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Dans le document Economic Report on Africa 1985 (Page 32-35)

Assumir a consciência da própria história em Gramsci significa compreender de fato como se estrutura e se organiza a ideologia da classe dominante, isto é, como se dá a organização material voltada para manter, defender e desenvolver a frente teórica ideológica (GRAMSCI, 1982). Esta questão é nuclear para a filosofia da práxis. Práxis aqui entendida como a objetivação do homem, domínio da natureza e como realização da liberdade humana (KOSIC, 1996). Práxis aqui considerada no sentido atribuído por Marx (BOTTOMORE, 1997), como atividade criadora, criativa e autocriativa, em que os seres humanos transformam a si mesmos e o mundo humano e histórico.

Segundo Monasta (2010), para Gramsci, a ―filosofia da práxis‖ é uma expressão autônoma que define, em seu entendimento, o que é uma característica central do legado de Marx: o vínculo inseparável entre a teoria e a prática, o pensamento e a ação. Segundo Gramsci, a originalidade da ―filosofia da práxis‖ assenta-se no fato de que é a única ―ideologia‖ que pode criticar a si própria, isto é, que consegue descobrir as raízes ―materiais‖ (ou seja, econômicas e políticas) de todas as doutrinas (incluindo, portanto, do próprio marxismo) e articular entre si, permanentemente, a teoria com a prática.

Acontece, porém, que a toda compreensão de algo corresponde, cedo ou tarde, uma ação. Captado um desafio, compreendido, admitidas as hipóteses de resposta, o homem age. A natureza da ação corresponde à natureza da compreensão. Se a compreensão é crítica ou preponderantemente crítica, a ação também o será. Se é mágica a compreensão, mágica será a ação.

Em nossa pesquisa, percebemos que as formações junto aos Empreendimentos Econômicos Solidários levaram alguns dos sujeitos participantes destes a esta compreensão

do contexto, a partir de uma atividade reflexiva, para uma ação transformadora daquela realidade, como podemos entender melhor a partir dos seguintes depoimentos:

Olha, hoje posso te dizer que fui privilegiada, por passar por tantas formações no meu grupo de produção. Não sei te dizer dos demais meninos, mas eu fui privilegiada por isso e hoje tenho um processo refletivo, mais do que antes. Hoje eu entendo que cada formação foi necessária para que o grupo pudesse se fortalecer nesse sentido. Hoje é claro que eu não falo tudo aquilo que falava antes, é notória a minha mudança, hoje sou outra pessoa que pensa mais antes de agir. Então, desta forma, pude atuar melhor em minha comunidade, refletir nas melhores ações para desenvolvê-las, para empoderar cada pessoa que ali vive. Fico feliz em fazer com que cada pessoa se sinta dona da comunidade. Sou significantemente melhor (ENTREVISTADA, 8, grifo nosso).

As formações foram fundamentais para meu crescimento pessoal. Se hoje eu reflito melhor sobre uma ação em minha vida, foi pelas formações que tive no processo de grupo. Não sei como eu seria hoje e onde eu estaria sem esse exercício de reflexão e ação. Hoje estou cada vez mais lutando pela minha comunidade, pelas pessoas que aqui estão e, agindo com reflexão, os ganhos para minha comunidade têm sido consideráveis (ENTREVISTADO, 10, grifo nosso).

Hoje, percebo que nós mulheres paramos para pensar. Antes pensávamos assim: ‗Não, a gente tem que produzir‘. Mas hoje, pensamos que antes de produzir tem que pensar. Vamos pensar na semana anterior. Vamos ver. Vamos planejar. Então assim, hoje é uma coisa que acontece naturalmente. Então você vê que percebemos a importância de estar sentando, que era o que antes era uma dificuldade até de conversar mesmo que não fosse na cozinha. Então se senta, se conversa, se troca, se planeja, então a coisa hoje acontece naturalmente. E o melhor, levamos esta prática da reflexão e ação para a vida, não fica só aqui dentro do grupo, isto é o mais rico. Assim, conseguimos atuar em comunidade de outra forma, com transformações da realidade (ENTREVISTADA, 17, grifo nosso).

Hoje sou outro homem. Até em minha casa minha mulher diz que hoje não falo sem pensar. Aprendi a ter esse comportamento com meu grupo de produção. Estar na padaria, entre colegas de diversas idades, me fez ter mais paciência e a ser mais sábio. Posso ter problemas com leituras, com estudos, mas me considero um verdadeiro sábio hoje, pois penso antes de agir. Até com os problemas que nossa comunidade vive, agir desta forma tem me ajudado em saber como posso contribuir melhor com minha comunidade (ENTREVISTADO, 18, grifo nosso). Depois que houveram essas formações, elas começamos a assumir o centro de produção de vestuário do bairro e começamos a criar nosso próprio caminho O processo das formações nos ajudou a nos colocarmos melhor na comunidade, em nossas famílias, em sociedade. Hoje não temos vergonha de entrarmos ou sairmos de lugar algum. Hoje eu sei fazer uma leitura do nosso contexto político. O processo de reflexão e ação nos ajudou em tudo isto (ENTREVISTADA, 21, grifo nosso).

