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2. Overview of Use Cases

2.3. Dual-Homing

Uma breve consideração acerca da tematização da noção de vontade em Ser e Tempo deve nos conduzir à constatação de que a direcionalidade básica aqui reside na passagem de uma inicial não-tematização da questão, isto é, do não reconhecimento quanto a seu caráter autêntico de problema, para uma abrupta e imediata assunção da vontade como conceito central em um projeto assumidamente transcendentalista de investigação filosófica. Deve seguir-se a essa leitura a tese de que a Sorge, articulada como a noção central de Ser e Tempo enquanto a

conformação da totalidade do ser do Dasein, já esconde em si uma vontade em estado de hibernação, uma camada mais profunda que a acompanha em seu próprio movimento – silenciosa, mas atuante em sua presença. Como pretendemos mostrar, a noção em sua acepção propriamente ontológica (e, portanto, própria) já guardava em si o gérmen de uma potencial passagem à assunção explícita de um voluntarismo. Mais uma vez o uso das aspas é crucial para o exercício de nossa tarefa interpretativa. Mais uma vez, a dificuldade em relação às prolíferas ambivalências de Ser e Tempo: não há aqui uma tematização explícita da vontade como possuindo um status de problema filosófico comparável ao de outras grandes estruturas que preparam o caminho para a colocação do tempo como o sentido do ser, no entanto, o exame cuidadoso da relação de ambas, Sorge e vontade, pode flagrar os vestígios de um caminho que conduziria o pensamento errante à repetição (involuntária) de um voluntarismo transcendental.

É deste modo que Heidegger afirma em Ser e Tempo que o querer [Wollen] se enraíza ontologicamente de modo necessário no Dasein como Sorge (SZ, p. 194; ST, p. 541); isto quer dizer em traços gerais que o querer não constitui um fenômeno “ontologicamente indiferente”, cujo curso de realização dar-se-ia de modo indeterminado e alheio a qualquer estrutura prévia e “superior” que lhe concedesse um sentido, pelo contrário, o querer repousa na Sorge no momento mesmo em que depende de sua originariedade enquanto figura de totalidade acerca do ser do Dasein para lhe garantir a sua própria determinação ontológica (condição de possibilidade de sua inteligibilidade). O querer é assim um fenômeno derivado que no entanto deixa entrever a Sorge como a fonte de sua fundamentação: “A preocupação é ontologicamente ‘anterior’ aos fenômenos nomeados [querer, desejar, inclinação e impulso], que podem ser sempre adequadamente ‘descritos’ dentro de certos limites, sem que o pleno horizonte ontológico fique visível ou em geral somente conhecido” (SZ, p. 194; ST, p. 541, grifo nosso). Os limites a que se refere Heidegger dizem respeito especificamente à esfera ôntica de análise em Ser e Tempo e ao alegado caráter impróprio de todos os seus fenômenos – uma limitação estrutural e deôntica, portanto. O fato de que o fenômeno do querer encontra-se fundado na Sorge e somente é possível por esta razão, sem contudo poder explicitar reciprocamente o fenômeno de que é dependente, pode ser compreendido nesse contexto a partir da terminologia kantiana da Nova Dilucidatio a que Heidegger faz referência em Problemas fundamentais da fenomenologia (GA 24, p. 91)14: enquanto o querer é a ratio cognoscendi (a razão em “que”

14 A menção de Heidegger à terminologia kantiana é feita no contexto da discussão acerca da relação fundacional entre intencionalidade e transcendência em Os problemas fundamentais da fenomenologia, a qual cabe propriamente como analogia à relação de fundação e derivação entre o querer e a Sorge conforme enunciada no parágrafo 41 de Ser e Tempo. Cf.: WU, Roberto. Transcendência originária e possibilitação: sobre o problema da

algo se dá) da Sorge porque dá a conhecer o fenômeno em si sem contudo ser capaz de explicitá- lo em seu ser, isto é, sem poder fundamentá-lo ontologicamente, a Sorge por sua vez é a ratio essendi (a razão “por que” algo se dá) do querer enquanto a precede e é a própria razão de ser do querer.

