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LE JEU DES DEUX TAS D’OR OU JEU DE WITHOFF

Dans le document Bulletin de la Régionale Lorraine APMEP (Page 36-44)

LES JEUX À STRATÉGIE GAGNANTE (SECONDE PARTIE)

4. LE JEU DES DEUX TAS D’OR OU JEU DE WITHOFF

Esta seção consiste na reunião dos paradigmas que romperam com o status quo dos modelos-pensamentos até então adotados de-para se fazer ciência, não só do ponto de vista epistêmico-metodológico, mas sobretudo na perspectiva ontológica, acrescentando uma visão de mundo e de humano fundantes para outro pensar e fazer ciência. Estamos nos referindo a um modus operandi particular de investigar que esse eixo (e essa pesquisa) revela(m), ora evidenciando a complexidade do fenômeno, ora destacando o caráter emergente, ora ainda, reforçando a visão transdisciplinar desse processo. Nesse sistema, o ser-pesquisador é construtor e construído ao construir a pesquisa, permitindo assim uma compreensão mais ampliada do objeto e dos resultados obtidos da investigação.

Os paradigmas que constituem esse grupo, de um lado, subsidiam as escolhas dos métodos, técnicas e instrumentos de investigação, permitindo ao pesquisador uma postura de autor-ator do estudo. Do outro lado, esses paradigmas indicam uma engrenagem sofisticada, “complexa, emergente e transdisciplinar”, que aborda diferentes campos de saber, mas que no presente estudo está direcionada para as contribuições dos paradigmas transpessoal, intercultural e da espiritualidade para a educação enquanto formação humana.

Notadamente, esse eixo ontológico paradigmático é composto pelos paradigmas da complexidade, pós-moderno e transdisciplinar. Eles surgem como expressões-vertentes de um paradigma emergente que se opõe ao paradigma dominante reducionista-utilitarista, e aponta para outras dimensões do ser-sujeito-social-espiritual, humano, que faz (e se faz junto a) uma pesquisa conforme será descrito com mais detalhes nas próximas seções.

1.2.2.1 Paradigma da complexidade

Enquanto o paradigma dominante tem como raiz histórica o pensamento racionalista- dedutivo de Descartes, as ideias de Galileu e as experiências-indutivas de Bacon, a gênese do paradigma da complexidade, na visão de Serva (1992), tem início com os estudos realizados por Heinz von Foerster no Biological Computer Laboratory da Universidade de Illinois, criado em 1956. Acrescenta ainda que von Foerster conseguiu desenvolver trabalhos correlacionados à temática da complexidade junto à participação de cientistas como Ross Ashby, Warren Mac Culloch, Humberto Maturana, Gordon Pask.

Contudo, é indiscutível que a noção de complexidade, desenvolvida pelo ilustre pesquisador francês contemporâneo Edgar Morin, inaugurou outra forma de conceber e realizar

pesquisas, sendo amplamente debatida na comunidade científica. O conjunto de sua obra, cuja principal é o “La Méthode”, elaborada em seis volumes, permite também uma visão crítica ao que foi estabelecido como paradigma por Kuhn. O trabalho de Morin é uma forma-expressão da transdisciplinaridade nos campos da ciência e da filosofia, buscando articular a fenomenologia, a dialética e a teoria de sistemas junto a outros pensadores como Cornelius Castoriadis, René Girard, Ivan Illich (SERVA, 1992).

Os estudos de Morin trazem uma perspectiva inovadora ao debate científico, unindo antigos saberes-pensadores a novas teorias-pesquisadores e isso resulta diretamente na forma como ele compreende um paradigma científico. No seu entendimento,

Para compreender o problema da complexidade é preciso saber primeiro que há um paradigma simplificador. A palavra paradigma é constituída por certo tipo de relação lógica extremamente forte entre noções mestras, noções-chave, princípios-chave. Essa relação e esses princípios vão comandar todos os propósitos que obedecem inconscientemente a seu império (MORIN, 2005, p. 79).

Nessa mesma linha de raciocínio, podemos admitir que um paradigma é o resultado da evolução do pensamento-ação sócio-histórico-cultural, individual e coletivo, ligado a um processo civilizacional. Essa abordagem é fundamental para estruturar o pensamento complexo e o próprio paradigma da complexidade.

Morin redefiniu o conceito de paradigma a partir de características básicas do tipo: o paradigma não é passível de falsificação; dispõe dos princípios de autoridade axiomática e de exclusão; cria a evidência auto-ocultando-se; é co-gerador do sentimento de realidade; está recursivamente ligado aos discursos e sistemas gerados, determina uma mentalidade, uma consciência, uma visão de mundo, é o organizador invisível do núcleo visível da teoria, tornando-o invulnerável; não podendo ser atacado, contestado ou vencido diretamente (MORIN, 2005; VIEIRA; BOEIRA, 2006; BOEIRA; KOSLOWSKI, 2009).

