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Introduction

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As filosofias de Kant e de Schopenhauer se assentam em terrenos opostos: este último quer ficar no âmbito da experiência, com aquilo que se pode ver e sobre o qual se pode tocar, já o primeiro e sua filosofia prática trataria do que deve acontecer. Mas não é por mera questão de preferência metodológica que Schopenhauer prefere o âmbito seguro da experiência, ele aponta o que acredita serem alguns problemas no fundamento da moral kantiana, principalmente uma, a saber, a alegada existência de leis morais puras, existência a qual seria apenas uma pressuposição de Kant na ótica schopenhaueriana. E ao dizer que a filosofia prática da fundamento às leis, Kant teria cometido uma petição de princípio73. (Idem, ibidem, p. 21) Esta crítica também aparece mais à frente, na página 37, como será mostrado a seguir, em citação direta:

(...) para poder fundar aqueles conceitos foi tão longe a ponto de exigir que o próprio conceito de dever fosse também a razão do cumprimento dele, portanto, aquilo que obriga. (...) O valor do caráter [segundo Kant] só se institui quando alguém sem simpatia no coração, frio e indiferente ao sofrimento de outrem, realiza boas ações não nascidas, na verdade, da solidariedade humana, mas apenas por causa do enfadonho dever.” (Idem, ibidem, p. 37)74

73 Sobre isto diz Pablos:

Entretanto, do fato de criticar a petição de princípio cometida por Kant não resulta a negação por parte de Schopenhauer de que existam ações morais ou que se possa falar sobre a moralidade. Ele apenas nega que a moralidade possa ser isolada dos contextos e das ações às quais diz respeito, tornando evidente, portanto, um dos aspectos da metafísica schopenhauereana, que entende que as ações morais envolvem sentimentos. (PABLOS, p. 167)

Schopenhauer então faz sua crítica ao “dever absoluto”. No SFM, logo no início da crítica a Kant, já se pode ler que há um problema entre falar que algo deveria ser absolutamente mas não é de fato, no caso, a necessidade da lei moral.

[Kant diz] que uma lei moral deve trazer consigo uma necessidade absoluta. Mas tal coisa tem sempre como marca característica a inevitabilidade do resultado. Como se pode falar de necessidade absoluta para estas supostas leis morais – como exemplo, ele cita o “tu não deves (‘solt’) mentir” – já que elas, reconhecidamente e como ele mesmo garante, na maioria das vezes não têm êxito? (Idem, ibidem, p. 22)

O “dever” (sollen), que significa obrigação, significa também, portanto, algo como “isto tem de ser”, uma vez que, se sou obrigado a fazer ou manter algo este algo não é ou pode deixar de ser. A filosofia prática trataria do que deve acontecer, mas, de fato, não acontece. Ora, o que deve ser ainda não é, mas vem a ser; que “algo deveria ser” significa que não é, embora tivesse de ter sido. O “tu deves” é tido na obra como um contrassenso, já que, reconhecidamente, pouca gente age conforme o imperativo categórico. Em nenhum lugar do mundo fenomênico há algo que indique que tal ou qual ação é um “dever”, parece que é um conceito que é dado como universal arbitrariamente.

Contra a noção de auto-dever, Schopenhauer faz um bom ataque: Ele começa por apontar que há dois tipos de deveres concebíveis, a saber, deveres de direito e deveres de amor. Ao refutar a noção de “deveres de direito” para consigo mesmo, o autor apela para a intuição geral segundo a qual o que se faz livremente é sempre aquilo que se quer, de forma que um homem nunca seria injusto consigo mesmo. Dado que “dever” ou “direito” remete à ideia de uma obrigação qualquer, não faria sentido em se falar em direito ou de dever que um agente teria para consigo mesmo, isso, para Schopenhauer, seria impossível. (SCHOPENHAUER. 1995, p. 28)

(...) a necessidade do dever não pode referir-se ao curso natural dos fenômenos, mas tem que apresentar um fundamento diverso deles. (...) A concepção de razão em Schopenhauer o impede de admitir qualquer causalidade da razão.

Deveres de amor também seriam impossíveis, argumenta Schopenhauer levando seu leitor a pensar acerca da moralidade que um agente tem para consigo mesmo. Cada homem tem um amor-próprio inviolável; cada um não pode deixar de se amar. Segundo Schopenhauer, o próprio Cristo pressupôs isso quando ordenou o homem a amar o próximo como a si mesmo (Mt 22:39) Schopenhauer aponta ainda para o fato de que para o próprio Kant os objetos do querer humano não teriam a ver com o conceito de dever. (Idem, ibidem, p.29) Não haveria razão também para se falar em dever de autopreservação, pois o próprio medo evitaria o suicídio. Schopenhauer, porém, afirma que a própria natureza concedeu ao homem o poder de autodestruição, isso para compensar o fato de que o homem não sofre apenas no presente, como o animal, mas estende a dor ao futuro e passado. Em todo caso, ainda que a inclinação ao suicídio esteja na natureza pelo menos de alguns, seria indiferente impor um “dever” a fim de impedi-lo; o dever de autopreservação é rasteiro e não daria conta da situação do suicida, Schopenhauer diz ser ridículo tentar tomar o punhal de Catão. (Idem, ibidem, p. 30) Schopenhauer, contudo, não diz que não há razões contra o suicídio, e considera possível que haja motivos contra tal ato. Também é bom que se lembre de que, para Schopenhauer, o suicídio seria um erro, pois não resolveria o problema – a existência da Vontade e o sofrimento inevitavelmente resultante –, pois o suicida quer viver e não se mataria em melhores condições. Sobre isso diz Monteiro:

(...) negar o querer viver não significaria suicidar- se, mas a expressão única da nossa liberdade (…). A morte não é aniquilamento absoluto. O suicídio não nos propõe alternativa de ser ou não ser (...). (MONTEIRO. 10 liçoes, pp. 50-51)

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