Há assim uma relação específica de níveis de fundamentação em Ser e Tempo em que um fenômeno permite a constatação da existência do outro, apontando “para cima” em direção a algo que lhe é prévio e hierarquicamente superior, e no entanto é ele mesmo dependente em seu ser da determinação da existência deste último. Essa mesma relação fundacional, em que um fenômeno ôntico aponta para a existência de um outro mais originário e fundante, pode ser atestada ainda em outra passagem do mesmo parágrafo de Ser e Tempo:

Por isso, ao querer pertence cada vez um querido [Gewolltes], o qual já foi determinado a partir de um em-vista-de-quê. Para a possibilidade ontológica do querer são constitutivos: a prévia abertura do em-vista-de-quê [Worum- willen] em geral (o-ser-adiantado-em-relação-a-si), a abertura daquilo de-que- se-ocupar (mundo como o onde do já-ser) e o projetar-se entendedor do Dasein em um poder-ser para uma possibilidade do ente “querido”. A totalidade fundamentadora da preocupação [Sorge] é entrevista no fenômeno do querer. (SZ, p. 194; ST, p. 543).

O fenômeno do querer, em sua acepção de fenômeno ôntico levado a cabo como um comportamento intencional prático do Dasein em que este se relaciona com as coisas do mundo como instrumentos [Zuhandenen], pressupõe e exige a determinação de outras estruturas prévias necessárias à sua doação, estruturas estas que reportam ao nível ontológico de análise, este sim próprio e fundante. Se a manualidade [Zuhandenheit] como relação prática com as coisas do mundo tornadas instrumento no mundo projetado pelo Dasein se trata de um modo ativo do querer15 – o Dasein se relaciona com os instrumentos a partir da instituição de uma rede de atividades organizadas pelo Umwillen, cujo fim último é a realização do poder-ser do próprio Dasein –, a Sorge por sua vez unifica todo este processo, isto é, garante unidade ao fenômeno do querer, bem como constitui a totalidade do próprio fenômeno de mundo. Deste modo, a estrutura última dessa complexa arquitetura de relações de fundação e dependência entre níveis de fundamentação em Ser e Tempo repousa por fim (e por este mesmo motivo encontra-se sempre referida a ela) na Sorge como a totalidade estrutural originária [ursprüngliche Strukturganzheit] do Dasein. O que nos interessa aqui é o fato de que é a Sorge

intencionalidade na ontologia fundamental. O que nos faz pensar, Rio de Janeiro, v. 27, n. 43, jul.-dez. 2018, p. 376-377.

15 DAVIS, Bret W. Heidegger and the will: on the way to Gelassenheit. Evanston: Northwestern University Press, 2007, p. 34.

que concede a estrutura ontológica ao fenômeno do querer, ela é a sua condição de possibilidade e este é portanto derivado e dependente daquela. No entanto, se em 1927 essa posição de centralidade é claramente assumida pela Sorge no interior do projeto de Ser e Tempo enquanto a preparação da questão do ser a partir de uma analítica do ente responsável por colocar essa mesma questão, somente dois anos depois – numa passada bastante breve, portanto – a mesma configuração de pensamento se apresenta tendo nesta posição, contudo, uma insuspeitada [das Ungeheuer] noção de vontade transcendental. Como é possível essa aparente mudança radical se o querer era antes compreendido como dependente da abertura de mundo possibilitada unicamente pela Sorge e, enquanto fenômeno limitado ao âmbito ôntico, reconhecidamente assumido como impróprio?

A virada que nos permite ler essa insuspeitada passagem se mostra mais claramente se atentarmos para uma intuição e a seguirmos de perto. Há um modo específico de realizar esse caráter de unidade da Sorge em relação ao mundo e é ele que nos põe sorrateiramente à marcha para a virada em direção a um momento positivo da vontade no pensamento heideggeriano. Como já exposto, a relação com as coisas do mundo como manualidade constitui um modo ativo do querer enquanto estas vêm ao encontro do Dasein a cada vez envolto e concernido com as coisas presentes em sua lida cotidiana. Como também já vimos, o mundo é desvelado de modo prévio junto à Sorge (como projeto [Entwurf] quanto a um poder-ser [Seinkönnen]), e aponta simultaneamente para a totalidade fundamental da Sorge. O querer, deste modo, constitui-se num fenômeno derivado enquanto pressupõe a abertura prévia de mundo – ao mesmo tempo, entrevemos seu caráter essencialmente secundário, cuja baixa representatividade diante da originariedade da Sorge como um todo estrutural Heidegger faz questão de frisar. A abertura de mundo, por sua vez, ser condição de possibilidade para o fenômeno do querer também se mostra no fato de este ser sempre um querer voltado a um objeto pertencente ao mundo: o querer nada mais é que um comportamento intencional dirigido a entes do-interior- do-mundo [innerweltlich], isto é, ele exige a doação de mundo enquanto o relacionar-se do Dasein com algo que no mundo é objeto de seu querer. Do mesmo modo, todo objeto que no querer [Wollen] é querido [Gewolltes], deve ser primeiramente compreendido como um objeto do qual se ocupar e assim projetado em sua possibilidade (essa compreensão por sua vez pressupõe a projeção prévia de um poder-ser sobre e para um mundo junto à Sorge, como já vimos). Há contudo ainda uma terceira condição elencada para a possibilitação ontológica do fenômeno do querer segundo o § 41 de Ser e Tempo: a prévia abertura do em-vista-de-quê em geral – em suma, o mundo do Dasein é primeiramente articulado pela Worum-willen.

