2. The Portrayal of Independence in Film Adaptations
2.5 Jane Eyre, directed by Cary Fukunaga (2011)
Muitos estudos sobre os Kaingang até recentemente se consubstanciavam em abordagens a partir da situação do contato, fricções interétnicas, confrontos, conflitos, (des)encontros com a sociedade nacional envolvente ou, ainda, da perspectiva da resistência, colaboracionismo, faccionalismo e integracionismo. Sendo os Kaingang sociedades de tradição Jê, ou, Tapuia, portanto, povos dos sertões, considerados desde os tempos coloniais pelas políticas indigenistas como “hostis” e “bravios”, não há dúvidas que estes estudos foram influenciados pela historiografia e etnografia tradicionais do século XIX que consolidaram as mitografias. Esta tese, assim como outros estudos acadêmicos recentes sobre os Kaingang, procura se distanciar destes pressupostos influenciados pela sociologia do contato e evidenciar algumas categorias nativas. As categorias nativas serão destacadas e discutidas no terceiro capítulo no contexto da narração mnemônica Kaingang.
Comumente nominados como Coroados, os Kaingang já foram descritos de diversas formas,108 e, em muitos momentos, confundidos com outros povos ameríndios ou mesmo generalizados em um grande
106
KAPLAN, Joanna Overing. Orientation for paper topics and comments; Social time and social space in lowlands South American societies. Actes du XLII Congrès International des
Américanistes, Paris, 1977. p. 8-10 e p. 387-394.
107 Optou-se, intencionalmente, por não realizar uma contextualização histórica mais profunda da grande região do oeste catarinense no contexto das relações de contatos e confrontos entre índios (Kaingang e outros) e não índios, bem como da instituição do modo de vida não indígena e a gradativa colonização, uma vez que essa descrição e análise histórica foi feita e apresentada no primeiro capítulo da tese de Clóvis A. Brighenti. BRIGHENTI, Clovis Antonio.
O movimento indígena no oeste catarinense e sua relação com a igreja católica na diocese de Chapecó/SC nas décadas de 1970 e 1980. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em
História, Universidade Federal de Santa Catarina, PPGH/UFSC. Florianópolis, 2012. 108
Botocudos, Gualachos, Guaianás, Guanhanás, Guñanas, Guayanazes, Chiquis, Pinares,
grupo “tribal”. Certa dificuldade de nominação e identificação sociocultural e linguística dos indígenas brasileiros, sobretudo dos Kaingang, começou a se desfazer quando os relatos etnográficos e estudos em etnologia se tornaram uma prática no Brasil ao fim do século XIX e limiar do século XX.
Então, o que parece ser a resolução etnonímica sobre os Coroados/Kaingang pode significar simplificação de especificidades identitárias atribuída de forma exógena e sem necessário reconhecimento e autoidentificação. O termo Kainga’ng ou Kaingang segundo Mansueto Val Floriana designava “homem”, “sujeito”, “índio Coroado de São Paulo e do Paraná”.109
A antropóloga Juracilda Veiga informa que Jules Henry que viveu entre os Xokleng (1932 e 1934) os denominava de Kaingán, relacionando-os como tribes speaking
Kaingáng dialects, habitantes das terras altas do sudoeste da América do
Sul,110 a grafia de Henry, Kôinggëgn, significava homem ou a autodenominação do povo. Assim, Veiga acusa que Borba propôs e difundiu tal termo Caingang como denominação genérica ou autodenominação “pós-contato”, sem atentar para as especificidades grupais que existiam, locais/regionais e de autorreconhecimento.
