• Aucun résultat trouvé

Jean-Louis MARSAC

Dans le document RECUEIIL DES ACTES ADMINISTRATIFS (Page 30-35)

Ao analisar a matriz institucional que prevaleceu no conhecimento organizacional da década de 1990, identificamos um cenário constituído por programas de pesquisa distribuídos entre três eixos epistemológicos/metodológicos: a Ciência Normal (eixo construcionista); a Ciência Contra-Normal (eixo desconstrucionista); e a Ciência Evolucionária (eixo

reconstrucionista), que trouxe consigo a perspectiva de progresso da Ciência Organizacional. Clegg, Hardy e Nord (1996) identificaram a década de 90 como um momento propício às conversações entre os diferentes paradigmas que conseguem conviver em permanente estado de tensões, em um contexto de diversidade, estabelecido no “contestado” campo dos estudos organizacionais.

Segundo eles, para entender a complexa rede do conhecimento organizacional que se desenvolveu no século XX, basta verificar a proliferação e a influência de programas de pesquisa provenientes de diferentes campos das Ciências Sociais que se apresentaram nele,

competitivamente. A nosso ver, esses programas conseguiram garantir a sobrevivência institucional, respaldando- se nas regras do jogo do conhecimento científico, como também na evidente qualidade de parte de seus jogadores. Na perspectiva da racionalidade (moderna/positivista), o mainstream

também buscou construir, desconstruir e reconstruir internamente seu programa de pesquisa. Suas regras, seus hábitos, seus conceitos e seus costumes metodológicos foram modificando-se de forma inercial, lenta e gradual, mesmo apresentando, em seus diversos programas, evidentes sinais degenerativos. Inferimos, pois, que a CN procurou moldar-se, mas sem abandonar a velha tradição do conhecimento moderno, racional e pleno de uma cientificidade a toda prova. Contudo, vale ressaltar que as variantes conceituais da CN nem sempre se apresentam puramente positivistas: alguns programas construcionistas são mais afeitos a essas características, ao passo que outros se configuram até com

algumas características metodológicas contestadoras próprias da CCN.

Assim, a CN tem procurado permanecer em evidência, “modernizando-se” a partir de acréscimos, exemplificados nas vertentes tradicionais, agora denominadas de neo-relações humanas, neo- burocráticas, neo-teoria de sistemas e, até mesmo, na teoria-síntese (contingencial- estruturalista), que vem incorporando a discussão de temas atuais como design organizacional, arquitetura organizacional e relações interorganizacionais. Apesar de esforços de atualização, a CN no campo da teoria organizacional continuou, contudo, a caracterizar-se como positivista / funcionalista, pelo predomínio de métodos quantitativos, de posturas reificadoras e de conceitos abstratos. (HUN apud MCKELVEY

1997).

Uma característica marcante da CN é o seu foco na organização interna/individualizada. Mesmo quando trata dos ambientes organizacionais ou das relações inter-organizações, o foco construcionista favorece a perspectiva do “voltado para dentro”, foco este que se altera a partir das análises desconstrucionistas e reconstrucionistas que

acrescentam a dimensão do “voltado para fora”, especialmente privilegiando as configurações contemporâneas de natureza híbrida.33

Uma síntese sobre as postulações da CN da Organização, conforme Marsden e Tolwney (2001), seria a de que a gestão foi traduzida em termos de processo de alocação de recursos, orientada pelos sinais emitidos pelo mercado, imparcialmente captados pelos gerentes que, supostamente dotados de racionalidade compreensiva, buscam a maximização de resultados. Então, o imperativo para a gestão seria organizar o trabalho, pondo-o a serviço do capital e transformando-o em força produtiva.34 Marsdsen e Townley (2001) salientam, ainda, que os estudiosos situados no campo da CCN procuram acusar os membros do campo da CN, rotulando-os

33 Conforme posicionamentos diferentes, ver: Clegg et al (1998); Williamson (1996);

Granovetter (1995), entre outros. Outrossim, salientamos que uma análise mais detalhada desse assunto apresenta-se no capítulo VIII desta tese.