Enquanto o Umwillen deve dar conta da configuração instrumental do mundo do Dasein, isto é, a organização dos entes que vêm ao encontro na lida cotidiana e das atividades performadas pelo Dasein de acordo com seu em-vista-de particular, a Worum-willen por sua vez deve garantir a estrutura ontológica e com isso a própria condição de possibilidade de doação do mundo da ocupação [Besorgen] do Dasein. Como princípio de conformação ôntica do mundo, o Umwillen se iguala ao âmbito do fenômeno do querer: todo o mundo do Dasein em sua facticidade se apresenta como uma grande trama de instrumentos disponíveis à livre manipulação do Dasein orientada pela projeção de seu querer – tudo aquilo que não se doa como ente pertencente ao modo de ser da manualidade no domínio intencional da ocupação só é outra coisa que não um instrumento sob a vigência de um modo deficiente de ser e, portanto, dependente da manualidade. No mesmo passo, a Worum-willen se aproxima da Sorge enquanto princípio estruturador do mundo do Dasein que participa da própria doação prévia de mundo. Ainda que somente a Sorge se reporte à totalidade fundamental do Dasein, essa comparação se estende mesmo ao fato de que a Worum-willen também aponta diretamente para o ser do Dasein: enquanto configuração ontológica que “fixa” [festgemacht] o todo-de-remissão da significatividade [Verweisungsganze der Bedeutsamkeit] necessário ao fenômeno de mundo, a Worum-willen reporta em última instância ao próprio Dasein enquanto este é afirmado constituir o em-vista-de-quê de seu próprio mundo (cuja tarefa última é realizar o poder-ser escolhido e decidido pelo Dasein na solidão infame de sua consciência).

Isso quer dizer então que cada objeto pertencente ao mundo instrumental do Dasein assume o seu sentido mais próprio, isto é, dá-se como aquilo que ele é em si mesmo de modo originário somente a partir da instauração da Worum-willen como a instância primeiramente doadora de um mundo em sua significância. O modo próprio de as coisas se darem ao Dasein como manualidade no interior de um mundo estruturado pela projeção prática do Dasein recebe assim uma coloração tipicamente voluntarista: as coisas do mundo só se revelam na utilidade que assumem para nós, isto é, como instrumentos infinitamente disponíveis à manipulação da vontade de domínio humana. A Worum-willen é assim a condição de possibilidade do querer: algo só se torna “querido”, isto é, o ente do-interior-do-mundo somente se mostra como objeto de um querer, se encontrar seu lugar no interior da trama complexa de relações instrumentais articulada em última análise pelo projeto existencial voluntariosamente asserido por cada Dasein particular.

Como consequência, temos finalmente desvelado abaixo de uma superfície recoberta pela alegada insignificância estrutural do querer, um mundo que é plenamente orientado pelo

Dasein na projeção de seu poder-ser: o mundo ele mesmo e tudo o mais que pertence a essa totalidade, e somente se doa a partir dela, é enquanto cumpre o desígnio último determinado pela vontade do Dasein ao tornar-se um si-mesmo [Selbst] pela via de uma auto-asserção voluntarista. O projeto existencial do Dasein que assim alicerça a estruturação ontológica do mundo se dá através de uma afirmação radical da vontade em que o Dasein tornado autêntico é dito apoderar-se de modo absoluto de todas as dimensões de sua existência, inclusive suas limitações fáticas – tudo é então reincorporado como parte de sua vontade egoísta e antropocêntrica que articula a totalidade do ente em vista de seu próprio benefício e regozijo (apesar da essencial finitude exposta em Ser e Tempo, o Dasein é dito poder se determinar de modo incondicional, portanto). Deste modo, a Worum-willen já atua como um operador transcendental da vontade, ainda que como uma estrutura não reconhecida e explicitamente afirmada em Ser e Tempo.

