O escopo deste sub-capítulo integra uma análise sobre as transformações econômicas que se estenderam sobre a região e a concomitante degradação da Lagoa de Sombrio. Como ponto chave para a industrialização local Leila Maria Vasquez Beltrão, em “A Industrialização em Sombrio/SC: Gênese e evolução” se apropria da análise de Armen Mamigonian sobre a pequena produção mercantil e a industrialização das áreas coloniais do Sul brasileiro.127 Nesta perspectiva, afirma que apesar de vinculada ao pólo dinâmico nacional (São Paulo),
a industrialização no sul desenvolveu centros com dinamismo próprio. Aqui [em Sombrio] a pequena produção mercantil de origem agrária, aliada ao pequeno capital comercial, a experiência artesanal, a presença de operários de origem européia e uma divisão social do trabalho forneceu as bases para uma evolução [industrial].128
As explicações de Beltrão sobre a entrada do município na conjuntura industrial capitalista apesar de devidamente acertadas, perdem de vista um fator preponderante, a influência do meio na incipiente industrialização da segunda metade de século XX. Não se trata de afirmar um determinismo do meio ou, até mesmo, exclusiva dependência da indústria da matéria-prima local. Mas, de se levar em consideração que o tipo de produção e os meios para transporte de mercadorias estavam diretamente relacionados às condições que o meio oferecia e ao resultado do envolvimento das culturas luso-descendente e indígena.
Exemplo disso são os produtos desenvolvidos nesse primeiro estágio manufatureiro. Os calçados são derivados da experiência manufatureira com o couro, abundante na região por causa dos excelentes campos para pecuária. A indústria alimentícia estava
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BELTRÃO, Leila Maria Vasquez.. Op cit.
diretamente vinculada com as fecularias, herança dos indígenas. A cerâmica e moveleira descendem do extrativismo das primeiras olarias e serrarias. Sendo ainda relevante salientar que todas estas características estavam inseridas num contexto onde a região possuía a maior parte de sua população na área rural, onde imperava a policultura e o trabalho familiar. Pois, apesar da vinculação com mercados regionais como Torres-RS e Laguna - SC as articulações econômicas ainda eram embrionárias.
Desta forma, serve como marco a construção da BR-101 tanto para conferir mobilidade e potencializar a ocupação do território, quanto para escoamento de produtos a outras regiões. A circulação de mercadorias, produzidas nos arredores da Lagoa de Sombrio em âmbito regional ocorria por meio lacustre até o final da década de sessenta. O envio da madeira e dos produtos cerâmicos também se dava via Lagoa de Sombrio, lanchas maiores desembarcavam a produção no Porto em Torres. Já a comunicação com o Porto de Laguna, para escoamento principalmente da farinha de mandioca, ocorria por carretas de bois.129
Estas transformações também podem ser vistas com base no crescimento demográfico local, bem como na distribuição da população na área urbana e rural.
Tabela 1: População do Município de Sombrio
População 1970 1980 1991 2000 2007
Urbana 3.743 7.040 15.065 15.920 17.387
Rural 14.170 10.254 7.188 7.034 7.037
Total 17.913 17.294 22.253 22.954 24.424
Fonte: IBGE. Sinópse preliminar censo demográfico. 1970-1980. ____. Características gerais da população. 1991. ____. Censo 2000.
____. Contagem da população 2007. População estimada.
Os dados na tabela comprovam dois processos anteriormente citados: o êxodo rural e o crescimento urbano. Alguns dados que não constam na tabela são muito importantes, pois até o ano de 1980 o censo incluía os municípios de Balneário Gaivota e Santa Rosa do Sul; essa informação mostra que apesar do município de Sombrio ter sido desmembrado, o número de habitantes aumentou. No ano de 1991, apenas o município de Baln. Gaivota ainda não havia se emancipado, o que ocorreu em 1995. No censo de 2000, Sombrio possuía as proporções
que tem atualmente. Enquanto o número da população na zona rural caiu, entre 1970 a 1990, cerca de 30% por década. A densidade populacional urbana cresceu entorno de 100% por década, o que acarretou no crescimento do perímetro urbano do município estabelecido na parte norte da Lagoa de Sombrio.