34 Marsden e Tolwney insistem, assim, na tese desconstrucionista, procurando

ampliar o fosso entre a Ciência da Organização e a da Administração, mantendo fechada a “ caixa preta” do gerencialismo.

de gerencialistas, funcionalistas, empiristas abstratos e acusando-os de reificarem os objetivos da gerência como sendo os da organização. Essa reificação, continuam argumentando aqueles autores, teria levado à clivagem entre organização formal e informal, ou entre o que a gerência diz que deveria acontecer e os contra-objetivos de seus subordinados, sendo explicado pela ciência “normal” como resultado do confronto entre racionalidade e irracionalidade.35

Já no campo da CCN da Organização, identificamos as seguintes abordagens: o paradigma interpretativo; o marco de referência acional de Silverman, que se constitui em mais um método para analisar as relações dentro das organizações do que em uma teoria de análise; os trabalhos de Clegg (na década

35

Em oposição à CN, portanto, encontram-se os filiados à CCN, no eixo desconstrucionista, a exemplo dos marxistas, dos pós-modernistas/pós-estruturalistas, dos adeptos das teses do não-mercado e, mais recentemente, dos retoricistas. Vale frisar que essas vertentes constituem uma ampla perspectiva desconstrucionista, inclusive, enfrentando-se mutuamente. Por sua vez, parte dos fundamentos metodológicos dos desconstrucionistas está pautada no interacionismo simbólico; na etnometodologia; na dramaturgia social; no método dialético marxista; na nova retórica e, por fim, no pluralismo metodológico, para onde convergem todas as alternativas anteriores, mais particularmente, a perspectiva do retoricismo conversacional que impregnou o conhecimento organizacional na década de noventa, como visto em Clegg, Hardy e Nord (1996).

de oitenta) e seus variados colaboradores, centrados no conceito radical de poder; os estudos sobre processo de trabalho na linha bravermaniana; os enfoques culturalistas, pautados em conceitos, tais como: controle, resistência, afetividade, gênero e sexualidade; e, finalmente, os estudos organizacionais baseados na concepção foucaultiana de poder que se apresentam, mais hodiernamente, no contexto da disciplina.

Vale ressaltar, todavia, que a CCN que ora analisamos tem como parte essencial de seus fundamentos desconstrucionistas36 os desdobramentos pós-modernistas/pós-estruturalistas, como já foi mencionado, constituindo-se em uma abordagem, até certo ponto, contraditória ao lidar com o conhecimento organizacional, haja vista que, em sua essência, rejeita as idéias de organização e de administração.

36 Para Rufino dos Santos (2001, p. 50), desconstrucionismo pode ser identificado como desmonte de sentido [...], anarquismo [...], niilismo [...], lixo charmoso [...], um saber e deve ser lido como um poder [...]. Além dele, não há nada, não pode haver nada.

De outra forma, podemos reafirmar que o pós-estruturalismo e o pós-modernismo representam um acerto de contas de velhos marxistas e de autores que pegaram carona na crítica ao marxismo face às desilusões da década de oitenta/noventa do século XX. Um exemplo é Althusser que foi rotulado por parte de seus críticos como “estrutural funcionalista”, mesmo tendo influenciado, sobremaneira, muitos pós-estruturalistas. Vale notar que o mesmo raciocínio hoje é usado nas críticas à teoria da escolha racional.

Não obstante, os desconstrucionistas têm apresentado variadas contribuições, a exemplo do marxismo “puro”, dos bravermanianos e, mais recentemente, dos paradoxais neo-retoricistas que pregam as “conversações” como único caminho metodológico que parecem ter influenciado o Handbook de Clegg, Hardy e Nord (1996)37. Para o que nos interessa,

37

Esse retoricismo é criticado, tanto pelos construcionistas quanto pelos reconstrucionistas, por sua tentativa de demolir a idéia de ciência (mesmo que digam em algum momento, o contrário) e pelo paradoxo em relação às

focalizaremos a análise crítica no desconstrucionismo pós-modernista/pós- estruturalista.

“A condição pós-moderna” de Lyotard, publicado originariamente em 1979, representou um ataque as metanarrativas, ao questionar certas “verdades” ditas modernas. O ataque pós-modernista de Lyotard está, todavia, voltado contra tudo e contra todos, desafiando não só as metas narrativas, mas também demolindo conceitos básicos, como totalidade, evolução ou progresso, instituições (a universidade e a racionalidade ocidental, por exemplo), com suporte em postulados nietzscheanos38.

