4.4 Tests numériques d’inversion du profil de réfraction
4.4.2 Inversion des résultats en amplitude pour l’inversion d’un profil quelconque
Apesar de traçar um caminho que independe do argumento de Davidson, Kim acaba por atacar o mesmo ponto que Davidson, que é a noção de evidência. Abaixo, irei rapidamente expor a posição de Davidson contra Quine.
No artigo “A Coherence Theory of Truth”, Davidson expõe o seguinte argumento: apenas uma crença pode contar como razão (ou evidência) para outra crença. Essa nova teoria diz esquematicamente que: (a) uma crença nunca pode ser considera independente de outras crenças; (b) devemos entender que a atribuição de verdade e significado a uma crença só pode ser feita quando a tomamos em relação a uma massa de crenças; (c) sendo assim do ponto de vista epistêmico, uma crença não pode ser justificada sozinha (ou de modo independente de um conjunto maior de crenças); (d), portanto não podemos atribuir a uma crença uma “evidência empírica”, que a justificaria independentemente das outras.
point is that belief attribution requires belief evaluation, in accordance with normative standards of evidence and justification.” Kim, Op. Cit. p.45
Essa é uma forma de pensarmos o holismo aplicado às crenças: uma crença só tem sentido numa teia maior de crenças. Assim, ela só pode ser justificada por outra crença nessa teia. Como Davidson diz: “(…) nada pode contar como uma razão para manter uma crença exceto outra crença128”.
Segundo Davidson, as teses filosóficas, como as de Quine, que atribuem evidência empírica a uma crença, estão incorrendo num erro grave – mas um erro que inicialmente parece plausível. Davidson diz:
A ênfase nas sensações ou percepções em questões epistemológicas nasce do pensamento óbvio: sensações são o que conectam o mundo e nossas crenças, e elas são candidatas para justificadoras porque nós frequentemente estamos cientes delas. O problema que estamos enfrentando é que a justificação parece depender do estar ciente, que é apenas outra crença129.
Essa afirmação é muito interessante, porque mostra que a justificação não é uma questão de oferecer uma experiência que comprove uma crença, mas antes tem a ver com a nossa capacidade de oferecer razões para a aceitação da crença. Para voltar à definição tripartite de conhecimento conforme aparece em Platão, o conhecimento é uma crença verdadeira seguida de explicação racional, onde é necessário dar uma explicação para a crença, e não fornecer uma experiência para justificá-la. O processo de dar razão a uma crença só pode ser realizado quando uma crença justifica outra crença.
127 Kim, Op. Cit. pg. 50-51. Essa opção não me parece muito viável: ela soa como uma falácia naturalista. 128 “(...) nothing can count as a reason for holding a belief except another belief”. Davidson, pg. 140
129 “Emphasis on sensations or perceptions in matters epistemological springs from the obvious thought:
sensations are what connect the world and our beliefs, and they are candidates for justifiers because we often are aware of them. The trouble we have been running into is that the justification seems to depend on the awareness, which is just another belief.”
O que acontece em geral com a tradição empirista é confundir razões e causas. Experiências são causas inegáveis para a formação de crenças, mas isto é muito diferente de considerá-las como razões para a justificação das crenças. Davidson diz o seguinte:
A introdução de passos intermediários ou entidades na cadeia causal, como sensações, ou observações, serve somente para tomar o problema epistemológico mais óbvio. Porque, se os intermediários são meramente causais, eles não justificam as crenças que causam, enquanto se eles fornecerem informações, podem estar mentindo (...) Aqui o coerentista irá afirmar que não há nenhuma utilidade em procurar por uma fonte da justificação fora de outras sentenças mantidas como verdadeiras(…)130.
O argumento de Davidson acaba por atacar um dos mais importantes argumentos de Quine na epistemologia naturalizada: as sentenças observacionais. Segundo Davidson, se experiências não podem contar como a maior das fontes de evidência para uma crença, então por que manter as sentenças observacionais como evidência para o conhecimento? No quadro formulado por Davidson, no qual apenas uma crença pode justificar outra, não há lugar para sentenças observacionais. Isso não implica que o conhecimento independa da experiência – mas segundo Davidson, essa “dependência” é causal, e não evidencial ou justificacional.
O ataque perpetrado por Davidson acaba por no mínimo colocar sérias dúvidas em relação ao projeto empirista – e esse é o alvo real. Se o empirismo cai, como pensar a epistemologia naturalizada? Será que ainda fará sentido perguntar sobre normatividade e justificação?
130 “Introducing intermediate steps or entities into the causal chain, like sensations, or observations, serves
only to make the epistemological problem more obvious. For if the intermediaries are merely causes, they don’t justify the beliefs they cause, while if they deliver information, they may be lying (…) Here the coherentist will hold that there is no use looking for a source of justification outside of other sentences held true (…)” Idem, pg. 143
Resultado
Se Kim e Davidson estiverem certos em suas observações, a epistemologia naturalizada precisa ser totalmente refeita. Do lado de Kim, é preciso manter a noção de normatividade para que possamos a continuar a avaliar nossas crenças. Sem normatividade, não há conhecimento, e, portanto não há epistemologia. Do lado de Davidson, é necessário abandonar o empirismo e parar de falar em evidência empírica. Apesar de não haver uma continuidade rigorosa entre os argumentos de Kim e Davidson, é possível perceber que ambos não rejeitam uma versão mais branda do naturalismo, o que ambos rejeitam é o empirismo de Quine, que nada mais é do que o último sobrevivente na filosofia de Quine da tradição filosófica clássica.