Ao mesmo tempo, Morin encerra o prefácio do livro “Introdução ao pensamento complexo” afirmando que “Si a complexidade não é chave do mundo, mas o desafio a enfrentar; o pensamento complexo não é o que evita ou suprime o desafio, mas o que ajuda a revelá-lo e, por vezes, mesmo a ultrapassá-lo” (2005, p. 13). Percebemos com isso que a complexidade envolve uma perspectiva mais ampla, multidimensional e alinhada com as mudanças e os desafios que a contemporaneidade suscita.

Desse modo, compreendemos que a noção de complexidade defendida por Morin é a chave-mestra para empregarmos aos diferentes estudos e domínios do saber na atualidade. Isso

porque vivemos um momento ímpar na sociedade em que a ciência, a filosofia e a religião, assim como os campos específicos dessas grandes áreas do conhecimento, não conseguem dar conta dos fenômenos existentes e observados nas pesquisas ou no tecido social. Só quando admitimos essa complexidade eminente e emergente, podemos ressignificar o papel-ação de cada um desses segmentos e assim conceber outro lugar de (para) pesquisa, pesquisador, ciência. Trata-se de um outro paradigma: o paradigma da complexidade.

Para Serva (1992, p. 27), “A emergência do paradigma da complexidade é uma tentativa de superar os impasses conceituais, lógicos e epistemológicos que disciplinas como biologia, cibernética, físico-química, teorias da comunicação, dentre outras, criaram [...]”. Mais do que isso, o paradigma emergente da complexidade é uma alternativa de resposta ao paradigma dominante, o paradigma simplificador, disjuntor-reducionista, no entendimento de Morin.

Esse paradigma simplificador, surgido com a ciência moderna, buscava associar o universo a uma máquina determinística perfeita, e dessa forma também compreender o humano como uma máquina. Na visão de Morin e Le Moigne (2000), os pilares do pensamento científico clássico são as noções de “ordem”, da “separatividade” e da “razão”. Essa ideia reducionista sustenta uma visão de dualidade (e simplicidade) que sofreu grande impacto a partir do século XX quando os cientistas foram remetidos a outros conhecimentos, princípios até então desconhecidos. Ilustramos com o paradoxo entre a desordem apontada pelo segundo princípio da termodinâmica – entropia e o princípio de organização atribuído pela lei da evolução de Darwin. Ou ainda, a teoria do big-bang, que defende a origem do universo a partir de uma desintegração organizadora (MORIN, 2005). Tais constatações junto a outras revoluções científicas advindas das teorias quânticas, cosmofísica, sistêmicas e de sistemas, abalaram as certezas do modelo de ciência dominante, simplificador, servindo como fundamento para a estruturação da noção de complexidade.

[...] a complexidade está na raiz das teorias científicas, incluindo as teorias mais simplificadoras. De início, Popper, Holton, Kuhn, Lakatos, Feyerabend estabeleceram de formas diferentes que existem um núcleo não-científico em qualquer teoria científica. Popper enfatizou os "pressupostos metafísicos" e Holton destacou as temáticas ou temas obsessivos que animam as mentes dos grandes cientistas, a começar pelo determinismo universal que é ao mesmo tempo um postulado metafísico e um tema obsessivo. Lakatos apontou que há nos programas de pesquisa um "núcleo duro", que não se demonstra, e Thomas Kuhn, em “A estrutura das revoluções científicas”, disse que as teorias científicas são organizadas em princípios que não são absolutamente abrangidos pela experiência, que são os paradigmas. (MORIN, 1998, p. 10).

Para organizar o entendimento acerca desse pensamento complexo, Morin (2005) propõe a substituição do paradigma simplificador, unidimensional, disjuntor-reducionista pelo paradigma emergente, multidimensional, da conjunção-distinção. Para isso ele sistematiza tal pensamento a partir das teorias da informação, cibernética e sistema; e das ideias de Von Neumann, Von Foerster e Prigogine sobre a auto-organização. Além disso, elabora três princípios norteadores do pensamento complexo que são o princípio dialógico, o princípio de recursão organizacional e o princípio hologramático.