Peters (2000) assinala que é impossível, depois de Foucault, Derrida, Deleuze e Lyotard, retornar inocentemente ao sujeito fenomenológico hegeliano. Para ele, o “eclipse do Nietzsche francês” assinala o “fim” do pós-estruturalismo, na medida em que houve uma exaustão da crítica ao sujeito, mas não significa o abandono total do projeto desconstrucionista. Se assim o fosse, não haveria possibilidade de reconstruir os discursos, as grandes narrativas, a meta narrativa universal que estão sempre presentes e que fazem parte do processo de institucionalização das epistemes. Afinal, a atitude combativa do pós-

demais vertentes desconstrucionistas, ao ser justificada a legitimidade da globalização capitalista na pós- modernidade.

38 De outro modo, verificamos que parte da desilusão (niilismo) de Nietzsche e, por

conseguinte, seu grito de revolta, está associado “ à prática política de regimes autoritários e a uma posição, explicitamente, anti-instituições” , envolvendo uma crítica das idéias e das instituições “ modernas” , exemplificados na democracia, no liberalismo, no humanismo, na “ liberdade” , na verdade, na igualdade, no casamento, na ciência e na educação. Assim, o niilismo Nietzcheano, como já foi dito, é anti-método, anti-evolucionário e anti-instituição.

modernismo/pós-estruturalismo contra as metas narrativas não deixa de ser também uma meta narrativa.39

Peters (2000) conclui sua genealogia do pós-estruturalismo, afirmando que “se virou uma página no nietzscheanismo francês”, a partir do registro das mortes de Foucault e Deleuze, e do reconhecimento de que Derrida e Lyotard (agora também falecido) afastaram-se de Nietzsche. Ademais, observa que Lyotard, em particular, não só se afastou de Nietzsche como também se aproximou de pensadores mais “seguros”, como Kant e Levinas. Para completar, indica que há uma nova geração de pensadores franceses que são, explicitamente, anti- nietzscheanos, como Vincent Descombes,

39 Vale salientar que o projeto de unificação da teoria crítica, conforme projeto da

RAE/2003, envolve marxistas, habermasianos, pós-estruturalistas, estruturalistas, feministas, constituindo um conjunto diferenciado e, paradoxalmente, a chamada de trabalhos parece ser mais reconstrucionista do que desconstrucionista. Assim, evidenciamos na lógica das aproximações a riqueza conceitual presente nos eixos, em que cada espécie de “ teoria” - estruturalismo, psicanálise, o (neo ou pós) estruturalismo, para não falar no discurso marxista - “ constitui sua própria identidade, apenas por meio da incorporação de outras identidades, por continuismo, por parasitismo , por enxertos, por transplantes de órgãos, por incorporação etc (DERRIDA 1990, apud PETERS, 2000, p. 83)” .

Luc Ferry e Alain Renaut (cf. SCHRIFT, 1995, apud PETERS, 2000, p. 78).

Simultaneamente aos fatos registrados no parágrafo anterior, surgiu na França um liberalismo racional, ferozmente antiniestzscheano, tendo como alvo de crítica tanto o estruturalismo (Louis Althusser, Jacques Lacan, Claude Lévi-Strauss) quanto o pós- estruturalismo (Michel Foucault, Jacques Derrida, Jean François Lyotard, Gilles Deleuze e Félix Guattari). Assim, contra a filosofia da rebelião, renasceram o humanismo, o liberalismo, o individualismo e a democracia. Em síntese, a pauta filosófica vem apontando para o “fim do niilismo, do anti-humanismo e da crítica da identidade e do sujeito” (PAVEL, 1989, apud PETERS, op. cit., p. 79).

Mas não se pode retornar ao sujeito humanista como se nada houvesse acontecido. Afinal, processos de (des) e (re) construção envolvem complexas relações epistemológicas marxianas, habermasianas, nietzscheanas e de tantas outras narrativas.