Durante a década de 1980, duas dinâmicas de produção se instituiram na região. De um lado, a modernização agrícola, que caminhou em busca do aumento da produtividade. De outro, o amadurecimento dos estabelecimentos industriais. Neste processo a mão-de-obra oriunda do campo encontra postos de trabalho nas indústrias locais, essa dinâmica de convergência de força de trabalho assegurou o desenvolvimento da industrialização do município de Sombrio. Sendo que, todo o projeto de industrialização local só foi possível pela implantação da BR-101, o principal escoadouro econômico local deixava de ser a Lagoa de Sombrio para se tornar a BR-101.
As políticas de desenvolvimento industrial e agrícola produziram a mudança do escoadouro econômico, e a lagoa paulatinamente perdeu importância e visibilidade para grande parte da população local. Tal processo será melhor desenvolvido no capítulo quatro deste trabalho. A cidade que teve seu desenvolvimento vinculado diretamente à existência da Lagoa de Sombrio. A falta de contato físico fez com que a lagoa perdesse visibilidade frente à população, a Lagoa saia da vista para entrar na memória.
Um fator importante de degradação da Lagoa de Sombrio é diretamente relacionado com a industrialização e o crescimento do município de Sombrio. O esgoto doméstico e os resíduos sólidos do centro da cidade até o ano de 2008 eram jogados em sua totalidade na Lagoa, a situação foi se tornando mais grave, pois de 1996 até 2002 a população do município aumentou quase 10%.130
As conseqüências ambientais da inserção da região no modelo industrial contemporâneo estão diretamente articuladas com a exaustão da matéria-prima e/ou degradação do meio. O setor madeireiro (posteriormente moveleiro) passou por grandes dificuldades com a escassez de madeira já nos anos setenta e, segundo, Beltrão, com a fiscalização da FATMA (Fundação do Meio Ambiente de SC) e IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
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Universidade do Sul de Santa Catarina. Curso de Engenharia Ambiental. Empresa Junior de Engenharia Ambiental – EJEA. Op cit. p. 72.
Renováveis) a partir do final dos anos oitenta a crise aumentou.131 Atualmente uma empresa monopolizou a distribuição regional de mudas de pinus e eucalipto, pois outras variedades de madeiras tidas como mais nobres estão protegidas por lei, não existem mais ou se tornaram economicamente inviáveis para as empresas. Tal quadro denota o esgotamento que o setor impôs ao meio.
Já a indústria cerâmica encontrou um crescente problema de competitividade com o fornecimento de gás natural às cerâmicas da região carbonífera de Criciúma, a instalação ocorreu durante a década de noventa. Devido à exaustão das matas locais o combustível para os ceramistas tende a vir da silvicultura o que encarece mais a produção. Além disso, a madeira possui uma temperatura de queima inferior ao gás natural o que implica diretamente na qualidade do produto.132
O processo tardio de industrialização do município de Sombrio repercutiu de várias formas sobre o setor primário. Leila Beltrão avalia a participação da População Economicamente Ativa de 1970 a 1991. O setor primário sai de uma contribuição de 68,3% para 24,1, respectivamente.133 Na conjuntura de crescimento industrial eclodiu uma migração das regiões rurais do município para a formação de zonas periféricas na cidade, quadros como esse são um dos reflexos da redução da participação do setor primário. Outro ponto importante conectado a população da zona rural, mais precisamente aqueles fixados às margens da Lagoa é que com a degradação da Lagoa de Sombrio a possibilidade de subsistência, mesmo tendo ciência da natureza policultora das propriedades, é drasticamente ameaçada. Ambos os fatores possuem ainda uma natureza interativa, que potencializa a concentração populacional no ambiente urbano do município.
O crescimento desorganizado do perímetro urbano do município e o aumento da concentração populacional são elementos que colaboraram para o incremento do lançamento dos resíduos na Lagoa. Como na maioria dos municípios brasileiros, a efetivação de políticas públicas de saneamento básico não constava nas preocupações iniciais para o desenvolvimento da cidade. Vargas et al enfatizam que, “a prática da saúde pública é ambiental quando se relaciona aos ambientes físicos e constitui o controle das doenças e da higiene sanitária”134. Neste contexto, e segundo os dados da pesquisa sobre a qualidade