• Aucun résultat trouvé

Conforme elucidado nos capítulos anteriores, a dinâmica científica que consolida uma tradição de pesquisa comporta as dimensões epistemológica, axiológica, metodológica e ontológica. No caso específico do TE, além de contemplar de forma autoimbricada tais dimensões, apresenta, no mínimo, quatro elementos que atuam de forma articulada, não linear e simultânea como estruturantes, isto é, como constituidores46 e constituintes das características que fazem do TE uma espacialidade apropriada pelos saberes/fazeres do campo científico, sendo eles:

46

Constituidores e simultaneamente constituintes, porque o TE só existe como tal com a presença destes elementos que, ao mesmo tempo, lhe dão identidade e conteúdo.

 Os coletivos sociotécnicos – são os agregados de atores sociais ou agentes47 , conforme aponta Bourdieu (2015), as entidades de ensino e pesquisa, fundações, agências (financiadoras e reguladoras), programas de ensino e de pesquisa, os recursos técnicos, estruturais e financeiros, entre outros, que, em redes sociais heterogêneas, compõem as condições estruturais (objetivas e subjetivas) do fazer ciência num dado campo científico. Podemos sintetizar apontando que fazem parte desse elemento todos e tudo o que, com suas interações, atuam em redes diretamente na constituição, manutenção e disseminação do TE, seja no papel de formadores/consumidores da episteme, seja estabelecendo ou transgredindo fronteiras disciplinares, seja, ainda, elegendo consensos e controvérsias. No entanto, o principal mecanismo de constituição dos TEs é a dinâmica da produção, distribuição e consumo do discurso científico.

 A episteme – Tomamos como referência o ponto de vista de Foucault (2017), por isso, no TE, a episteme representa a rede discursiva que ordena/explica/justifica a conexão entre conteúdos (saberes), práticas (fazeres), pressupostos filosóficos (perspectivas epistêmicas) e pensamentos, sendo vinculada à situação

geográfica, representando as possibilidades de existência de determinado

‘saber’ ou de um campo científico. Em outros termos, caracteriza o substrato de onde estabelece a configuração dos saberes e do saber-fazer, consubstanciado em estruturas discursivas que fazem parte do conhecimento científico ou acadêmico que estruturam os TEs. Nessa ótica, as produções científicas dos e nos coletivos sociotécnicos (principalmente as teses, dissertações e artigos científicos) são concebidas como corpus de investigação, pois contemplam, além dos procedimentos retóricos utilizados pelos pesquisadores, a episteme legitimada no discurso científico numa dada espacialidade.

 As fronteiras epistêmicas e suas transgressões disciplinares – Indicamos as linhas fixas ou móveis que estabelecem as delimitações e/ou zonas de

47

Assim como o habitus científico, pois “um cientista é a materialização de um campo científico, e suas estruturas cognitivas são homólogas à estrutura do campo, por isso, constantemente ajustada às expectativas inscritas no campo. As normas e princípios que determinam, se quisermos, o comportamento do cientista, só existem como tal, ou seja, como instâncias eficientes, capazes de orientar a prática dos cientistas no sentido da conformidade às exigências de cientificidade [...]”. (BOURDIEU, 2015, p. 62)

confrontos estabelecidas (epistemológica e historicamente) na interface entre os campos científicos e acadêmicos, pelos coletivos sociotécnicos, com outras ciências (externas) ou no âmago do mesmo campo, demarcando os subcampos disciplinares e estabelecendo seus TEs. A demarcação externa institucionaliza a identidade científica, dá unidade ao pensamento científico, pois estabelece os liames e transgressões entre as diferentes áreas de conhecimento, ao passo que podem oferecer uma noção de consistência a seus conteúdos, ideias e discursos, assim como legitima e consolida determinados campos científicos. A fala de Hissa (2002, p.13-14) ilustra bem esse elemento:

A geografia, tal como todas as disciplinas entendidas como científicas ou não, tem sua existência e seu significado condicionados pela fuga de seus territórios, edificados ao longo da história da modernidade. Não há geografia sem transgressão de suas próprias fronteiras, assim como não há, em qualquer outra disciplina, ausência da contínua ultrapassagem de seus próprios territórios, tão sonhados como rigidamente demarcados.