O princípio dialógico assegura a sobrevivência e perpetuação da espécie e assume a aplicação de duas lógicas contraditórias (ordem-desordem) para a elucidação dos fatos e dos fenômenos. O princípio da recursão organizacional diz respeito ao processo, imerso em um sistema aberto, em que produto e produtor são simultaneamente causa e efeito do que os produz. Em outras palavras, a sociedade ora produzida das interações dos indivíduos produz os indivíduos com uma retroação sobre os mesmos. O princípio hologramático defende que a menor partícula de uma parte contempla todos os itens do todo, ou seja, “não apenas a parte está no todo, mas o todo está na parte” (MORIN, 2005, p. 100).

Diante do que representa o pensamento complexo para o meio acadêmico-científico, tornou-se fundamental assumirmos o paradigma da complexidade nesse estudo. A visão de multidimensionalidade da formação humana que defendemos carece de um apoio onto- epistêmico-metodológico como o encontrado no paradigma da complexidade. A visão de mundo, de humano e de pesquisa, complexa, pluridimensional, da conjunção-distinção corrobora a concepção de realidade que consideramos nessa investigação e que alicerça todos os caminhos que escolhemos e percorremos. Como nos indica Morin (2000, p. 38), “Complexus significa o que foi tecido junto”, já “(...) a complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade”. Nesse sentido, destacamos que a multidimensionalidade tem por base “unidades complexas” que se apresentam de modo transversal, interdependente e complementar. Com isso, podemos pensar a efetivação de um processo de formação humana multidimensional, apoiado na visão paradigmática da complexidade. Outros paradigmas, como o da pós-modernidade, que reforça essa premissa, serão descritos na próxima seção.

1.2.2.2 Paradigma pós-moderno

Antes de iniciarmos a discussão sobre as características e bases do paradigma emergente, pós-moderno, é necessário fazermos uma breve contextualização do que seja o pós- modernismo. Para tanto, apoiados nos trabalhos de Wilber (2007) e de Azevedo (1993),

traçamos as linhas gerais que delineiam os contornos acerca do pré-moderno, moderno e pós- moderno. Em seguida, inspirados nos estudos de Rocha et al. (2011), Harvey (2008) e Lyotard (2009), caracterizamos a pós-modernidade. Essas considerações iniciais serão fundamentais para compreendermos a concepção paradigmática pós-moderna que defendemos, baseados nos estudos de Santos, B. (2008) e de Santos e Meneses (2009).

A partir do pensamento de Wilber (2007), podemos ter uma compreensão específica e integral dos períodos pré-modernos, modernos e pós-modernos. Na pré-modernidade tivemos o reconhecimento do Grande Ninho do ser (matéria, corpo, alma e espírito), porém, não existia a distinção dos patamares de valores entre os níveis desse sistema. Entre outras coisas, os conhecimentos-influências das diferentes tradições religiosas, as restritas expressões culturais consideradas e o difícil processo investigativo aplicado fizeram parte do legado dessa fase. No período da modernidade existia a diferenciação das esferas de valor-conhecimento, ou seja, da arte, da ética e da ciência. Essa última assumiu a condição de materialismo científico, declarando “a inexistência do Grande Ninho do Ser” (WILBER, 2007, p. 77). Com a pós- modernidade, surge a promessa de integração do melhor de todos períodos e sabedorias por meio da interação de todos os níveis e todos os quadrantes no Grande Ninho do Ser. Nas palavras do autor, “(...) a integração da arte, da moral e da ciência em cada nível do extraordinário espectro da consciência, do corpo para a mente, da mente para a alma, da alma para o espírito” (WILBER, 2007, p. 89). Essa visão possibilita a compreensão e necessidade de um modelo integral para abordar os diferentes campos do saber e as diferentes esferas de valores imanentes e transcendentes.

Por sua vez, Azevedo (1993) compreende que as características particulares desses períodos pré-moderno, moderno e pós-moderno, ultrapassam os limites isolados sócio-histórico ou mesmo cientifico. Isso diz respeito, de fato, a um conjunto de elementos que integrados demarcam um momento ímpar da história da humanidade. Mais especificamente, com a pré- modernidade, entre outros aspectos, destacamos o predomínio da relação interpessoal frente à relação homem-objeto, o reconhecimento e a legitimação das tradições religiosas ou míticas como ponto-chave para compreensão do todo integrado; a concepção integral e integrada da formação sociocultural e a consideração da ordem e da hierarquia como fontes básicas para o gerenciamento e cessação dos conflitos. Já na modernidade, o foco central está no indivíduo e em sua subjetividade, temos o surgimento das diversas ciências, múltiplas áreas de estudo, pluridimensões de sentidos, significados e valores, com isso as religiões ou os mitos perdem sua função legitimadora e passam a ocupar o lugar dogmático do saber, e a ordem torna-se uma consequência de negociações e debates desenvolvidos conforme a situação. Por sua vez, a pós-

modernidade vem à tona com as sucessivas crises de sentido, de valores e sócio-político- econômica carregadas do esfacelamento dos ideais e do projeto da modernidade. Por outro lado, é a era do pluralismo, seja ele epistemológico, metodológico, ontológico, e dessa forma, o (re)conhecimento de leis como da incerteza, complementaridade e da sincronicidade, assim como das teorias quântica e de sistemas que desafiam o pensamento racional-mecanicista, ressignificando o lugar do homem e de suas (in)certezas.

