A questão do iluminismo no pensamento de Luís Antônio Verney é unânime entre os seus principais estudiosos, Antônio Alberto Banha, Luís Cabral de Moncada, Antônio Salgado Junior, Laerte Ramos de Carvalho e Gilberto Luiz Alves.
Luiz Antônio Verney é um pedagogo e, enquanto pedagogo, um iluminista, na medida em que o iluminismo é uma forma de pensar comum de homens que, em atitudes diversas de pensamento, procuraram fazer da cultura um instrumento do progresso e da perfeição das sociedades e dos homens. (CARVALHO, 1978, p 62)
Mas, como Moncada nos mostra, o iluminismo de Verney foi conservador, não revolucionário como o francês, conciliador, católico e principalmente reformista, dentro das possibilidades de mudança que o reino português oferecia.
Sabemos que as propostas de Verney foram reformistas e aristocráticas ao mesmo tempo, pois Verney era padre e não propôs nenhuma grande mudança na
27
Verney admite a educação fornecida pelas ordens religiosas, desde que estejam em consonância com as novas propostas educacionais, como é o caso dos Oratorianos, excluindo os Jesuítas.
estrutura social do reino, mantendo o ensino secundário e superior restritos à elite para a formação de governantes e padres úteis ao Estado e à Igreja.
Em suas cartas ao padre Foyos, deixa claro que recebeu a ordem de iluminar a Corte, ou seja, iluminando o rei, segundo Carvalho, com as novas propostas filosóficas na modernidade, pois Portugal precisava acompanhar o desenvolvimento da Europa.
Mas, por outro lado, às propostas de alfabetização de todas as classes e de uma educação para as mulheres comprovam que as suas ideias não ficaram restritas à aristocracia.
"Devia também haver em cada rua grande, ou ao menos bairro, uma escola do público, para que todos os pobres pudessem mandar lá os seus filhos, o que se pratica em varias partes" (VERNEY, 1959 p 50). A criação de uma escola pública para os pobres, dentro de uma proposta de secularização do ensino, mostram o seu caráter inovador e reformista, e até progressista, em relação ao conservadorismo do reino e da educação fornecida pela igreja.
Se o iluminismo foi um movimento essencialmente burguês, por que o pensamento de Verney, o seu iluminismo, não foi motivado pelos anseios da burguesia?
Para Gilberto Luís Alves, o iluminismo em Portugal, motivador das reformas pombalinas, foi essencialmente burguês.
A produção teórica em Portugal, nessa fase, esteve irremediavelmente estigmatizada pelas limitações de sua base material. Isto não quer dizer, contudo, que o pensamento burguês deixou de ser produzido nesse extremo da península Ibérica mas sim, que esse pensamento ganhou uma configuração "impura" e ambígua, pois mesclou-se com o pensamento feudal. (...) Em Portugal, por força de seu atraso material, o iluminismo não pôde brandir com igual vigor, as bandeiras defendidas pela burguesia revolucionaria contra a nobreza e o clero feudais. Em terras portuguesas, a burguesia, por ter sido débil e conciliadora, foi também reformista. O iluminismo luso expressou a situação da classe à qual servia como arma ideológica. (ALVES, 2001, p.23-24)
Ou seja, o iluminismo português foi eclético, ambíguo e contraditório, pois a burguesia não estava plenamente consolidada e fortalecida na sociedade do reino, e as práticas burguesas dependiam do controle do Estado sob a economia, característica marcante do mercantilismo.
Dessa forma, o iluminismo português só pode ser entendido, dentro do contexto do despotismo esclarecido, fusão entre Iluminismo e Absolutismo que ocorreu nos países que possuíam uma burguesia mais fraca, ou seja, não revolucionária; por isso as mudanças ficaram a cargo do monarca fortalecido.
Assim, nós entendemos as propostas iluministas de Luís Antônio Verney e do Marquês de Pombal em um contexto muito bem representado por Alberto Banha,
Os <<Iluminados>> contestavam, o não tanto o cariz tradicionalmente cristão, mas antes o domínio da escolástica, que consideravam ainda medieval, e portanto, atrasada de século. Não houve, pois, ao menos nas apostas de Verney e Pombal, propostas à margem da Religião, posto que enfrentassem, de espada em riste, variados aspectos dessa Religião. Queriam o extermínio da companhia de Jesus, a autonomia do estado em relação à Igreja e, sobretudo, à Cúria Romana; e , neste contexto, a educação, a Inquisição à ciência sobre a especulação filosófica, e ao direito natural, em relação ao direito romano e canônico. (1980, p.95)
As propostas de Verney foram aristocráticas, pois representavam os anseios do clero e da corte reformista em um momento de fortalecimento do Estado, perante os resquícios ideológicos e políticos da idade média, como por exemplo, a educação escolástica dos jesuítas e a inquisição. Nesse momento, o rei se fortalece e assume os principais "aparelhos ideológicos" do Estado, dentre eles a educação. Verney mostrava, portanto, um caminho de reformulação, de mudanças e de conciliação com as novas teorias da Europa, sem questionar em nenhum momento a hegemonia da fé católica e a manutenção dos privilégios da nobreza. Verney propôs a criação de uma nova escola para a nobreza, para a formação de nobres úteis ao Estado, que foi implantada por Pombal.
Por outro lado, nós concordamos com Alves também, já que essas propostas reformistas, mesmo sendo aristocráticas, abriram caminho ao fortalecimento posterior da burguesia que viria tomar o poder no século XIX. Pois, ao acabar com o controle da escolástica medieval sobre a educação, ao propor novas correntes filosóficas, principalmente o empirismo de Locke e a indução de Bacon, ao propor uma escola secular, valorizando o ensino do português, a educação dos nobres e principalmente a alfabetização de todos, Verney, mesmo que indiretamente, colaborou para o fortalecimento das estruturas burguesas no reino.
Dessa forma, Verney não foi nem um iluminista burguês e nem um reformista aristocrático, pois se todo novo período traz consigo influências marcantes
do período antigo, nós concluímos que Verney, pelo seu caráter, inovador, conservador e conciliador eclético, foi um iluminista reformista e aristocrático que através das suas mudanças, mesmo que não intencionalmente, acabou abrindo caminho para o fortalecimento da burguesia "débil" de Portugal.