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PROFISSIONAIS DOS TÉCNICOS COMO PROCESSO IDENTITÁRIO PARTILHADO

É um capítulo de síntese, no qual responderemos às questões/hipóteses levantadas na fase inicial da investigação, assim como a outras imanentes do decurso da mesma. Algumas das novas questões são reformulações das questões iniciais.

Procurámos que a sequência das questões e respostas apresentadas reflectisse a ideia de construção partilhada das entidades profissionais dos técnicos e da entidade colectiva (ACA). Por esse motivo partimos das respostas às questões inerentes ao uso do conhecimento e à identidade profissional dos técnicos das ACA, para chegarmos às relativas às ACA e ao associativismo e cooperativismo em geral.

Na sua intervenção quotidiana profissional os técnicos das ACA actuam como intermediários (mobilizam) do conhecimento abstracto, ou actuam também como transformadores (mobilizam e recontextualizam) desse conhecimento?

Adiantámos hipoteticamente que o conhecimento abstracto (adquirido pela formação académica inicial, formação contínua e procura autodidáctica) e o conhecimento implícito, particularmente o conhecimento endógeno e o conhecimento organizacional (adquirido pelas vivências quotidianas de aprendizagem com os actores das ACA), seriam recontextualizados na interacção entre técnicos e associados/cooperantes. Se tal se verificar, então, os técnicos das ACA, mais do que meros intermediários do conhecimento, seriam intermediários transformadores do conhecimento.

A aquisição do conhecimento do conhecimento abstracto ocorre por diversas vias: aquando da formação inicial e da formação profissional; pela auto-aprendizagem (literatura científica e técnica, Internet); recorrendo ao contacto e esclarecimento pessoal com os pares e com os serviços regionais e centrais do Ministério da Agricultura, este para informação de âmbito legal-burocrático (cf. ponto 6.1).

A aquisição do conhecimento implícito, por seu turno, dá-se a partir das vivências quotidianas de aprendizagem com: os dirigentes e associados (agricultores) e outros actores que se relacionam com as organizações de agricultores (na opinião dos técnicos o conhecimento adquirido no contacto com os actores das ACA, os agricultores sobretudo, consiste na maior riqueza que extraem do seu trabalho quotidiano); os pares da própria ACA ou de outras organizações de agricultores congéneres, que funcionam como uma espécie de “rede” de protecção que resgata os técnicos ao seu isolamento profissional. Estas formas de aquisição de conhecimento são essenciais à aprendizagem inicial e interiorização da profissão. Neste sentido são também elementos marcantes da identidade profissional dos técnicos das ACA.

A recontextualização do conhecimento abstracto e implícito tem lugar na interacção entre os técnicos e os actores das ACA (associados/cooperantes, sobretudo). Nesta interacção ambos os interlocutores mobilizam e partilham conhecimentos próprios, como transparece de alguns episódios referidos. A interacção é, na verdade, um momento de partilha de conhecimento em que os interlocutores estabelecem entre si uma relação de saber. A interacção é, por outro lado, um momento de produção de conhecimento-saber, que beneficia de algumas das qualidades próprias do conhecimento-abstracto e outras próprias do conhecimento implícito, mas cuja principal qualidade é a de ser útil e adequado às circunstâncias do contexto de interacção. A recontextualização é consubstanciada nos sentidos do uso do conhecimento, ou seja, nos estilos de uso do conhecimento adoptado pelos técnicos, nomeadamente o estilo identitário e, em parte, o estilo crítico-pragmático.

Esta linha de pensamento permite também definir a interacção como um momento de partilha, como preconizam os modelos educativos de extensão mais recentes, como a I&DSA, e não como um momento de transmissão de conhecimento-informação do mais instruído (o técnico) para o menos instruído (o agricultor), como preconizam os modelos convencionais de educação e de extensão.

Podemos designar o conhecimento-saber dos técnicos das ACA, ou os seus saberes profissionais, como conhecimento pericial. Porém, salvaguardando, que ao contrário do que é usual reconhecer-se ao conhecimento pericial, em que predomina o sentido técnico- estratégico, neste o sentido contextual-relacional e contextual-prudencial são igualmente importantes. Por isso, este conhecimento pericial também pode ser denominado de

conhecimento emancipatório, porque ajuda a promover as capacidades técnicas, intelectuais e sócio-afectivas e associativas/cooperativas dos actores das ACA.

