7.2 Functional Architecture
7.2.2 IPTV Terminal Device Interfaces
Entende-se ser possível chegar a momentos reflexivos por um processo mental de apreensão das experiências vividas. Esta apreensão passa por um refinamento de sensibilidade perceptiva inteligível ora mais intuitiva e ora mais racional. Atentou-se para a ingenuidade e o imediatismo no revivescimento dos momentos/movimentos/situações que poderiam levar a uma descrição elementar a priori.
Nas leituras de micro-facetas ou ângulos da realidade das organizações de enfermagem tentou-se deixar meio de lado a abordagem fiincionalista de concepção totalizante da rede de relações dos fatos sociais que privilegia os aspectos estruturais através de seus elementos constitutivos e sim voltar-se mais para o pontuar aspectos observados e sentidos no vivido do dia-a-dia destes sistemas organizacionais alguns não ligados a sua estrutura formal e outros fortemente estruturados mas que acontecem num cimento social ou numa trama social de múltiplas leituras de compreensão analítica deste pluralismo societal.
A relação parte e todo é extrapolada ao se cair na complexidade dos aspectos ou pluralismo de aspectos cujos modelos holográfícos, estruturas dissipativas e/ou conjuntos difusos em inteligência artificial (sistema especialista difuso), não conseguem dar conta da apreensão das especificidades do sentido e do vivido.
Nesta trajetória não houve o estabelecimento sistemático de objetivos e sim a construção do mesmo a deriva, numa tentativa de exercício de auto-organização como propriedade do cérebro de arranjar, numa certa ordem, as percepções ou informações que consegue armazenar e re-produzir. A deriva é entendida aqui como uma resposta mental contínua às influências do mundo do conhecimento em constante evolução, ou ainda, uma resposta mental ao se deparar com as contingências desta trajetória. A criatividade a cada passo é importante no aguçar o pensamento evolutivo e reflexivo do autor, alimentada pela
riqueza de percepções e dinamizada pelas propriedades complexas do cérebro no exercício do pensar reflexivo.
Portanto, tratou-se de um caminho de combinação singular de passos, ritmos e direções próprias de cada momento/espaço. O fluir, ou emergir, ou perceber conteúdos nestes tempos/ondulações foram permeados por sentimentos/sensações/vontades culminando em momentos de reflexividade que puderam ou não possibilitar uma nova ordem ou novo fluxo de pensamentos/conhecimento ou mesmo o desencadear de outras leituras da realidade.
A possibilidade de se obter algumas noções da complexidade e do cotidiano partiu, principalmente, do meu entendimento de alguns pensamentos de Morin aproximados por outros de Maffesoli, sem a preocupação com a universalidade de entendimento destes pensamentos. Estas noções emergiram do exercício do pensar reflexivo ou por momentos de reflexividade olhando para pontos da realidade ainda por algumas "janelas" ou "flashes", recortando e pontuando facetas multifocais de espaço/tempo/momento/situação/movimento- ondulações aparentes ou ocultos ou vazios, vagos ou obscuros do aqui e agora.
Entende-se que o sistema organizacional de cuidado de enfermagem na sua diversidade e pluralidade configura facetas, perpassadas por "visões" e "vivências". Estas se abrem ao se atentar para os seus aspectos ou lados objetivo e subjetivo, estruturado e desestruturado, burocrático e político, formal e informal, "luz e sombra", "energismo e vitalismo", "ruído e silêncio", "amor, não-amor e ódio", "ordem e desordem", "evento e acaso", "paradoxal, caótico e contraditório", "consciente, quasi-consciente e inconsciente", "matéria e espírito", "razão e intuição", "lógico e ilógico" e outras tangentes mais de atenção, ressaltando-se que o subjetivo, por exemplo, não é necessariamente desestruturado ou informal. Além do mais, não houve preocupação de delimitar uma totalidade do sistema ou de buscar um enquadramento da globalidade e sim de contornar ou alinhavar algumas noções pontuais da organicidade deste sistema, nas suas ondulações/movimentos, na vida cotidiana de alguns atores sociais ou dos elementos pertinentes a esta organização. E, no ser-estar junto com esta "localidade" na sua dimensão societal, foi possível obter a abertura ao pensar-refletir pelo vivendo, convivendo, sentindo, percebendo, discutindo consigo mesmo e com os atores do sistema organizacional de enfermagem. O estar presente ou ausente fisicamente nesta "localidade" não se configurou apenas como um vai e vem para permitir o avançar e retroceder das percepções e sentimentos e sim o provocar "quebras", o "embarcar em outras canoas", o "aterrissar em outros espaços", o "ouvir outros interlocutores distantes ou não de qualquer afinidade ou similaridade com esta realidade", o "deixar o coração falar" também distante, o esperar "insights" não só o
conhecimento no enfrentamento das situações mas sim atentar para o "vazio" das mesmas, para o que pode ter de diferente, de alternativo, enfim, do qual podem emergir formas ambíguas, intuitivas e criativas do pensar/refletir acontecer.