É possível que nem todos os grupos que foram identificados como Kaingang utilizassem esse termo como autodenominação.111 Também é possível que nem toda região dialetal Kaingang, relacionada a um conjunto paisagístico (bioma/hidrografia), tivesse alguma expressão (única) de identificação étnica, pois o etnônimo pode ser compreendido como a presença do nomear, externalizar e separar (d)o sujeito. Os etnônimos pertencem à categoria do “eles” e não à categoria do “nós”, assim, os etnônimos ameríndios em sua maioria não representam autodesignações mas muitas vezes são oriundos da objetivação etnonímica sobre os outros.112 De qualquer forma, o etnônimo Kaingang é reconhecido na contemporaneidade como autoidentificação por muitas comunidades espacializadas nas bacias
109 VAL FLORIANA, Mansueto Barcatta de. Diccionarios Kainjgang-Portuguez e Portuguez- Kainjgang. Revista do Museu Paulista, São Paulo, tomo XII, 1920. p.25. Disponível em: http://biblio.etnolinguistica.org/val-floriana-1920-diccionarios. Acesso em: 31 mar. 2012. 110
Veiga se refere ao livro HENRY, Jules. Jungle People, a Kaingáng tribe of the highlands of Brazil. New York, Vintage Books, 1964. VEIGA, J., 2006, op. cit., p.89.
111 A antropóloga afirma que Nimuendajú indicou em 1909 que uma mulher do Rio do Peixe (SP) os autoidentificava como Yakwä(n)dagtéye, assim, o termo téye significava comprido, enquanto que Yakwä(n), sem tradução literal, associava-se aos termos Akuen e A’we/Auwe, autodenominação dos Xerente e Xavante, Jê centrais. Ibid., p. 88 e 89.
hidrográficas dos rios Paraguai, Paraná e Uruguai, desde o Rio Grande do Sul até São Paulo.
Não existe ainda “uma explicação apropriada” sobre a complexidade demográfica, os processos de ocupação do espaço ao longo dos últimos três mil anos, bem como um padrão de assentamento e de redes de aliança regionais acerca da distribuição geográfica dos Jê meridionais.113 Por sinal, na década de 1940, Julian Steward da ecologia cultural da Universidade da Califórnia em Berkeley, lançou a organização dos sete volumes Handbooh of South American Indians onde se consolidou a conceituação de “povos marginais” a partir do determinismo ecológico e evolucionismo para as sociedades das terras baixas da América do Sul. Nestes volumes apresentou-se o contraste entre a riqueza da floresta e a pobreza da savana, aos moldes de terras altas versus terras baixas, portanto, a floresta versus o campo.114 Apesar de Steward e outros compreenderem naquele momento que os grupos Jê eram povos essencialmente caçadores-coletores de ambientes improdutivos por meio de uma tecnologia simples, os estudos posteriores de etnólogos, antropólogos e arqueólogos, sobretudo a partir do projeto Harvard Brasil Central/Museu Nacional115, romperam com tal visão reducionista por conta da organização social complexa que tais povos Jê apresentavam.116
113
Conforme o arqueólogo Francisco Noelli, faz-se necessário “[...] repensar a concepção dominante sobre a territorialidade e a demografia Jê do Sul, abandonando a imagem vigente de pequenos grupos geograficamente isolados”. NOELLI, Francisco Silva. O mapa arqueológico
dos povos Jê no sul do Brasil. In: TOMMASINO, Kimiye; MOTA, Lúcio T.; NOELLI,
Francisco S. (Org.); Novas contribuições os estudos interdisciplinares dos Kaingang. Londrina: EDUEL, 2004. p.22.
114
Apesar dos limites teórico-metodológicos dos estudos no Handbook, há capítulos que trazem contribuição sobre os povos ameríndios brasileiros.
115 O Projeto Harvard Central Brazil, em parceria com o Museu Nacional do Rio de Janeiro, se desenvolveu ao longo dos anos 1960, sob a direção de David Maybury-Lewis (Harvard) e Roberto Cardoso de Oliveira (Museu Nacional). Pesquisadores brasileiros e norte-americanos estudaram as sociedades Jê e Bororo, estimulados pelos trabalhos de Curt Nimuendajú e Levis- Strauss, com vistas a compreender como poderia sociedades portadoras de tecnologias simples estar dispostas em organizações sociais tão complexas. Porém, ainda que os Kaingang e os Xokleng pertençam as sociedades Jê, estes não foram estudados pelo projeto “[...] because we trought [...] that their way of life was extinc [...]” MAYBURY-LEWIS, David. (Org.)
