Partie II Contributions
4.2 Investigations et démarches diagnostiques
A segunda canção autoral analisada é “Eu quero ser feliz agora”. O fulcro temático perpassa o paradoxo da denúncia, protagonizado pelo paradigma religioso cristão que dificulta o acesso à liberdade, bem como a resistência aos limites impostos ao gozo dela.
O primeiro obstáculo no contato com a felicidade é detectado no controle da liberdade, com os vocábulos ‘cantar’ e ‘sonho’. O pronome indefinido ‘alguém’ emite autoridade e mistério à ação cerceadora, ao passo que o verbo ‘deixar’ notifica o controle à liberdade. “Se alguém disser pra você não cantar / Deixar teu sonho ali pr’uma outra hora”. O último verso prorroga a felicidade para o amanhã. O vocábulo ‘sonho’ remete à felicidade, ao passo que os vocábulos ‘ali’, ‘outra’ e ‘hora’ versam sobre adiamento da felicidade para o futuro68.
Os vocábulos ‘segurança’ e ‘medo’ (este último citado duas vezes) configuram a opressão que habita o imaginário e conjugam segurança e medo, ao mesmo tempo é revelada a responsável pela ação, a divindade cristã por meio do substantivo ‘Deus’, bem como sua satisfação na coação, registrada no uso do verbo ‘adora’. “Que a segurança exige medo / que quem tem medo Deus adora”.
Nos dois versos citados ocorre intertextualidade temática com os textos simbólico- cristãos, o evangelho de Mateus69, Apocalipse70 e Hebreus71. Estas narrativas míticas dão ênfase ao temor a Deus e se cruzam com as imagens “segurança exige medo” e “quem tem medo Deus adora”, que tratam da dominação religiosa.
Os versos “se alguém disser pra você não dançar / que nessa festa você tá de fora / que você volte pro rebanho”, além de persistir com o cerceamento da liberdade, expresso nas imagens ‘não dançar’ e ‘nessa festa você tá de fora’, nota-se no vocábulo ‘rebanho’ a
68 Esse aspecto da narrativa mítica cristã é criticado por Friedrich Nietzsche (2005, p. 79-106) no livro: Humano, demasiado humano. Para o autor, a realização de toda a potência da vida repousa no agora e não no futuro. 69 “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode destruir a
alma e o corpo na geena.” (MATEUS, 10:28).
70 “As nações tinham se enfurecido, mas a tua ira chegou, como também o Tempo de julgar os mortos, de dar a
recompensa aos teus servos, os profetas, aos santos e aos que temem o teu nome, pequenos e grandes, e de exterminar os que exterminam a terra.” (APOCALIPSE, 11:18).
71 “Quem transgride a Lei de Moisés é condenado à morte, sem piedade”. (10:28). Outro exemplo, “(...) a mim
pertence a vingança, eu é que retribuirei! E ainda: o Senhor julgará o seu povo.” (10:30). E, para finalizar, “quão terrível é cair nas mãos do Deus vivo!” (10:31).
80 convergência com o evangelho de João72, que reforça a submissão à entidade transcendente por meio das imagens ‘rebanho’ e ‘ovelha’.
Toda a tirania investida pelo imaginário simbólico ascende à rebelião do eu lírico. Os substantivos ‘demora’, ‘ousadia’, ‘dia’, ‘microfone’, ‘lapela’ e ‘vida’ compõem imagens que sinalizam a rebelião, e os verbos ‘grite’, ‘joga’, ‘nascer’, ‘adora’, ‘bota’, ‘olha’ e ‘diz’ dimensionam a força do desejo de libertação que toma conta da canção em forma de rebeldia. “[...] Grite sem demora [...] se joga na primeira ousadia / que tá pra nascer o dia do futuro que te adora / e bota o microfone na lapela / olha pra vida e diz pra ela”.
O verso refrão da canção “eu quero ser feliz agora” traz a resistência, o desejo de libertação e demarca o tempo em que ocorrem. A inscrição do advérbio ‘agora’ reforça essa leitura. Mas também reforça o credenciamento a um tempo social, a hipermodernidade. Segundo Lipovetsky (2004, p. 51), nesses tempos a felicidade do sujeito não é adiada, mas realizada no presente marcado “pela primazia do aqui-agora”. O verbo ‘quero’ e o advérbio ‘agora’ comunicam de modo direto a intensa necessidade de realização existencial no presente.
