A partir de uma revisão sobre a biologia dos taxa identificados, com foco para as informações disponíveis sobre a região sul do Estado de Santa Catarina, foram estabelecidos os ambientes (hábitats) explorados para a obtenção de recursos de origem animal, assim como a época do ano em que estes animais ocorrem com maior frequência e os possível métodos para a captura.
A maior parte dos animais identificados no Galheta IV pertencem a espécies de animais com hábitats marinho e estuarino (NMI = 554, correspondente a 72,0% da amostra).
Espécies da família Sciaenidae (corvinas, miraguaias e pescadas) ocorrem majoritariamente em ambiente marinho, porém a ocorrência em estuários é recorrente, no qual utilizam esse ambiente para desova, criação e alimentação de juvenis (Figueiredo e Menezes, 1980; Haimovici e Ignácio, 2005; Carneiro et al, 2005). Os juvenis de Chaetodipterus faber (paru), Sparidae (sargos) e Pomatomus saltatrix (anchova) também podem ocorrer em ambientes de águas salobras (Figueiredo e Menezes, 1980; Menezes e Figueiredo, 1985; Burgess, 2002).
Os pampos (Carangidae) são peixes oceânicos pelágicos que formam cardumes, ocorrem principalmente em zonas de arrebentação, mas também são comuns em estuários (Figueiredo e Menezes, 1980; Smith-Vaniz, 2002). Já os robalos (Centropomidae) são espécimes que habitam águas litorâneas e ocorrem com maior frequência em lagoas estuarinas (Figueiredo e Menezes, 1980; Ostini et al, 2007).
As tainhas ocorrem em águas marinhas costeiras, no entanto são bem adaptadas a variações de salinidade, podendo ocorrer em estuários e também adentrar em água doce, sendo que os juvenis são mais comuns nesses ambientes (Menezes, 1983; Fischer et al, 2011). O Ariidae (bagres) são predominantemente presentes em ambientes marinhos, em fundos lodosos e arenosos, podendo ocorrer também em águas estuarinas (Marceniuk e Menezes, 2007).
Além dos peixes, os crustáceos, os moluscos da família Veneridae as raias (Batoidea) identificados no Galheta IV também podem ocorrer em ambos ambientes, marinho e estuarino. Também há ocorrência de cetáceos que entram em lagoas conectadas ao mar, sendo
o caso atual mais comum na região a do golfinho da espécie Tursiops truncatus, que acompanha principalmente os cardumes de tainhas (Simões-Lopes et al, 1998).
A ocorrência de espécies exclusivamente marinhas foi de 25,9% (n = 199), entre eles os moluscos das famílias Olividae, Ostreidae, Muricidae e Volutidae, todos os seláquios, as aves oceânicas, as tartarugas e lobos marinhos.
Os animais terrestres correspondem aos tatus, roedores, porcos-do-mato e cervídeos, totalizando NMI = 13 (1,7%). E os de água doce, que ocorrem em menor quantidade, são as traíras (Hoplias malabricus) e cágados (Trachemys sp.), somando apenas 3 indivíduos.
Gráfico 25 – Resultados dos ambiente explorados a partir do NMI dos taxa identificados (n = 769).
As estimativas de sazonalidade dos animais identificados foi elaborada a partir de revisão da literatura e do relato obtido pelo representante da comunidade de pescadores artesanais do Farol de Santa Marta. Foram baseadas nas informações dos meses/estações em que são mais frequentemente avistados na área de estudo, podendo também ocorrer esporadicamente em outras épocas do ano.
As correntes de águas frias vindas do sul em direção ao norte, como a corrente das Malvinas, trazem nutrientes que atraem distintas espécies de animais marinhos para a costa brasileira durante o inverno. Diversas dessas espécies características dos meses mais frios do ano, foram identificadas no Galheta IV, com NMI = 439 (57,1%).
Entre os peixes comuns durante o outono e inverno estão as tainhas (Mugil spp.) e a anchova (P. saltatrix), em que o pescador relata que ocorrem entre abril a julho, e junho a agosto, respectivamente. Haimovici e Krug (1992) descrevem que as maiores capturas de anchova em Santa Catarina ocorrem entre julho e setembro, quando as temperaturas estão entre 19 e 22o C. 3 13 199 554 0 100 200 300 400 500 600 Água doce Terrestre Marinho Marinho e estuarino NMI Ambientes explorados
Os pampos (Trachinotus sp.) foram relatados pelo pescador como espécies que ocorrem atualmente em maior abundância no mês de junho na região do Cabo de Santa Marta. São espécimes frequentemente encontradas em cardumes, no qual toleram variações de correntes, ondas e marés, podendo ocorrer em mar aberto, recifes de corais e próximos a costões rochosos. A espécie mais comum atualmente na região é o Trachinotus carolinus, que possui principalmente hábitos costeiros, de interesse da pesca esportiva (Figueiredo e Menezes, 1980; Fischer et al, 2011; Smith-Vaniz, 2002).