O modernismo encontra respaldo na invenção de um homem que tudo pode com o auxílio da razão, da ciência e da liberdade, alimentando-se por concepções universalistas, com destaque para as perspectivas de Copérnico, Darwin e Freud, cada qual inaugurando uma (r)evolução paradigmática, voltada, respectivamente, para o conhecimento acerca do mundo, das espécies e do inconsciente humano. Para isso, há um afastamento ou mesmo uma negação de qualquer influência e explicação relacionada à dimensão-transcendência e a todas as formas- expressões da natureza ou de Deus.

O pós-modernismo tenta romper com essas crenças quase dogmáticas, certezas um tanto inquestionáveis e posições centradas no poder voltado para o homem. Isto porque eventos como o Nazismo e os campos de concentração, o terrorismo e os ataques à intolerância religiosa- sectária, as guerras declaradas e invisíveis geradas pelo narcotráfico, bem como todos os arranjos sócio-políticos-econômicos que flagelam povos e culturas demarcam não só “o desencanto do mundo”, como afirmou Max Weber, mas o desencanto com o humano, que se expressa ora pela relação dialógica “eu-tu”, ora no campo sócio-cultural (nós-eles), e principalmente incorporado na raiz da subjetividade histórica-espiritual, o si. Esse desencantamento, ao nosso ver, é a mola propulsora que levou ao pensamento crítico de autores como Lyotard, Foucault, Derrida, Lacan, Bakthin, entre outros, inaugurar um novo campo conceitual e porque não dizer existencial.

A noção de pós-modernismo surge como um contraponto ideológico que nega o pensamento iluminista, marcado pela racionalidade-mecanicista, e ao projeto de modernidade calcado no antropocentrismo científico (HARVEY, 2008). Ampliando essa ideia, Lyotard (2009) afirma que o período entre o final do século XX e o início do século XXI contempla movimentos, eventos e condições que foram estudados por grandes pesquisadores numa tentativa de suprimir os ideais modernistas, caracterizando o que efetivamente podemos entender como a era pós-moderna. Em outras palavras, podemos dizer que o pós-modernismo é uma abordagem emergente e pluridimensional, meta-teórica e transdisciplinar, que envolve os diversos campos do saber e da intervenção sócio-cultural das múltiplas realidades construídas, que surge como tentativa de resposta à insatisfação face ao modelo de ciência, de

sociedade e de humanidade caracterizado pela modernidade. Corroborando esses argumentos, Rocha et al. (2011) destacam a visão de Eagleton (1998) quando afirma que

Pós-modernidade é uma linha de pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade: a idéia de progresso ou emancipação universal, os sistemas únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação. Contrariando essas normas do Iluminismo, vê o mundo como contingente, gratuito, diverso, instável, imprevisível, um conjunto de culturas ou interpretações desunificadas gerando um certo grau de ceticismo em relação à objetividade da verdade, da história e das normas, em relação às idiossincrasias e à coerência de identidades (EAGLETON, 1998, p. 7).

O presente trabalho defende essa visão de mundo da pós-modernidade, e por isso considera o paradigma emergente, pós-moderno, como um dos pilares de sustentação ontológica dessa tese. Tal concepção paradigmática é apoiada nos trabalhos de Santos, B. (2008) e de Santos e Meneses (2009) que revisitam a história da filosofia das ciências para redefinir o lugar da pesquisa, do pesquisador e das consequências da pesquisa. Desse modo, mais do que definir premissas ou executar passos que cheguem aos resultados esperados, com avaliações dos pressupostos do campo e do processo de investigação, a perspectiva do paradigma emergente consiste em um modo de vida que dá e faz sentido às múltiplas realidades socio-culturais construídas e investigadas.

