A criatividade, conforme o que vem sendo abordado neste estudo até o momento, é o resultado da “interação do sujeito com o meio”. É possível também a compreensão de que todas as características psíquicas do ser humano são o resultado da sua interação com o meio, pois somos seres que eminentemente necessitamos do social para existir.
No primeiro capítulo, foi possível apresentar os inúmeros conceitos para o termo criatividade; todos de alguma forma relacionados com o social, o histórico e o ambiental. No segundo, verificamos que o sujeito, para desenvolver-se como tal, necessita do outro, do olhar no outro, de reconhecer- se enquanto parte de um grupo, primeiramente a família e depois todos os outros espaços sociais nos quais circula.
Neste contexto, é no social que nos estabelecemos como sujeitos, mas não apenas no simples fato de conviver com outros, mas por estabelecer conexões através da principal ferramenta de organização do social, a linguagem. Essa, possibilita as relações humanas, e consequentemente a formação e o desenvolvimento das funções psicológicas. A questão da linguagem já foi significativamente abordada anteriormente. O importante agora, talvez seja pensar em como nos apropriamos dela; algo que talvez ainda seja anterior e fundamental ao desenvolvimento.
Zaniuchi (2004) parafraseando Vygotsky (2000), afirma que é através da imitação que a criança estabelece as relações com o social e consegue iniciar o processo de denominar coisas, objetos, sensações, enfim apropriar-se da linguagem.
“A imitação é um ato comunicativo que tem a premissa básica de seu significado ser o mesmo para quem o emite e para quem o recebe, se não, não há comunicação. E, é aí, que a imitação tem papel importante no processo de mediação entre o sujeito e seu ambiente, pois quando alguém imita, repete a atitude de seus pares (quer seja essa atitude oral, gestual ou postural), ocorre uma sintonia entre os dois, uma espécie de comunicação primitiva, um laço inicial. Quando uma criança
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imita um adulto, pondera Vygotsky (2000), ela pode estar apreendendo o comportamento desse adulto a ponto de reproduzi-lo.” (ZANIUCHI, 2004, p. 3)
Nesta perspectiva todos os ambientes em que o sujeito circula são determinantes em seu desenvolvimento, principalmente no que diz respeito às questões da criatividade. Esses ambientes sociais, em uma perspectiva macro são três: a família, a escola e o trabalho. O papel de cada um, sua importância e características fundamentais para que a criatividade possa ser expressa, conforme Lubart (2007), que apresenta um importante estudo sobre estes três grandes grupos, revela que o ambiente é determinante no desenvolvimento da criatividade. Pensemos um pouco sobre cada um desses espaços, iniciando pela reflexão acerca do espaço familiar no desenvolvimento da criança, afirmando que este proporciona “segurança” à criança e possibilitam seu desenvolvimento criativo. Segundo suas palavras:
“O ambiente mais estimulante revela ser aquele que fornece ao mesmo tempo regularidade (portanto limites) e oscilações, introduzindo a flexibilidade nas regras da vida e nos hábitos.” (2007, p. 76).
Esta definição sobre o desenvolvimento da criatividade também é encontrada nos focos dos estudos de Winnicott. Ele diz que há tênue distância entre a liberdade e a clausura e o circular por estes dois extremos possibilita o pensar e o agir inovador. Enquanto se está “fechado” se tem a sensação da segurança e o desafio por encontrar alternativas para “libertar-se” de um lugar repleto de regras e “nãos”. Uma busca constante pelas alternativas da vida alimenta o potencial criativo do homem, conforme ele nos dá a ver:
“As crianças veem na segurança uma espécie de desafio, que as convida a provar que podem ser livres. A ideia de que a segurança é uma coisa boa identificar-se-ia, no limite, com a noção de que a prisão é um bom lugar para crescer. Isso seria absurdo. É claro que o espírito pode ser livre em qualquer lugar, mesmo numa prisão. [...] A liberdade é algo fundamental, que descobre nas pessoas o que elas têm de melhor. Não obstante, convém admitir que alguns indivíduos não podem viver em liberdade, por temerem a si mesmo e ao mundo.” (1986, p. 43)
Nesta ótica encontra-se a estrutura familiar, não necessariamente nos moldes tradicionais da humanidade, mas com bases que possibilitam à criança um mínimo de estrutura. Lares em que existam papeis, regras e concessões
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bem definidas e que a criança sinta-se desafiada a ultrapassar os desafios e seja capaz de manter regras, nisso concorda também Lubart:
“Podemos avançar na hipótese de que as condições mais favoráveis ao desenvolvimento cognitivo (ambiente flexível estruturado) deveriam, portanto, ser os mais favoráveis ao desenvolvimento da criatividade.” (2007, pág. 76)
O meio familiar é, dessa maneira, responsável pela estrutura que irá sustentar o sujeito e seu desejo por respostas e alternativas aos problemas com os quais se depara.