Em síntese encontramos razões para considerar os técnicos das ACA, em situação de contexto de trabalho, como intermediários e transformadores do conhecimento abstracto.

Técnico superior das ACA: profissional-técnico ou profissional-perito?

Tendo como referência a tipologia proposta por Caria (2002b: 808), dado que os técnicos das ACA possuem qualificações académicas de nível superior, deverão ser incluídos no grupo do profissional-técnico ou no grupo do profissional-perito. Tomando como indicador a situação profissional dos técnicos, em que mais de metade (51,1%) são técnicos gestores considerando ainda que a maioria desenvolve actividades remuneradas extra ACA, concluímos que pelo menos os que reúnem ambas as condições se assemelham ao tipo profissional-perito. Para os restantes, técnicos executantes (isto é, sem funções de gestão e com menor autonomia estratégica), o tipo profissional-técnico descreve melhor a sua situação profissional. Tendencialmente, os técnicos executantes ocorrem com mais frequência em ACA com maior número de técnicos (talvez porque ficam um pouco na sombra de colegas com posição hierárquica superior na ACA) e em ACA de grande dimensão, sobretudo cooperativas e adegas cooperativas, que seguem modelos de gestão mais antiquados.

Quais são as áreas do conhecimento abstracto “em falta” na formação inicial do técnico?

Verificámos a existência de quatro áreas principais de intervenção do trabalho do técnico: apoio técnico de âmbito legal-burocrático; apoio técnico de âmbito produtivo; trabalho conducente à mudança de atitude dos associados/cooperantes; e o envolvimento com as questões humanas e socioeconómicas dos mesmos.

As duas primeiras, desde que atingido o grau de maturidade profissional de Maria Lionça, são normalmente vencidas pelo uso simples de conhecimento-informação em que predomina o sentido técnico-estratégico. Os estilos de uso do conhecimento tecnicista ou crítico-pragmático são suficientes para o cumprimento satisfatório destas missões. Este desiderato é reforçado pelo facto dos associados/cooperantes irem, de forma gradual, interiorizando a complexidade do contexto que envolve a actividade das ACA, facilitando assim a consecução das actividades mais prementes das mesmas.

Em termos de conhecimento abstracto em falta por parte dos técnicos, as principais lacunas dizem respeito: à gestão organizacional e aos procedimentos legais-burocráticos inerentes à aplicação das políticas, o que se deve à necessidade de constante actualização e nalguns casos a deficiências da formação de base; à comercialização e marketing dos produtos agrários, uma lacuna antiga e quase sempre ausente dos curricula da formação de base; aos modos de produção biológica e à produção e protecção integrada, cujos problemas e soluções se renovam todos os dias, e em que as necessidades suplantam o conhecimento científico existente e, sobretudo, acessível.

As duas últimas áreas referenciadas, incentivo à mudança de atitude dos associados/cooperantes e o envolvimento com as questões humanas e socioeconómicas dos mesmos, colocam situações-problema mais complexas, que obrigam o técnico a procurar novos conhecimentos ou, pelo menos, a reconhecer essa necessidade. Para isso é necessário o uso identitário do conhecimento, em que o sentido contextual-relacional e o sentido contextual-prudencial jogam um papel essencial.

As grandes lacunas de conhecimento abstracto são as relativas ao entendimento profundo do movimento associativo e cooperativo e as inerentes ao campo do serviço social. A primeira poderá ser mitigada de forma relativamente fácil, através da disponibilização de formação profissional adequada. A segunda lacuna é de resolução mais complexa e, tirando aquilo que se poderá aprender da experiência e/ou da formação profissional em áreas de animação social, o restante exige a entrada em acção de outros actores qualificados para o efeito enquadrados em organizações que não as ACA.

Quais são os marcos mais importantes da socialização primária do técnico?

O nosso estudo demonstra que a socialização primária do técnico das ACA desempenha um papel marcante na construção do eu profissional dos técnicos e, porque esse processo é partilhado, na construção do eu colectivo que são as ACA. A ligação parental com a actividade agrícola da maioria destes profissionais e o seu gosto pelo contacto com as pessoas, animais e natureza, sugerem a importância das fases precoces da socialização primária, na trajectória pessoal e profissional. Outro marco importante para alguns é a experiência das escolas profissionais de agricultura e/ou dos cursos tecnológicos agrários que frequentaram no secundário. Estas experiências de socialização reflectem-se, por exemplo, na capacidade de racionalizar e interiorizar as vivências das ACA (sentido contextual), nas habilidades comunicativas (sentido contextual-relacional), no envolvimento pessoal com as questões socioeconómicas dos associados/cooperantes (sentido contextual-prudencial), na dedicação à profissão.

