Qualquer sistema de informação, automatizado ou não, deve permitir visibilidade para ambas as partes envolvidas na relação. Por isso, a arquitetura de relatórios deve ser de simples visualização e baseada nas ferramentas científicas, para auxílio na tomada de decisão, tais quais as aplicadas no tratamento dos dados, conforme consta do capítulo cinco. Nada impede que outras ferramentas de gestão sejam adotadas ao longo do processo de relacionamento. Isto é mote estratégico da relação cliente e fornecedor, proposta desta dissertação.
Num dado momento a prioridade pode mudar e o que era incentivo para o item de controle “engenharia integrada”, por exemplo, passa a ser a “redução de preços”. Esta dinâmica deve ser avaliada, periodicamente. A partir disso, as metas, critérios e elementos do relacionamento podem mudar ao longo do tempo. Esse efeito, certamente, pode afetar a estrutura dos relatórios que não devem ser alterados, unilateralmente. Fornecedores e famílias de produtos diferentes têm ou exigem relacionamentos diferentes e os critérios, uma vez definidos, só poderão ser reavaliados, bilateralmente e cada relacionamento deverá levar em conta as particularidades do objeto de contrato e do foco de aplicação da parceria.
O erCF não foca apenas a relação entre o cliente e um fornecedor específico. Este indicador estabelece o critério da relação e considera múltiplos relacionamentos com diferentes fornecedores de diferentes produtos. Normalmente, cada fornecedor possui um tipo de arquitetura de relatórios específicos. E tal arquitetura de relatório pode, muitas vezes, representar um diferencial competitivo, dependendo dos recursos tecnológicos e da engenharia aplicada para a coleta e tratamentos dos dados.
A arquitetura dos relatórios, sugerida nesta dissertação, seguirá dois critérios: 1) Modelo de gestão de suprimentos de insumos produtivos indiretos (SSK); 2) Relacionado com a métrica da relação entre cliente e fornecedor (erCF).
Enquanto os relatórios para o segundo critério serão baseados na equação matemática (ver próximo tópico), o primeiro critério deverá observar os seguintes pontos:
a) Redução de gastos: será decorrente de redução do patamar do gasto e dos projetos de melhorias que o fornecedor submeterá para aprovação do Setor de Engenharia do cliente;
b) Causas de redução de gastos: serão consideradas as reduções de preços, de horas-máquinas, tempo de usinagem, redução de refugo e de mão-de-obra dentre outras causas de melhoria de processo;
c) Relatório de produtividade e custo por peça produzida: será avaliado de acordo com a métrica de custo por peça. Esta métrica toma por base o gasto com ferramenta por peça produzida. A métrica ocorrerá a partir da composição: Desempenho do insumo, volume de produção, volume de refugo e gasto com insumos. Não inclui essa métrica a decomposição do custo com matérias-primas e energia elétrica;
d) Relatório de validação da economia: a economia será aquela reconhecida pela Controladoria do cliente, decorrente das alterações tecnológicas, melhor aproveitamento dos insumos, racionalização de itens, maior vida útil e dos projetos de aumento de produtividade validados pela Engenharia do cliente;
e) Intangibilidade dos resultados: caso a redução dos gastos não ocorra pelos
vieses mencionados nos itens anteriores, o fornecedor efetuará desconto nos preços nominais de forma a garantir a redução do patamar de gasto do cliente.
Dos critérios relacionados com o modelo de gestão de suprimentos proposto, o relatório de produtividade e custo por peça parece ser o alvo de maior interesse das partes, especialmente no tocante à construção de um algoritmo que permita sua aplicação e validação.
O algoritmo, custo por peça, também foi alvo de debates junto às organizações que praticam estratégia análoga ao modelo proposto. Na pesquisa, pôde ser verificado que, enquanto algumas dessas organizações estabelecem, como base desse indicador, o tratamento estatístico, tais como, correlação, interação e regressão dentre outros, ou se limitam à redução de custos com base na verba disponibilizada para gasto anual do departamento, outras organizações não estabelecem nenhuma métrica analítica para avaliação dos impactos da parceria no processo produtivo e financeiro.
A métrica baseada em tratamento estatístico é, particularmente eficaz, no entanto, por considerar outras variáveis do processo pode desviar o foco do insumo produtivo e seu efeito no âmbito econômico.
A métrica relacionada com a verba anual do setor demonstra grave vulnerabilidade, dado que a coordenação do projeto é subordinada ao cliente que, muitas vezes, não incentiva a aplicação das soluções para evitar o corte de verba do próximo período. Essa postura foi verificada numa montadora abordada na pesquisa. O algoritmo custo por peça, sugerido nesse trabalho, tem como propósito monitorar a evolução da redução do custo operacional decorrente da engenharia integrada entre cliente e fornecedor e considera a equação 6.1.
