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Jeux NTU param´ etr´ es

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 22-27)

1. Introduction g´ en´ erale

1.1 Balancement d´ ependant et cœurs

1.1.2 Jeux NTU param´ etr´ es

Uma das primeiras características notáveis na fanfic é a linguagem utilizada (comum a outras fanfics), que nomeia os atos do corpo e da carne, sentimentos e

– Sua casa é uma graça. – falou Katie olhando em volta. Fleur riu, era a terceira vez que ela repetia isso e tinham entrado a menos de três minutos.

desejos, de maneira liberta, sem rodeios ou supressões, sem polimentos desnecessários. Os autores-fãs, por meio dos personagens, dão voz à linguagem direta, franca e ousada do carnaval medieval, não por priorizar um linguajar com toda a sorte de indecências e impropérios, mas porque estes não são tidos como negativos ou proibidos – não são censurados nem mal vistos pela comunidade de fãs.

Na realidade, tendo-se em vista que o público geral das fanfics são adolescentes e jovens, em plena fase sexual da vida, eles naturalmente tematizam suas descobertas com o corpo e com os próprios desejos, de modo que é muito raro encontrar uma fanfic que não tenho nenhuma cena que descreva atos sexuais (NC ou Hot como são chamadas, nos fandoms).

O que nos interessa, nesta seção, é a análise dessa linguagem surgida a partir do ambiente virtual acolhedor e do contato livre entre os fãs, receptivo a qualquer forma de expressão, sem primar por um tipo específico ou condenar outro tipo de linguagem. É claro que existem opiniões contrárias, porém, como a característica do fandom é ser horizontal e colaborativo, há sempre espaço para todas as expressões.

Mesmo os domínios que têm expressas políticas sobre a linguagem, como o caso do Nyah!Fanfiction, quanto à apologia a crimes, por exemplo, funcionam através de análise de denúncia de outros fãs que se sintam ofendidos pelo conteúdo postado por determinado usuário. Na maioria dos casos, no entanto, essas políticas de uso só tem a utilidade de resguardar o próprio site, caso alguma postagem hospedada em seu domínio crie um problema de proporção pública, uma vez que os usuários publicam livremente, sem qualquer conhecimento, muitas vezes, dessas políticas.

Em resumo, portanto, baseados nas condições oferecidas pelo espaço virtual e pela interação entre os fãs, as fanfics se utilizam de uma linguagem ousada, despudorada, direta e sem muita regulação gramatical - esta existe de maneira colaborativa e sugestiva entre os próprios fãs, por meio de comentários, ou por meio da figura dos leitores beta, mas que não tem um tom silenciador ou autoritário: qualquer usuário tem liberdade para postar suas fanfics e essa interação descrita acima costuma aprimorar as habilidade de escrita dos autores ao longo do tempo. Há descrições de cenas de sexo, com os personagens se expressando livre e despudoradamente; há a tematização de tabus sociais, religiosos e culturais, que encontram espaço nessas publicações para serem debatidos e repensados.

Como amostragem dessa linguagem, observamos estes elementos já na chamada de UDT: a fala da Katie Bell é completamente livre e direta, provocativa, desestabilizadora e escarnecedora (cf. p. 79). Ela experimenta saltar para fora dos limites morais e pisar o chão das possibilidades e das inversões de valores. Essa ousadia de linguagem, conforme já observamos, permite com que ela expresse seus verdadeiros medos e vulnerabilidade, fazendo com que as outras personagens no diálogo tenham acesso ao seu íntimo.

A primeira cena descrita em UDT, isto é, as primeiras linhas e a ambientação da história, também já apresenta essa linguagem:

O som do chuveiro cessou subitamente. Com um suspiro involuntário, ele se virou. Aquela pressão na cabeça parecia que ia durar. Pensou em levantar e fazer uma poção, mas desistiu logo. Ouviu o som da porta, os passos dela, sentiu o cheiro de sua loção e tentou ficar imóvel.

– Amor? – ela fez aquele tom de voz, ele mordeu os lábios e não respondeu. Sentiu ela se deitar e deslizar na cama até que se encostasse às suas costas. Ela estava nua e ainda úmida do banho. Sentiu os seios roçarem sua

pele e uma das mãos dela pousar em seu tórax. Há alguns meses aquilo o teria

enlouquecido, hoje... hoje ele só queria dormir.

– Não está dormindo, está? – perguntou ela perto do seu ouvido. – Não. – sua voz saiu rouca.

Ela beijou sua nuca, deslizou as mãos pelo seu peito. – Por que não se vira? – perguntou manhosa.

– Fleur... Eu quero dormir, estou cansado. – antes mesmo que ele terminasse a frase ela se afastou.

Ele ouviu-a se afastar bruscamente e ouviu também quando ela suspirou, irritada.

– O que está acontecendo, Bill? – perguntou ela meio irritada, meio chorosa, naquele jeito tão francês que agora o aborrecia.

– Não posso querer dormir, Fleur? – disparou ele.

– Não posso querer sexo pelo menos uma vez por semana, Bill? – devolveu ela sarcasticamente.

Um primeiro ponto a ser observado é que a saga de J. K. Rowlling não tematiza ou ao menos descreve, em nenhum momento, nenhum envolvimento romântico- carnal entre os personagens da saga. A maioria dos envolvimentos românticos são sugeridos ou platônicos, mas nunca carnais. Em todos os sete livros, apenas três ou

Fleur engoliu em seco, tentando não soar tão patética

– Esse é seu problema, Fleur. Você acha que tudo tem a ver com você. – ouviu ele dizer, meio abafado.