Pensemos na possibilidade de exemplificar estabelecendo um comparativo entre a constituição psíquica e a estrutura de uma casa, o id, o
ego e o superego, cada um em um andar desta “casa – sujeito”. Talvez seja
possível comparar a estrutura criativa, os três grandes grupos sociais aos quais estão propostas as reflexões deste estudo, à casa. A família como o alicerce, a base sólida para que o restante do desenvolvimento da criatividade possa seguir sua estruturação. A escola como o espaço amplo, dinâmico e muitas vezes limitado, onde seria possível exercer a criatividade. E o trabalho, como o telhado dessa casa, e nele, apresentam-se inúmeras outras circunstancias para que a criatividade possa vir a ser expressa.
Assim como tudo no social, a “casa” também segue tendências, ou “estilos” de construção. Os modelos de educação escolar foram transformando- se ao longo das décadas e adaptando-se ao contexto histórico em que se vive em cada momento. Também as questões do trabalho tomam características diretamente relacionadas ao modelo político-sócio-cultural de uma determinada época.
Nesta perspectiva de busca por comparar o desenvolvimento da criatividade à estrutura de uma casa ou ao espaço mais amplo, onde há a maior circulação de pessoas, em que acontecem as maiores possibilidades de interação e em consequência aparecem os maiores desafios ao sujeito estão na escola. Esta que foi mudando ao longo do tempo, desde a Tradicional, passando pela Tecnicista, a Novista, entre outras. Cada uma, com suas concepções de sujeito, de professor e de conhecimento.
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Lubart, ao citar Baumrind (1991), afirma justamente esta questão das diferentes concepções de escola no que tange às possíveis relações com a criatividade. Cada uma delas, com maiores ou menores possibilidades de proporcionar o desenvolvimento da criatividade pelo aluno. A escola prepara a criança para o mundo do trabalho, e é por este motivo que se transforma ao longo do tempo, na medida em que também o trabalho e as demandas sociais vão se alterando. E, desse modo o autor citado:
Descreveu os estilos educativos levando em consideração duas dimensões: uma, que se reporta ao caráter mais ou menos autoritário decorrente da atitude direta dos pais (seu nível de exigência e utilização de punições) e outra referente ao traço de valorização da criança (aceitação de sua opinião, de sua individualidade e de sua autonomia). (p. 78)
Podemos pensar a partir desses estudos, que há características da escola que dificultam o desenvolvimento da criatividade e outras concepções que ampliam o potencial criativo. Comecemos refletindo sobre esses modelos e papeis identificados nas escolas. Temos então o que:
“Vários estudos empíricos tem mostrado que os professores podem ter uma concepção particular do aluno ideal, valorizando a obediência e o conformismo, em detrimento de traços como a curiosidade ou a independência. [...] Além disso, as escolas tradicionais têm tendência à valorização uma situação escolar gerada por regras relativamente fixas (para manter a ordem). [...] Essa atitude visando a evitar os riscos [...] vai contra os traços implicados na criatividade.” (Lubart, 2007, p. 79)
Sob esta perspectiva, o professor que está inteiramente preocupado com o conhecimento, com a transmissão de informações, acaba por reconhecer aquele aluno que decora, apresenta um comportamento tranquilo, pouco questionador e submisso. Essas características são contrárias ao desenvolvimento da criatividade, mas que se parecem apresentar como necessárias em muitos postos de trabalho, o que garante a continuidade desse processo de formação. Afinal, a educação funciona conforme o modelo produtivo vigente. Segundo Lubart (2007), o aluno ideal para este modelo de educação é:
“honesto, espirituoso, respeitoso, participativo no meio familiar, seguro e bom camarada, [...] aplicação, sinceridade, obediência, cortesia,
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consideração, confiança e saúde, [...] tranquilidade, atitudes conformistas em detrimento da provocação intelectual.” (p. 80)
