18 Quando alguma pessoa desconhecida (pode ser futura profissional da instituição, não sendo autoridade judicial) entra na unidade de internação alguns adolescentes fazem "testes" para ver se essa pessoa sente medo deles: por vezes se masturbam ou fingem estar se masturbando, falam palavras obscenas, etc. Essa situação é rapidamente sanada se essa pessoa novata realmente não demonstrar medo, respeitando-os e exigindo respeito. Assim aconteceu comigo durante o tempo em que fui advogada da instituição. Tornei-me rapidamente respeitada.
Rosiel, porém, foi uma exceção à regra. Só tornou-se colaborador depois que nossa conversa fez com que ele tirasse a "máscara". A história começou quando eu ainda era advogada da instituição e tive a necessidade de entrar na ala do castigo19 para falar com um adolescente que eu atendia. Fui chamada por outro adolescente quando passava pelo corredor da ala. Esse adolescente estava isolado numa cela e eu fui avisada pelo monitor responsável que se tratava de um interno perigoso, que eu tivesse cuidado, pois ele, inclusive, já teria agredido um técnico e estava tomando remédio controlado. Atendi ao seu chamado mantendo certa distância da grade que nos separava. Esse adolescente era Rosiel. O diálogo transcorreu da seguinte forma:
R: Ei advogada vem aqui, eu tô doidão. M: Se tu tá doidão toma teu remédio. R: Vem aqui junto.
M: Eu tô junto, diga o que você quer.
Rosiel fazia uma performance de bandido perigoso e louco. Porém eu não me deixei intimidar, apenas me protegi mantendo distância entre as mãos dele e o meu pescoço.
R: Dava pra senhora escrever uma carta pra minha namorada? M: Dá, pode falar.
19 A ala 08, do castigo, é destinada aos adolescentes que receberam punição interna, os quais ficam trancados em cela "batida", ou seja, isolados dos outros numa cela constantemente trancada por tempo determinado pela direção, não tendo o direito de fazer as refeições no refeitório tampouco circular pela instituição. Por causa da superlotação, normalmente mais de um adolescente fica em uma cela do castigo. Ver anexos com as normas disciplinares internas (II–III).
R: Sheila20, por você eu mato e morro. Com "a" escrevo amor, com "p" escrevo paixão.
M: Eu errei aqui, tenho que riscar.
R: Ah não, então faz de novo, quero que fique bem bonito. M: Tá, diga de novo.
R: Sheila, por você eu mato e morro. Com "a" escrevo amor, com "p" escrevo paixão [pausa]. É tão bonito saber escrever!
Sem esboçar nenhuma reação apenas escrevia, porém quando ele pronunciou a última frase tive que fazer um esforço maior para conter minha emoção. Entreguei a carta e fui embora, não obtendo mais notícias dele; Rosiel pertencia a uma outra equipe técnica, tinha outra advogada.
Voltando à instituição como pesquisadora, estava à procura de adolescentes para entrevistar e entrei numa ala, procurando voluntários (a escolha era aleatória). Alguns me perguntavam se ajudaria no processo judicial deles e eu respondia que não, não ajudaria em nada e que eu agora era somente pesquisadora. Incrível como eles absorviam rapidamente todo o novo contexto: as coisas em que minha pesquisa visava contribuir, que eu não era mais advogada da instituição e todas as coisas envolvidas na questão ética da pesquisa. Mesmo sabendo que eu não poderia ajudar em nada em seus processos, eles tinham boa vontade e contribuíam, sempre com muito respeito comigo e eu com eles. Foi nessa ocasião que dois adolescentes me pediram para ser entrevistados; era normal isso acontecer, acredito
que era um momento no qual eles tinham alguém que os escutasse. Combinei com os dois adolescentes para entrevistá-los. Quando fui levar o primeiro para a sala em que estava fazendo as entrevistas, o monitor perguntou se eu levaria o adolescente sozinha, eu disse que sim (eu tinha permissão da direção para isso, além disso, eu não queria atrapalhar a rotina dos monitores, já em número insuficiente). No caminho para a sala de entrevistas perguntei, como de costume, o nome do adolescente e ele me respondeu: Rosiel. Imediatamente lembrei do nome dele, que me remeteu ao bandido louco e perigoso isolado no castigo, que me remeteu à sala fechada em que fazia as entrevistas apenas eu e o adolescente. Tive medo.
Não podia naquele momento mudar o curso da história, enfrentei a situação da seguinte forma: ao chegar à sala que era perto da recepção, não liguei o ar condicionado (uma das poucas salas que possuía um que funcionasse); deixei a porta aberta "por causa do calor". O barulho era insuportável. Expliquei para Rosiel mais detalhadamente a pesquisa e procurei manter meu olhar nos olhos dele enquanto falávamos (fiz isto ainda mais intensamente do que de costumava fazer). Rosiel sentou em minha frente com a testa bem franzida, olhar grave, as pernas cruzadas e abertas, batendo compassado e incessantemente com um lápis na mesa que ele encontrou lá mesmo. Continuei olhando para seus olhos enquanto ele falava sobre sua família, o desprezo de seu pai com ele, que o irmão tinha bicicleta, tênis e ele só tinha sandália, que seu ato infracional foi roubo e já tinha praticado outros atos denominados por ele de leves 21, que desde os 13 anos estava nessa vida (tinha cerca de 17 anos), que estava tudo errado lá dentro (da instituição), que não deixavam ele freqüentar a escola, que ele também já não queria mais, que a equipe técnica não chamava ele, etc. 22 Com o passar das frases que Rosiel pronunciava o ritmo da batida do lápis
21 Fiquei surpresa, achei que Rosiel havia sido internado por homicídio. 22 Rosiel já havia tentado agredir a psicóloga com uma cadeira.
diminuía, sua testa desenrugava, a expressão de seu rosto suavizava e eu ia perdendo o medo. Foi então que se rompeu a "máscara" de Rosiel, na verdade não sei exatamente o que se rompeu primeiro: meu medo ou a performance de bandido perigoso de Rosiel a qual chamo de "máscara". Resolvi fechar a porta da sala para diminuir o barulho, liguei o ar condicionado, cheguei mais perto dele e obtive talvez a mais rica entrevista em troca apenas da promessa que fiz de falar neste trabalho sobre ele e o que ele tinha para dizer. Ao final da entrevista, Rosiel me falou que estava lembrado de mim no castigo e da carta que eu tinha escrito para ele dar a sua namorada.
Mais adiante terminarei de cumprir a minha promessa, transcreverei uma parte da entrevista com Rosiel. Por enquanto, voltemos ao campo.
1.3.1 O CASE
A instituição escolhida para pesquisa é a que executa medida socioeducativa de internação, com privação total de liberdade, localizada na Região Metropolitana do Recife, existe à aproximadamente oito anos. Essa instituição possui capacidade para 98 internos, atualmente recebendo cerca de 300, quase três vezes mais que sua capacidade e ultrapassando ainda mais o número de adolescentes para atendimento em internação indicado pelo SINASE, que é de 40.