Assim, uma das maiores prerrogativas de Ser e Tempo parece não se confirmar: longe de desagregar completamente a subjetividade voluntarista herdada por meio do paradigma da consciência, Heidegger prospera na tarefa de um desmantelamento da figura do sujeito transcendental de representação – isto é, o ultrapassamento do sujeito teórico da filosofia moderna, que previa entre outras pressuposições etéreas uma cisão segura entre sujeito e objeto como condição para o conhecimento humano –, e contudo repete o mesmo conteúdo metafísico no plano prático de análise: ao proferir uma nova forma de sujeito de vontade, Heidegger nada mais faz que empregar uma reconfiguração do voluntarismo do idealismo alemão na forma de um sujeito prático disfarçado em meio aos traços de facticidade e finitude do Dasein. Trata-se de uma releitura da vontade transcendental do idealismo alemão, ainda que subterraneamente levada a cabo e não explicitamente reconhecida, a ser, contudo, energicamente celebrada somente alguns anos mais tarde junto ao fatídico “engano político”16 de Heidegger nos anos 30. Por fim, nossa hipótese é a de que a Worum-willen já articulava como o Ungesagte de Ser e Tempo um contexto transcendental e voluntarista, cuja tonalidade essencial permanecera encoberta pela Sorge enquanto descrição totalizante do ser do Dasein, sem deixar entrever, portanto, os traços de um egoísmo antropocêntrico e de uma emergente vontade de domínio expostos na asserção do Dasein como o próprio em-vista-de-quê de seu mundo. Deste modo, a vontade [Willen] em Ser e Tempo – tomada não como noção explicitamente articulada naquilo 16 “Political blunder” é a expressão utilizada por Bret Davis para se referir ao engajamento público de Heidegger com o partido nazista alemão entre os anos de 1931 e 1933, quando renuncia ao reitorado da Universidade de Freiburg. DAVIS, Bret W. Heidegger and the will: on the way to Gelassenheit. Evanston: Northwestern University Press, 2007, p. 20.

que é dito sobre ela, mas como conteúdo conceitual decantado e inconscientemente preservado junto ao processo de transmissão [Überlieferung] da tradição e por isso justamente negado em sua verdade – não se iguala ao reino secundário e estruturalmente irrelevante do querer [Wollen] (derivado e dependente da Sorge), por mais que a proximidade dos termos seja tão bem expressa na língua alemã. Numa espécie de retorno do reprimido, a vontade prepara vagarosamente seu caminho de ascensão partindo de uma camada mais profunda da obra Ser e Tempo e atingindo assim a superfície a partir do vislumbre inicial do fracasso de seu próprio projeto. Como estrutura originária, a vontade permite o ultrapassamento da mera esfera ôntica e atinge assim a própria constituição fundamental do Dasein e do mundo: na Worum-willen encontramos como que respingos desse movimento ascensional, cujo destino último se encontra na asserção resoluta de uma filosofia da vontade de cunho transcendental – a partir da afirmação de uma forma “mais alta” de vontade, portanto.

A Worum-willen em seu aspecto essencialmente voluntarista assim desvelado nos põe a caminho da passagem em que a vontade decididamente assumida nos anos 30 deve então substituir a Sorge de Ser e Tempo, cumprindo com o anunciado retorno do elemento esquecido ao pensamento. Essa interpretação da Worum-Willen nos permite uma transição mais suave – e tanto quanto mais óbvia – à asserção (aparentemente) inesperada de uma vontade transcendental somente dois anos mais tarde, em Vom Wesen des Grundes, de 1929.