No entanto, hoje há uma demanda cada vez maior de profissionais criativos. Estes, em geral, não serão funcionários, pois a submissão não é uma característica que lhes convém. Mesmo que alguns a adotem por questões, geralmente econômicas; os estudos apontam uma série de características necessárias ao professor que deseja favorecer o desenvolvimento da criatividade em seus alunos, Lubart aponta as características relacionadas por Copley (1997) acerca desses professores:
“encorajavam a aprendizagem independente, desenvolviam um ensino em cooperação, motivavam os estudantes a aprender os fatos a fim de adquirir as bases sólidas para o pensamento divergente, encorajavam o pensamento flexível, evitavam julgar as ideias dos estudantes antes que elas não tivessem sido consideradas, favoreciam a auto-avaliação das ideias, ouviam seriamente as questões e sugestões dos estudantes, ofereciam as oportunidades de trabalho com uma grande diversidade de material e de condições variadas, ajudavam os estudantes a ultrapassar frustrações e o malogro de modo que tivessem a coragem de prosseguir em direção a novas ideias.” (p. 80)
Para garantir o desenvolvimento de sujeitos criativos, quem sabe necessitemos de professores facilitadores; que visem a contradição e a sabedoria, o conhecer em detrimento do reconhecer, o aprendizado através das vivencias e a construção de um conhecimento científico a partir do interesse e do potencial inventivo das crianças. Isso não é visto de forma simples. É algo minimamente desafiador. Demanda que, os próprios professores tenham um alto nível de criatividade, além da total confiança em seu trabalho. Professores capazes de aceitar os questionamentos e até os enfrentamentos que possam vir a surgir dos alunos, independente de sua idade e nível de escolaridade.
A educação para criatividade requer muito estudo e dedicação, afinal a construção do conhecimento, e o desenvolvimento dessas habilidades demandam exploração, imaginação, manuseio, e até uma “bagunça”. Requer que se explorem as capacidades intelectuais, lógicas, afetivas e imaginárias da criança. E é nesta perspectiva que nos deparamos com algo que, no dizer de
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Vygotsky, citado por Zanluchi (2004), é fundamental para garantir o exercício da criatividade: a imaginação;
a ação da esfera imaginativa, numa situação imaginária, a criação das invenções voluntárias e a formação dos planos da vida real e motivações volitivas – tudo aparece no brinquedo, que se constitui, assim, no mais alto nível de desenvolvimento pré escolar. A criança desenvolve-se, essencialmente, através da atividade de brinquedo. (p. 9)
A escola acaba por perder seu caráter lúdico, justamente pela exigência do trabalho. Este tema é muito bem abordado por Zanluchi que explora a questão da criatividade no trabalho, como é possível ler no que segue:
“juntamente com o desenvolvimento do capital e do mundo de trabalho que o caracteriza, a escola foi se afastando do universo lúdico. A educação das crianças, em geral, não inclui aquela que deve ser a principal atividade da infância, o lúdico e, quando inclui o faz de maneira deturpada. Perdeu-se o entendimento de que essa é uma forma privilegiada pela qual as crianças se relacionam e aprendem sobre o mundo a sua volta. Na escola atual dispõe-se de muito pouco tempo, espaço, materiais, enfim condições para que as crianças possam se manifestar e desenvolver a capacidade criativa nos termos postulados por Vygotsky (2000), ou seja, no sentido de ser capaz de pensar o diferente, transcender o imediatamente perceptível.” (2004, p.12)
Mesmo que a escola se apresente em muitos momentos quase que como um “freio considerável à criatividade” como afirma Lubart, ainda é um dos espaços em que seu desenvolvimento acontece de forma extremamente significativa. É nela, que a criança aprende a conviver com um social não tão protetor quanto o familiar e que pode ser ao mesmo tempo desafiador e frustrante à criança. Esses são também, elementos constitutivos do potencial criativo, pelo simples fato de exigir que se construam alternativas para lidar com a frustração e com os problemas do mundo. Vejamos então:
“Além do meio familiar, o ambiente escolar tem um papel crucial no desenvolvimento da criatividade. [...] A escola favorece, frequentemente, o pensamento convergentes para pesquisa de uma resposta “correta” aos problemas colocados pelo professor. Às vezes, entretanto, o pensamento divergente é encorajado e deixamos que as crianças se confrontem com seus problemas mal resolvidos. [...] certos programas favorecem a dinâmica, a natureza contextual do conhecimento, diferentes maneiras de utilizar o conhecimento e a construção das relações entre as diferentes matérias.” (2007, p. 80)
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O autor reforça a ideia de que “para se tornar criativa, a criança deve aprender a superar as dificuldades e ser independente”, mas como a criança aprenderá a superar as dificuldades se não se deparar com elas? A sociedade como um todo está preocupada em diminuir, a todo custo, o sofrimento humano, principalmente nas crianças. Então, como exigir que os sujeitos sejam criativos, se eles não sofrem, e por consequência não encontram mecanismos de driblar ou superar o sofrimento? Enquanto se pensar em “dar tudo pronto”, em “presentear”, “clarear”, “responder” a todas suas demandas (das crianças e também dos adultos), como poderão buscar alternativas e exercer efetivamente a sua criatividade? Procuramos uma resposta e o autor que citamos a seguir, assim a expressa:
“Todo esse processo pode ser observado no trabalho de artistas criativos de várias modalidades. Os artistas proporcionam algo de particularmente valioso, pois estão constantemente engajados na criação de novas formas, que são rompidas para serem por sua vez substituídas por formas mais novas. Os artistas nos permitem permanecer vivos quando as experiências da vida ameaçam destruir nosso sentido de uma existência real e viva. Os artistas, melhor do que ninguém, lembram-nos de que a batalha travada entre nossos impulsos e nosso sentido de segurança (ambos vitais para nós) é uma batalha eterna, que se desenrola em nosso interior por toda a extensão de nossa vida.” (WINNICOTT, 1986, p. 48)
Esses estudos apontam a importância de possibilitarmos ao sujeito desafios que estimulem a criatividade. Criar barreiras, propor desafios, oferecendo-lhes estrutura para que possam buscar as respostas e elaborar novas possibilidades de reinventar, de recriar, o social e tudo que este demanda.
Esta criança/aluno se tornará um adulto e circulará entre os espaços de trabalho exercendo ou não um papel criativo no meio. Muitos não encontram espaço nos locais de trabalho para explorar sua criatividade, mas o fazem em momentos de lazer, nas atividades familiares, com os amigos, etc. Outros, mesmo em espaços que não possibilitam esta exposição, acabam por exercitar a criatividade inúmeras vezes, encontrando formas de facilitar seu trabalho, minimizar os sofrimentos gerados pelo ambiente e estabelecendo relações mais sólidas nos espaços em que convive.
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“uma contribuição criativa é possível qualquer que seja o contexto profissional. Entretanto, a probabilidade de inovar no trabalho será facilitada se houver uma estrutura que permita e mesmo encoraje a
criatividade de cada um de seus membros, em particular, os implicados no cotidiano dentro das tarefas especializadas.” (LUBART,
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4. CONCLUSÃO
Quando pensamos na real possibilidade de explorarmos nossa criatividade nos deparamos com algo fundamental, o quanto estamos preparados para expressar aquilo que pensamos? Talvez esta seja a grande questão que norteia todo o processo criativo. Para criar não é necessário muito, mas para mostrar ao mundo uma criação é necessário algo grandioso, coragem. Esta coragem é característica de alguns tipos de pessoa em especial, aquelas capazes de anular a opinião alheia, de suportar as críticas e absorver os méritos.
Todos os grandes inventores, cientistas e artistas, foram em algum momento tachados de “loucos”. Loucos, pois ousavam sonhar e falar aquilo que acreditavam ser possível. Loucos porque exploravam ao máximo suas ideias e as mostravam ao mundo, muitas vezes de forma inusitada. Loucos ao arriscar, em muitos momentos, a própria vida em prol de uma nova possibilidade de vivê-la. Talvez este seja o grande motivo pelo qual o tema criatividade tenha sido escolhido para este estudo. Muitas vezes as pessoas criativas anulam a própria existência em detrimento a sua criação.