Dialectical Societies: The Gê and Bororo Indians of Central Brazil. Cambridge: Harvard
University Press, 1979. p. 06.
116 Segundo Manuela Carneiro da Cunha foi Carl Friedrich Philipp von Martius quem batizou (com alguma imprecisão) a língua dos antigos Tapuias e Aimorés como “os Gê”. Tal denominação fora retirada do sufixo coletivo “yé” presente em palavras nas várias línguas e que poderia então ser traduzido por “as pessoas/gentes”. Os Gê eram comumente chamados de Tapuias, mesmo assim nem todos os ditos Tapuias são Gê. CUNHA, Manuela C. da. Les études Ge. L’Homme, XXXIII (2-4), avr.-déc. 1993. p. 81
Os Jê meridionais, Kaingang e Xokleng,117 apesar de pertencerem ao mesmo tronco-linguístico Macro-Jê, mesma família lingüística Jê e apresentarem sítios e vestígios arqueológicos semelhantes no que concerne à forma e ao conteúdo, possuem parâmetros de distinção diferentes (étnico, língua e cultura).118 Estes teriam entrado em contato e “aparente integração social” com populações que habitavam o sul do Brasil há pelo menos 12 mil anos atrás, sem embargo, os migrantes ameríndios das “savanas do Brasil Central” integraram e/ou expulsaram as populações de tradição caçador-coletoras. Os povos Guarani, pertencentes ao tronco-linguístico Tupi-Guarani, também passaram a dividir o espaço com os Jê e outras populações caracterizadas como “caçadoras e coletoras” desde suas sucessivas penetrações no território sul a partir de 2.200 anos do presente, quando de sua diáspora das florestas amazônicas.119
A dialética espacial, pautada em redes e relações ecológicas, sociais, culturais, políticas e econômicas estabelecidas com o ambiente (biomas) e com outros povos ameríndios, circunscreveu a territorialidade Kaingang ao longo de séculos.120 Na realidade, os arqueólogos e linguístas não sabem ao certo que razões motivaram esta migração ao sul, porém, estes grupos se instalaram em regiões de planalto semelhante ao hábitat original do planalto central brasileiro e impactaram diminutamente a paisagem do Brasil meridional se
117
A palavra Xokleng não corresponde ao atual etnônimo deste povo, que prefere se autodenominar como Laklãnõ, porém, como se trata de uma terminologia muito difundida na documentação, mantem-se tal nominação.
118 TEIXEIRA, Raquel. As línguas indígenas no Brasil. In: GRUPIONI, Luís D. B.; SILVA, Araci L. da. (Org.). A temática indígena na escola: novos subsídios para professores de 1º e 2º graus. 4 ed. São Paulo: Global; Brasília: MEC, MARI, UNESCO, 2004. p. 291-311; NOELLI, op. cit., p. 24 e 25.
119 De acordo com Pedro Ignácio Schmitz as populações de caçadores e coletores que viviam no sul do Brasil antes do estabelecimento dos cultivadores migrantes das savanas do Brasil Central e das florestas amazônicas “[...] desapareceram de nossa visão, sem sabermos, com precisão, o que foi feito deles.” Ainda para Schmitz, as “casas subterrâneas” do planalto meridional, que compreende desde São Paulo até a metade do Rio Grande do Sul, pertencem aos “antepassados dos índios Kaingang”. SCHMITZ, op. cit., p. 40 e 41. NOELLI, op. cit., p. 24.
120
Segundo a lingüista Ursula Wiesemann as línguas Kaingang e Xokleng são distintas e estes povos Jê meridionais se separaram há algum tempo. Wiesemann em hipótese considera que os Xokleng se separaram dos Kaingang e rumaram para terras situadas atualmente em Santa Catarina, assim, da mesma forma “grupos” de Kaingang também foram paulatinamente se separando e rumando em direação ao sul, o que indica as diferenças dialetais entre os Kaingang. WIESEMANN, Ursula. Os dialetos da língua Kaingáng e o Xokléng. Arquivos de
Anatomia e Antropologia, Instituto de Antropologia Prof. Souza Marques, Rio de Janeiro, vol.