 Os consensos e controvérsias – atribuímos aos acordos ou desacordos (embates) estabelecidos pelas relações de poder/saber/fazer dos e nos coletivos sociotécnicos no campo científico ou que envolvem a temática. Estão relacionados às convergências e divergências de pressupostos filosóficos, perspectivas epistêmicas, metodologias e teorias, entre outras questões técnico- científicas que se entrelaçam no processo produtivo do campo, por isso contribuem para a estruturação do TE. Sua elucidação compõe a dimensão política no estudo do campo científico, pois é um fenômeno que se revela como produto das relações poder/saber/fazer, que performam e coexistem nas e das interações (internas e externas) dos atores sociais dos e nos coletivos sociotécnicos, sejam eles oriundas das orientações, das aulas, das leituras ou indicações teórico-metodológicas, que permeiam, informam e impactam o fazer científico.

Portanto, desvelar a organização espacial e epistemológica de um saber, pela análise das determinações (articulações) de ordem teórica e metodológica das especificidades e espacialidades do conhecimento científico oriundo da produção, distribuição e consumo do discurso científico – análise geográfica do desenvolvimento científico – é compreender a configuração dos elementos estruturantes do TE na condição de fenômeno geográfico contemporâneo. O que precisa ser feito, numa perspectiva processual e relacional, e implica, ainda,

considerar a complexidade de suas múltiplas dimensões, a exemplo das dimensões: epistemológica (sistema explicativo, estatuto e identidade científica etc.), sociológica e política (atores, interações, redes sociais, relações de poder, círculos de afinidades etc.) e geográfica (espacialidade, geolocalização, distribuição no espaço).

E por fim, a questão agora é: Por que e como os programas de pós- graduação em Geografia - PPGG consolidam, nutrem e propagam TE no pensamento geográfico? Sustentamos que os PPGG, além de absorverem, replicarem e envolverem a espacialidade, se articulam através das interações das ideias dos atores sociais e/ou dos coletivos sociotécnicos na dinâmica de produção, distribuição e consumo do discurso científico, como, por exemplo, na realização da formação de pesquisadores, nas produções intelectuais, na participação de eventos técnicos e científicos, nas redes e/ou grupos de pesquisa (formais ou informais), nos programas de pesquisa/agendas de pesquisa (principalmente através das áreas de concentração e linhas de pesquisa) e nas disciplinas ofertadas. Isso porque acabam por valorizar determinadas áreas em detrimento de outras, institucionalizar temas/problemas, priorizar perspectivas epistêmicas e favorecer práticas e estruturas discursivas, que legitimam a formação conceitual teórico-metodológica e epistemológica. Em outros termos, a interseção temporalidade, espacialidade e especialização de um saber é um fenômeno oriundo da produção, distribuição e consumo do discurso científico dos coletivos sociotécnicos, pois os TEs formam e são formados por redes de significações estabelecidas pelas ideias dos atores sociais e/ou redes discursivas que consubstanciam uma episteme, pelos conglomerados e/ou barreiras epistemológicas que estabelecem os domínios e fronteiras epistêmicas e pelos embates técnico-científicos, que, conforme desvelamos na seção, são elementos estruturantes que, articulados, nem sempre são comensuráveis, mas, com certeza, consubstanciam, nutrem e propagam TE no fazer científico.

Para ilustrar nosso ponto de vista, com a representação da macroestrutura da espacialização e especialização na Geografia brasileira, desvelada nos rastros digitais dos programas de pós-graduação. Para sua elaboração, utilizamos como campo empírico as produções intelectuais dos programas de pós-graduação em Geografia - PPGG, disponíveis na plataforma

digital “Catálogo de Teses e Dissertações da Capes”48

, de 01 a 30 de maio de 2018. A totalidade dos resultados indicados na plataforma reflete o discurso geográfico legitimado no período de 2012 a 2018.

A macroestrutura dos TEs na ciência geográfica, consubstanciados pelos nove subcampos disciplinares, obtidos pela categorização das produções intelectuais em Geografia Regional, Cultural, Urbana, Escolar, Agrária, da População, Política, Econômica e Ambiental, reflete uma especialização desvelada pelos temáticas abordadas, assim como pelas inscrições dos próprios coletivos sociotécnicos quando disponibilizam as obras na base de publicação científica digital da Plataforma Capes.