Essa abordagem do questionamento aos parâmetros religiosos que tangenciam “Eu quero ser feliz agora” é estendida na canção de 2015 “A lógica da criação” – trilha sonora do longa metragem Solidões, produzido e dirigido pelo próprio Oswaldo Montenegro – lançada no disco 3x4. Os versos “o mérito é todo dos santos” e “tudo é vontade de Deus” alertam para a autoridade do poder religioso e referenciam o texto de Gênesis73, com a imagem ‘sou o Deus todo poderoso’. O verso “o erro e o pecado são meus” chama atenção para a natureza errante do homem e converge com o texto de Romanos74, por meio da imagem ‘todos pecaram’.
A resistência à coação é posta como questionamento e ironia pela intertextualidade.
Por que que Deus cria um filho Que morre antes do pai
E não pega em seu braço amoroso O corpo daquele que cai.
Os versos acima colocam em xeque o amor da divindade sobre a humanidade e a prova de afeto dada pela divindade, o sacrifício do primogênito quando enviado à terra
72 “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: devo conduzi-las também; elas ouvirão a minha voz;
então haverá um só rebanho, um só pastor.” (JOÃO, 10:16).
73 “Eu sou o Deus todo poderoso; ande segundo a minha vontade e seja íntegro”. (GÊNESIS, 17:1). 74 “Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus”. (ROMANOS, 3:23).
81 remetem ao evangelho de João75 por meio das imagens ‘Deus enviou o seu único filho ao mundo’ ‘para que o mundo fosse salvo por ele’.
Já os versos citados a seguir questionam o texto de Hebreus76 e Coríntios77, que restringem o desejo sexual ao matrimônio monogâmico heterossexual e ameaçam quem viola a norma imposta.
Se o sexo é tão proibido Por que ele criou a paixão Se Deus criou o desejo Por que que é pecado o prazer.
Os versos “nos pôs mil palavras na boca / mas que é proibido dizer” questionam o texto de Provérbios78 que disciplina o diálogo. A imagem ‘quem sabe controlar a língua é prudente’ direciona para o disciplinamento discursivo.
Sobre a ironia destacam-se os versos:
apenas não sei ler direito a lógica da criação se é ele que cria o destino eu não entendi a equação
(ora pro nobis) e a mim que sou tão descuidado
não resta mais nada a fazer
apenas dizer que não entendo meu Deus como eu amo você.
É dito que o sujeito é limitado diante da divindade. O eu lírico assume esse lugar, de sujeito imperfeito, a fim de resistir a ela valendo-se da ironia. Os advérbios ‘não’ (repetido quatro vezes), ‘tão’ e ‘como’ intensificam a ironia.
Constata-se nas canções de 2011 e de 2015 uma tematização comum: a crítica aos padrões religiosos, como também um caminho convergente de oposição a eles, a resistência. Na primeira canção, a resistência é comunicada pelo adjetivo ‘agora’, emissor de intenso desejo de realização existencial no contemporâneo. E na segunda, a resistência é transmitida também pelo advérbio, identificado nos vocábulos ‘não’, ‘tão’ e ‘como’.
Após executar a leitura de “Eu quero ser feliz agora” e “A lógica da criação”, recorda- se da canção “Sem mandamentos”, gravada no disco Entre uma balada e um blues, de 2001.
75 “Deus enviou o seu filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por
ele.” (JOÃO, 3:17).
76 “O matrimônio seja honroso entre todos e leito conjugal imaculado, porque Deus julgará os fornicadores e os
adúlteros.” (HEBREUS, 13:4).
77 “Mas, por causa da fornicação, cada um tenha a sua própria mulher, e cada uma tenha o seu próprio marido.”
(CORÍNTIOS,7:2).
78 “Quando se fala demais é certo que o pecado está presente, mas quem sabe controlar a língua é prudente. A
língua dos justos é prata da melhor qualidade, mas o coração dos ímpios quase não tem valor”. (PROVÉRBIOS,10:18).
82 Ela toma o mesmo elemento linguístico, o advérbio, como canal de representação do desejo de uma intenção, a realização existencial no presente. O vocábulo ‘hoje’ é mensageiro dessa intencionalidade explícita no campo semântico.
Hoje que quero a rua cheia de sorrisos francos Hoje que quero ver a bola da criança livre
Hoje eu vou pedir desculpas pelo que eu não disse Hoje eu quero que os boêmios gritem bem mais alto Hoje eu vou fazer barulho pela madrugada
Hoje eu quero que os poetas dancem pela rua
A seguir, análise de “Todo mundo tá falando”, quinta faixa do disco De passagem.