III, p. 199-217, 1978. p. 215 e 216. Disponível em: http://biblio.wdfiles.com/local-- files/wiesemann-1978-kaingang/wiesemann_1978_kaingang.pdf. Acesso em 10 out. 2011.
comparado aos anos de conquista dos sertões pelas frentes pioneiras e ao desenvolvimentismo do século XX.121
Porém, em torno de quatrocentos anos que os grupos de tradição Jê, assim como Guarani, são impactados pela presença não indígena em terras meridionais. As intervenções missionárias, primeiramente das reduções e, posteriormente das missões e, a atuação das bandeiras para apresamento e captura de “negros da terra” como mão-de-obra escrava em áreas de povoamento, foram vivenciadas em momentos distintos e cíclicos e afetaram a organização espacial dos povos originários.122 Aos Kaingang, as intervenções foram mais intensas com as tentativas de descobrimento, conquista e povoamento dos sertões pela Coroa portuguesa a partir do último quartel do século XVIII.123 Da mobilidade ao situs, esse foi o movimento que alterou o modus vivendi e o habitus social, consequentemente interferiu na subsistência e autonomia com o espaço e o ecossistema. Mas esse processo que acabou por retirar os Kaingang de suas redes e relações envolvidas pela mobilidade espacial para a condição de homo situs não foi simples e imediato. Por certo, está relacionado com as políticas indigenistas do período colonial, principalmente pombalino, com os direcionamentos do Regulamento das Missões (1845), da Lei de Terras (1850) e com os princípios tutelares do período republicano materializados nas práticas de proteção e assistência do SPI e da FUNAI.
A mobilidade espacial faz parte da organização social e ecológica dos Kaingang. Esta constatação está pautada na história e trajetória Kaingang dos relatos etnográficos como também das narrativas orais concedidas para esta tese. Algumas narrativas orais fizeram constante referência a “liberdade” que os Kaingang tinham (no passado) para se deslocar no espaço/lugar, de uma floresta para outra, de uma aldeia para outra, sem se preocuparem com a “posse” ou “propriedade” da terra. Na entrevista realizada com a senhora Emiliana Pinheiro, a narradora esclarece que o modo de vida do índio estava ancorado na liberdade, “o índio é, ele é liberto né!”, mas que atualmente, em virtude da intervenção dos “brancos”, a territorialidade Kaingang se transformou, não é possível se deslocar no espaço/lugar, inclusive, dona Emiliana
121
URBAN, op. cit., p. 87-102.
122 MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. MONTEIRO, John Manuel. Os Guarani e a
história do Brasil meridional: séculos XVI – XVII. In: CUNHA, Manuela C. da (Org.).
História dos Índios no Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1992. p.475 – 498. 123
AMOROSO, Marta Rosa et al. Do contato ao confronto: a conquista de Guarapuava no século XVIII. São Paulo: BNP Paribas, 2003.
questiona a condição de vida e moradia em sua comunidade quanto à posse da terra que deveria ser do índio:
Que nem agora, se a gente quer se mudar... agora deferenço, porque agora a gente tem que comprar os pedaço de terra! A gente não se muda pro lugar que a gente quer! Que nem eu tô aqui nesse apertadinho né, podia escolher um lugar mais longe, pra poder criar galinha, mas não posso! Eu tenho que comprar e daí eu não posso, e a terra é nossa! Diz que é nossa! Diz que é nossa! Mas mais quem manda é o branco! O branco vem e planta tudo por aí! E a gente fica oh!124
As memórias Kaingang indicam que em “tempos passados” (va’ix,125 vãsÿ126) havia uma mobilidade distinta dos “tempos atuais”
(o’ri,127 ũri128), por sinal, a posse da terra instituída enquanto garantia jurídica pelo Estado brasileiro sobretudo a partir da Lei de Terras de 1850 não se relaciona em nenhum aspecto com a noção de território e territorialidade para os Kaingang. A territorialidade Kaingang não se expressa e não se traduz pelo utis possidetis.129 Ainda que a noção de território se apresente com um caráter de “relações de poder”, conforme