Segundo Chanlat (1992, p.28), o ser humano é um ser ativo e reflexivo. A reflexão e a ação são duas dimensões fundamentais da humanidade concreta. Através do pensar/refletir as idéias vão sendo elaboradas e re-elaboradas num emergir de múltiplos entendimentos.
Reforço com a parábola “Os sons da floresta” descrita por Kim e Mauborgne (1992), alguns ensinamentos importantes para o meu exercício do pensar, pela disciplina de ouvir o inaudível aguçando a sensibilidade frente as vivências em foco.
Os sons da floresta
No século III d.C., o rei Ts'ao mandou seu filho, o príncipe Tai, ir estudar no templo com o grande mestre Pan Ku. O objetivo era preparar o príncipe, que iria suceder ao pai no trono, para ser um grande administrador. Quando o príncipe chegou ao templo, o mestre Pan Ku logo o mandou, sozinho, à floresta de M ing Li. Ele deveria voltar um ano depois, com a tarefa de descrever os sons da floresta. Passado o prazo, Tai retomou e Pan Ku lhe pediu para descrever os sons de tudo aquilo que tinha conseguido ouvir.
"Mestre", disse o príncipe, "pude ouvir o canto dos cucos, o roçar das folhas, o alvoroço dos beija-flores, a brisa batendo suavemente na grama, o zumbido das abelhas e o barulho do vento cortando os céus". Quando Tai terminou, o mestre mandou-o de volta à floresta para ouvir tudo o mais que fosse possível. Tai ficou intrigado com a ordem do
mestre. Ele já não tinha distinguido cada som da floresta?
Por longos dias e noites o príncipe se sentou sozinho na floresta, ouvindo, ouvindo. Mas não conseguiu distinguir nada de novo além daqueles sons já mencionados ao mestre Pan Ku. Então, certa manhã, sentado entre as árvores da floresta, começou a discernir sons vagos, diferentes de tudo o que ouvira antes. Quanto mais atenção prestava, mais claros os sons se tornavam. Uma sensação de encantamento tomou conta do rapaz. "Esses devem ser os sons que o mestre queria que eu ouvisse", pensou. Sem pressa, o príncipe passou horas ali, ouvindo e ouvindo, pacientemente. Queria ter a certeza de que estava no caminho certo.
Quando Tai retomou ao templo, o mestre lhe perguntou o que mais ele tinha conseguido ouvir. 'Mestre", respondeu reverentemente o príncipe, "quando prestei mais atenção, pude ouvir o inaudível - o som das flores se abrindo, do sol aquecendo a terra e da grama bebendo o orvalho da manhã". O mestre acenou com a cabeça em sinal de aprovação.
"Ouvir o inaudível é ter a disciplina necessária para se tomar um grande administrador", observou Pan Ku. "Apenas quando aprende a ouvir o coração das pessoas, seus sentimentos mudos, os medos são confessados e as queixas silenciosas, um administrador pode inspirar confiança a seu povo, entender o que está errado e atender às reais necessidades dos cidadãos. A morte de um país começa quando os líderes ouvem apenas as palavras pronunciadas pela boca, sem mergulhar a fundo na alma das pessoas para ouvir seus sentimentos, desejos e opiniões reais."
Entende-se que este “grande administrador” representa a grandeza que flui da dimensão do espírito humano. Pela disciplina do ouvir o inaudível conseguirá ser o facilitador, o abridor de caminhos e possibilidades, atributo tão importante do líder nos dias atuais. O exercício da escuta é muito mais do que mera captação dos sons/palavras. Entende-se que a escuta atentiva passa por estes ensinamentos mesmo sendo acometida por alguns atropelamentos de disciplina, talvez pela angústia de avançar mais rapidamente ou por ouvir simultaneamente vozes, expressões ou ruídos físicos e corporais e outros, que passam pela afetividade, requerendo um tempo próprio para seu entendimento.
Sem dúvida, para este estudo esta parábola foi importante para se chegar a uma sensibilidade mais aguçada frente as subjetividades vividas em momentos singulares e sua consideração presente nos momentos de reflexividade.
