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Annexe n° 2 : liste des personnalités auditionnées

ITER International Thermonuclear Experimental Reactor ; programme de développement

A partir da percepção de que sistemas online como websites, lojas eletrônicas, provedores de emails e sites de redes sociais estabelecem uma desigualdade de poder (no que tange ao acesso e manejo dos dados inseridos no sistema) entre as organizações e seus usuários, diversos pesquisadores passaram a observar como isto se realiza. O ideal da internet como uma grande base de dados construída na interação humano-computador também tem suas nuances controversas.

O rastreamento da navegação dos usuários através de hiperlinks em uma página, seus padrões de consumo de conteúdo, compras, tempo gasto em cada página e outros dados na relação usuário-site já engendram diversos tipos de questões concernentes à utilização destes dados. Os famosos sistemas de recomendações da Amazon63, por exemplo, foram observados como um tipo de persuasão tecnológica por B. J. Fogg (2002). Já os anúncios contextuais do Gmail e Facebook foram analisados por Fernanda Bruno (2006, 2008) como ameaças à autonomia dos usuários. Tais sistemas computacionais, automatizados, coletam o conteúdo – inclusive de emails pessoais – para correlacionar determinadas palavras e expressões com

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Tradução livre: First, electronic sensors got smaller and better. Second, people started carrying powerful computing devices, typically disguised as mobile phones. Third, social media made it seem normal to share everything. And fourth, we began to get an inkling of the rise of a global superintelligence known as the cloud.

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47 possíveis demandas de consumo. Ao apresentar produtos, anúncios e conteúdos relacionados a temas e interesses que o usuário já possui, tais sistemas automatizados limitariam o potencial de descoberta de novos interesses, culturas e gostos, enfim o ideal da liberdade da escolha e superação de constrições.

Com o crescimento do alcance do uso de sites de redes sociais propriamente ditos, órgãos regulatórios, ONGs64 e pesquisadores de todo o mundo passaram a alertar para possíveis perigos da concentração de tantos dados pessoais em posse destas empresas. Se o suposto direcionamento do acesso através de anúncios contextuais já era criticado, algumas notícias como falhas de segurança, perdas de dados e ainda venda ilegal de informações por estas empresas, acenderam ainda mais o debate. Alguns chegaram a propor, como mostra Anna Reading (2008), que o Facebook tem a CIA65 como um de seus fundadores. No início de 2010, tais preocupações ganharam novamente a mídia quando o ativista Julian Assange66 declarou que o Facebook serve como máquina de espionagem para o governo americano67.

Nestes trabalhos, percebe-se com maior freqüência a reflexão em torno de uma suposta assimetria entre um usuário atomizado e passivo frente a organizações centralizadoras, organizadas e com interesses encobertos. O que se vê no ambiente atual é uma heterogeneidade de atores individuais e organizacionais. Uma parte dos usuários estabelece relações de trocas com tais sistemas automatizados (como plataformas de anúncios) com relativo controle, enquanto outra foge à lógica destes ambientes mesmo enquanto os utiliza, através de estratégias de uso de fakes68, por exemplo. Mesmo do ponto de vista organizacional, os tipos e quantidade de atores envolvidos são mais numerosos, como mostram os mercados de comunicação em mídias sociais, aplicativos e jogos sociais.

Voltaremos ao papel das redes de interesses comerciais na existência dos aplicativos de análise da informação social no quarto capítulo. Por ora, a citação a estes trabalhos sobre vigilância online governamental, corporativa ou interpessoal nos permite entender como a

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Organizações Não-Governamentais.

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Central Intelligence Agency, agência de inteligência americana dedicada a fornecer informações estratégicas sobre a segurança nacional para os principais políticos dos Estados Unidos.

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Julian Assange é o editor do site Wikileaks, página dedicada a vazar informações privadas e confidenciais relacionadas a governos e corporações, com o objetivo declarado de ―trazer notícias e informações importantes ao público‖, como pode ser visto em sua página http://www.wikileaks.ch

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http://news.cnet.com/8301-13506_3-20059247-17.html

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48 circulação de dados, e a coleta e interpretação destes por diferentes atores individuais ou organizacionais, traz também particularidades nos ambientes interacionais online.

O entendimento dos ambientes online, especialmente quando se trata do papel do Estado, como mecanismos centralizados de vigilância comumente recorre à revisão e atualização do conceito de panóptico proposto por Bentham (1995) e popularizado por Michel Foucault (1999). Observar algumas abordagens alternativas e neologismos a partir do conceito de vigilância e do termo ―panóptico‖ nos permite entender como parte dos temas de pesquisa em torno da publicação, registro, posse e circulação de informações sobre os indivíduos se transferiu da ideia de um mecanismo de poder centralizado que observa a todos para o entendimento dos recursos distribuídos de vigilância.