124 PINHEIRO, Emiliana. 94 anos. Entrevista concedida a Carina S. de Almeida e Sandor F.
Bringmann, Aldeia Paiol de Barro, TI Xapecó. Transcrição Carina S. de Almeida. 10 de maio
de 2012. Acervo LABHIN/UFSC, 2015.
125 Va’ix: há muito tempo. VAL FLORIANA, 1920, op. cit., p. 201.
126 Vãsÿ: faz tempo. WIESEMANN, Ursula. Dicionário. Português/Português –
Kaingang/Português. 2ª ed. Curitiba: Ed. Evangélica Esperança, 2002. p. 94. Disponível em:
http://www-01.sil.org/AMERICAS/BRASIL/publcns/dictgram/KGDict.pdf. Acesso em: 16 out.2013.
127
O’ri: hoje, agora. VAL FLORIANA, 1920, op. cit., p. 155. 128 Ũri: agora, hoje. WIESEMANN, 2002, op. cit., p. 91.
129 A Lei n. 601, de 18 de setembro de 1850, que dispõe sobre as terras devolutas do Império, mais conhecida como “Lei de Terras”, em diversos artigos e incisos esclarece que a posse está associada ao “cultivo” e “moradia”, assim, o artigo 5ª afirma “Serão legitimadas as posses mansas e pacificas, adquiridas por occupação primaria, ou havidas do primeiro occupante, que se acharem cultivadas, ou com principio de cultura, e morada, habitual do respectivo posseiro, ou de quem o represente [...]” sob a indicação de algumas regras. Dessa forma, ainda que existam exceções e casos específicos, o artigo 6º reforça que para haver posse é necessário haver cultura efetiva e morada habitual: “Não se haverá por principio da cultura para a revalidação das sesmarias ou outras concessões do Governo, nem para a legitimação de qualquer posse, os simples roçados, derribadas ou queimas de mattos ou campos, levantamentos de ranchos e outros actos de semelhante natureza, não sendo acompanhados da cultura effectiva e morada habitual exigidas no artigo antecedente.”, o que só vem a reforçar a compreensão do utis possidetis.” BRASIL, Lei n. 601, de 18 de setembro de 1850. Dispõe
sobre as terras devolutas do Império. Disponível em:
esclarecem os geógrafos,130 nas sociedades Kaingang e luso-brasileira este termo não navega no mesmo sentido. Muitas narrativas Kaingang acusam a mobilidade como experiência referente a um parente (ancestral) que nasceu, cresceu, casou ou viveu fora do Chapecó- Chapecozinho, evidenciando os vínculos familiares estreitos com outras terras e grupos indígenas Kaingang. Os narradores acusam relações de mobilidade e vínculos familiares (parentes e afins) principalmente entre Chapecó-Chapecozinho com os Kaingang de Nonoai no Rio Grande do Sul e de Mangueirinha no Paraná.
A mobilidade espacial é ressaltada por vários pesquisadores, ainda que estes não utilizem exatamente esta noção como elemento central de análise. Sobretudo são os historiadores que fazem referência às relações de contato entre grupos, “hordas” ou “tribos” e toldos Kaingang com aldeamentos, a sociedade luso-brasileira e seus respectivos governos provinciais.131 Por certo, a maior parte destes estudos históricos se centraliza no século XIX porquanto este período se qualifica pelas intensas relações entre índios e não índios nos sertões da interlândia meridional. Destacam-se nos oitocentos as negociações, o colaboracionismo e o faccionalismo Kaingang emergidos de conflitos entre lideranças Kaingang ou entre índios e não índios.