Percebemos o sentido dessas formações para esta aprendizagem reflexiva da realidade, um sentido que vai de uma transformação pessoal e coletiva, entendendo o coletivo aqui desde a convivência no próprio grupo de produção, mas de forma prioritária, na ação transformadora dessas pessoas em suas comunidades. No ato de se sentirem donas dos seus

espaços, com uma leitura mais aprofundada do contexto de exclusão em que cada uma está inserida, na busca desenfreada por possíveis soluções que venham a desenvolver em suas comunidades. Entendemos que, no processo educativo que embalava os Empreendimentos Econômicos Solidários, não havia uma desconexão entre teoria e prática, ou seja, havia uma concepção teórica, mas que partia da realidade e voltava para esta mesma realidade com determinas ações de mudanças, de transformações destes contextos de opressões.

A primeira condição para que um ser possa assumir um ato comprometido está em ser capaz de agir e refletir. Somente um ser que é capaz de sair de seu contexto, de ―distanciar-se‖ dele para ficar com ele; capaz de admirá-lo para, objetivando-o, transformá-lo e, transformando-o, saber-se transformado pela sua própria criação. Um ser que é e está sendo no tempo que é o seu, um ser histórico. Somente este é capaz, por tudo isso, de comprometer- se. Firmamos, anteriormente, que a primeira condição para que um ser pudesse exercer um ato autônomo e de forma conscientemente crítica era a sua capacidade de atuar e refletir. Segundo Freire (1979), é exatamente esta capacidade de atuar, operar, de transformar a realidade de acordo com finalidades propostas pelo homem, à qual está associada sua capacidade de refletir, que o faz um ser da práxis.

O autor ainda reforça esta ideia quando afirma que, como não há homem sem mundo, nem mundo sem homem, não pode haver reflexão e ação fora da relação homem-realidade. Esta relação homem-realidade, homem-mundo, implica a transformação do mundo, cujo produto, por sua vez, condiciona ambas, ação e reflexão. É, portanto, por meio de sua experiência nessas relações que o homem desenvolve sua ação-reflexão, como também pode tê-las atrofiadas. Conforme se estabeleçam estas relações, o homem pode ou não ter condições objetivas para o pleno exercício da maneira humana de existir.

Com base nesta afirmativa, se nos interessa analisar o processo educativo dos empreendimentos econômico solidários e o seu caráter emancipatório, teremos que reconhecer que seus componentes, antes de ser profissionais, são homens e mulheres. Todavia, existe algo que deve ser destacado. Na medida em que o compromisso deixa de ser um ato passivo, e passa a ser práxis (ação e reflexão sobre a realidade), inserido nela, ele implica indubitavelmente um conhecimento da realidade.

Ainda é neste sentido que Freire (1979, p. 10) nos chama a atenção quando afirma: Não é possível um compromisso verdadeiro com a realidade, e com os homens concretos que nela e com ela estão, se desta realidade e destes homens se tem uma consciência ingênua. Não é possível um compromisso autêntico se, àquele que se julga comprometido, a realidade se apresenta como algo dado, estático e imutável. Se este olha e percebe a realidade enclausurada em departamentos estanques. Se não a vê e não a capta como uma totalidade, cujas partes se encontram em permanente

interação. Daí sua ação não poder incidir sobre as partes isoladas, pensando que assim transforma a realidade, mas sobre a totalidade. É transformando a totalidade que se transformam as partes e não o contrário. No primeiro caso, sua ação, que estaria baseada numa visão ingênua, meramente ‗focalista‘ da realidade, não poderia constituir um compromisso.

A práxis, porém, é reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo. Sem ela, é impossível a superação da contradição opressor-oprimidos. Freire (1970, p. 29) ainda colabora com esta reflexão quando afirma que ―Somente quando os oprimidos descobrem, nitidamente, o opressor, e se engajam na luta organizada por sua libertação, começam a crer em si mesmos, superando, assim, sua ‗conivência‘ com o regime opressor‖. O autor complementa: ―Se esta descoberta não pode ser feita em nível puramente intelectual, mas da ação, o que nos parece fundamental, é que esta não se cinja a mero ativismo, mas esteja associada a sério empenho de reflexão, para que seja práxis‖ (p.29). Podemos entender, a partir do pensamento do autor, que o diálogo crítico e libertador, por isso mesmo que supõe a ação, tem de ser feito com os oprimidos, qualquer que seja o grau em que esteja a luta por sua libertação. Não um diálogo às escâncaras, que provoca a fúria e a repressão maior do opressor. Por outro lado, se o momento já é o da ação, esta se fará autêntica práxis se o saber dela resultante se faz objeto da reflexão crítica. Neste sentido é que a práxis constitui a razão nova da consciência oprimida e que a revolução, que inaugura o momento histórico desta razão, não possa encontrar viabilidade fora dos níveis da consciência oprimida. A não ser assim, a ação é puro ativismo.