Poder-se-á falar de efeito de campo para explicar as trajectórias profissionais dos técnicos das ACA? A “vivência” das propriedades do campo agrário (relações de âmbito familiar, afectivo e profissional com a agricultura, oferta na região de cursos superiores agrários, os numeros clausus de cursos mais diferenciados, interacção das ACA com entidades privadas e públicas intervenientes no processo de desenvolvimento agrário de TMAD) é conducente, de escolha em escolha, a um curso superior agrário que garantirá uma profissão diferenciada dentro do campo agrário. Esta dupla condição satisfaz, por um lado, o desejo de diferenciação (mobilidade social) e, por outro lado, os gostos desenvolvidos nas fases mais precoces da socialização primária. Relativamente a estes últimos, pode acontecer que não se trate exactamente da satisfação de gostos, mas antes da aceitação, mais ou menos pacífica, de um futuro profissional de proximidade à actividade agrária que seria rejeitado em outros contextos. A lógica interna é visível, por exemplo, no desejo (luta) de uma profissão, e correspondente posição social, que poupe os filhos de agricultores às insuficiências da vida dos seus pais mas que, ao mesmo tempo, não rompa com a cultura e com o património possuído (sobretudo o património fundiário). A preocupação com a apropriação (ou manutenção) do capital e a não ruptura (equilíbrio) são duas regras fundamentais do jogo, as quais, aliás, presidem a muitas outras facetas do modo de ser e de estar dos transmontanos.

Quais são os modelos identitários e o contexto organizacional em que decorre a socialização secundária do técnico?

Podemos centrar a resposta nos dois anos iniciais de aprendizagem da profissão na ACA. Nestes, os técnicos das ACA podem encontrar modelos identitários e contextos profissionais diversos ditados pela maior, ou menor, proximidade aos outros técnicos, dirigentes, funcionários e aos próprios associados/cooperantes.

Retomando o caso da relação entre técnico e “adegueiro” (cf. ponto 4.2.4.2), podemo-nos interrogar sobre quem são os outros “adegueiros” nas ACA. Encontrámos situações em que os outros “adegueiros” poderão ser elementos da direcção e/ou um colega mais antigo na organização. A primeira situação, normalmente, surge associada a processos de desenvolvimento das ACA, partilhados desde o início pelo técnico e pelo elemento da direcção, referimo-nos às ACA que foram promovidas pelos próprios técnicos. A segunda situação, mais frequente, consiste na observação da forma de fazer e de ser dos colegas técnicos mais antigos pelos mais novos, podendo esta observação ser mais ou menos acompanhada por aqueles. Por contraste, ouvimos relatos de indivíduos, poucos, que fizeram a sua integração profissional e organizacional enfrentando a má vontade e hostilidade (profissional) dos colegas mais antigos. Neste caso ganha protagonismo a “cumplicidade” estabelecida entre o técnico e os associados/cooperantes, ou um grupo restrito destes e/ou a adopção de modelos identitários exteriores à própria ACA, como, por exemplo, um colega de outra ACA, um ex-professor, um amigo de alguma forma ligado ou identificado com o sector agrário.

Os serviços regionais e centrais do Ministério da Agricultura, enquanto instituições e também na pessoa de alguns dos seus técnicos, funcionam igualmente como modelos identitários. Estes projectam uma imagem (identidade colectiva e profissional) que despoleta sensações contraditórias nos técnicos das ACA. Por um lado, estes gostariam de “ser como aqueles” no que respeita à segurança e regalias da sua situação profissional/contratual (um emprego do Estado), por outro lado, repudiam o distanciamento daqueles em relação às necessidades reais dos agricultores, reservando para si a proximidade e apoio incondicional aos agricultores. A esta “identificação” está subjacente uma questão de poder. Os serviços oficiais e os seus técnicos representam a autoridade do Estado e, entre outras, na actualidade, têm como missão principal fiscalizar algumas actividades das ACA. A acrescentar a isto, os técnicos dos serviços oficiais são, em média, mais velhos que os técnicos das ACA. Esta problemática é bem ilustrada pelo seguinte comentário de um técnico: Nós é que devíamos ter um emprego seguro e melhor pago como eles [os funcionários dos serviços públicos] os têm, pois somos nós que apoiamos os agricultores, eles só se preocupam com a papelada…