Pensemos nos objetivos traçados por esta pesquisa. A criatividade é uma temática altamente valorizada no mundo contemporâneo. Acredita-se que é impossível criar algo novo. Acredita-se que tudo já foi inventado. Mas um milésimo de segundo após este pensamento vir à mente descobre-se uma nova tecnologia, uma nova molécula, um animal que ninguém sabia que existia, uma nova forma de construir um arranjo musical ou uma técnica diferente de pintar uma tela. Descobre-se um novo jeito de cozinhar, um modelo de roupa diferente, uma prótese para algum tipo de deficiência. Poderíamos citar inúmeras criações humanas a todo minuto e mesmo assim haveria mais e mais formas de expressão da criatividade.
Mas como alguém chega a esse momento criativo? Talvez não saibamos exatamente como, mas sabe-se o porquê. A necessidade de romper
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barreiras, buscar alternativas e criar formas de melhorar o modo de como vivemos. Isso, hoje, de uma forma tão acelerada, que chega a ser incompreensível. Não conseguimos assimilar o tamanho das criações do homem.
Ao longo da pesquisa foi possível identificar o que e como se constitui a criatividade. Além de pensarmos como somos capazes de desenvolvê-la. Isso mesmo, desenvolver a criatividade é possível, desde a primeira infância, passando pela vida adulta e chegando a velhice. Foi possível descobrir que exercitamos a nossa criatividade a todo instante, ao resolver todo tipo de “problema” ou “imprevisto” que acontece em nossas vidas. A diferença existente entre a mãe que monta um novo cardápio para o almoço de seus filhos e do cientista que descobre uma forma de combater um vírus não são muito diferentes. Eles utilizam de um mesmo recurso, a sua capacidade de pensar algo novo, de exercer a sua criatividade.
Afinal, a criatividade é, psicologicamente, uma característica inata, que vai poder ser mais ou menos explorada de acordo com as condições sociais de um indivíduo. Vai depender de como este se constituiu enquanto sujeito e o quanto recebeu investimento para sentir-se seguro ao expressar suas ideias. De certa forma o quanto exercer, de maior ou menor forma, a sua autonomia, a sua capacidade de auto gerenciar seus pensamentos e sensações e expressá- los de forma espontânea.
Ao longo da pesquisa nos questionamos muitas vezes sobre o poder ou não que temos em desenvolver a criatividade de alguém, sendo de nós mesmos ou de outrem. A educação é, evidentemente, o caminho para todo e qualquer desenvolvimento. Mas o tipo de educação que recebemos e oferecemos nos dias de hoje é efetiva quando o assunto é criatividade?
Se colocarmo-nos a pensar sobre a educação informal. Aquela que disponibilizamos a todos com os quais convivemos. Somos capazes de argumentar, discutir, contestar? Quando o fazemos, temos a habilidade e a tolerância de nos colocarmos no lugar de quem não sabe e precisa buscar
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alternativas, pesquisar, criar formas de resolver esses conflitos de ideias? O que nos motiva?
"Há um tipo de inteligência criadora. Ela inventa o novo e introduz no mundo algo que não existia. Quem inventa não pode ter medo de errar, pois vai se meter em terras desconhecidas, ainda não mapeadas. Há um rompimento com velhas rotinas, o abandono de maneiras de fazer e pensar que a tradição cristaliza. Pense, por exemplo, no milagre do iglu. Como terá acontecido?... A gente encontra o mesmo tipo de inteligência no artista que faz uma obra de arte, no cientista que visualiza na imaginação uma nova teoria científica, no político-sonhador que pensa mundos utópicos... (Rubem Alves)
Sabemos como criar estes espaços de exercício da criatividade, mas nos autorizamos a isso? A educação formal é outro espaço social fundamental para esta criatividade. Mas hoje encontra-se tão fadada ao formalismo, aos conhecimentos específicos que precisam ser transmitidos na íntegra à crianças e adolescentes que acabam por barrar seu processo criativo.
Outro aspecto importante a ser destacado é a importância dos limites. Limites necessários para que haja a expectativa de ultrapassá-los. Limites que ao mesmo tempo sejam reguladores e estabeleçam uma sensação de segurança. Que estabeleçam espaços onde o sujeito sinta-se tão protegido que seja capaz de imaginar, divagar, pensar, sem nenhum tipo de preocupações. Ao mesmo tempo, limites que possibilitem ao sujeito imaginar como seria sem esses limites e criar possibilidades de ver as coisas a partir de outros lugares e