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Já se referiu que os comportamentos de risco adoptados na adolescência podem ter um impacto na saúde, quer a curto quer a longo prazo. Entre eles inclui-se o consumo de tabaco (Dowdell, 2002), que é geralmente a primeira droga consumida pelas crianças e adolescentes (American Academy of Pediatrics, 2001b). O comportamento tabágico inicia-se geralmente na adolescência (Melchior et al., 2008; WHO, 2005c; Godeau et al., 2004; Bree et al., 2004; Emmons et al., 1998) e poucas pessoas se tornam fumadoras depois dos 18 anos (WHO, 2005c; Vitória, 2004; American Academy of Pediatrics, 2001b; United States Department of Health and Human Services, 1994). Quanto mais tarde se iniciar o hábito, menor é o risco do indivíduo se tornar adito.

Adolescentes fumadores têm mais tendência para serem adultos fumadores. Macedo e Precioso (2006, p 525) referem que “o maior risco que os adolescentes correm quando começam a fumar é o de ficarem dependentes do tabaco, muitas vezes para a vida inteira, podendo mais tarde vir a sofrer das inúmeras e graves patologias atribuídas ao tabagismo”.

A prevenção do início do consumo de tabaco na infância e adolescência é crucial (Fritz, 2000), porque os estudos evidenciam que as crianças e os adolescentes se podem tornar dependentes da nicotina (American Academy of Pediatrics, 2001b) rapidamente após o início do uso (Melchior et al., 2008; Macedo & Precioso, 2006; DiFranza et al., 2000). No entanto, como referem DiFranza et al. (2000), nem todos os adolescentes que experimentam, se vêm a tornar dependentes.

O consumo de tabaco entre adolescentes pode ser reduzido (Pbert et al., 2006), ou atrasada a sua iniciação, quer pela prevenção quer promovendo a sua cessação (Hollis et al., 2005). Contudo, conforme demonstram estudos realizados desde longa data, a prevenção do uso de tabaco entre crianças e adolescentes que ainda não tenham iniciado o hábito de fumar, é preferível a esforços posteriores para abandonar o fumo (Stein et al., 2000; Mcalister et al., 1979).

As estratégias de intervenção para adolescentes têm-se baseado mais na prevenção da iniciação do que na cessação (Shelley et al., 2005), até porque uma vez iniciado, o uso é muitas vezes difícil de combater (Irwin, 2004). Leatherdale e McDonald (2005) e Leatherdale (2008) referem que muitos adolescentes fumadores gostariam de deixar de

fumar e que já tinham feito tentativas nesse sentido (Leatherdale & McDonald, 2005). A cessação do consumo entre adolescentes continua a ser uma prioridade a nível de saúde pública (Leatherdale, 2008; Pbert et al., 2006). Um importante benefício das políticas anti- tabaco é poderem contribuir para desincentivar as crianças e os jovens de começar a fumar.

A evidência científica demonstra de forma inequívoca que fumar, activa ou passivamente, é prejudicial à saúde em todas as fases do ciclo vital. O consumo de tabaco induz dependência física e psicológica na grande maioria dos consumidores (Nunes, 2006) e é responsável por cerca de 5 milhões de mortes todos os anos, constituindo a primeira causa de morbilidade e mortalidade evitáveis nos países desenvolvidos (Nunes, 2006; Soares, sd). É a maior causa de morte evitável nos Estados Unidos (Robinson et al., 2004) e em todo o mundo (Nunes, 2006), sendo responsável por mais de 14% de todas as mortes na região europeia (WHO, 1999a). No relatório sobre a saúde no mundo, a OMS diz que em 2000 o número de mortes atribuíveis ao consumo de tabaco foi de 4,9 milhões, o que representa um acréscimo de 1 milhão relativamente a 1990, sendo este aumento superior nos países industrializados. Prevê, ainda, que se não forem instituídas medidas efectivas de prevenção e de controlo, em 2030 morrerão cerca de 10 milhões de pessoas em resultado deste consumo, 70% das quais nos países em desenvolvimento (WHO, 2002d).

De acordo com as estimativas mais recentes da parceria entre a European Respiratory

Society, a Cancer Research UK e o Institut National du Cancer (França), morrem

anualmente mais de 79.000 adultos em consequência do tabagismo passivo nos 25 países da EU (CCE, 2007), ocorrendo a maioria das mortes no adulto médio. As doenças crónicas causadas pelo consumo do tabaco afectam a qualidade de vida do fumador e da família (WHO, 2005c).

O consumo de tabaco constitui um risco para todos os órgãos e sistemas corporais (Nunes; 2006), é uma causa maior para doença cardíaca, AVC, cancro do pulmão e doença pulmonar crónica obstrutiva (Nunes, 2006; American Academy of Pediatrics, 2001b; Fritz, 2000), estando todas elas entre as principais causas de morte (Silver, 2001; U. S. Department of Health and Human Services, 2000a). Prevenir que os adolescentes comecem a fumar é a chave para reduzir as mortes e as doenças provocadas pelo uso de tabaco. Os fumadores apresentam piores indicadores de saúde do que os não fumadores e uma esperança de vida menor (Nunes, 2006). Parar de fumar reduz os riscos associados ao consumo e à mortalidade prematura e tem benefícios em qualquer idade, tanto maiores quanto mais cedo se verificar o abandono (Nunes, 2006).