A ideia de dataveillance (neologismo reunindo ―data‖ – dados em inglês – e ―surveillance‖ – vigilância em inglês) é definida por Clarke:

Dataveillance é essencialmente baseada em computadores, com a responsabilidade

do ―vigiar e reportar‖ delegada a um servo fiel e sempre alerta. É cada vez mais vantajoso para organizações pôr pessoas sob vigilância através de registros e transações, e métodos tradicionais estão sendo relegados para o papel de técnicas complementárias69 (CLARKE, 1988, p.501).

Clarke, em 1988, referia-se sobretudo a dados como transações e créditos financeiros. A partir de novas práticas de publicação consciente e voluntária dos dados pessoais na internet, André Lemos propõe que ―trata-se de reconhecer não tanto o ―data‖, que representa aquilo que é dado (fornecido), mas sim o ―capta‖, a informação digital retirada, captada pelos diversos sistemas eletrônicos disponíveis gratuitamente na internet‖ (LEMOS, 2009, p.633). Martin Dodge e Rob Kitchin explicam como os traços capta estão sendo linkados e processados por organizações:

Sombras capta estão cada vez mais sendo ligadas juntas, processadas, ‗mineradas‘ e analisadas em combinação, muitas vezes em tempo real, com o objetivo de identificar e prever consumo, comunicação e assim por diante70 (DODGE & KITCHIN, 2007).

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Tradução livre: Dataveillance is essentially computer based, with the ―watch and report‖ responsibility delegated to a reliable, ever-wakeful servant. It is increasingly cost-effective for organizations to place people under surveillance via their records and transactions, and traditional methods are being relegated to the role of complementary techniques

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Tradução livre: Capta shadows are increasingly being linked together, processed, ‗mined‘ and analysed in combination, often in real-time, with goal of identifying predictive patterns at the individual level in terms how people are working, travelling, consuming, communicating and so on.

49 Ganascia apresenta o conceito de catopticon a partir da junção da palavra catoptrics (estudo da reflexão da luz e espelhos) com o de panóptico. Para o autor, a sociedade em que vivemos é caracterizada por considerável transparência e a co-existência da vigilância e da

sousveillance (2009, 2010). Apresentando o conceito de sousveillance, Steve Mann e

colaboradores explicam que

Um modo de desafiar e problematizar tanto vigilância quanto a concordância com esta é ressituar essas tecnologias no controle dos indivíduos, oferecendo tecnologias panópticas para permitir que observem aqueles em posição de autoridade. Nós chamamos esse panóptico inverso de ―sousveillance‖ a partir das palavras em francês ―sous‖ (abaixo) e ―veiller‖, vigiar71

(MANN, NOLAN & WELLMAN, 2003, p.332).

Dessa forma, os dispositivos e métodos de vigilância são reconfigurados, especialmente no que tange à direção da observação. Tanto Ganascia quanto Mann concordam com a noção de reflexionismo que estabelece ―os processos de usar a tecnologia [de vigilância] como espelhos contra as organizações burocráticas72‖ (GANASCIA, 2009). Tanto na direção ascendente quanto na descendente a vigilância persiste, porém modificada, e se relaciona com os dispositivos tecnológicos presentes. Quanto à observação do outro horizontalmente, Anna Reading fala de uma vigilância performativa, na qual

parte do desenvolvimento da vigilância no século 21 pode ser caracterizado como envolvendo a normalização da necessidade de observar e ser observado. Essa vigilância voluntária tornou-se parte do nosso entretenimento e lazer no qual nos inscrevemos tanto para revelar-nos quando para observar outros, gerenciamento e editando perfis e ações públicas dentro do espaço eletrônico ao longo do tempo73 (READING, 2008, p.239).

Como podemos perceber através destas reflexões, a concepção de vigilância nos ambientes online é tão heterogênea quanto a própria rede: não existem esquemas fixos de relações entre as diversas entidades envolvidas. Além do entendimento das diversas

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Tradução livre: One way to challenge and problematize both surveillance and acquiescence to it is to resituate these technologies of control on individuals, offering panoptic technologies to help them observe those in authority. We call this inverse panopticon ―sousveillance‖ from the French words for ―sous‖ (below) and ―veiller‖ to watch.

72 Tradução livre: the procedures using technology as mirrors against bureaucratic organizations. 73

Tradução livre: part of the development of surveillance in the 21st century might be characterised as involving the normalisation of the need to watch and be watched. This voluntary surveillance has become part of our entertainment and leisure in which we sign up to both reveal ourselves and watch others, managing and editing public profiles and acts within electronic space over time.

50 concepções de vigilância online, podemos observar esta heterogeneidade como indicadora da importância da investigação de práticas emergentes ou minoritárias, como os aplicativos analisados por esta dissertação.