Cpp DiVpaPn Vpa Ct i
∏
= = 1 / ) . . ( Onde:Cpp = Custo por peça Ct = Custo total
Di = Desempenho do Insumo Vpa = Volume de produção anual Pn = Preço negociado
n = Quantidade de insumos utilizado
i = Denominação do insumo produtivo indireto.
O desempenho do insumo está relacionado com uma série de variáveis de processo, dentre outros, índice de refugo, aplicação adequada, redução de tempo de preparação de ferramentais, parametrização de máquinas, tecnologia do insumo e análise da peça bruta a ser usinada. Tais variáveis compõem a base de ação da engenharia integrada entre cliente e fornecedor e constituem o foco das soluções técnicas oriundas da parceria. Assim, a aplicação da equação do custo por peça pode ser ilustrada na tabela 6.1.
O desempenho do insumo original de 0,005 indica que cada ferramenta é capaz de produzir 200 peças do produto do cliente. O volume de produção anual indica a quantidade de insumos necessários que o cliente deverá efetivamente pagar. O gasto total do cliente está relacionado com o preço negociado, multiplicado pela quantidade consumida. O custo por peça está relacionado com o volume de produção anual.
O desempenho do insumo proposto apresenta vantagem em termos de produtividade, ou seja, 0,0017 indica que cada ferramenta produzirá pelo menos 600 peças do produto do cliente. Tal fenômeno pode ser decorrente da melhoria de processo do cliente com o emprego de nova (6.1)
Tipo de Insumo Desempenho do insumo Volume prod.anual Qtde de insumo Preço
Negociado Gasto anual
Custo por peça Original: Bedame 3.900010 13E - Corte tubos ( 1 Aresta) 0,005 7.200.000 36.000 35,35 1.272.600 0,1768 Proposto: Bedame 9150 IC13E - Corte tubos ( 2 Arestas) 0,0017 7.200.000 12.240 21,50 263.160 0,0366
tecnologia e da engenharia integrada. O fornecedor deverá garantir a aplicação dos insumos através de sua equipe técnica e o abastecimento do volume, mais um coeficiente de estoque de segurança negociado entre as partes, que deverá ser mantido em sua filial dentro do estabelecimento ou planta produtiva do cliente.
O algoritmo de validação do custo por peça está relacionado com a economia anual esperada pelo cliente. Tal algoritmo pode ser representado na equação 6.2.
n Ceam Ver Vpm CPPssk CPPo EAE={[( − ). ]+( . )}. Onde:
EAE = Economia anual esperada Cpp_O = Custo por peça original Cpp_SSK = Custo por peça SSK Vpm = Volume de produção mensal Ver = Valor do estoque reduzido Ceam = Custo estoque ao mês n = Período de 12 meses
O gasto original total é verificado a partir do produtório do volume de insumos comprados e preços do contrato original. Já o gasto negociado total é o produtório do novo patamar de volume de insumos (determinado pela engenharia integrada cliente e fornecedor) e preços decorrentes da parceria baseada no SSK. O custo por peça original é verificado na fase do mapeamento do processo do cliente. O resultado da aplicação desse algoritmo pôde ser verificado, quando da implantação do modelo em uma das plantas de produção da organização objeto de elaboração e implantação do modelo. O exemplo de tal aplicação pode ser verificado na tabela 6.2, cujos valores são expressos em unidade monetária brasileira (REAL).
(6.2) Tipo de Produto Custo por peça original (CPPo) Custo por peça proposto (CPPssk) Volume de produção mensal (Vpm) Economia mensal Volume de estoque reduzido Custo de estoque ao mes (Ceam) Economia anual esperada (EAE)
Pistões para motores
automotivos 0,1768 0,0366 600.000 84.120 600.000 12.000 1.153.440
O algoritmo custo por peça (equação 6.1) e o da economia anual esperada (equação 6.2) são relevantes para o estabelecimento das métricas de monitoramento das ações decorrentes da parceria. Durante o desdobramento da pesquisa, alguns integrantes da organização cliente aventaram a possibilidade de que custos com redução com mão-de-obra técnica e de logística poderiam integrar a equação 6.2. Contudo, não se verificou ação desta natureza, quando da aplicação do modelo proposto.
Não é propósito desta dissertação discorrer sobre a elaboração e aplicação dos relatórios técnicos e de apontamento das ações, e sim, demonstrar o foco que esses relatórios deverão observar. A arquitetura, em si, pode variar de empresa para empresa, mas a essência do foco deve seguir o custo por peça e a economia anual esperada, propostos nesta dissertação junto com as metas de processo e econômicas. O SSK_erCF sugere, contudo, a elaboração de arquitetura de relatórios padronizados e de simples compreensão, que foquem cada produto como um negócio sustentável com análise de rentabilidade individualizada e distintamente. Isso contribui para detectar os ganhos e prognóstico das oportunidades de melhorias, bem como identificar perdas e ajustar o sistema de forma a focar as soluções oriundas da relação.