Estilos de vida e comportamentos de risco na adolescência

49 Embora a morbilidade e mortalidade na adolescência, devido ao tabagismo, seja baixa (Irwin, 2004), há algumas consequências para a saúde, a curto prazo, do consumo de tabaco, como os problemas do sistema respiratório, a dependência da nicotina (American Academy of Pediatrics, 2001b) e o risco de associação de outras drogas (Dowdell, 2002). Não se podem no entanto avaliar somente as consequências a nível da saúde física, devendo avaliar-se também as consequências a nível social, pois, como referimos anteriormente, há uma associação positiva entre o consumo de tabaco e de álcool, e outros comportamentos de risco, como os acidentes de viação, aumento da violência contra terceiros e aumento das taxas de suicídio.

Emmons et al. (1998) referem que os estudos realizados nos Estados Unidos demonstram que a prevalência de fumadores se tem reduzido, muito embora esta redução seja mínima nos adolescentes. Ainda assim, (Grunbaum et al., 2004) informam- nos que naquele país, entre 1991 e 2003, o número de adolescentes considerados como fumadores habituais diminuiu de 70,1% para 58,4%. Na Europa, a prevalência de adolescentes e jovens fumadores é de 23% a 47% no sexo masculino e 18% a 46% no feminino (Steptoe et al., 2002).

Shelley et al. (2005) consideram fumador todo o adolescente que refere ter fumado mais de 20 cigarros nos últimos 30 dias e Irwin (2004) diz que um fumador regular é aquele que fumou pelo menos um cigarro por dia, nos últimos 30 dias. Não há níveis seguros de exposição ao fumo de tabaco (Borges, 2004a). DiFranza et al. (2002) provaram que as crianças e os adolescentes se tornam dependentes da nicotina mais facilmente do que os adultos e com quantidades de tabaco muito baixas: dois cigarros por dia durante quatro a seis semanas. Bjartveit e Tverdal (2005) comprovaram que consumos de um a quatro cigarros por dia estão associados a um aumento de mortalidade por todas as causas e por doença isquémica cardíaca, em ambos os sexos, e a um aumento da mortalidade por cancro do pulmão, mais acentuado nas mulheres, o que confirma o princípio de que não há níveis seguros de exposição, uma vez que os considerados fumadores “suaves” também enfrentam riscos para a saúde. As raparigas ficam mais facilmente viciadas em nicotina do que os rapazes (DiFranza et al., 2002; Fritz, 2000), surgindo os sintomas de dependência nas raparigas três semanas depois de terem fumado o primeiro cigarro, face a 25 semanas, no caso dos rapazes (DiFranza et al., 2002).

O consumo de tabaco aumenta significativamente em adolescentes que têm outros comportamentos de risco, como o consumo de drogas e álcool (Paavola et al., 2004; American Academy of Pediatrics, 2001b; Lintonen et al., 2001), principalmente binge

drinking1, e naqueles que não praticam desporto (Emmons et al., 1998). Matos et al. (2001a) também concluíram que os adolescentes portugueses que já experimentaram, bem como os consumidores regulares de tabaco, apresentam com mais frequência envolvimento com experimentação e consumo de álcool e drogas ilícitas.

Existe também uma associação positiva entre o fumar e o rendimento escolar, sendo no grupo de adolescentes com menor rendimento escolar e aspirações académicas, que se encontra a maior percentagem de fumadores (American Academy of Pediatrics, 2001b). Vários estudos têm examinado as relações entre os factores sociais e a iniciação tabágica nos adolescentes (Fritz, 2000). A curiosidade, a conformidade com as normas do grupo de pares e a pressão social, são as razões que mais frequentemente levam o adolescente a experimentar, enquanto o prazer e a adição são as causas mais frequentes para a continuação do hábito (Sarason et al., 1992). O facto de os amigos (Silva et al., 2006; Vitória, 2004; Dowdell & Santucci, 2004; Fritz, 2000), dos pais (Newman et al., 2008; Vitória, 2004; Fritz, 2000) e irmãos fumarem, apresenta uma associação positiva com o tabagismo do adolescente (Pirskanen et al., 2006; Taylor et al., 2004; Von Bothmer & Fridlund; 2001; American Academy of Pediatrics, 2001b; Fritz, 2000).

A influência dos amigos para o consumo de tabaco pode ser directa ou indirecta. A directa pode ser uma pressão ou um encorajamento para o consumo (Jones et al., 2004) ou simplesmente um oferecer de cigarros; a indirecta ocorre quando os pares fumam, o que constitui um modelo de comportamento e pode criar a falsa noção de que o uso pode aumentar a aceitação social (Simons-Morton et al., 2001). O ter amigos que fumam está negativamente associado com o deixar de fumar (Balch et al., 2004). Os anúncios ao tabaco (Vitória, 2004; Fritz, 2000) e os filmes com imagens de consumidores na televisão e no cinema, são apelativos para as crianças e adolescentes, podendo difundir uma falsa ideia de sucesso e influenciar o consumo (Charlesworth & Glantz, 2005; American Academy of Pediatrics, 2001b). Por outro lado, o apoio e suporte dos pais e a relação próxima com eles, são factores protectores contra os comportamentos de risco, nomeadamente o consumo de tabaco (Paavola et al., 2004; American Academy of Pediatrics, 2001b; Simons-Morton et al., 2001). O ter actividades de ocupação de tempos livres é também um factor de protecção (Pirskanen et al., 2006).

1

De acordo com http://kidshealth.org/teen/drug_alcohol/alcohol/binge_drink.html, entende-se por

binge drinking o consumo de várias bebidas alcoólicas numa só ocasião (cinco ou mais para os

Estilos de vida e comportamentos de risco na adolescência

51 No estudo que realizaram, Grace et al. (2004) identificaram que as razões que levam os adolescentes a fumar incluem o estar zangado, preocupado, sentir-se em baixo ou simplesmente querer relaxar, enquanto o respeito pelos pais, o seu apoio e envolvimento, são uma ajuda na tentativa de cessação tabágica.

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