A ideia de que as emoções e saúde estão relacionadas não é recente. Já Hipócrates, pai da Medicina Clínica, colocava a hipótese de existir tal relação (Salovey et ai., 2000).
Parece ser unanimemente reconhecido que as perturbações do humor são bastante mais frequentes na população com doença do que na população em geral (Katon & Ciechanowski, 2002). A ideia de que uma doença que interfira com o prazer das actividades diárias ou que cause uma dor considerável pode resultar em alteração do humor não é, pois, controversa (Salovey et ai, 2000).
Por outro lado, em geral, pensa-se que os estados emocionais negativos estão associados a padrões não saudáveis de funcionamento fisiológico e a uma maior vulnerabilidade à doença e mortalidade, enquanto os estados emocionais positivos estão associados a padrões de resposta mais saudáveis em relação à actividade cardíaca e ao sistema imunitário, e que as pessoas que geralmente são capazes de recuperar e manter estados emocionais positivos têm uma menor probabilidade de ficarem doentes e de procurarem cuidados de saúde quando enfrentam acontecimentos de vida stressantes (Hyland, 1999; Kiecolt-Glaser & Glaser, 2002; Muehrer, 2002; Salovey et ai, 2000). As emoções negativas têm vindo a ser associadas a um aumento do risco de sofrer, entre outras doenças, de doença cardíaca coronária (Kubzansky & Kawachi, 2000).
As pessoas que se sentem tristes tendem a apresentar mais queixas e a sentirem-se de forma mais desconfortável do que as pessoas que se sentem menos tristes (Salovey et ai., 2000). Os episódios depressivos graves parecem caracterizar-se por estarem associados a sofrimento subjectivo, maior morbilidade e limitações a nível do funcionamento social e laboral (Cassano & Fava, 2002). Segundo Cassano e Fava (2002), é provável que a perturbação depressiva cause maior incapacidade do que muitas outras doenças crónicas, como a artrite e a diabetes, com excepção do que diz respeito ao enfarte do miocárdio e, quando co-existe com uma dessas doenças, influencia significativamente o seu curso.
Num estudo realizado por Wells, Golding e Burnam (1988), os autores verificaram que os doentes com diagnóstico de perturbação depressiva apresentavam um nível de saúde pior do que os indivíduos que apresentavam apenas sintomas depressivos. Os doentes com perturbação depressiva apresentavam pior funcionamento físico e social, percebiam a sua saúde actual como sendo pior, passavam mais dias na cama e sentiam mais dor do que os indivíduos que só manifestavam sintomas depressivos, mas que não respeitavam os critérios de perturbação depressiva.
Estes autores verificaram, ainda, que, entre os doentes com perturbação depressiva, os que eram tratados por especialistas de saúde mental apresentavam pior funcionamento social do que os que eram tratados por médicos de clínica geral. Porém, entre os indivíduos com sintomas depressivos, mas sem perturbação, os que eram seguidos pelos médicos de clínica geral apresentavam um pior funcionamento físico, mais dor e mais dias passados na cama. Wells et ai. (1988) adiantaram a hipótese destes resultados terem que ver com o facto das pessoas escolherem um médico de acordo com os sintomas de depressão que apresentam.
um maior número de dias em que estiveram acamados do que os doentes com outras doenças crónicas (hipertensão, diabetes, doença cardíaca coronária, angina, problemas lombares, problemas pulmonares, problemas gastrointestinais), excepto quando comparados com os doentes com doença cardíaca coronária avançada com sintomas depressivos (isto em relação ao funcionamento social e desempenho) e com os doentes com artrite (em relação à dor corporal). Dentro do grupo de doenças crónicas, a saúde actual mostrou ser significativamente pior no grupo de pessoas com sintomas depressivos do que no grupo de indivíduos que não apresentam tais sintomas, excepto, novamente, em relação aos doentes com problemas cardíacos (angina e doença cardíaca coronária). Os resultados sugerem que a perturbação depressiva e os sintomas de depressão estão associados a limitações em várias dimensões do bem-estar e funcionamento da pessoa sem e com doença crónica (Wells et ai.,
1989).
Wells et ai. (1989) concluíram que os efeitos dos sintomas depressivos em indivíduos com doença crónica são aditivos, isto é, quando combinados, estão associados a uma dupla redução no funcionamento social.
Por sua vez, Katon e Ciechanowski (2002) consideram que existem dados da investigação científica suficientes para afirmar que os sintomas de ansiedade e de depressão em doentes com problemas crónicos interferem com o seu processo de adaptação e ampliam os sintomas da doença crónica, assim como outros sintomas físicos.