Quanto às questões de género, dado o equilíbrio entre homens e mulheres como técnicos das ACA, o único destaque a fazer é esse mesmo – o de realçar o equilíbrio (cf. ponto 5.1). No entanto, alguns episódios do processo de integração profissional e organizacional das mulheres apontam para a maior dificuldade na afirmação das suas capacidades técnicas para o lugar que desempenham, sobretudo, para passarem a prova (o reconhecimento e inerente respeito) dos associados/cooperantes. Várias foram as técnicas que nos alertaram para este facto expressando-o de uma forma muito simples: Precisamos de demonstrar mais que os colegas homens para conseguir o mesmo reconhecimento das capacidades e respeito, depois de conquistado não se nota diferença nenhuma.

Para além destes modelos identitários personificados, existe o contexto organizacional das ACA, ou seja, para além das identidades individuais existe a identidade colectiva, que é a ACA e o associativismo/cooperativismo. Verificámos que os técnicos são sujeitos a um processo de “desmontagem” do conceito de associativismo/cooperativismo, seguido da conceptualização partilhada (uma identidade colectiva ou um conceito culturalmente construído) de um novo conceito de associativismo/cooperativismo ajustado ao quotidiano das ACA.

Podemos relacionar este processo com os mecanismos de socialização profissional de Hughes (Hughes, citado por Dubar, 1994: 138). A “desmontagem” corresponde à designada fase de “passagem pelo espelho” (relativização dos estereótipos, em que o

sentido interpretativo-justificativo desempenha um papel maior), continua pela fase de “instalação na dualidade” (a procura do equilíbrio entre o “modelo ideal” e o “modelo prático”) e termina com a fase do “ajustamento da concepção do Eu”, em que a tomada de consciência das suas capacidades físicas, mentais e profissionais, dos seus gostos e desgostos. A tipologia dos sonhos que apresentamos anteriormente (cf. ponto 5.1.4) ilustra muito bem esta última fase da socialização profissional dos técnicos das ACA.

Que exemplos podemos encontrar de tipologias de uso instrumental versus uso significativo das objectivações pelos diferentes actores?

Encontrámos dois bons exemplos de uso instrumental versus uso significativo das objectivações: a observação e aplicação das regras de segurança e higiene do trabalho, visando a adopção de melhores práticas técnico-produtivas e fazer com que os associados/cooperantes interiorizem e observem os preceitos legais e adoptem boas práticas associativas/cooperativas. Ambos revelam a dupla intenção por parte do técnico de, por um lado, assegurar os resultados desejados (intenção instrumental) e, por outro, que a sua actuação sirva de exemplo para que o próprio agricultor interiorize e depois adopte esses comportamentos dentro do seu campo de acção (intenção significativa). Ambos os exemplos revelam sentido técnico-estratégico (fazer da maneira que é mais eficaz), sentido contextual (fazer da maneira adequada às características dos interlocutores) e sentido interpretativo-justificativo, que deriva da aplicação dos anteriores. O uso significativo das objectivações é como que uma vaga de fundo, com frutos esperados no médio e longo prazo, que hão-de ser responsáveis pela melhoria das práticas técnico-produtivas e atitude associativa e cooperativa dos agricultores.

Há uma outra objectivação significativa de crucial importância, omnipresente no nosso estudo, que é a amizade que une técnicos e associados/cooperantes. Acreditamos, todavia, que os actores das ACA não a sentem como tal. Esta relação é, por um lado, instrumental, porque é graças a ela que o conhecimento e a informação de natureza técnica e legal-borucrática fluí, mas é também significativa, porque, à sua maneira, vai tecendo laços de solidariedade entre os associados/cooperantes e entre estes e os técnicos que são, em muitos casos, o rosto das ACA. É óbvia a presença dos três sentidos de uso do conhecimento na construção desta relação.

