do contexto social no qual se desenha o envolvimento de meninos e meninas com o crime. Nesse sentido, é possível retomar as contribuições bakhtinianas que reafirmam a constituição social do sujeito, através da produção de discursos em diálogos com outros, tanto no nível das interações entre sujeitos, quanto a partir das relações com entre sujeitos e estruturas sociais (Pucci, 2011).
A última categoria destacada diz respeito a uma falta de limites precisos no que se re- fere ao envolvimento com o crime, ressaltando uma infinidade de elementos contextualizados histórica e socialmente. As falas dos entrevistados e os movimentos ocorridos ao longo da pesquisa indicaram para essa permeabilidade entre estar ou não estar envolvidos com o crime, conforme apontado acima, reforçando tal perspectiva.
Entretanto, é importante salientar que, ao mesmo tempo em que essa fluidez se mostra em torno das possibilidades de aproximações com o crime, há uma delimitação marcada dos limites e fronteiras estabelecidos entre o bairro e a cidade, refletindo nos modos como Elza, Lina e Chico se apropriam e se movimentam em Uberlândia. Cria-se, então, uma tensão entre dois pontos: fronteiras difusas do crime versus fronteiras delimitadas da cidade, de modo que esses dois pontos em dialogia se mostraram pertinentes na constituição dos entrevistados.
3.4. Visão de criança
Este tema reúne os enunciados de Elza, Lina e Chico onde se destacaram diferentes dimensões de ser criança, o que resultou na criação de duas categorias: criança como elemen- to fora do tráfico; e passado/momento anterior.
No que diz respeito à primeira, os enunciados de Elza e Chico apontaram, de maneiras distintas, para a concepção de que crianças não são associadas ao tráfico, ou ao crime de ma- neira geral. Assim, em diferentes trechos, Elza contou que se aproxima de crianças ou se veste com elementos infantis para disfarçar quando está vendendo drogas. Neste caso, os policiais são os interlocutores imediatos dessa ação.
Tayná: E por que que você acha que nunca aconteceu [enquadre]com você? Elza: Ai, eu não sei, sorte.
Elza: Uai, tomo. Tem vez quando eu to no corre com os menino, quando chega polícia eu já falo na hora, falo na... Tem uns menino jogando bola, falo assim ‘eu to de pró-
ximo aí, to nem aí, não quero nem saber, to de próximo’.
Tayná: Ah, então, você tem uma malandragem?
Elza: É. ‘Tô de próximo’. Tem vez que eu, eu saio de casa com aqueles vestidinhos de
criançinha, ponho uns laçinhos no cabelo, saio. Tayná: Sai de menininha? Disfarçando?
Elza: É, de menininha, que nem mocinha. Os truta fala ‘e a amarela, amarela?’. Eu falo assim ‘cola aqui, cola e eu solto na hora, não solta tudo, você vira?’. Eu começo
com algumas coisas, inventar altas coisas, eu falo assim ‘como que tá sua mãe? Faz
tempo que eu não vejo ela. Depois fala pra ela ir lá em casa’. Falo um monte de coi- sa.
(Entrevista 1, Elza)
Tayná: Você tem medo de acontecer alguma coisa, assim, com você?
Elza: Não, que eu sou ligeira. Eu desbaratino demais. Tem vez que eu to lá de boa, sempre quando eu to trampando... quando eu to sozinha, tem criança do meu lado. Sem criança eu não fico. Criança tipo, eu tenho uns amigo criança que eu falo que é meus amigo e que não é envolvido.
(Entrevista 1, Elza)
Chico, por sua vez, associou certas brincadeiras às crianças e, diante disso, quando es- tava próximo do tráfico, não se interessava por elas. Contudo, o cenário se modificou no mo- mento em que ocorreu o afastamento destas atividades ilícitas e, assim, ele passou a experi- mentar e a gostar das brincadeiras de “criançinha”.
Chico: Ele é o Arthur que mora na rua de casa, nói brinca com ele, nói brinca agora de coisa de criançinha.
