Quando se consegue o diálogo entre o espaço, a luz que o percorre e o homem que o habita, então surge a arquitetura (BAEZA, 1996, p.31)
O estudo da luz nos espaços é recorrente numa arquitetura com viés fenomenológico, seja para destacar ou para dissimular pontos no espaço. O uso da luz tem o poder de alterar a percepção de alguns materiais, permitindo, por conseguinte, que seja utilizada como protagonista na indução dos sentidos.
A relação entre a materialidade da luz na Fundação Barnes acontece a partir das formas reveladas nos espaços produzidos por ela, como simultaneamente mostra o significado e as intenções que foram determinadas através do processo de concepção.
A luz natural que adentra o espaço destaca a textura e as superfícies, revelando o conjunto de diferentes materiais que foram especificados com extrema atenção aos detalhes. Para Williams e Tsien, o efeito da luz sobre a arquitetura atua como um fator gerador no ato de projetar o espaço, pois a luz está sempre presente no discurso sobre qualquer das suas obras.
As janelas estreitas e verticais formadas pelos deslocamentos dos painéis da fachada são fragmentos transparentes de uma membrana que permite a passagem da luz e a aproximação da natureza. A janela não procura enquadrar uma vista, pois a perspectiva não se baseia no ponto de fuga, mas está estruturada em planos que procuram produzir efeitos de luz, criando um ritmo que dá caráter ao espaço. As portas e janelas parecem pontos permeáveis em um tecido têxtil.
A materialidade da luz na água tem uma qualidade ambígua pois, como a luz está sempre em constante mudança, torna sua materialização bastante subjetiva, uma vez que ela é vivenciada particularmente por cada pessoa e a cada hora do dia.
espaços na superfície, ela foi pensada também de forma que a edificação se relacione com o seu contexto físico-cultural, seu clima e sua orientação. Ao condicionar a escolha de uma superfície ou de um material, Williams e Tsien, reforçam o caráter tátil, ótico, e natural das cores e texturas diversas, além de interferir diretamente com o grau de transparência e opacidade.
Fig 95 – A manipulação da luz natural reproduz os elementos exteriores a fim de interiorizá-los e constitui-se nos adornos do ambiente. Fonte: Michael Moran
Fig 96 – A luz se difunde suavemente pelas paredes, proporcionando uma iluminação suave e confortável no interior do edifício, que se altera ao longo do dia e das estações do ano, em função da posição do sol.
Fig 98 – Salão principal da Fundação Barnes. Fonte: twbt.com
Fig 99 – Detalhe explicativo da difusão dinâmica da luz. no salão principal da Fundação Barnes. Corte Gentilmente cedido pelo escritório do TWBT.
A translucidade da luz permite a quebra de paradigma entre espaços e lugares distintos, entre interno e externo, e isto torna possível ao nosso corpo a imediata variação das sensações de um e de outro lugar/espaço.
As aberturas do interior da galeria não se destinam apenas a enquadrar a paisagem local, mas também a filtrar a luz, enquanto mais um elemento que reforça a carga simbólica do projeto, explorando a dramaticidade desses efeitos nos espaços internos. Através do uso cuidadoso de aberturas que permitem que a luz natural possa inundar os espaços do Barnes, criou-se uma sensação de contraste entre o peso do material, a energia e o brilho da luz solar.
Este espaço é, ao mesmo tempo, simples e complexo e proporciona uma experiência que utiliza materiais e luz para sugerir um ambiente para uma área contemplativa, um lugar para refletir.
Fig 100 – Aberturas que permitem que a luz natural possa inudar os espaços da Fundação Barnes. Fonte: Michael Moran
Fig 101 - Detalhe dos pendentes em cristal sobre a escada de acesso ao piso semi enterrado. Fonte: A Autora.
Fig 102 - Mosaico de fotos da exposição reflexos do artísta Tom Gralish.
Fig 103 – A materialidade da luz refletida no espelho d’água formando uma superfície contínua de água exposta à atmosfera e visível adentrando a superfície translúcida. Fonte: A autora.
A materialidade da luz refletida é obtida pela reflexão que ocorre quando a luz natural adentra a superfície translúcida, e esta, por sua vez, reflete para o espaço, criando um jogo de raios que revela diversas cores e uma atmosfera resplandecente.
Fig 102 – Caixa de luz, vista noturna da Fundação Barnes. Fonte: archdaily.com
A luz foi trabalhada no intuito de conectar ou separar o interior do exterior e as interferências feitas no envoltório, as escolhas de aberturas e vãos e filtros de luz, foram decisivos na forma como a luz adentrou os espaços da Fundação Barnes, seja no interior da edificação ou na relação do jogo de luz e sombra na articulação volumétrica do edifício. Ela foi habilmente pensada para unir, diferenciar e conectar os ambientes, orientar e estabelecer pontos focais, hierarquias e movimento dinâmicos. Realçando detalhes e promovendo efeitos de leveza ou peso.
Fig 104 – janela interna do salão principal. Fonte: A autora.
Fig 104 – Detalhe do trabalho dos diversos materiais utilizados como tapetes no piso da Fundação Barnes. Fonte: The Barnes Foundation
Fig 106 – Center for the Advancement of Public Action, 2011, Bennington College, Bennington, VT Fonte: twbt.com
Sobre o tema materialidade da luz, que é bastante revisado pelo escritório, Williams e Tsien consideram a luz natural o seu material de construção mais valorizado e dela fazem uso através de átrios, claraboias e portais de iluminação natural, todos habilmente colocados, como nos exemplos a seguir.
Fig 107– Skirkanich Hall, 2006, University of Pennsylvania, Philadelphia, PA. Fonte: A autora.