Encontramos, em nossa pesquisa, alguns depoimentos que possuem este sentido de mudança de vida, de uma transformação pessoal que leva a um possível processo de liberdade de tantas situações de prisões que nossos sujeitos imbricados em cenários de opressão têm vivenciado ao longo de suas histórias:

[...] as formações mudaram minha forma de pensar e agir. Você também começa a pensar melhor, de fazer alguma coisa, pensa: será que isso vai ser bom? Será que não vai prejudicar alguém ou até o meio ambiente? Você pensa mais antes de agir. Hoje em minha vida isto faz toda uma diferença. É como se tivesse acontecido uma mudança em minha vida quando comecei agir desta forma. Me senti mais livre e mais segura em sociedade (ENTREVISTADA, 2, grifo nosso).

Olha, eu acho que essa pergunta assim mexe muito com a nossa cultura. Nós fomos educados: ou você manda ou é mandado. Ou você é patrão ou é empregado. Então, no grupo, quando a gente começou realmente a pôr em prática os princípios da economia solidária, nós começamos a entender que era possível, trabalhar em conjunto, que o ganho seria muito mais. Ao invés de eu está mandando, ditando ordens. Eu acho que é saber ouvir, escutar. Apesar de que eu falo muito. Toda vida eu tive muita liderança. Mas hoje eu já paro para escutar. Reflito antes de agir. Isso foi muito difícil porque eu era aquela tipo assim, pô: ‗É assim e ponto‘! Hoje não, sabe [...] eu procuro melhorar até meu tom de voz. Eu me policio. Agora não é fácil, pois é um aprendizado constante (ENTREVISTADA, 3, grifo nosso).

[...] as formações me ajudaram muito neste ponto. Na verdade, estão me ajudando muito, a fazer essa reflexão. Uma vez me questionaram: você não se doa demais a este grupo? Eu disse: ‗Eu acho que não, eu não me doou demais, eu acho que me transformo a cada vivência em grupo, pra mim isso está me fazendo um bem danado‘. E refletir para agir foi uma de minhas transformações (ENTREVISTADA, 4, grifo nosso).

O que nos parece indiscutível nas reflexões aqui apontadas é que, se pretendemos a libertação dos homens, não podemos começar por aliená-los ou mantê-los alienados. A libertação autêntica, que é a humanização em processo, não é uma coisa que se deposita nos homens. Não é uma palavra a mais, oca, mitificante. É práxis, que gera a ação e a reflexão dos homens sobre o mundo, para transformá-lo.

Quando o homem compreende sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio dessa realidade e procurar soluções. Assim, pode transformá-la, criando, com seu trabalho, um mundo próprio: seu ser e suas circunstâncias. Na medida em que os homens, dentro da sociedade, vão respondendo aos desafios do mundo, vão temporalizando os espaços geográficos e fazendo história pela sua própria atividade criadora. A mudança de uma sociedade de oprimidos para uma sociedade de iguais e o papel da educação – da conscientização – nesse processo de mudança é a preocupação básica da pedagogia de Paulo Freire.

O homem pode refletir sobre si mesmo e colocar-se num determinado momento, numa certa realidade: é um ser na busca constante de ser mais e, como pode fazer esta autorreflexão, pode descobrir-se como um ser inacabado, que está em constante busca. Eis aqui a raiz da educação (FREIRE, 1979), que é uma resposta da finitude da infinitude. A educação é possível para o homem, porque este é inacabado e sabe-se inacabado. Isto o leva à busca de sua perfeição. A educação, portanto, na visão do autor, implica uma busca realizada por um sujeito que é o homem. O homem deve ser o sujeito de sua própria educação. Não pode ser o objeto dela. Por isso, ninguém educa ninguém.

A mudança da percepção distorcida do mundo pela conscientização é algo mais que a tomada de consciência, que pode, inclusive, ser ingênua. Tentar a conscientização dos indivíduos rumo a sua emancipação, este, e não outro, parece-nos ser a essência do processo educativo nos Empreendimentos Econômicos Solidários, ao analisarmos, em capítulos anteriores, os princípios ligados ao movimento de economia solidária.

Assim, os processos são concebidos como práxis de aprendizagens coletivas, construção e partilha de saberes, reflexões e pesquisas sobre a (e a partir da) realidade dos

trabalhadores e trabalhadoras da economia solidária. Entendendo práxis como a inter-relação entre teoria(s) e prática(s) a partir da observação sobre a realidade, num constante movimento de reflexão e avaliação, resultando em novas ideias e ações.

A formação e a assessoria técnica são processos contínuos de promoção, apoio e fomento à economia solidária tanto por intermédio da apropriação/tradução de conhecimentos como pelo aperfeiçoamento dos processos de autogestão no interior das unidades de produção (de bens e serviços), comercialização, consumo e finanças solidárias, bem como pela construção e fortalecimento de cadeias econômico-solidárias e redes de cooperação. Envolvem a apropriação de técnicas e tecnologias sociais pelos trabalhadores da economia solidária e consideram o contexto específico em que se realiza o processo de produção e reprodução dos meios de vida.

3.3 A ESSENCIALIDADE DA EMANCIPAÇÃO: sentidos e significados para além do plano

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