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Observamos as Provas do Exame Nacional do Ensino Médio, na área de Linguagens, Códigos e suas tecnologias, do ano de 2008 a 2017. Para fins de delimitação, analisamos, especificamente, as que versaram sobre literatura ou que fazem uso do texto literário em suas questões. Constatamos que em todas as suas edições, só há uma alusão à poesia de Augusto dos Anjos: no ENEM de 2014, tratando do poema com o maior número de ocorrências nos livros didáticos, “Psicologia de um vencido”. Vejamos a questão:

Questão 116)76

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco, Monstro de escuridão e rutilância, Sofro, desde a epigênesis da infância, A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco, Este ambiente me causa repugnância... Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco.

76 Questão extraída do ENEM - 2014, “Prova de Linguagens Códigos e suas tecnologias”, 2º Dia, Caderno 5

Já o verme — este operário das ruínas — Que o sangue podre das carnificinas Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los, E há de deixar-me apenas os cabelos, Na frialdade inorgânica da terra!

(ANJOS, A. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.)

A poesia de Augusto dos Anjos revela aspectos de uma literatura de transição designada como pré-modernista. Com relação à poética e à abordagem temática presentes no soneto, identificam-se marcas dessa literatura de transição, como

a) a forma do soneto, os versos metrificados, a presença de rimas e o vocabulário requintado, além do ceticismo, que antecipam conceitos estéticos vigentes no Modernismo.

b) o empenho do eu lírico pelo resgate da poesia simbolista, manifesta em metáforas como “Monstro da escuridão e da rutilância” e “influência má dos signos do zodíaco”.

c) a seleção lexical emprestada ao cientificismo, como se lê em “carbono e amoníaco”, “epigênesis da infância” e “frialdade inorgânica”, que restitui a visão naturalista do homem.

d) a manutenção de elementos formais vinculados à estética do Parnasianismo e do Simbolismo, dimensionada pela inovação na expressividade poética, e o desconcerto existencial.

e) a ênfase no processo de construção de uma poesia descritiva e ao mesmo tempo filosófica, que incorpora valores morais e científicos mais tarde renovados pelos modernistas.

No primeiro período do enunciado, revisa-se uma informação presente em todos os livros didáticos que tomamos nota, de que Augusto está inserido num período que não necessariamente se constitui uma “escola literária”, e sim, um hiato da historiografia literária, marcado pela transição entre elementos da poesia de final de século XIX e da prodigiosa poesia modernista, que viria a figurar na autêntica poesia brasileira. O aluno-candidato não precisaria ter qualquer experiência de leitura com o texto abordado, pelo menos não careceria de fazer grande esforço intelectivo no sentido de captar elementos constitutivos da forma do poema, cognados à fruição do sentido do texto. Por exemplo, numa tentativa breve de sugestão interpretativa, que até já apontamos anteriormente, poder-se-ia tentar conectar os vocábulos ou expressões antagonicamente metaforizadas, como “carbono” / “amoníaco”, ou

“escuridão” / “rutilância”, como representantes da natureza conflituosa e de alta complexidade do eu-lírico “vencido”, refratado como uma figura que representaria, poderíamos dizer, total estranhamento dos padrões de normalidade social, e por isso, pela inaptidão em se integrar socialmente com seus “pares”, estaria fadado à decadência, à derrota...

Não que a nossa sugestão gere, necessariamente, a “questão interessantíssima”, mas, diante da formação de leitura crítica, ou do anseio de “formação do leitor integral”, prognosticados nas legislações e documentos expedidos pelo MEC, compreendemos que a questão acima foca, prioritariamente, nas informações periféricas, como nas características gerais do período do autor e de sua arte, ou nas tendências generalizantes de escolas literárias que exerceriam influência no seu laboro poético. Deixam-se esquecer, senão, renegam a segundo plano, o texto literário e o seu artesanato, o poder inimaginável de potencialidade criativa que dele emana, sobretudo, não do que se diz, mas da forma de como se diz. Retira-se do leitor, assim, a oportunidade do prazer estético que, certamente, só a leitura literária poderia propiciar.