O núcleo do texto consiste em enunciar a transcendência como um conceito dotado de uma originariedade central para o próprio projeto heideggeriano e como condição de possibilidade para noções como as de intencionalidade e fundamento. Em sua parte final, e mesmo em continuidade com o conteúdo voluntarista implicitamente trazido à tona pela Worum-willen em Ser e Tempo, Heidegger afirma: “O mundo é, enquanto a respectiva totalidade do em-vista-de [Umwillen] de um ser aí, posto por ele mesmo diante dele mesmo. Este pôr-diante-de-si-mesmo de mundo é o projeto originário das possibilidades do ser-aí, na medida em que em meio ao ente se deve poder comportar em face dele” (SEF, p. 116, grifo nosso). A própria expressão não por acaso lembra de perto a futura crítica heideggeriana à vontade como princípio metafísico último, presente na origem de um pensamento calculador tomado na Modernidade como representação [vorstellen]: pensar como pôr algo diante de si e direcionado a si17. É assim a instauração da ipseidade, quando o Dasein se temporaliza [zeitigt]

17 HEIDEGGER, Martin. “A época da imagem de mundo”. Tradução de Paulo Rudi Schneider. In: SCHNEIDER, P. R. O outro pensar: sobre que significa pensar? e A época da imagem de mundo, de Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2005, p. 205.

como um si-mesmo projetando suas possibilidades, que primeiramente permite a formação de um mundo: o mundo é inteiramente dependente da definição por parte do Dasein de seu em- vista-de-quê, isto é, da escolha existencial (e sobremaneira voluntarista) de quem deseja ser (desde que um ente entregue a si mesmo para ser), de qual ipseidade particular o Dasein e seu mundo pretendem realizar – somente a partir dessa decisão individual pode um mundo se desvelar diante do Dasein, bem como os objetos a ele pertencentes, previamente determinados pela doação da totalidade instrumental do Umwillen de cada Dasein fático e particular. Apesar das reivindicações contrárias a uma leitura da asserção como egoísta e mesmo narcisista, é quando o Dasein é justamente afirmado existir em-vista-de-si-mesmo (SEF, p. 115, grifo nosso). Heidegger vai adiante na enunciação acerca dos traços fundamentais da constituição originária de mundo afirmando não só a necessidade de o Dasein pôr o mundo para si próprio antecipando suas possibilidades, mas inclusive a necessidade de “se” ultrapassar nesse mesmo movimento, onde o Dasein se iguala à própria vontade tomada numa acepção transcendental:

A ultrapassagem com o caráter do em-vista-de somente acontece numa “vontade”, que como tal se projeta sobre possibilidades de si mesmo. Esta vontade, que essencialmente sobre-(pro-)jeta e por isso projeta ao ser-aí o em- vista-de-si-mesmo, não pode, por conseguinte, ser um determinado querer, um “ato de vontade”, à diferença de outros comportamentos (por exemplo, representar, julgar, alegrar-se). Todos os comportamentos radicam na transcendência. Aquela vontade, porém, deve “formar”, como ultrapassagem [Überstieg] nela, o próprio em-vista-de [Umwillen] (SEF, p. 119, grifo nosso).

Uma vontade não-empírica, portanto, que deve permitir no ultrapassamento [Überstieg] do Umwillen a própria formação do mundo enquanto projeta originariamente ao Dasein – e isto quer dizer, transcendentalmente – o seu próprio em-vista-de-si-mesmo. Deste modo, trata-se de uma vontade superior que age antes de todo querer, possibilitando todo comportamento intencional prático, e mais do que isso, possibilitando a própria doação do ser do Dasein como vontade fática que no mundo projeta possibilidades de si mesmo aos possíveis objetos de seu querer. Essa “vontade”, portanto, enquanto encontra sua fundação na noção originária de transcendência, trata-se fundamentalmente de uma vontade transcendental. Passamos assim de uma esquiva não-tematização do problema da vontade em Ser e Tempo para a sua explícita assunção, somente dois anos mais tarde, em termos exclusivamente positivos: a vontade assume repentinamente o centro do projeto de uma ontologia fundamental assentada sobre o desvelamento do ser do Dasein, a partir de um lugar em que ela nunca antes aparentara estar – o uso das aspas aponta para a presença denegada da vontade nas camadas mais profundas da articulação transcendental de Ser e Tempo. Desse modo, a resolutividade em relação à vontade tornada expressa em Vom Wesen des Grundes aponta assim para a estrutura do Worum-Willen

como a ponte subterrânea que conecta a Sorge – insuspeitada em sua centralidade para o projeto

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