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O olhar aparece em textos filosóficos como relacionado ao conhecimento e experiência do mundo sensível e das ideias. Um olhar que emana luz sobre os objetos e os faz serem vistos. Assim como a descoberta de que os objetos do mundo também precisariam estar iluminados por uma luz, como o sol, para serem percebidos. A psicanálise realiza outras considerações sobre o olhar, separando-o da visão propriamente dita.

O olhar em questão em psicanálise não é um olhar do sujeito e sim um olhar que incide sobre o sujeito, é um olhar que o visa: olhar inapreensível, invisível, pulsional. O olhar é um objeto apagado no mundo da nossa percepção, que não deixa, no entanto, de nos afetar: a visão predomina sobre o olhar excluindo-o do campo do visível. Nessa separação entre o olho e o olhar encontra-se a esquize do sujeito em relação ao campo escópico no qual se manifesta a pulsão. A pulsão está na base do dar-a-ver do sujeito e o afeta de um olhar que o objetiva e ao mesmo tempo se encontra excluído da visão (Quinet, 2002, p. 41).

O olhar está para além do que é visto e perceptível, sendo algo imaterial e anterior ao nascimento do sujeito. O olhar do Outro tornará o sujeito um objeto causa de seu desejo e o circuito pulsional terá início (Quinet, 2002).

No fenômeno do olhar há em operação os três registros: imaginário, simbólico e o Real. O imaginário refere-se ao que é visto de maneira escópica, sendo, portanto, um terreno do eu, em que as imagens do mundo são vistas e determinadas pelo simbólico. O simbólico como anterior ao sujeito faz barreira entre o imaginário e o Real, introduzindo o sujeito na cadeia significante. Nesta inserção na linguagem há um resto, o objeto a. O olhar enquanto este objeto é pulsional, invisível e aproxima-se do Real (Quinet, 2002).

Sobre o objeto a,

Se formularmos em termos lacanianos, tal objeto se origina na distância que a ordem da fala marca em relação à experiência que ela nunca chega a recobrir, esgotar, em seu dizer, abrindo-se, nisto, um hiato como resto inelutável da operação de simbolização

do qual se origina sempre um novo dizer, um novo percurso de marcas (Fernandes, 2000, p. 123).

O olhar, enquanto objeto a, atesta a falta do sujeito e a tentativa de sua suplência à castração. Ele está na posição de mais além do ver e, antes que o sujeito possa olhar, ele já é olhado pelo Outro de modo descoberto e incontrolável. “O olhar é resposta a um certo olhar desde sempre - ainda que não de toda a eternidade - pousado sobre mim” (Assoun, 1999, p. 99).

Sobre o olhar e pulsão escópica, a experiência de Gelb e Goldstein, traz uma relação destes com as operações de alienação e separação. A experiência diz respeito à colocação de um feixe de luz apontando para a borda de um disco preto, em um primeiro momento, que tem como resultado um cone de luz esbranquiçado e o restante do ambiente escuro. Se entre o feixe de luz e o disco preto coloca-se um anteparo, como um quadrado branco, a luz toca o anteparo e irradia para o ambiente, tornando os objetos ali visíveis. Porém, a luz, ao contrário do primeiro momento, se torna invisível. O primeiro momento pode ser relacionado à alienação ao Outro, enquanto tesouro dos significantes, e o anteparo funcionará como a castração. Nesta, a introdução do Nome do Pai separa o sujeito do Outro e constitui o campo da percepção, no qual o acesso ao objeto causa de seu desejo está barrado. Se o anteparo não se constitui, o sujeito será invadido pelo olhar, que por ser invisível não se sabe de onde vem (Quinet, 2002).

Mari (2014), ao versar sobre o campo escópico lacaniano, explica que, ao adentrar no campo simbólico, há uma domesticação do olhar do objeto por meio do anteparo. O anteparo irá mediar a relação do sujeito com o objeto e a apreensão deste, sem que se corra o risco de cegar-se pelo olhar ou, em outras palavras, entrar em contato com o Real. Algumas obras de arte causam engano e confundem quem as olham, levando a um olhar para além do anteparo e uma aproximação com o Real. Não é só o Outro que nos olha, o objeto também nos olha.

Esse olhar que preexiste ao sujeito confirma sua existência, o institui como sujeito, speculum mundi, mas, por outro lado, é algo de inquietante manifestando-se nele, algo que paranoiciza o sujeito, algo ameaçador e violento. Ao ameaçar violentar o sujeito, este precisa inventar seus meios de domar o olhar, por exemplo, criando uma “imagem anteparo”, como as lembranças encobridoras a fantasia, o quadro, a cena, o sonho. A imagem anteparo é um dar-a-ver que pacifica, mas não deixa de apontar o que precisa esconder (Riguini & Ferrari, 2018, p. 134).

Entre o vidente e o visível há uma relação de familiaridade e a cada vez que se olha algo, este é envelopado ou encarnado no mundo e no sujeito. O que é que o sujeito procura ao demandar do outro um olhar? Procura um apaziguamento, um lugar para pousar seu próprio olhar. No entanto, quando o Outro é visível ele não me olha e se o Outro me olha, logo, se desmaterializa e se torna invisível. Assim, a frase “você nunca me olha” se torna um exemplo desta falta de um olhar do Outro capaz de fazer suplência ao vazio do sujeito (Assoun, 1999).

O olhar do Outro primordial estará situado entre o Real e o simbólico, transformando a necessidade em demanda. Para que isso seja possível é preciso a presença do engano em um terreno no qual as certezas não existem e não há um significante que oblitere a falta. Para que o engano exista, o objeto real deve se perder e carecer de sentido. Será tomado, então, por aquilo que não o é (Fernandes, 2000).

O objeto escópico pode ser encarado como um lugar de vazio que mantém o circuito pulsional em movimento ou como um a mais-de-gozar. Quanto a este último, trata-se de um a mais de gozo, um gozo excedente, assim como o tempo de trabalho na mais-valia de Marx.

Lacan não denominou o objeto a como mais-de-gozar apenas para fazer alusão à mais- valia de Marx, numa exibição de erudição. Ao defini-lo dessa forma, ele estaria destacando a perda sofrida pelo sujeito, tal como a mais-valia designa para Marx a perda sofrida pelo trabalhador, a diferença entre o salário recebido e o valor da mercadoria produzida (Teixeira, 2016, p.4).

O a mais de gozo retorna para o sujeito e logo é transferido para o Outro, o qual, também, não o possuirá. O sujeito vê no Outro a posse deste objeto de valor, do qual ele está privado. O Outro também não o possuíra, reconduzindo, assim, ao vazio fundamental (Quinet, 2002). Ainda sobre o mais de gozo,

No tocante ao olhar como objeto a, este olhar é por um lado um objeto perdido do Outro e repentinamente reencontrado como agalma, que causa o desejo, pois vem como um a- mais dos objetos, um mais-de-olhar, com seu brilho de maravilhamento que faz do sujeito um puro efeito de desejo (Quinet, 2002, p.65).

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