Quais são as grandes ilusões e desilusões profissionais do técnico por referência ao seu eu profissional sonhado, desejado, ou reivindicado? Quais são os diferentes campos de investimento pessoal (poder, prestígio, realização) do técnico?

Os técnicos das ACA em TMAD formam um grupo profissional bastante homogéneo em termos de ilusões e desilusões profissionais. Talvez isto se deva à continuidade das suas trajectórias de vida, desde a socialização primária à socialização profissional em contexto de trabalho. Continuidade essa que proporciona uma identidade profissional coerente, embora ainda em fase de consolidação e de afirmação, ou reconhecimento pelos pares e pelos outros. Coerente, porque se revela adaptada aos “sinais do tempo”, isto é, revela pragmatismo e versatilidade na leitura dos contextos profissionais em que operam. É a coerência pela plasticidade do ego (Giddens, 1995 e Sommer e Gibson, 1996; citados por Magalhães, 2001: 306). Os estilos de uso do conhecimento pelos técnicos das ACA, por um lado, e a sua versatilidade profissional, por outro, são exemplos inequívocos dessa coerência e plasticidade identitária.

As expectativas concretizadas centram-se numa profissão diferenciada que permite aos técnicos contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas e para o desenvolvimento da região, com as quais, muitos, partilham uma identidade comum. Sentir que os seus associados/cooperantes aproveitam e beneficiam dos apoios oficiais à actividade agrária, ajudar a desenvolver uma nova marca ou produto, contribuir para inverter o processo de extinção de uma raça ou variedade regional, são exemplos de “troféus” mais desejados e valorizados. O reconhecimento do seu trabalho e a estima que despertam nos agricultores são o objectivo mínimo para se sentirem bem na profissão e na vida.

As expectativas não concretizadas (desilusões) emanam das disfunções do associativismo e cooperativismo, as quais dificultam, e por vezes inviabilizam, a plena expressão das suas capacidades técnicas e o alcance de objectivos profissionais e pessoais mais ambiciosos. Em algumas situações estas disfunções são agravadas por impedimentos ou contra-sensos de ordem política e institucional. As desilusões, não raras vezes, despoletam situações de crise de identidade aos técnicos das ACA, que se “defendem” graças à plasticidade identitária já discutida. Todavia, como o testemunham os técnicos que denominamos de identitários desencantados, nem sempre isso é possível.

Isto conduz-nos à segunda questão levantada. Em virtude das respostas anteriores, assumida a hipótese da existência do campo agrário transmontano, verificámos que existe uma larga zona de intercepção entre o contexto de trabalho e o contexto de vida destes profissionais. Muitos técnicos que estudámos confessam que se “esgotam” na profissão ou em actividades com ela relacionadas. A coerência identitária de que falamos anteriormente sustenta-se nesta larga zona de intercepção entre o eu profissional e os outros eu sociais dos técnicos das ACA. Assim, para a maioria, o poder, prestígio e realização pessoal emana ou está relacionado com a actividade profissional. Contudo, isto não é óbice a que Joana Benta, Maria Lionça, Lúcio, Firmo e Deolinda, à semelhança da maioria dos seus colegas, demonstrem facetas de vida extra-profissão análogas às dos homens e mulheres, jovens, próprias do seu tempo e da sua idade (cf. ponto 5.2).

Como é que um técnico superior das ACA constrói a sua identidade profissional? Pelo hábito? Pela interacção quotidiana? Ou por ambas?

A socialização primária e a socialização secundária (profissional) dos técnicos das ACA fornecem episódios bastantes de uma aprendizagem pela prática, inculcada de forma muitas vezes inconsciente, ao modo de um habitus profissional, como sugere Bourdieu (2002). Julgamos ter encontrado evidências de que assim é. Porém, também encontrámos evidências de que esse habitus profissional é vulnerável (susceptível de modificação) à contingência das interacções face a face e pode ser alterado, ou posto temporariamente entre parêntesis, na sequência da alteração das circunstâncias (normas) em que o trabalho decorre. Algo que pode ser explicado pelo conceito de auto-interacção, ou de interacção do indivíduo consigo próprio, sugerido por Blumer (1982).

A entrada em jogo do sentido contextual, sobretudo o relacional, implica que a “mobilização” do habitus não seja para a acção mas sim para a interacção. Consequentemente, pode ser alvo de reflexão e revisão, no momento ou à posteriori

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