Um aspecto que merece ser ressaltado é que pela comunicação escrita, se passa para o concreto (tese) um mundo de pensamentos, sentimentos e imaginações e outros, de forma muito empobrecida e fragmentada. Trata-se de uma exigência de ensino as vezes pouco prazerosa e talvez testemunho de nossa limitada capacidade criativa, inovadora e provocadora de contínuos momentos/espaços de compartilhar e socializar a dinâmica de nossos pensamentos ou construção de conhecimentos e sua sincronia com as respostas da natureza, do cosmos hoje não só vasculhados pelos físicos do plasma do universo. A arte literária, por tudo o que ela possa se aproximar das emoções e pensamentos, aguçar e volver o imaginário, ela sempre acontece após o vivido possibilitando apenas o reviver e o novo viver. A audácia de transgressão às regras talvez permitiria produção/construção de conhecimento mais discutível fazendo saber pensar pela crítica, contemplando também os pequenos momentos e os "quase nada" do pensar.
Assim, propôs-se exercitar um pensar menos compromissado com a lógica e a argumentação interpretativa e sim mais com a curiosidade e com emergir de luzes ou de idéias
dos momentos reflexivos e a partir delas buscar sua aproximação por similitude ou diversidade no que possa se consubstanciar sua essência.
Segundo Morin (1986, p. 162), "o conhecimento complexo exige de nós que: situemo- nos na situação, compreendamo-nos na compreensão e conheçamo-nos ao conhecermos". Este auto-exame passa pelo diálogo consigo mesmo e pelo diálogo com os outros..."Um pensamento que tenta se compreender precisa descentrar-se e distanciar-se em relação a si mesmo e precisa, portanto, do olhar do outro e do pensamento do outro" (p. 166), "...precisamos de uma visão poliocular e polioscópica" (p. 167).
A arte de pensar necessita da consciência permanente do problema dos limites e tarefas cegas inerentes a todo pensamento. Implica na luta permanente contra as degenerescências, fossilizações, delírios, mistificações que surgem do próprio exercício do pensamento (Morin, 1986, p. 170)... "não há, em parte alguma, uma receita para o bem pensar...e sim métodos, enquanto busca de princípios, que ajudem todos a pensar por si mesmos... O pensamento é arte e estratégia permanentes; ele só vive no e pelo repensamento permanente, a reflexão permanente" (p. 170). Morin não traz um método e nem parte à procura do método e sim aceita caminhar sem caminho, fazer o caminho no caminhar (1977, p.24-5).
O pensar o real é navegar entre a mutilação e confusão, esclerose e desvio, racionalização e irracionalidade, e contra razão/loucura (Morin, 1986, p. 142)...O pensamento simplificador/mutilador não faz caso, em suas categorias de enormes pedaços de realidade, rejeitando-os. A redução política, por exemplo, joga, de qualquer jeito, na lata de lixo, as mil facetas do mesmo fenômeno, a ambigüidade e a obscuridade da sucessão dos fatos, a existência, a subjetividade, os indivíduos, as mil alegrias, aborrecimentos, tristezas de que está entremeada a vida cotidiana... Quanto mais pobre é o pensamento, mais ele esvazia o real (p. 143).
Continuando em Morin (1986, p. 196-7), as idéias traduzem a realidade. Para atingir o concreto precisamos passar pela abstração da idéia que nos põe em comunicação com a realidade e ao mesmo tempo nos impede que nos comuniquemos com ela. A palavra, a idéia, a ideologia, a teoria podem ser até delírios. ecEstamos ainda numa noite profunda quanto ao conhecimento das relações entre o nosso cérebro/espírito, as idéias, o mundo exterior. Estamos na pré-história do espírito”. O mito apareceu com o homo-sapiens/demens como uma formação noológica, quer imaginária/simbólica, quer ideológica/abstrata que, embora podendo ser uma construção do espírito, adquire valor de realidade e/ou de verdade, porém permanecendo aquém e além da verdade e do erro.
“Pensar de maneira autônoma significa refletir sobre nossas crenças e descrenças, confianças e desconfianças...diante de riscos e de incertezas” (Morin, 1986, p.259) e ao mesmo tempo se voltar para o pensar sobre o nosso pensamento.
A leitura do cotidiano organizacional passa pela construção de idéias na socialidade, cuja amplitude e trilhas ficam por conta do evento e do exaurir as forças ou vontades em cada aqui e agora não se chegando nunca a idéias prontas ou acabadas.