De uma forma geral, a depressão tem sido associada a resultados de saúde piores numa variedade de problemas médicos e tem sido levantada a hipótese de que tal se deve ao facto dos doentes deprimidos aderirem menos aos regimes de tratamento (Wing, Phelan & Tate, 2002).
Katon e Ciechanowski (2002) referem que os indivíduos com doença crónica que apresentam sintomas de depressão ou perturbação depressiva grave conduzem a um agravamento de despesas com a saúde, dado utilizarem mais frequentemente o sistema de cuidados de saúde, recorrendo a um maior número de consultas e a mais medicação, e acrescentam que esses doentes apresentam frequentemente uma baixa adesão ao tratamento.
Também Dimatteo, Lepper e Croghan (2000) realizaram uma meta-análise da literatura sobre adesão ao tratamento médico, ansiedade e depressão, que incluiu 12 estudos publicados entre 1968 e 1998, envolvendo doentes com doença renal terminal, transplante renal, angina, cancro e artrite, tendo verificado que a relação entre depressão e adesão é consistente ao longo de todos os estudos e de dimensão moderada. A probabilidade de não aderir ao tratamento demonstrou ser três vezes superior nos doentes deprimidos quando
comparados com os não deprimidos. Em contraste, este estudo não encontrou uma relação consistente entre ansiedade e adesão ao tratamento.
Várias têm sido as explicações adiantadas para que os doentes deprimidos apresentem menor adesão ao tratamento, nomeadamente o facto dos sintomas depressivos terem efeitos adversos na memória, cognição, energia, percepção de auto-eficácia e relações interpessoais do indivíduo (Katon & Ciechanowski, 2002; Wing et ai., 2002). Todavia, Wing et ai. (2002) alertam para a possibilidade da intensidade dessa relação ser afectada por um artifício metodológico, uma vez que os doentes deprimidos tendem a subestimar o seu actual nível de adesão ao tratamento.
A investigação sugere que, no contexto de doenças ameaçadoras da vida, o apoio emocional funciona como protector contra a depressão, enquanto que, em doentes com incapacidade funcional, o apoio instrumental se mostra como o determinante mais importante da depressão (Penninx et ai., 1998).
Num estudo realizado por Penninx et ai. (1998), os autores verificaram que os doentes crónicos beneficiam ao nível do seu estado psicológico do facto de terem um companheiro e muitas relações sociais próximas. Penninx et ai. (1998) concluíram que os recursos pessoais de coping (isto é, auto-estima elevada, percepção de mestria e elevada auto-eficácia face à persistência de adversidade) estão directa e negativamente associados aos sintomas depressivos em indivíduos com e sem doença e sugerem que a eficácia dos recursos pessoais de coping é relativamente independente da situação individual específica e que, em geral, um julgamento mais positivo da capacidade da pessoa para lidar com acontecimentos reduz o distress psicológico. O seu estudo permitiu verificar que o apoio instrumental está positivamente associado aos sintomas depressivos, o que poderá, segundo os autores, ser explicado pelo facto das pessoas deprimidas receberem mais apoio instrumental porque estimulam a simpatia. Porém, outros estudos argumentam que o apoio instrumental pode originar sentimentos de desânimo ou dependência, que, por sua vez podem causar depressão (Penning & Strain, 1994).
Segundo Penninx et ai. (1998), na diabetes, esta associação ainda é mais óbvia. A possibilidade dos outros fornecerem apoio tangível em relação a comportamentos específicos de gestão da doença é grande. Todavia, os doentes com diabetes nem sempre desejam muita ajuda para realizarem o tratamento (Connell, 1991) e quando recebem uma ajuda superior à que desejam mostram-se mais deprimidos.
Para além destes resultados, os autores observaram, ainda, que os efeitos protectores do apoio social no afecto negativo são específicos conforme a doença. Por exemplo, o apoio
com problemas cardíacos e artrite, mas não em pessoas com diabetes, cancro ou problemas nos pulmões.
Watson e Pennebaker (1989) verificaram que o humor negativo demonstra estar associado a queixas somáticas, mas que o mesmo não acontece com o humor positivo.
A investigação sugere que o humor pode influenciar a percepção que as pessoas têm dos riscos em relação a um determinado problema de saúde e que as pessoas com humor mais positivo se percebem como menos vulneráveis do que as pessoas com humor negativo. Os estados de humor podem, também, influenciar as crenças das pessoas em relação à sua capacidade para implementar comportamentos promotores da saúde. Os indivíduos mais felizes percebem-se como mais capazes para se envolverem em comportamentos de promoção da saúde e sentem-se mais confiantes de que esses comportamentos irão aliviar a doença do que os indivíduos mais tristes. Para além disso, o facto dos indivíduos tristes experimentarem os sintomas como mais frequentes, intensos e como provocando maior desconforto e de crerem que pouco podem fazer para se sentirem melhor faz com que aumente a probabilidade de não aderirem aos tratamentos médicos (Salovey et ai., 2000).
