B - LES AMENAGEMENTS D’HARDOUIN-MANSART
1) Le jardin de Piganiol (1701-1715)
O primeiro parágrafo da Gaudium et Spes 22 funda-se sobre a tipologia paulina dos "dois Adãos" (Cf. 1Cor. 15,22; Cf. Rm. 5,14;), também frequentemente presente nos Padres da Igreja230. São Paulo recorre a esta tipologia para transcrever o papel único e universal de Cristo na economia
salutis, apresentado a relação fundamental que existe entre o mistério do Verbo incarnado e o mistério
do Homem, entre a missão messiânica de Cristo e a acção criadora de Deus231.
225. Cf. P. O'CALLAGHAN, Cristo revela el Hombre al propio Hombre, in Scrth 41 (2009/1), 85.
226. H. DE LUBAC, Catolicismo. Aspectos sociales del dogma, Encuentro, Madrid 1988, 238. H. DE LUBAC, L'idée chrétienne
de l'homme et la recherche d'un homme nouveau, in Études 255 (1947), 168: "O mistério do Homem não pode ser plenamente
iluminado senão pelo mistério de Cristo".
227. H. DE LUBAC, Entretien autour de Vatican II. Souvenirs et réflexions, Cerf, Paris, 1985, 77.
228. H. DE LUBAC, Athéisme et sens de l’Homme.Une double requête de GS, Cerf, Paris, 1968, 109.
229. V. GOMES, A fé cristã em confronto com o humanismo ateu. A perspectiva de Henri de Lubac, in Didaskalia XXXVI (2006/2), 232-233.
230. Cf. IRENEU DE LIÃO, Adversus Haereses III, 21,10-23, SCh 211, 426-468. Cf. TERTULIANO, De carne Christi XVII, SCh 216, 280-282. Cf. CIRILO DE ALEXANDRIA, Quod Unus sit Christus, 720c, SCh 97, 322; 725c-d, SCh 97, 336-338; 756d-757d,
SCh 97, 442-446; 772e-773a, SCh 97, 496.
Na primeira Carta aos Coríntios, no contexto da discussão sobre a ressurreição dos mortos, Paulo afirma que "Cristo ressuscitou como primícias dos que adormeceram” (1Cor. 15,20). Seguidamente estabelece um paralelo antitético entre Adão e Cristo: “Com efeito, visto que a morte veio por um Homem, também por um Homem vem a ressurreição dos mortos. Pois, assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida” (1Cor. 15,21-22). Portanto, recorrendo ao princípio da solidariedade antropológica universal, representada na figura bíblica de “Adão”, Paulo afirma a eficácia salvífica universal de Cristo ressuscitado. Mais à frente, Paulo retoma o mesmo paralelismo, fazendo uma leitura midrashica de Génesis 2,7: “Assim está escrito, o primeiro Homem, Adão, foi feito alma vivente; o último Adão tornou-se espírito que dá a vida... o primeiro Homem, tirado da terra, é terrestre. O segundo Homem vem do céu” (1Cor. 15,45.47). Paulo conclui, assim, que todos os seres humanos, solidários na morte com o primeiro Adão, o Homem terrestre, serão também solidários pela ressurreição e na vida eterna com o segundo Adão, o Homem celeste, isto é, com Cristo ressuscitado232.
Este principio de solidariedade salvífica universal é utilizado igualmente no quinto capítulo da Carta aos Romanos. Paulo opõe duas mediações: a negativa, de Adão, pelo qual "penetrou o pecado no mundo e, pelo pecado, a morte", e a positiva, de Cristo, para a ressurreição e a vida eterna (Rm. 5, 12-19). Adão e Cristo são duas figuras protológicas e representativas do destino de toda a humanidade. Este paralelismo antitético permite a Paulo, não só, afirmar a eficácia da acção salvífica de Jesus Cristo, mas também dilata-la numa dimensão antropológica universal. Se o primeiro Adão tem uma relevância universal, também Cristo, o segundo Adão, a possui: "Adão era a prefiguração (τυπος του μελλοντος) daquele que havia de vir"(Rm. 5,14). Assim, a vocação de todo Homem é tornar-se imagem do Adão celeste, Cristo233.
232. Cf. P. COSTA, A determinação cristológica, 505. 233. Cf. P. COSTA, A determinação cristológica, 505-506.
A criação do Homem acontece sob o signo da incarnação de Cristo234, ou seja, Adão existe em razão do Novo Adão que ele prefigura, o Homem existe em razão de Cristo235. Ao criar o Homem, Deus predestinou-o a finalizar-se em Cristo. No último Adão (ο εσχατος αδαμ), o primeiro (ο πρωτος
ανθρωπος αδαμ) encontra a sua realização e plenitude (Cf. 1Cor.15,45). Cristo é “o novo Adão” não
no sentido cronológico (vem depois do primeiro), mas no sentido ontológico, ou seja, é o “novíssimo Adão”, o último e perfeito. Portanto, "a humanidade encontra-se orientada a Cristo e é n'Ele consumada"236. Verificamos, assim, que a incarnação precede a criação e que esta encontra nela o seu
ponto culminante237:
"Quando Deus amassava o barro, pensava em Cristo, o Homem futuro. E assim isso que Ele formou, fazia- -o à imagem de Cristo. A imagem era a incarnação, isso que Deus tinha em mente era a incarnação, e isso plasmou-se já ao formar Adão"238.
Esta citação patrística, que foi adicionada no texto à referência bíblica paulina, assinala a criação do Homem em Cristo, sustentando e esclarecendo a conexão entre Adão e Cristo. Procurava- se, assim, reforçar a ideia da referência constitutiva a Cristo da ontologia do Homem, dada por essência já desde a criação. O Homem foi criado à luz de Cristo, o Homem Futuro, reproduzindo, já em si, a imagem do Verbo que havia de incarnar239. A concretização da criação é visualizada em Cristo, o Homem perfeito, do qual o primeiro era figura240. Conclui-se, assim, que esta novidade
cristológica não imerge como algo completamente exterior à realidade humana, mas assenta no
pressuposto irrenunciável da realidade adâmica do Homem, a qual se impõe como condição necessária ao próprio acontecimento Cristo. O Homem, tendo sido criado por Deus, possui já, de certo modo, uma identidade crística, está predestinado a Cristo241. Diz H. Fries:
“Razão e meta da criação, Cristo coloca em verdadeira luz a dimensão de revelação da mesma criação. A criação está voltada para Cristo. Ele próprio é a plenitude da criação, a palavra final da palavra criadora, o mais alto desfecho e plenitude da obra criada, sobretudo do Homem, que, em Cristo, encontra sua nova e 234. Cf. A. MARTINS, A plenitude do Homem em Cristo. A relação entre antropologia e cristologia em K. Rahner, in Didaskalia XXXV (2005), 312.
235. Cf. A. DHAEM, Christologie, 8.
236. A. MARTINS, A plenitude do Homem em Cristo, 311. 237. Cf. A. DHAEM, Christologie, 8-9.
238. TERTULIANO, De carnis resurrectione VI, PL 2, 802.
239. Cf. A. ORBE, Antropologia de San Ireneo, BAC, Madrid, 1969, 99-105. 240. Cf. F. BRANCACCIO, Antropologia di Comunione, 95.
verdadeira imagem. Jesus é assim, o verdadeiro Homem, o segundo, e autêntico Adão. Cristo e ninguém mais, é que se aplica o ‘Ecce Homo’ (cf.1Cor. 15, 21; 45-49)"242.