É evidente que a nossa explanação diz respeito a esta (única) ocorrência da poesia de Augusto dos Anjos no ENEM. Assim, por mais que haja questões desejosas de uma investidura mais estética, ou que se aproxime mais de uma experiência de leitura crítica, há no ENEM significativos avanços nas abordagens da língua, bem como reflexões voltadas à análise do discurso ou interessantes orientações de leitura que se acostam aos estudos culturais77. Prova disso é que, por boa coincidência, na mesma edição do ENEM - 2014, registramos o maior número de textos literários relacionados às questões, ainda que, como se nota, alguns tendo propósitos enunciativos e abordando componentes curriculares além da conteudística literária: “El robo” (Circe Maia) – sobre interpretação textual; “Tarefa” (G. Campos) - sobre conectivos; “Para viver um grande amor” (Vinícius de Moraes”) – sobre gênero crônica e funções da linguagem; fragmento do conto “Feliz ano novo” (Rubem Fonseca) – sobre a temática da violência e do desemprego, inclusive, em diálogo com

77Para fins de amostragem, constatamos no ENEM de 2015 (1ª aplicação), uma interessante questão sobre o

texto “À Garrafa”, de José Paulo Paes, onde se explora, metalinguisticamente, o “fazer poético”. Apontamos esta questão como um exemplo de promissora orientação de como se deve abordar a peculiaridade interpretativa do texto poético; outro bom exemplo, visto no ENEM de 2016 (1ª aplicação), é a questão que versa sobre o texto “Primeira lição”, de A. C. César, em que se aborda a ironia referenciada à construção histórica do gênero lírico, exposto como se “o fazer poético” fosse um mero advento da técnica.

o texto “A porteira fechada” (C. Martins); fragmento tematizando o cordel, de autoria de A. Vicelmo – sobre identidade cultural e resistência à tecnologia gráfica do cordel; fragmento do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis) – sobre o recurso da ironia; “Óia eu aqui de novo” (Antônio Barros) – sobre dialeto regional; “Em bom português” (Fernando Sabino) – sobre usos da língua portuguesa; além de poemas de Gregório de Matos e Manuel Bandeira – sobre elementos da sátira barroca e do modernismo, respectivamente.

Constatando a pertinente presença de tantos poetas, contistas, cronistas e romancistas no ENEM, fica-nos a indagação de “Por quê Augusto dos Anjos ser tão pouco solicitado?” Outro incômodo nosso é tentar compreender a razão de sua poética ter sido abordada de maneira tal qual já há tantos anos apresenta-se nos livros didáticos, isto é, quando não é repleta de biografismos, é mapeada por superficialidades gerais do período (“pré-modernista”). Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Mário de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Machado de Assis, Murilo Mendes, por exemplo, tiveram mais de uma oportunidade de figurarem em outras edições do ENEM, e, em alguns casos, diante de questões que podem até não atentarem para a riqueza expressiva e literalidade de seus valiosos engenhos, mas talvez tenham sido menos “injustiçados” do que Augusto, no tocante à relegação de sua leitura poética.

A reflexão que intentamos aqui nos faz também compreender que hoje é o ENEM o instrumento de acesso às vagas na universidade. Daí, diante do seu pragmatismo, com franca objetividade eliminatória de selecionar candidatos mais habilitados, pelo menos do ponto de vista quantitativo da “nota”, para “abrilhantarem” as carreiras técnico-científicas, que fomentarão o sistema mercantilista de trabalho, a leitura (crítica) torna-se dispensável. Ou, se houver tal leitura, pelo que nos parece demonstrar certo desalinhamento entre a tríade – Legislações (LDB, PCNs e OCEM) – Livro Didático – ENEM, esta prática precisa ser “ágil”, “lógica”, e, independente do tema conflituoso que se apresente à vida humana, que o texto seja “dissertativo- argumentativo”78, e não “literário”...

78 Nossa alusão crítica neste excerto diz respeito à formatação do molde textual exigido para a construção da

redação do ENEM: texto “dissertativo-argumentativo”. Como as demais questões de Língua e Literatura são inteiramente de múltipla escolha, este praticamente consiste no momento único de escrita textual. O reflexo disso é que, no Ensino Médio, diante das possibilidades práticas de construções textuais, independente do tipo ou gênero, o professor tende a priorizar esta modalidade mais tecnicista de escrita entre os alunos. Desta forma,

A poesia de Augusto dos Anjos, se partirmos hipoteticamente do raciocínio pragmático do mercado dos livros didáticos, assim como dos conteúdos programáticos que se conectam à visão geral do Ensino Médio, e, por conseguinte, do que é exigido nas questões do ENEM, talvez não se adéque a estas apressadas ou supérfluas leituras. Daí, a necessidade de situarmos alguns limites funcionais que podem ser melhor aproveitados numa escola que invista na política de projetos de leitura literária mais amplos. Isto tanto na perspectiva da extensão temporal, como na dimensão de captar um significativo olhar à seleção de textos de um dado autor, assim como na infinita possibilidade de relacionar a obra de um autor com a de outros, a fim de alargar o potencial de leitura dos jovens envolvidos.