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Jean Colin. Je demande la parole

Dans le document DE ( LA RÉPUBLIQUE FRANÇAISE (Page 38-54)

Podemos dizer que meu trabalho como pesquisador responsável em uma das comunidades beneficiárias do projeto Rio Economia Solidária, realizado pelo SOLTEC/UFRJ, no Conjunto Habitacional da Cidade de Deus, foi de intenso aprendizado e saberes compartilhados, pois todos os agentes de pesquisa (pesquisadores de campo) que trabalharam no projeto eram do território, o que revelou um caráter positivo e seguro para a investigação, pois os moradores sabiam onde e o que iam pesquisar.

A pesquisa teve início em novembro de 2010 e terminou no mês de outubro de 2011. Segundo Alvear (et al., 2012), o percurso metodológico iniciou com a “formação da equipe”, com cerca de 32 agentes comunitários de pesquisa, quatro estagiários, quatro pesquisadores, coordenadores de campo, de monitoramento e avaliação, de sistematização, de gestão e um coordenador geral. Logo depois da segunda etapa (“envolvimento dos atores locais”), com a metodologia de pesquisa-ação envolvendo os atores do território fora criada a figura do Comitê Local da Pesquisa, um espaço de troca de saberes sobre as mais variadas questões da comunidade importantes para a pesquisa, que de certa forma era também uma devolutiva do andamento da pesquisa para as instituições sociais do território e outros agentes que tinham trabalhos específicos nos territórios. Após esta fase iniciou-se o “reconhecimento do território” com as incursões na comunidade, e mais especificamente nas áreas pesquisadas. Terminado a fase de arruamento, foi o momento de começar a quarta fase “levantamento de informações complementares”, onde aprofundamos o conhecimento sobre a comunidade através das fontes secundárias “os dados secundários foram pesquisados buscando seguir um roteiro comum, com informações gerais sobre o local, sua história, população, equipamentos públicos economia local, trabalho e renda” (ALVEAR, et al., 2012, p. 24). Por ora também fora realizado um

mapeamento dos atores sociais, ou seja, um quantitativo das organizações que atuam nos territórios divididos por categorias.

Na fase cinco, elaboramos o instrumento da pesquisa “questionário” e realizamos cerca de 96 entrevistas de pré-teste, em média três por agente de pesquisa, sendo aplicado com a possibilidade de correção antes de o processo de investigação iniciar. Foram pesquisados nos quatro territórios cerca de 940 empreendimentos, sendo 216 no Conjunto Habitacional Cidade de Deus, na área geográfica delimitada pela pesquisa conhecida como Quadra Quinze, que compreendia as ruas Israel, Jeremias, Josias, e a Estrada Marechal Miguel Salazar Mendes de Moraes, como também o seu entorno.

E por fim uma pesquisa qualitativa, onde aprofundei o trabalho com uma pesquisa semiestruturada: com uma amostra em torno de 5%, elegemos como temáticas para esta fase a economia solidária e as formas de articulação (cooperatividade). Estes resultados revelaram baixo grau de cooperatividade, e os que mais despontavam certo grau de cooperação eram as atividades que possuíam mão de obra familiar, o que para alguns membros da equipe da investigação foi visto com surpresa, uma vez que nas comunidades as relações sociais são mais próximas, mas esta máxima não pode ser levada em consideração nos casos dos empreendimentos, porque em sua maior parte são oriundos da economia informal e popular, e não da economia solidária, o que consequentemente preza pelas questões individuais e não coletivas, o que pode ser um caráter de sobrevivência ou um retrato do capitalismo vigente. “A pesquisa apontou a quase inexistência de empreendimentos econômicos solidários, ou empreendimentos da Economia Solidária” (ALVEAR, 2012, p. 207).

A pesquisa mapeou 216 empreendimentos que ocupavam cerca de 610 pessoas, uma média de 2,8 pessoas por empreendimento. Destacamos alguns resultados que consideramos importantes para apresentarmos nesta tese e que deveriam ter sido considerados na implantação do BCCD. Sobre o perfil dos empreendedores, a pesquisa revelou que em sua maioria é do sexo masculino (55,6%), tem ensino médio completo (50,0%), tem idade média de 43 anos, e tem rendimento médio de um a três salários mínimos (58,2%). (ALVEAR, 2012 et al., p. 12).

Sobre os empreendimentos, quase 30% possuem entre dois a cinco anos, o que revela um tempo muito curto dos empreendimentos. A maioria com CNPJ (57,9%), sendo esses microempreendedores individuais, do setor de comércio (43,1%), do ramo de alimentação (28,7%) e quase 60%, dessas atividades contavam com apoio de alguém da família, sendo que a maioria utilizou capital próprio para empreender a atividade (70,6%), o que pode revelar à dificuldade para obtenção de crédito. Desses, 75% receberam assistência para empreender o negócio, mesmo assim, “66% dos entrevistados afirmam que necessitam de apoio técnico em

seus empreendimentos”. O que denota a falta de cooperação e fomento para as atividades produtivas no território. E por fim destacamos que 60% dos entrevistados afirmaram que gostariam de colaborar com a comunidade, o que para nós mostra um desejo de mudança na realidade local e/ou engajamento.

A pesquisa qualitativa do Rio Economia Solidária durou cerca de um ano, até a apresentação dos resultados qualitativos, ou seja, a devolutiva na universidade e nos territórios. Nesse processo foi realizado o plano de ação para as comunidades, fase que deveria ter sido iniciada pelo território após o fim do projeto, mas pela falta de capilaridade dos atores locais e a não participação do poder público esse trabalho não avançou. No ano de 2012, a pesquisa gerou uma publicação, organizada pelo Pesquisador-Extensionista do Núcleo de Solidariedade Técnica (Soltec/UFRJ) Celso Alexandre Alvear.

