• Aucun résultat trouvé

Je partage – Annexe I

“…A formação é uma propriedade evolutiva dos seres conscientes, na sua história individual e coletiva.” (Amiguinho, 1992:31)

Ao perspetivarmos a evolução e transformação no que diz respeito à formação de professores, encetamos com a formação inicial de professores, posteriormente a formação contínua de professores, a formação especializada e uma recente modalidade da formação contínua de professores: a formação em contexto de trabalho.

O conceito de formação contínua é frequentemente utilizado para designar formação intencional, organizada e sistematizada, tendo em conta as finalidades do sistema, ou seja, todo o processo de formação decorre das intenções pré-definidas, visando a antecipação de determinados resultados. Nesta orientação de pensamento, a formação centra-se numa racionalidade técnica, onde o conhecimento é produzido do exterior, e consumido de forma passiva pelos sujeitos da formação.

A formação em contexto refere, não se querer limitar a um âmbito tão restrito, pois assim, surtirá pouco impacto nas práticas educativas e na organização escola. Afirmando que os professores devem usufruir de autonomia e serem participantes ativos da sua própria formação, em que “(…)as práticas formativas articulam-se com as situações de trabalho e os quotidianos profissionais, organizacionais e comunitários das

Fernanda Cristina Oliveira Martins Neves 27 escolas”(Formosinho, 2001:62), a formação é entendida “(…)como um processo apropriado de oportunidades educativas, vividas no quotidiano” (Canário, 1994:32 citado por Formosinho 2002:69), referindo resultar em “(…) dinâmicas formativas que facilitam a transformação das experiências vividas no quotidiano profissional, em aprendizagens a partir de um processo autoformativo, encaminhado pela reflexão e a pesquisa, a nível individual e coletivo” (Craveiro, 2007:28)

As comunidades de aprendizagem expandem-se para lá dos muros da escola, e é reconhecida como uma organização humana, onde se promove a interação, a cooperação, orientada para a construção de conhecimentos em contextos relacionais favoráveis. Emerge um novo paradigma centralizado nos aprendentes, onde estes são sujeitos ativos na edificação da sua ação e realidade educativa. “ (…) O movimento da formação centrada na escola implica uma aproximação diferente do papel do professor na sua formação” e “(…)as necessidades dos grupos e da escola como unidade organizacional são tidas em conta” (Formosinho, 2002:11)

O projeto de formação em contexto diz protagonizar: uma dinâmica (re)construtivista das práticas educativas; mudanças de representações, de valores e atitudes; transformações das experiências profissionais e mudanças ou reorganizações nos contextos culturais e identitários. A formação, neste ponto de vista, será um processo estratégico para a (trans)formação, tendo nela um papel determinante o supervisor, que procura proporcionar ao professor um terreno produtivo para o seu autodesenvolvimento, contribuindo para a construção do seu estilo pessoal de atuação. Numa comunidade aprendente, a liderança está associada ao diálogo, ao serviço da escola, fomentando o envolvimento ativo dos atores e implicando um espírito crítico e aberto a novas ideias, por parte do supervisor.

A escola é uma organização pensante e autora de formação e qualificação, ao pensar a escola, os atores valorizam-se e qualificam-se a si próprios.

A escola reflexiva em progresso e aprendizagem “cria-se pelo pensamento e prática reflexivos que acompanham o desejo de conhecer a razão de ser da sua existência, as características da sua identidade própria, os

Fernanda Cristina Oliveira Martins Neves 28 constrangimentos que a afectam e as potencialidades que detém”.(Alarcão, 2003:137). A escola reflete sobre si própria numa dinâmica interpessoal e dialógica, guiada por uma visão prospectiva sobre a realidade em transformação. Os atores têm liberdade de expressar os seus pensamentos e são-lhes também proporcionadas condições de aprendizagem em que “a escuta das subjetividades (…) constitui um dispositivo de libertação de angústias e stress profissionais” (Formosinho, 2002: 69).

Esta forma, digamos menos formal, de perspetivar a formação “(…)permite uma maior orientação dos processos formativos para a experiência e para os saberes experienciais dos professores” (Idem:67), caminhando para uma criação da formação com “(…)dispositivo flexível e integrado.” (ibidem)

Neste contexto, a supervisão

“desenvolve-se e reconstrói-se, coloca-se em papel de apoio e não de inspeção, de escuta e não de definição prévia, de colaboração ativa em metas acordadas através de contratualização, de envolvimento na ação educativa quotidiana (através da pesquisa cooperada), de experimentação reflectida através da ação que procura responder ao problema identificado”(Formosinho, 2002:12)

A supervisão alicerça-se no grupo, com um papel auxiliador do desenvolvimento profissional, numa conceptualização macro do contexto de supervisão e criação de comunidades de aprendizagem ao longo da vida.

“ (…) A formação em contexto apela a novos modos de pensar, de produzir o saber e de organizar os processos de trabalho, nomeadamente: trabalhar em equipa, ter em conta a organização no seu todo, desenvolver uma comunidade de aprendizagem permanente, nas e através das situações profissionais, no quadro da organização. Este modelo pressupõe modos de formação abertos, integrados no trabalho, participativos e que favorecem a autoformação.” (Craveiro, 2007:27)

Em suma, a formação em contexto harmoniza a relação de todos os atores da escola e a sua relação com a organização aprendente, criando-se um ambiente de trabalho em equipa, de partilha, de diálogo reflexivo, conflito e produz-se em constante reflexão e avaliação. Os atores abandonam o individualismo e até um certo egoísmo e tornam-se em elementos ativos de todo o colectivo, na perspectiva de construir saberes para inovar ou reestruturar as práticas docentes.

Em suma, entendemos a formação em contexto, como uma modalidade de formação que ocorre em contexto profissional, centrada na escola, nas necessidades da comunidade educativa e nos seus projetos, capaz de produzir

Fernanda Cristina Oliveira Martins Neves 29 mudanças a nível organizacional e transformando a comunidade educativa, numa comunidade de aprendizagem permanente.

Como refere Craveiro (2007) esta formação adquire realce nas organizações escolares e pode concretizar-se através do Projeto Educativo. Instrumento este, fundamental numa gestão estratégica de organização escolar, em que, através dele, se deve pensar e concretizar o plano de formação.

Entendemos que, um dos desafios desta investigação, de acordo com o quadro teórico mobilizado sobre a formação em contexto, será encontrar um ponto de equilíbrio entre a formação centrada numa racionalidade técnica pura e dura e a formação em contexto levada ao extremo. Pretendemos, assim, aliar à formação em contexto o que a formação mais técnica nos parece ter de melhor, definindo objetivos claros, de forma a satisfazer as necessidades individuais e organizacionais, recorrendo a metodologias e práticas organizadas, mas que sejam, pensadas, vividas e avaliadas por todos. Desta forma, será fomentando o trabalho em equipa, a partilha e a reflexão individual e coletiva. Assim, o processo de formação não nascerá de fora, mas de dentro para fora.