A Ciência Normal, prisioneira do rigor metodológico, da racionalidade (instrumental) moderna, positivista em sua essência, não consegue perceber que o embate com os pós-modernistas apresenta-se tanto no plano epistemológico quanto no ideológico. Portanto, as teorias de organização do

anti-management não são as teorias

institucionalistas, como pensa Donaldson (1995), mas o movimento pós-modernista

com as teses nietzscheanas: anti- evolucionário, anti-método e anti-sujeito. Da perspectiva da consolidação da Ciência Organizacional, não encontramos bases epistemológicas/metodológicas suficientes no pós-modernismo/pós-estruturalismo. Pelo seu caráter anti-institucional, o pós-estruturalismo/pós-modernismo não contém alternativas para o desenvolvimento da referida disciplina. Os autores pós-modernistas/pós-estruturalistas não vislumbram nem imaginam a possibilidade da existência de um movimento “pós- institucionalista”. Entretanto, esse movimento consegue avançar, confrontando-se com a heterodoxia (estruturalistas e pós-estruturalistas) e com os adeptos do mainstream.

AO DESCONSTRUIRMOS O PÓS-MODERNISMO, MESMO CONSIDERANDO QUE, POR ESSÊNCIA, ELE É DESCONSTRUTIVO, PODEMOS ENXERGAR

POSSIBILIDADES RECONSTRUCIONISTAS DO CONHECIMENTO

ORGANIZACIONAL, A PARTIR DAS VARIANTES CONCEITUAIS PRESENTES NAS SEGUINTES ANTÍTESES: CONFIANÇA VERSUS ANGÚSTIA; COORDENAÇÃO VERSUS (DES) COORDENAÇÃO; ORGANIZAÇÃO VERSUS (DES) ORGANIZAÇÃO;

RACIONALIDADE VERSUS (IR)RACIONALIDADE; INSTITUCIONALIZAÇÃO VERSUS (DES)INSTITUCIONALIZAÇÃO.

De fato, procuramos considerar as contribuições dos pós-estruturalistas para a crítica do jogo binário na ciência e para o uso da desconstrução como método. No outro extremo, a CN continua preservando seus pilares teórico- metodológicos fundacionais.

O momento atual parece favorecer, no entanto, aproximações entre as disciplinas, mesmo com o risco de perda parcial de identidade. Esse risco parece compensar, na medida em que ainda se identifica como necessária a busca de uma meta narrativa de cunho universal que, com certeza, mesmo não sendo atingida, ainda faz parte do enredo epistemológico de hoje e de amanhã, assim como o fez do de ontem.

A possibilidade de reconstrução é pressentida nas teses da racionalidade comunicativa de Habermas (1989), resgatando o conceito de racionalidade; na reflexibilidade institucional de Giddens, reavivando as instituições na modernidade tardia; e na reconstrução epistemológica – conssubstanciada pela utilização em uma perspectiva reconstrucionista de idéias lakatosianas, toulminianas e de autores do campo da epistemologia

institucionalista/evolucionária (cf. VEBLEN, 1966; 1983; 1998; NORTH,

1981; 1994; WILLIAMSON 1996; e HODGSON 2002, entre outros).

A perspectiva de reconstrução dos institucionalistas para o progresso do conhecimento organizacional contrasta, de um lado, com as teses da desconstrução e, de outro, com as teses da Ciência Normal.

O pensamento institucionalista apresenta- se de cunho reconstrucionista, porque nele diferentes abordagens interpenetrem-se, complementando-se por semelhanças ou por diferenças conceituais.

As vertentes institucionalistas da Sociologia e da Economia, incluindo-se nelas as vertentes francesas da socioeconomia, em particular, procuram dar conta da análise da organização sócioeconômica capitalista, a partir da busca de alternativas para questões metodológicas, tais como: individualismo versus holismo metodológico, os diferentes tipos de racionalidade e de mecanismos de coordenação econômica, social e organizacional.

O quadro 3 sintetiza a Matriz Institucional de Referência para a Consolidação da Ciência Organizacional, na qual estão realçadas as possibilidades de aproximações e interpenetrações contemporâneas, tendo como foco de análise a organização. O destaque cabe a abordagens institucionalistas no campo da economia e da sociologia, tendo em vista a sua matriz metodológica/epistemológica essencialmente reconstrucionista. São as contribuições institucionalistas revisadas nesta tese que poderão fornecer muitas das bases para a consolidação da Ciência Organizacional.

EIXOS DE

Dans le document RECUEIIL DES ACTES ADMINISTRATIFS (Page 30-35)

Documents relatifs