões, ao analisar a relação entre o sistema de ensino e o sistema econômico, admitem as distinções sociais produzidas pelos certificados e diplomas

do sistema de ensino formal, mas também destacam que a associação entre os certificados e a aptidão para o exercício de uma atividade é uma das últimas barreiras institucionais contra o livre mercado. É, aliás, segundo os autores, um dos fundamentos da autonomia do sistema de ensino em relação ao sistema econômico capitalista.

Sobottka (2013) também cita a desvinculação das carreiras universitárias das categorias profissionais como uma tendência contemporânea que visa responder a uma demanda do mercado, tornando os diplomas não uma certificação de saberes e técnicas, mas a garantia de oportunidades exclusivas. O autor também destaca que atualmente existem muitas reinvindicações de reconhecimentos de ocupações como profissões enfatizando a importância social da atividade em detrimento dos clássicos argumentos funcionalistas da formação especializada, da prática altruísta e do postulado à primazia ou exclusividade de alguma competência, o que ele compreende ser uma estratégia pouco válida, visto que não se observam ganhos reais na qualidade de vida e condições de trabalho das(os) praticantes dessas ocupações, citando como exemplo as(os) catadoras(es) de materiais recicláveis no Brasil. Sobottka defende um dos argumentos funcionalistas clássicos, o de que a formação de longo prazo e formal deve preparar para uma prática qualificada e eficaz da atividade profissional focada na contribuição para o bem-comum. Segundo o autor, essa prática precedida de uma formação adequada e o diálogo cotidiano no espaço de trabalho, instituindo um regime de cooperação multiprofissional, é que devem organizar e legitimar as competências e contribuições de cada categoria profissional em áreas de atuação que exijam o olhar e a intervenção de diferentes disciplinas e profissionais para a resolução das questões concretas da vida dos sujeitos e grupos sociais.

Nem os interacionistas nem as(os) weberianistas sugerem de que forma, que não com a formação de longo prazo e formal, as sociedades podem suprir a necessidade de trabalhadoras(es) especializadas(os) em determinadas áreas cujo saber teórico e cientificamente fundamentado e o saber fazer prático se apresentam explicitamente necessários. Por essa razão, nos parece que a construção teórica do tipo ideal funcionalista de profissão, calcada no saber abstrato adquirido em processo formativo de longa duração visando a prática qualificada, útil e eficaz para a sociedade, ainda emana algum poder normativo válido. Porém, as críticas interacionistas e, principalmente as weberianistas, quanto a produção de monopólios no mercado de trabalho que criem, reproduzam ou fortaleçam desigualdades sociais estruturadas historicamente, devem estar sempre presentes nas análises dos processos de profissionalização de ocupações e suas consequências nas sociedades.

Cabe agora investigarmos de forma mais profunda como a Sociologia das Profissões e a dualidade ocupações/profissões aparece na produção teórica brasileira.

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