O Instituto Banco Palmas, no período da sensibilização e implantação do BCCD, realizou o mapeamento do consumo local (formulário no Anexo A), uma pesquisa quantitativa e mais rápida do que a do Rio Economia Solidária. Para esta atividade contratou parte da equipe que trabalhou no SOLTEC/UFRJ. Embora tenha sido uma pesquisa mais rápida e com metodologia distinta, tinha a intenção de mapear uma maior parte do território (415 domicílios) com o consumo de alimentos; vestuário; higiene pessoal e beleza; material de limpeza; e outros produtos domésticos. Isso serviria de base para a implantação do banco e revelar o volume de recursos que eram movimentados pelos moradores dentro e fora do território, sendo que estes dados precisavam ser apresentados antes do mês de setembro de 2011 (mês de inauguração do banco). “... o mercado consumidor que vive na própria comunidade e gasta, anualmente, quase R$ 55,5 milhões fora dela. São 65 mil moradores, sendo que 29% consomem em outros bairros...” (INSTITUTO BANCO PALMAS, 2011).

Os resultados da pesquisa do RIO ECOSOL só ficaram disponíveis no final do mês de outubro de 2011. Em nossa opinião seria importante o diálogo sobre as pesquisas no território. Porém, nunca fomos contatados pelo Instituto Banco Palmas, visto que não haveria problemas em disponibilizar os dados por estarmos envolvidos no mesmo projeto. As investigações tinham instrumentos distintos e geraram resultados diferentes, mas os objetivos eram os mesmos: o desenvolvimento do território. Por tanto, acreditamos que a utilização destes dados poderia ser importante para pensar a proposta do banco. Isto também mostra que as etapas do projeto aconteciam em paralelo, mas desconectadas, por uma exigência do cronograma ou pela falta de articulação entre os atores envolvidos no mesmo projeto.

O Conjunto Habitacional Cidade de Deus, criado na década de 1960 para os oriundos da política de remoção que acontecia na cidade do Rio de Janeiro, era visto como fonte de mão

de obra e prestação de serviços para os bairros mais abastados que cresceriam próximo ao seu território, o que caracterizava total submissão desses habitantes já fragmentados pelo fatídico processo de retirada dos locais que escolheram para seus habitat. Passou ao longo dos seus 50 anos por mudanças em seu tecido espacial, com a divisão do território por uma via expressa que liga a zona norte à zona oeste da Cidade do Rio de Janeiro, expansão das unidades habitacionais na maioria das vezes sem nenhuma assistência governamental, adensamento populacional e agravamento da questão social.

Ao longo desses anos instituições sociais de base comunitária foram criadas no território como alternativa para a superação do processo de desigualdade provocado principalmente pela ausência do estado no que se refere a sua responsabilidade, que infelizmente é muito comum nos territórios populares. O que de certa forma pode levar aos significativo aumento da violência, como foi retratado no filme “Cidade de Deus”. Mesmo apresentando o território no passado, o filme impetrou a imagem da comunidade. Sendo assim seus moradores não se curvaram a essa significância, e como alternativa criaram o Comitê Comunitário, o Plano de Desenvolvimento e consequentemente a Agência, na primeira década dos anos 2000.

Nos últimos anos, a Cidade de Deus, além de ter sido vista como a comunidade que recebeu o presidente estadunidense Barack Obama no país, também recebeu uma série de projetos e programas de maneira concentrada, muitas vezes até solicitados no plano de desenvolvimento local, mas sem um debate com o território, e o pior, com descontinuidade e abandono. Não fizemos uma análise quantitativa dos valores dos projetos e/ou programas e tampouco uma qualitativa dos seus impactos, mas, tendo em vista a pesquisa realizada para elaboração desta tese, como também os números dos recursos que apresentamos neste capítulo, podemos dizer que o território nos últimos 10 ou 12 anos apresentou o maior volume de investimento desde a sua criação, o que consequentemente não foi suficiente para reduzir as lacunas sociais deixadas por aproximadamente 40 anos. E a maior parte destes projetos foram interrompidos e não se transformaram em uma política pública, um dos exemplos é a política de pacificação territorial, que tentou ser um propulsor da redução da violência no território, o que para os governantes acabaria com o problema da comunidade, como fora apresentado no processo de formação do comitê comunitário. Enfim, tudo voltou como era antes, muitas vezes moradores acuados em seus próprios lares, estabelecimentos comerciais evadindo-se, e a carnificina sendo colocada como solução de política pública, uma vez que seus agentes possuem os seus ditos “tipo padrão” preto, pobre e favelado. O que em alguns casos levou a interrupção desta pesquisa.

No entanto, outros projetos conseguiram importância não só pelo fato de poderem elevar a autoestima ao morador, mas por cumprirem seus objetivos, mesmo com todas as dificuldades, como foi o caso do projeto Rio Economia Solidária, que realizou todas as etapas na Cidade de Deus e impetrou os moradores como protagonistas, mesmo que para parte desses poderia parecer ausência do território. É bem verdade que um projeto com esta magnitude deveria ser pensado com viés de política pública, pois os seus resultados qualitativos proporcionaram respostas de que esta prática deveria ter sido evidenciada em prazos mais elásticos, e não apenas para a realização de dois anos, como foi o caso do Banco Comunitário da Cidade de Deus, que logo após o término do projeto passou por dificuldades, como veremos no próximo capítulo.

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