É mais provável que as pessoas com humor negativo procurem mais os cuidados de saúde, porque esse humor faz com que se tornem mais vigilantes e preocupadas, levando-as, algumas vezes, a recorrerem a esses cuidados sem que deles necessitem. Quando os sintomas são percebidos pelo indivíduo como uma reacção emocional a stressores da vida é menos provável que conduzam à procura de cuidados médicos, mas, no caso da pessoa com humor negativo, é mais provável que a sua atenção na interpretação dos sintomas se vire para si mesma e não tanto para o exterior, o que aumenta a percepção corporal dos sintomas e das sensações (Salovey et ai., 2000).
A vulnerabilidade à ansiedade e à depressão tem sido associada à presença de doenças crónicas em geral, parecendo tornar-se superior com o aumento da gravidade da incapacidade física associada a essa doença (Barlow, Macey & Struthers, 1994; Littlefield et ai., 1990; Wells et ai, 1988).
Em relação às características demográficas, Lader (1976) refere que, quanto à ansiedade, os homens apresentam menos queixas do que as mulheres e que os jovens apresentam menos queixas do que os idosos.
Wetzel (1984) debruçou-se sobre a epidemiologia da depressão e, mais especificamente, sobre as diferenças quanto ao sexo, estado civil e nível sócio-económico, tendo constatado que, à semelhança do que se verifica com a ansiedade, também em relação à depressão, as mulheres parecem ser mais vulneráveis. No entanto, os estudos da associação entre estado civil e depressão não têm conduzido a resultados conclusivos. Em relação ao
nível sócio-económico, a investigação tem sugerido que os indivíduos com um nível de escolaridade mais baixo, as pessoas com rendimentos mais baixos, os desempregados e os estudantes apresentam mais queixas de depressão (Wetzel, 1984).
O estudo da relação entre idade e estados emocionais gerou duas hipóteses explicativas. Uma é a de que a idade está positivamente relacionada com a regulação emocional (maximização do afecto positivo e minimização do afecto negativo); a outra é a de que, com a idade, passa a haver uma maior coesão entre cognição e afecto (Mroczek & Kolarz, 1998).
Os estudos desenvolvidos nesta área têm conduzido a resultados vagos. Enquanto alguns sugerem que existe um declínio na frequência do afecto positivo com a idade, dos idosos mais novos para os idosos mais velhos (Ferring & Filipp, 1995), outros não encontram diferenças no afecto positivo relacionadas com esta variável demográfica (Vaux & Meddin, 1987). Em relação ao afecto negativo, alguns estudos constataram que a sua frequência é superior nos idosos mais velhos, mas não encontraram diferenças significativas ao longo do tempo entre os restantes grupos etários (Ferring & Filipp, 1995).
Mroczek e Kolarz (1998) consideram que os estudos realizados com amostras apenas de idosos têm conduzido a resultados ambíguos quanto à relação entre idade e afecto e que a única conclusão consistente é a de que o afecto negativo raramente parece aumentar, quer longitudinalmente com a idade, quer através de uma amostra de grupos etários.
Ryff (1989a) constatou que o equilíbrio entre afecto positivo e negativo aumenta com a idade e que as pessoas mais novas são menos felizes do que as de meia-idade e do que as mais velhas, mas estes dois últimos grupos etários não diferem entre si.
Por sua vez, Diener, Sandvik e Larsen (1985) encontraram diferenças etárias na intensidade dos afectos, mas não na sua frequência e verificaram que os grupos mais idosos apresentavam menor intensidade de afectos.
Outros estudos têm demonstrado que o afecto negativo é mais elevado nos jovens adultos do que nos adultos mais idosos (Costa et ai., 1987; Ryff, 1989a; Vaux & Meddin, 1987). Todavia, segundo Mroczec e Kolarz (1998), esta associação negativa entre idade e afecto negativo apenas se verifica nos homens, não estando a idade e o afecto negativo correlacionados nas mulheres. Estes dois autores verificaram que, nos homens não casados, a idade e o afecto negativo não estão relacionados e que os jovens não casados apresentavam os mesmos valores elevados de afectos negativos que os homens de meia-idade e mais idosos. Entre os homens casados, a idade está inversamente relacionada com os acontecimentos negativos, apresentando os homens mais novos mais afectos negativos do
Capítulo I que os mais idosos. Estes autores concluem que a idade e o afecto negativo não estão relacionados, excepto nos homens casados.
PARTE B - A INVESTIGAÇÃO SOBRE AS VARIÁVEIS PSICOLÓGICAS DO