Tayná: Como que é brincar de coisa de criançinha? Chico: Aaaa, nói brinca de batatinha 123.
(Entrevista 7, Chico)
Chico: Eu gosto. Eu não gostava não, eu nunca brinquei. Aí, eu tava vendo os menino brincar, aí falei assim ‘aa, isso aí é chato’. Aí eu fui brincar também, aí eu gostei. Aí as menina brinca de bola com nóis, nóis chama as menina pra brincar de bola, né?! Porque menina é ruim, menina chuta errado? Não, é porque é assim, nóis brinca pra se divertir, não só pra ganhar.
No caso de Chico, a associação entre tráfico e a figura da criança ocorreu de forma mais sutil, ainda assim, esta indica para a afirmação ou negação da visão de si como criança. Porém, Lina e Elza indicaram, de maneira mais marcante, para uma negativa da visão de si como criança, conforme os enunciados agrupados na segunda categoria quando falam sobre ser criança como um momento anterior de suas vidas. Vale destacar que Chico, de fato, era mais novo que Elza e Lina e, além disso, a brincadeira tinha grande relevância dentre as ativi- dades de lazer do menino, diferentemente das entrevistadas.
Tayná: E aí, você falou que era criança nessa época, agora você se vê como? Elza: Como assim?
Tayná: Você não é mais criança?
Elza: Não, por causa que eu não hajo como criança mais. Antes eu era grande, com mente de criança. Ainda sou grande, mas não tenho mais mente de criança, só algu- mas vezes.
Tayná: Em que vezes?
Elza: Algumas vezes. Quando tô brincando com meu sobrinho e aí tenho que ter men- te de criança. Se não tiver, como que vou entender ele? Rs.
Tayná: Então você tem mente de criança pra...
Elza: Pra ajudar umas criança também. Que nem, tem criança que pede ajuda pra mim, alguma coisa. Eu tenho que ter mente de criança pra entender o que eles quer. Se nóis for toda adulta, nem adulta sabe entender criança... Ah, você tem que cortar um pouco da sua sobrancelha que tá muito grossa, tá muito grande.
(Entrevista 3, Elza)
Este enunciado destaca a noção de que, para Elza, ser criança não tem a ver com idade ou tamanho, e sim com atitude e “mente”, apontando para certa fluidez das margens entre ser ou não criança. Neste contexto, destaca-se, também, a possibilidade de não ser criança, mas ter a mente para se relacionar com outras, reforçando a mobilidade desta concepção.
Este tema aponta para um dialogismo acerca dos entendimentos sobre ser criança, a- barcando os limites fluidos apresentados acima e aqueles demarcados pela primeira categoria, em que crianças tem um lugar marcado de distanciamento em relação ao tráfico e, por isso, não são associadas a ele. Assim, Elza, Lina e Chico são e não são vistos como crianças, de- pendendo do contexto, dos interlocutores e das relações entre eles.
Esta perspectiva posiciona um distanciamento em relação à primeira categoria levan- tada nos trabalhos da revisão da literatura. Nela, a adolescência é entendida como uma fase do desenvolvimento humano, dentro de uma trajetória linear, recheada por tormentas e dificulda-
des. A terceira e a quarta categoria elencada da revisão da literatura também se mostram dis- tantes das falas de Elza Lina e Chico, já que dizem respeito, respectivamente, à patologização do jovem que se envolve com o crime, desconsiderando os contextos nos quais estão inseri- dos; e ao entendimento de que exista um “perfil” destes jovens, com base em características econômicas, gênero, ato infracional, entre outras.
Em oposição a essas visões, as falas dos participantes dentro deste recorte temático se aproximam da segunda perspectiva destacada, em que são admitidas diversas possibilidades de ser jovem e todas elas se relacionam com os contextos que o circundam. Com isso, a cons- trução do panorama de ser jovem e constituir-se sujeito abarcam as questões sobre quem eu sou no território, como sou vista pela família, amigos, primo, vizinhos e como eu me vejo.