A localidade focalizada de interesse/vontade está situada num espaço geográfico/simbólico de uma cidade capital de estado da região sul. Seu limite se delineia pelas dependências físicas de uma instituição de saúde, hospital geral de ensino de médio porte, no espaço de trabalho/atividades ou da prática de enfermagem de um sistema organizacional de cuidados de enfermagem.
Os tempos/momentos do transitar no ambiente/espaço da prática da enfermagem surgiram da sua dinâmica de auto-organização em ordem/desordem/interações/organização e possibilitou à minha pessoa fazer parte como agente alimentador e alimentado, criando possibilidade de relações/contatos/convívios.
O processo de auto-organização cria o novo. Apresenta-se como resultante da capacidade de fazer face às perturbações aleatórias do ambiente, por desorganizações seguidas de reorganizações internas, absorvendo, tolerando, integrando o erro e/ou ruído causadores das perturbações (Serva, 1992).
A liberdade de expressão do pensamento, idéias ou situações vivenciadas, passa pelo respeito à compreensão moral e ética dos envolvidos, no entender de que “deva estar/ficar bom para ambos os lados”. Este acordo foi acompanhado da ciência da responsabilidade mútua a partir do que foi possibilitado obter de consentimentos, quer do representante legal do sistema de enfermagem, quer das pessoas individualmente, no momento das aproximações e diálogos.
Entre o finalismo dado ao tempo e o ser-estar-junto sem finalidade ou seja, em solidariedade orgânica, o vivido e/ou o convivido se constrói e se esvazia nesta vida de todo dia, no aqui e agora, rica em conteúdos, formas, texturas, luminosidades, sons e ruídos...a biodiversidade do planeta. É obvio que não se pode ignorar os imprevistos e as reviravoltas que a ecologia da ação impõe, entendendo como Morin (1986, p.287), que a ética não pode vencer a complexidade, isto é, a pluralidade, a contradição, a incerteza, os pontos vazios. A ética contém injunções múltiplas, de níveis diferentes que podem ser complementares, concorrentes ou antagônicos. Assim, ela não escapa à complexidade antropossocial, cuja ecologia de ação escapa à ação moral. A questão da intenção em toda a ação mostra pela sua
ecologia o jogo de inter-retroações em que pode mudar o sentido e até mesmo invertê-lo pois o abismo entre a intenção e o resultado da ação foge de qualquer possibilidade de evidência. "A consciência moral é mais do que necessária, mas é mais do que precária. A boa consciência é fonte de inconsciência e a má consciência fonte de pestilências. É preciso, entretanto, navegar de uma à outra, evitando naufragar numa ou noutra. Não temos outra coisa a fazer, senão oscilar entre a má e a boa consciência"...através de uma consciência de responsabilidade que passa pela responsabilidade moral de cada um de saber ver e saber pensar o seu pensamento onde a responsabilidade não exime a irresponsabilidade da aposta, do risco, do perigo. A incerteza e a aceitação consciente da incerteza faz parte da responsabilidade, por outro lado, deixar acontecer o jogo da verdade e do erro sem transgredi-lo faz parte do jogo sagrado a ser respeitado mesmo que se viole as regras. Entre a responsabilidade e o direito à irresponsabilidade das ações há um claro-escuro, há uma zona de interferências entre o imaginário, o fantasma, a idéia, o real. Há o jogo das idéias, que ao portar a fé se dota de força terrível. "São os intelectuais que devem compreender que as idéias também são fósforos, que o jogo das idéias não é inocente, que ele deve ser sempre finalizado pelo problema da verdade e do erro, o que nos faz voltar ao problema fundamental: saber ver, pensar o nosso pensamento,...o único sobre o qual cada um pode ter poder pessoalmente", embora pouco consiga tê-lo (Morin, 1986, p.297). Assim, a "qualidade" ética do sujeito passa pelo mundo subjetivo dos valores entre a verdade e o seu relativismo, entre a consciência da responsabilidade moral e a irresponsabilidade dos riscos.
Todo este processo aconteceu nos anos 1994 e 1995-1, em momentos únicos da vida de uma organização e da existência de alguns personagens/atores sociais de um hoje que traz o ontem e sabe que contribuirá para o amanhã, mas que neste hoje está no "duplo" jogo da vida por momentos de prazer, de felicidade que também comporta o antagonismo, o ocasional, o vitalismo, ou seja não finalismo do instante vivido, quer em função dos outros, quer do próprio ator ou quer em função das coisas/circunstâncias contingenciais.
V. O RETORNO AO SISTEMA DE ENFERMAGEM: resgatando um referencial