Os pinguins (Spheniscus magellanicus) e albatrozes (Thalassarche sp.), aves marinhas identificadas nessa pesquisa, também estão presentes nos meses de inverno. O pinguim segue os grandes cardumes de peixes pelas correntes frias logo após o período reprodutivo, alcançando o sul e sudeste do Brasil principalmente entre junho e agosto (Silva et al, 2012). Ainda assim, muitos espécimes juvenis, ainda despreparados para viagem, acabam se perdendo do grupo e aparecem debilitados na praia até outubro e novembro.
Atualmente, as espécies mais comuns de albatrozes na costa brasileira são
Thalassarche melanophris e Thalassarche chlororhynchos, que se dispersam nos meses do
inverno, após o período reprodutivo, vindos das colônias nas Ilhas Malvinas (Falkland Islands), entre outras ilhas menores do sul do Atlântico e Pacífico. São espécies que dificilmente alcançam áreas próximas a costa, permanecem no oceano durante a maior parte da vida, onde frequentemente acompanham embarcações pesqueiras, forrageando por descartes, e acabam sendo acidentalmente capturados por redes e espinheis pelágicos (Neves et al, 2007; Olmos et al, 2007).
Os lobos marinhos da família Otariidae que ocorrem no Brasil pertencem as espécies Arctocephalus australis, Arctocephalus tropicalis e Otaria flavescens, sendo A.
australis a espécie mais frequente. A ocorrência maior se dá nos meses de inverno, algumas
vezes atingindo o início da primavera (Simões-Lopes et al, 1995), em que são avistados em ilhas próximas a costa ou em costões rochosos. Os pescadores locais relatam que são vistos como animais que atrapalham a pesca artesanal, pois rasgam as redes de pesca para alcançar os peixes já capturados.
Os taxa de ocorrência predominante na primavera e verão foram relatados pelos pescadores, e somaram NMI de 154 indivíduos (20,0%). Os bagres (Ariidae) e pescadas (Cynoscion spp.) têm maior frequência no mês de dezembro e os robalos (Centropomus spp.) entre dezembro e janeiro. A corvina (Micropogonias furnieri) foi relatada como espécie de maior ocorrência no fim do inverno até a primavera, entre setembro a novembro.
Entre as espécies que ocorrem o ano todo estão os peixes cartilaginosos, ao peixe de água doce e os mamíferos terrestres, correspondentes a 19,9% (NMI = 153). E não foram encontradas especificações de sazonalidade regional para alguns taxa, somando 3,0% da amostra (NMI = 23).
Gráfico 26 – Resultados sobre a sazonalidade de ocorrência dos taxa identificados no Galheta IV a partir do NMI (n = 769).
O NMI dos taxa identificados no Galheta IV foram dividos entre os animais que poderiam ter sido pescados, caçados ou coletados. A maior parte das capturas ocorreu por meio da pesca, correspondente a 72,4% (NMI = 557), que incluem todos os peixes e crustáceos. A coleta está relacionada aos moluscos, que somaram 15,0%. A caça diz respeito aos animais terrestres, com 1,7%. E foi considerada a fauna que poderiam ser tanto caçada na praia, como pescada no mar, entre eles estão os pinguins, albatrozes e lobos marinhos, que representam 10,9% dos métodos de captura (NMI = 84) - Gráfico 27.
Gráfico 27 – Resultados sobre os métodos de captura da fauna identificada a partir do NMI (n = 769).
439 154 153 23 Sazonalidade Outono/Inverno Primavera/Verão O ano todo Não especificado 557 84 115 13 Métodos de captura Pesca
Pesca e/ou caça Coleta
Foram desenvolvidas também as medidas de placas faringeanas de Trachinotus sp. (táxon mais abundante nas áreas pesquisadas do Galheta IV) na tentativa de encontrar possíveis padrões de tamanho dos peixes e inferir sobre o método de captura desses espécimes.
Para estabelecer a frequência dos tamanhos das placas faringeanas foram medidas 249 placas superiores e 170 placas inferiores da quadra 112/93 da Área A. O nível elevado de fragmentação das placas inferiores fez com que a quantidade de placas mensuráveis fossem menores em relação as superiores. A maior frequência de tamanho das placas superiores foram de 11 mm de altura e 5 mm de largura (Gráfico 28). A maior frequência do tamanho das placas inferiores foi de 16 mm de altura e 6 mm de largura (Gráfico 29).
Gráfico 28 – Histograma com a frequência entre as alturas e larguras das placas faringeanas superiores de Trachinotus sp. (Área A, Quadra 112/93 – n = 249).
1 cm
Altu
ra
Largura
Gráfico 29 – Histograma com a frequência entre as alturas e larguras das placas faringeanas inferiores de Trachinotus sp. (Área A, Quadra 112/93 – n = 170).