Este documento registra uma vivencia de trabalho nas creches e pré-escolas do Ceará. Espera-se que o registro desta experiência vislumbre o olhar de pessoas que tenham interesse em fortalecer a luta pela educação infantil.
Durante esse caminhar via-se a atuação fragmentada, em espaços diferenciados, muitas vezes em condições de muita precariedade. As ideologias em relação ao atendimento à criança aparecem de forma assistencialista. A creche é construída para as crianças pobres, que precisam se alimentar e não há qualquer conotação de criança sujeito de direito e construtor de conhecimento. Diante desta realidade fortaleceram-se vínculos institucionais em favor da educação infantil e assim desencadeou-se um processo de integração destas instituições: educação, ação social, saúde e UNICEF assumem o papel de articulador, incluindo as instituições não-governamentais. Envolvidos estes parceiros, iniciamos capacitação para educadores infantis e processo de articulação, sensibilização e mobilização dos municípios, das primeiras damas, dos prefeitos e dos secretários de educação e a ação social. Somar esforços e buscar apoio às ações que pudessem acelerar o processo de expansão da melhoria do atendimento às crianças, creches e pré-escolas que neste momento tinham função de caráter assistencialista é fundamental. Os espaços criam basicamente um almoxarifado onde se guardavam as crianças para serem alimentadas ou cuidadas enquanto as mães trabalhavam.
As monitoras, assim chamadas, não precisavam ter escolaridade para conduzir um grupo de crianças, “bastava ter experiência e gostar de criança”, ou por “aquele funcionário que não dava certo nas turmas de fundamental”. A função indissociável do cuidar e educar não fazia parte do vocabulário de muitos gestores.
O processo de articulação entre os diversos níveis das organizações governamentais e não-governamentais junto à UNICEF resultou na discussão e definição da capacitação de admiradores infantis. Assumimos a responsabilidade de coordenar o programa de capacitação direta dirigida aos educadores infantis de creche e pré-escola. Essa capacitação causou
impacto, sendo transformada em três projetos: Capacitação de Multiplicadores de Educação Infantil; Capacitação de Educação Infantil em Creches, com ênfase para as comunitárias; e Alimentação e Nutrição, capacitando as equipes de creche e pré-escola responsáveis pela alimentação.
Toda a Rede Municipal do Ceará que implantou as creches comunitárias teve seu corpo docente capacitado. Foi um momento rico de experiência. Contudo, viam-se pessoas leigas já atuando na creche e na pré-escola. As ações articuladas em função da formação de parcerias – estágio necessário à integração interinstitucional – prescindem de terminalidade, por exigirem continuidade, à medida que novas parcerias se fazem necessárias à otimização das ações, e assim o UNICEF continua com o articulador com várias ações, com papéis diferenciados de facilitador conciliados, ora mentalizador, integrador, mas em todos eles atuando com segurança e eficiência.
Recuar anos atrás é ver a determinação e a vontade de acertar. Admira-se os técnicos enfrentarem uma discussão e tornarem real um projeto. É grande a vontade de acertar. São experiências de integração institucional, frustradas no próprio processo, por se caracterizarem mais como intervenções do que como parcerias.
São histórias isoladas de sucesso e/ou fracassos que não preencheram as expectativas de trabalho. É difícil trabalhar com a intersetorialidade, pois é um caminho com muitos atalhos. Cada um costuma ser dono do seu trabalho.
Para o órgão articulador UNICEF, as expectativas em relação aos possíveis resultados “seria melhorar a qualidade do atendimento mediante a capacitação os educadores infantis” mudarem a cara da creche. Passar de “almoxarifado” para creche como espaço de educação foi um processo desafiador no que diz respeito ao desprendimento das pessoas e das instituições. Uma pequena observação: as pessoas, quando assumem cargos nas instituições, tratam-nas como se fossem sua casa e não enxergam a instituição como pública que se rege por normas regulamentadas em leis, resoluções decretos e outros.
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Neste caminhar, havia uma confiança e um crédito no articulador e mentalizador do projeto. Desenvolve-se o trabalho de capacitação em 128 municípios, agrupados por pólo (em nº de 20) e foram capacitados 8.974 professores. Houve a troca de experiência, socialização entre os municípios por região, trocas, apoio nas discussões durante o curso e interações nas questões conceituais, relacionais e da própria subjetividade.
Produziram-se cartilhas para creches comunitárias, em módulos, com abordagem conceitual relacional e de subjetividade, em são três volumes: gerenciamento – educação- saúde e alimentação/ nutrição; a contribuição do corpo técnico foi fundamental e surgiu de uma experiência fruto de um processo de integração. Esta implica em se deixar a fase individual pela coletiva, buscando-se em cada um dos parceiros a colaboração necessária e adequada, em uma perspectiva somatória que reduza os temores e amplie os entendimentos e ganhos. Existem ganhos toda vez que pessoas buscam integração. Este é o caminho, pois é uma forma de se fazer mais com racionalização de tempo, uma vez que somar forças numa inviabilização de um sonho ou objetivo.
Infelizmente, a descontinuidade das ações por indiferença das autoridades e/ou problemas político partidários, a falta de apoio e decisão dos dirigentes no repasse de recursos para os cursos de Educação Infantil e a identificação das competências de cada instituição envolvida geraram a não continuidade dos cursos para os professores de Educação Infantil, causando enorme prejuízo aos professores e crianças.
As políticas públicas (não são públicas) são políticas de governantes que assumem não dar prosseguimento aos projetos e programas de governos anteriores. O certo seria uma prática avaliativa e, com o sucesso, prosseguir-se. Quando novos governantes assumem o pleito, continua sua efetivação até que se prove o contrário. Essa não corresponde à prática dos governantes. Formar uma consciência política é complicado.