No século XIX ocorreram constantes deslocamentos no espaço (lugares, regiões, entre bacias hidrográficas, entre campos e florestas) por grupos de Kaingang em virtude de fatores endógenos, mas também exógenos, como a implementação de aldeamentos indígenas e o povoamento luso-brasileiro.132 Pierre Mabilde considera que muitos
130
O geógrafo Rogério Haesbaert esclarece que a noção de território tem conotação material e simbólica e, em qualquer acepção, está estreitamente vinculado ao “poder”. HAESBAERT, Rogério. Da territorilização a multiterritorialidade. Anais do IX Encontro Nacional da ANPUR.
Vol. 3. Rio de Janeiro: ANPUR, 2001. Disponível em:
http://www.anpur.org.br/revista/rbeur/index.php/anais/article/view/2314. Acesso em: set 2013. 131 O Catálogo do Paraná provincial (1853 – 1870), realizado pelo Arquivo Público do Paraná explica que Toldo é: “Denominação utilizada, entre 1853 e 1870, para aldeia ou assentamento de índios que, geralmente, não estavam sob influência da Igreja Católica e ou da administração pública provincial. Índios de alguns toldos mantinham contatos esporádicos com indivíduos dos aldeamentos, povoações e fazendas do Paraná para aquisição de utensílios e tecidos.” ARQUIVO PÚBLICO DO PARANÁ. Catálogo seletivo de documentos referentes aos
indígenas no Paraná Provincial: 1853 - 1870. Curitiba: Imprensa Oficial, 2007. p.26.
Disponível em:
http://www.arquivopublico.pr.gov.br/arquivos/File/pdf/catalogo_indigena_L.pdf. Acesso em: 12 mai 2011.
132 Há considerável volume de dissertações, teses e artigos sobre os Kaingang e sobre as situações de contato, descobrimento e povoamento dos campos e sertões meridionais, inclusive com diferentes abordagens, porém, me refiro àqueles que estudam prioritariamente os séculos XVIII e, sobretudo, o XIX.
Kaingang procuravam os aldeamentos para se resguardar dos ataques e perseguições em relação ao rompimento com a liderança de seu grupo de origem,133 o engenheiro naturalizado brasileiro narra também que em uma de suas “excursões pelas matas” encontrou vinte e três “tribos de coroados”, em número de 304 pessoas, subordinadas a um “cacique” principal e fazendo guerra de extermínio contra um grupo dissidente que era perseguido e vagava pelo sertão,134 neste sentido, alguns pesquisadores embasados em tais descrições caracterizaram os Kaingang como colaboracionistas e faccionalistas. Por outro lado, o que fundamenta o modus vivendi Kaingang é a organização social conjugada com a espacial e não exatamente o colaboracionismo e faccionalismo, visto que estes são fatores decorrentes. A mobilidade espacial não se resume à subsistência, nomadismo ou seminomadismo, existem outras perspectivas que as fundamenta.135
A mobilidade espacial Kaingang no século XX e, na contemporaneidade, também se expressa na recorrente prática da transferência de indígenas para outras áreas e terras em virtude de acontecimentos e/ou desavenças incididas entre índios dentro das terras Kaingang. A resolução dos fatos é feita pelas lideranças ou pela liderança principal, geralmente o “cacique” procura julgar e imputar uma penalidade na própria terra, de acordo com os pressupostos locais do código de postura,136 ou ainda, afastar o indígena da terra de forma temporária, ou, em casos mais complicados, definitivamente. Ainda que não se saiba da existência de um código de postura escrito na TI Xapecó, as lideranças políticas indígenas locais aplicam a penalidade
133
MABILDE, Pierre F. A. Booth. Apontamentos sobre os indígenas selvagens da Nação
Coroados dos matos da Província do Rio Grande do Sul. 1836 – 1866. São Paulo: IBRASA;
Brasília: INL, Fundação Nacional Pró-Memória, 1983. p. 45 – 47. 134 Mabilde se refere ao cacique Braga. Ibid., p.42 e 43.