Na especialidade expressa pelos subcampos disciplinares, é notória a concentração em determinados PPGGs, espacialidade que, na dinâmica de produção, distribuição e consumo do conhecimento científico, torna os coletivos sociotécnicos produtores de perspectivas epistêmicas, geralmente fundamentadas pelas próprias referências teóricas, por vezes desconhecendo outras epistemologias de situações geográficas específicas, um lócus legitimado e simultaneamente legitimador dos saberes da Geografia, pois a ciência, na condição de produto humano e social, é “sempre eivada de política e embebida de valores político- filosóficos, interpretações, termos, conceitos, classificações e tipologias, que trazem preferências ou, no mínimo, um lugar de enunciação, lócus da produção discursiva” (SOUZA, 2015, p. 11).

Diante das especificidades que caracterizam o conceito TE, ele se revela num fenômeno cuja elucidação, pela ciência geográfica, pode trazer contribuições significativas para compreender a reflexividade da especialidade e da espacialização no fazer científico contemporâneo. No mesmo sentido, indica o potencial para explicar o que justifica a existência de posições metodológicas e/ou epistemológicas específicas em determinados lugares e outros não, pois desvelam distinções e similitudes no desenvolvimento espacial de um saber em um dado campo ou subcampo científico. No próximo capítulo, centralizar os nossos estudos em torno na territorialidade dos coletivos sociotécnicos (PPGGs) e na episteme do TE da Geografia Física contemporânea.

48

4 Da territorialidade dos programas de pós-graduação ao Território

Epistemológico da Geografia Física

[...] as fronteiras espaciais, sejam elas simbólicas ou físicas, inserem-se na pauta de discussão da Ciência, que, portanto, afetam as disciplinas e seus currículos universitários; a questão da transmutação dos conceitos e categorias, no caso, as espaciais, o que está conduzindo a uma transterritorialidade epistêmica, acompanhada de uma postura pós-disciplinar. (VITTE, 2011b, p. 10)

A fala de Vitte (2011b) na epígrafe nos remete ao pressuposto de que a pós-graduação, principalmente no Brasil, configura-se num modelo de organização social que reflete os imperativos da modernidade reflexiva, bem como da história política e econômica nacional e global, e que seus impactos repercutem na produção científica e tecnológica no país e nas tendências da educação nacional. Nossa premissa é que a evolução epistemológica da Geografia Física no Brasil foi consolidada pela territorialidade dos PPGGs, no decorrer do século XX.

Nessa ótica, este capítulo, à luz da Arqueologia do Saber proposta por Foucault, tem como intuito descrever a territorialidade dos Programas de Pós- Graduação em Geografia - PPGGs no Brasil que contribuíram para a formação da

episteme da Geografia Física brasileira, bem como desvelar a episteme do seu

Território Epistemológico. Assim, entende-se que existe uma “autonomia relativa” dos PPGGs diante deste cenário e, por isso, para alcançar o objetivo geral desta tese, compreender a evolução e o território epistemológico da Geografia Física contemporânea no país implica a necessidade de pensar criticamente a territorialidade dos coletivos sociotécnicos (PPGGs) no espaço nacional e dela construir as categorias especificas e derivadas utilizadas para desvelar a episteme. Isso porque consideramos territorialidade segundo a perspectiva apontada por Hesbaert (2009, p. 626):

Territorialidade em seu sentido mais amplo, já que não se trata, obrigatoriamente, da territorialização concreta realizada. O que não quer dizer que ela seja menos importante, pois, dependendo do contexto, essas significações construídas por referência a um espaço, ainda que simbólico e/ou historicamente datado, [...] podem ser fundamentais na constituição do poder do grupo social. Embora todo território tenha uma territorialidade (tanto no sentido abstrato-epistemológico de qualidade ou condição de ser território, quanto no de sua dimensão real simbólica), nem toda

territorialidade – e o mesmo se diria da espacialidade – tem i um território (no sentido de sua efetiva realização material)

Nosso argumento é que cada programa de pós-graduação representa um coletivo sociotécnico (composto por grupos sociais, um entorno, dispositivos técnicos e financeiros) que, no contexto de uma instituição universitária localizada, estabelece relações de saber/fazer/poder entre si e com outros PPGGs. Tais pressupostos articulados podem ser sistematizados em perguntas, a saber: Como a trajetória da pós-graduação em Geografia no Brasil contribui para a formação do Território Epistemológico da Geografia Física? E quais as mudanças e permanências, bem com as características do Território Epistemológico da Geografia Física, tomando como referência empírica a produção intelectual dos PPGGs? Questões a que nos propomos responder ao longo deste capítulo com o auxílio da reflexão teórica contemplada nos capítulos anteriores.

Documents relatifs