Narradora-personagem. A voz contando a história ao espectador. Veloso (1982) comenta que no grupo de crianças de Marcação os meninos mais velhos se pronunciavam com frequência e as meninas eram mais tímidas. Em parte, isso pode ser atribuído à própria organização do meio na forma como é descrito no livro, ao mostrar as diferenças entre homens e mulheres, apreendidas desde cedo pelas crianças e refletindo nas práticas do grupo. No filme, essa ordem é invertida, e Jocélia aparece em destaque durante a reivindicação pela água gratuita.
Vanoye e Goliot Leté (2012) confirmam o predomínio da voz masculina na narração fílmica, evocada sempre como uma “autoridade”. O uso da voz torna-se um aspecto importante da representação feminina. Perrot (2005) fala da história das mulheres como uma história silenciosa, “a voz das mulheres é um modo de expressão e uma forma de regulação das sociedades tradicionais onde predominam a oralidade. Mas sua palavra pertence à vertente privada das coisas, ela é da ordem do coletivo e do informal.” (PERROT, 2005, p. 317).
Em Marcação, onde vale a palavra, a fala torna-se um elemento crucial na busca pela autonomia, tanto individual como de grupo, “assim como a voz necessita estar ancorada e um determinado corpo, o corpo necessita estar ancorado em um determinado espaço.” (DOANE, apud XAVIER, 1983, p. 461). O espaço visual construído pelo filme é preenchido pelos sons das trilhas e pelas vozes. A voz das personagens e as vozes entoadas nas cantorias e brincadeiras das crianças ocupam maior parte do tempo em detrimento da voz das autoridades. A voz diz quem é Jocélia, o sotaque forte ao dialogar com a amiga carioca, mostra sua origem nordestina. O momento no qual se impõe e enfrenta o prefeito para criticar sua atuação e desmandos na comunidade a destaca perante os moradores e a coloca como protagonista do grupo de crianças.
A “neguinha atrevida”, assim chamada pelo Inspetor, começa o filme, adulta contando sua trajetória. O próprio adjetivo marca o aspecto racial ao enfatizar a cor da pele de Jocélia e o “atrevida” ressalta sua personalidade questionadora, de alguém que incomoda e não se limita ao lugar de subalternidade esperado de uma pessoa nas condições dela. Jocélia saíra do interior do Nordeste e agora vivia no Rio de Janeiro, onde trabalha e cursa faculdade de Direito. A personagem conecta a mulher do campo e da cidade, já inserida no mercado de trabalho formal e se profissionaliza.
Nas duas fases, uma centrada em Marcação e a outra no Rio de Janeiro, os caminhos traçados por Jocélia demonstram transformações pelas quais muitas brasileiras vivenciaram, principalmente a partir das décadas de 1960 e 1970. Podemos ver, neste caso, mudanças referentes à participação no mundo do trabalho e maior inserção no ensino superior
(MURARO, 2000). No entanto, devemos considerar o trabalho desde a infância, quando estava no manguezal coletando caranguejos e ainda preparava o filé para vender.
A vida de Jocélia era marcada pela atividade precária, mal remunerada, situação compartilhada por todos de seu convívio e atingia mulheres, homens e crianças. A divisão entre ricos e pobres é parte da estrutura econômica. Não podemos deixar de lado o debate envolvendo gênero para situar os aspectos intrínsecos à realidade feminina ligando a personagem ao contexto de transformações, reivindicações e conquistas. Muitas, pautadas pelos movimentos feministas da época, influenciando na maneira dela transformar padrões de comportamento dentro do próprio filme.
A personagem apresenta características e um simbolismo além da a figura individual da mulher e ganha uma amplitude bem mais sutil do que apresentar mudanças referentes ao trabalho ou educação. Jocélia pode ser vista como uma ponte e uma ruptura, ela se mostra inteiramente ligada ao seu lugar passado quando retoma a memória e vai se construindo enquanto sujeito, narrando todo o processo vivido até chegar ali onde estava e mesmo superado, ao rever o Inspetor, sente-se incomodada por sua presença e disso vai contar para a colega de trabalho e ao espectador o motivo daquela reação. Ela agora trabalha em um centro de acolhimento para migrantes no Rio de Janeiro e lá se vê diante do algoz de outrora, agora em posição de inferioridade, mais um entre tantos nordestinos que migraram para o Sudeste em virtude da crescente industrialização decorrente do chamado milagre econômico brasileiro e condição de pobreza do Nordeste.
Quando Jocélia compartilha as próprias experiências, condensa histórias de vida de muitas mulheres de seu tempo, as migrantes do campo para a cidade, mulheres que se organizaram em grupos, associações, sindicatos rurais ou urbanos, entraram na Universidade, foram para o mercado de trabalho, mulheres solteiras e sem filhos, e passaram a vislumbrar um futuro onde a qualificação e a carreira eram possíveis. Ao mesmo tempo subentende rupturas tanto referidas a uma ordem pessoal, aparecendo nitidamente no filme por meio da paisagem, das rotinas, vestimentas, modos de falar e entra em choque com valores e perspectivas atribuídas a um tempo remoto e superado.
A personagem é uma jovem nordestina e negra, muda-se para o Sudeste e entra no curso de Direito, tradicionalmente ocupado pelos filhos das famílias da elite e a mesma alega ser uma forma de se apropriar do conhecimento das leis para não se deixar ser explorada como antes. Jocélia quer romper e ultrapassar a subordinação, da falta de conhecimento, visa tomar para si os rumos da própria vida. Se a contextualizarmos com o processo histórico da época de A árvore de Marcação, a fase da redemocratização, ela é capaz de transmitir um
sentimento de otimismo e novidade ante ao passado sisudo, silenciado, hierárquico, antigo e masculino estruturado de maneira mais forte durante a vigência do governo dos militares.