A base teórica do paradigma emergente, pós-moderno, elaborado por Boaventura Santos, surge há quase 30 anos, precisamente com a publicação da primeira edição da obra “Um Discurso sobre as Ciências” em Portugal em 1987. Esse livro alcançou, de um lado, muito sucesso e, por outro lado, muitas críticas. Hoje, em sua 15ª edição, demonstra que sobreviveu aos ataques dos diferentes opositores-cientistas e que suas principais diretrizes, como a posição epistemológica anti-positivista e a concepção de que o conhecimento científico é socialmente construído, são ainda atuais no debate acadêmico. Tais premissas são originadas da Oração de Sapiência proferida na aula inaugural da Universidade de Coimbra, no ano letivo de 1985/86.

As características predominantes do paradigma emergente, pós-moderno, apontadas por Santos, B. (2008) são que: (1) Todo o conhecimento científico-natural é científico-social; (2) Todo o conhecimento é local e total; (3) Todo o conhecimento é autoconhecimento e (4) Todo o conhecimento científico visa constituir-se em senso comum. O paradigma emergente, na concepção do referido autor, impele uma necessidade de se construir outro(s) modelo(s) de conceber e fazer ciência. Isso consiste em ir além dos processos revelados pelas descobertas científicas da modernidade, uma vez que a sociedade atual está imersa na complexidade de

fenômenos, nas incertezas dos resultados e na multidimensionalidade de fatores e de métodos investigativos. Assim, propõe o paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente como uma tentativa de suprir a lacuna epistemológica observada no campo das ciências sociais. Esse novo paradigma científico apresenta uma marca social.

Em uma entrevista concedida a Manuel Tavares para a Revista Lusófona de Educação em 8 de dezembro de 2007, Boaventura Santos discorre sobre temas em torno de um novo paradigma sócio-epistemológico. Em resposta à primeira indagação, admite que a expressão “paradigma pós-moderno” não tenha sido muito feliz devido às confusões geradas, motivo pelo qual preferiu abandoná-la. Acrescenta que “(...) o pós-modernismo é hoje uma designação usada para caracterizar uma enorme diversidade de temas, da epistemologia à política, à cultura e à arte e, portanto, confunde mais do que esclarece” (SANTOS; TAVARES, 2007, p. 132). Como evidência, o autor destaca as críticas ao pós-modernismo advindas tanto das correntes ortodoxas do paradigma dominante quanto dos campos marxistas mais conservadores.

Nessa entrevista, o referido pesquisador explica que as mudanças mais significativas nas duas últimas décadas estão relacionadas: (1) ao deslocamento do discurso epistemológico da física para as ciências da vida, sobretudo para a genética; (2) às novas cisões entre paradigmas reducionistas e paradigmas da complexidade e (3) à dificuldade nos campos de estudo atuais em diferenciar as “ciências naturais” e “ciências sociais”, graças a inter e transdisciplinaridade crescentes e (4), ao carácter parcial do conhecimento científico e à necessidade de diálogo-articulação com o conhecimento do senso comum (a ecologia dos saberes). Reforça, em outro momento do encontro, que o pluralismo epistemológico (o qual ele defende) é pertinente a esse modelo paradigmático, sendo diferente do relativismo epistemológico (o qual ele é acusado de praticar). Notadamente, “A ecologia dos saberes não é possível sem pluralismo epistemológico, e seria um exercício inútil no marco do relativismo epistemológico” (SANTOS; TAVARES, 2007, p. 135).

Os pressupostos que norteiam o paradigma pós-moderno podem ser comparados com a emergência do modelo multidimensional de formação humana que defendemos. Isto porque não se trata de uma crítica ontológica, epistemológica ou mesmo metodológica; a perspectiva que esse paradigma aponta é para uma ação-transformação nos campos científico, social e humanitário, que assegure justiça e direitos humanos, luta contra opressão, exploração e exclusão, assim como a (des)colonização dos grupos minoritários, emancipação-libertação dos indivíduos e seus conhecimentos-ideais (SANTOS; MENESES, 2009). Sob tal vertente estão condensados inúmeros anseios e postulados paradigmáticos como abordamos e assumimos nesse estudo, isto é, complexidade, transdisciplinaridade, construtivismo, transformativo,

transpessoal, interculturalidade, e até mesmo a noção de espiritualidade, dialogando com os processos educacionais numa perspectiva multidimensional da formação humana.

1.2.2.3 Paradigma da transdisciplinaridade

A fragmentação da ciência, dividida em ciências exatas, humanas, sociais, da terra etc., tem gerado, por vezes, uma crença do senso comum de que as pesquisas e os conhecimentos de um domínio são mais importantes que o outro. Essa postura encontra apoio em alguns partidários dos paradigmas científicos e é refletido no tipo de reconhecimento que boa parte da sociedade (e das instituições) faz aos profissionais dessas diferentes áreas. O paradigma da

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