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JOBSUMMARY ATIRIBUTE INCORRECT SYNTAX

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A escrita é uma invenção humana e um discurso muito ouvido sobre sua criação é o da tentativa da transposição da fala, ou seja, uma simples representação por meio de símbolos. No entanto, ao conhecer a evolução desse instrumento de linguagem percebe-se que ela possui outras especificidades.

Para isso, considero necessário abordar as fases de evolução da escrita apresentadas por Vanoye (2007). Segundo ele, a escrita em sua primeira etapa era sintética, pela qual um signo representava a totalidade de uma frase ou um conjunto de ideias, sendo assim um sistema apenas vinculado por imagens sem remeter a sons. Na segunda etapa, a escrita tornou-se analítica passando da ideia global dos signos para a decomposição em palavras. No entanto, nessa fase, mesmo que mais detalhada, a escrita ainda não possuía relação com os sons. Essa relação começou a ser caracterizada na terceira etapa, a escrita fonética, caracterizada justamente por marcar os sons. O autor ressalta que, mesmo com número maior de palavras que de sons, a escrita fonética tem a capacidade de transmitir um signo por som.

Em meio a essa terceira etapa, que se caracteriza como marco atual dos usos gráficos, Vanoye (2007) destaca o alfabeto como a forma de representação da grafia fonética, pois permite transcrever os sons da linguagem articulada. Ainda em relação às três etapas da evolução, o autor também considera que os sistemas não funcionam individualmente, ou seja, existem características de uma etapa sendo usada nas outras.

Ao estudar o assunto, além das etapas de evolução, que questões relacionadas à criação, expansão e uso da escrita possuem mais considerações. Uma delas a destacar é o fato de que a escrita se identifica com os avanços da humanidade, sendo um fato social que está na base da civilização. Higounet (2003) disserta sobre isso:

A escrita faz de tal modo parte de nossa civilização que poderia servir de definição dela própria. A história da humanidade se divide em duas imensas eras: antes e a partir da escrita. [...] Vivemos os séculos da civilização escrita. Todas as nossas sociedades baseiam-se sobre o escrito. A lei escrita substitui a lei oral, o contrato escrito substitui a convenção verbal, a religião escrita se seguiu à tradição lendária. E sobretudo não existe história que não se funde sobre textos. (HIGOUNET, 2003, p.10).

Nas palavras do autor, percebe-se que a civilização da sociedade é marcada pela criação da escrita, ou seja, há implícito o posicionamento de que sem a escrita não há civilidade ou civilização.

[...] a escrita não é apenas um procedimento destinado a fixar a palavra, um meio de expressão permanente, mas também dá acesso direto ao mundo das ideias, reproduz bem a linguagem articulada, permite ainda apreender o pensamento e fazê-lo atravessar o espaço e o tempo. É o fato social que está na própria base de nossa civilização. (HIGOUNET, 2003, p.10).

Essa ideia também exemplificada por Harris (2000), ao mostrar que a escrita alfabética foi considerada o marco da civilização ocidental, enquanto que outros povos “não ocidentais” e que não possuíam a escrita alfabética eram considerados não civilizados, no dizer de Harris (2000), eram vistos como bárbaros. Neste ponto de vista, percebe-se o poder que a escrita pode assumir, sendo esta, muitas vezes, considerada definição da civilização, ou seja, o marco da evolução humana, fato esse que na realidade pode ser refutado, pois civilizações ditas não ocidentais também possuem formas escritas de manifestação pela linguagem mesmo essas não sendo alfabética podem ter igual valor com manifestação linguística.

Em contraposição a essa ideia de escrita como civilização, Catach (1996) defende que a ideia da superioridade do alfabeto parece, nos dias atuais, uma noção ultrapassada. Ela ressalta que a invenção da escrita, como conjunto de signos organizado, data apenas de alguns séculos, relata ainda que:

Nem todos os povos têm escrita, não se trata de uma passagem obrigatória de qualquer civilização humana. Pode-se mesmo dizer, com certa razão, que, se metade da população sabe ‘ler’ (de uma forma ou e outra, pois haveria muito a dizer sobre o assunto), somente um quarto, sem dúvida menos dos quatro bilhões e meio do planeta sabe realmente ‘escrever’, e ainda assim considerando todo tipo de nuanças. (CATACH, 1996, p.5).

Nas palavras da autora, há exposição de que a escrita não é adquirida, acessada por todos. Existem os que têm pouco ou que não têm contato com esse “mundo civilizado” da escrita. Ao observar isso, noto que o fato de a escrita ter tanta importância para a civilização, muitas vezes, não se deve apenas ao acesso da população a ela, mas ao poder a ela atribuído.

Esse poder que é atribuído à escrita pode ser relacionado aos que detêm maior domínio sobre ela, controle esse que certas vezes age de maneira implícita na sociedade, sem que os usuários desta ferramenta de linguagem percebam. Para Clark e Ivanic (1997), as práticas escritas são uma das maiores regras na construção e manutenção da ideologia dominante.

Assim, é possível observar a escrita não como representação da civilização, mas como uma manifestação e evolução social ao considerar que ela foi criada como um modo de comunicação e também como um modo de deixar as atividades linguísticas assinaladas no tempo. Além disso, ela pode ser uma ferramenta de domínio e acesso ao poder usada pelas elites da sociedade.

Ferramenta técnica, a escrita constitui para as sociedades humanas um instrumento de pensamento de primeiríssima ordem, uma espécie de ‘segundo sistema de signos’, capaz de representar as mais abstratas operações e as mais diversas e amplas informações. (CATACH, 1996, p.5).

Para além da comunicação, a escrita como um instrumento do pensamento é usada para reflexão, apreensão e fixação deste. É também uma forma de transmitir ideias, informações através do tempo e do espaço. No tempo, ela pode ser repassada de geração em geração. E no espaço, pelo fato de permitir o contato entre sujeitos sem a presença física, por meio de cartas, telegramas e atualmente com a internet, um meio que usa a escrita também como forma de repassar as informações em rápidos instantes.

Nesse tópico dissertei sobre alguns pontos do panorama da escrita na sociedade ocidental, no entanto, o intuito aqui não é defender a posição da criação da escrita em sua relação com a fala, nem destacar a escrita como marca da civilização ou forma essencial de manifestação e concretização do pensamento. Esses pontos foram abordados para mostrar a abrangência e os diversos vieses possíveis quando se fala em considerações sobre escrita. Nesse texto, portanto, considero que a escrita, especificamente a ocidental, é um meio linguístico que permite o contato e a relação entre seus usuários. No mundo letrado, ela é uma ferramenta indispensável nas relações humanas tornando-se uma forma de prática social.

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