Fleur sentiu o sangue pulsar nos ouvidos.

– Porra, Bill! – sua voz soou ligeiramente aguda e aquilo a irritou mais ainda. – Meu marido está há cinco semanas sem transar comigo! Com quem pode ser o problema, Bill?! – estava gritando agora. – Com quem?!

– Para de ficar histérica! – falou ele – Eu só estou cansado!

– Pois é, eu sou uma histérica. É isso que eu sou. Eu quero transar, então

eu sou histérica. Eu quero trabalhar, eu sou histérica... – levantou-se.

– O meu problema não é você trabalhar! – gritou Bill, ainda deitado. – Meu problema é pensar se você volta viva, todos os dias! Meu problema é que é um

trabalho de homem.

Silêncio de novo.

– Finalmente o machista admitiu. – falou Fleur, segundos depois. – Não foi o que eu quis dizer.

– Mas foi o que disse, Bill, e é a primeira vez em umas seis semanas que você é sincero. – ela pegou seu travesseiro e um lençol.

– Onde vai?

– Sei lá. Dormir ou achar alguém que transe comigo, tanto faz. – falou ferina antes de bater a porta.

Ele apertou as têmporas tentando fazer a dor diminuir. Ótimo, mais uma noite mal-dormida.

Na sala, Fleur se enrolou no lençol, secando com raiva uma última lágrima. – Imbecil. – murmurou no escuro.

quatro inocentes beijos são descritos: nos dois últimos livros da saga, quando os personagens Harry, Rony e Hermione tinham 16-17 anos.

Por outro lado, os leitores que acompanharam a saga durante os dez anos de sua publicação passaram, nesse período, por muitas mudanças e boa parte delas diz respeito à puberdade e à iniciação da vida sexual. Dessa maneira, os fãs acabam por concretizar, por meio das fanfics, os encontros e romances não realizados na saga matriz, explorando os próprios desejos e vivências através de seus personagens preferidos.

É interessante notar ainda que parte dessa exploração dos casais, os chamados ships, além de experiência, é uma busca por representatividade dentro da saga. Grande número das fanfics são do gênero Yaoi/Yuri ou Lemon/Femmeslash, que envolvem casais homoafetivos em relacionamentos amorosos, no primeiro caso sem e no segundo caso com cenas de sexo explícito, e descrevem ainda as dificuldades vividas pela comunidade GLBT.

Tanto Bia quanto Manu eram autoras de fanfics femmeslash, como trazido na seção que trata da autoria da fic. Em UDT, elas trazem novas questões acerca da sexualidade, além da experiência homoafetiva entre a Fleur e a Katie Bell, porque trata de um envolvimento a três. Elas tematizam outro tema tabu que é o relacionamento poligâmico, livre, aberto ou poliamor – essas definições não são equivalentes entre si, porque tratam do envolvimento com mais de uma pessoa a partir de perspectivas distintas de individualidade, fidelidade e amor.

É buscando por representatividade também que as fanfics abordam outros temas tabus, além da sexualidade, como é o trazido nesta primeira cena (com grifos e sublinhas): a questão do machismo. A Fleur representa, nesta cena, um ícone da mulher feminista que discute abertamente sobre seus desejos sexuais, que vai contra a opinião do marido quanto a trabalho, que fala palavrão, que defende a própria opinião – de encontro a sua aparência frágil sugerida superficialmente pela sua beleza, ela não tem nada de mulher bela, recatada e do lar. O uso da palavra “histérica”, basicamente direcionada a mulheres como forma depreciativa e ofensiva, é o núcleo simbólico desse tema tabu na cena.

É interessante notar também a sutil inversão dos papeis culturalmente atribuídos ao homem e à mulher nessas situações: é o Bill que tenta fingir que está dormindo e nega sexo, quando há um discurso que defende que homens estão

sempre dispostos para o ato sexual, enquanto a Fleur é quem reclama da falta de sexo, perde a paciência e decide dormir no sofá.

A partir desse movimento, as autoras da fic escarnecem, de maneira ambivalente, desses papeis e do tema sugerido: elas afirmam e descontroem o machismo, na medida em que tanto a Fleur quanto o Bill assumem, simultaneamente, comportamentos masculinos e femininos, de acordo com a cultura machista. A Fleur oscila entre comportamentos masculinos e femininos, ora frágil e ora arredia e dona de si, e dá voz ao discurso feminista. O Bill Weasley adota um comportamento feminino ao mesmo tempo em que afirma o discurso machista. O interessante, no entanto, é justamente a obliteração das fronteiras sexistas e o aparecimento da face feminina na personagem masculina e vice-versa.

Observamos assim que a linguagem nas fanfics, e em específico em UDT, a partir dos grifos e dos comentários subsequentes, está a serviço das inversões de valores e da desconstrução da ordem natural das coisas, nas inversões de papeis, na tematização dos assuntos silenciados pela sociedade, na protagonização de personagens em posições sociais marginais, na desconstrução de tabus e amarras culturais, sobretudo para minorias oprimidas, como as mulheres e a comunidade GLBT. Ela aponta para um horizonte positivo e inclusivo, livre e horizontal, isto é, sem hierarquias sociais e, por isso, está em sintonia com os símbolos e as formas do carnaval medieval.

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