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Esta tese teve como objetivo geral analisar as articulações entre memória social e processos identitários no contexto de uma situação concreta de mudança sociocultural e econômica. Seus objetivos específicos foram

a) Identificar os processos de construção das identidades compartilhadas da cidade de Cabo de Santo Agostinho;

b) Descrever os conteúdos da memória social da população da cidade de Cabo de Santo Agostinho;

c) Caracterizar os diferentes posicionamentos grupais relativos à implantação do Complexo Suape;

d) Identificar as possíveis articulações entre memória social e memoria individual;

e) Indicar as articulações existentes entre a reconfiguração da memória com as posições identitárias emergentes, decorrentes da implantação do Complexo Suape.

Os objetivos dessa tese visaram atingir diferentes níveis de análise do fenômeno estudado. Já em 1982, Willem Doise propunha distinguir os níveis de explicação propostos na psicologia social. Naquele momento (DOISE, 1982) afirmava que as pesquisas em psicologia social se diferenciavam em 4 tipos de explicações:

a) O primeiro nível de explicação tinha como foco os processos intraindividuais. Para ele, paradoxalmente, eram explicações que pareciam não levar em conta os aspectos sociais e buscavam compreender como os sujeitos organizavam a sua experiência no mundo. Ele chama a atenção, entretanto, que esse nível de análise pode ser articulado aos outros níveis “mais sociais” (DOISE, 2011, p. 11);

b) O segundo nível de explicação descreve processos interindividuais e situacionais. Nessa perspectiva, os fenômenos psicológicos seriam explicados pelos sistemas interacionais dos sujeitos em uma dada sociedade (DOISE, 2011, p. 11)

c) O terceiro nível de análise leva em conta as diferentes posições que os sujeitos ocupam, considerando que essas posições geram as relações sociais e modulam os processos do primeiro e do segundo níveis

d) O quarto nível de análise (nível societal) busca as explicações no sistema de crenças, representações e normas sociais. Esse nível de análise parte do pressuposto de que as produções culturais e ideológicas, características de

uma sociedade ou de certos grupos, dão significação aos comportamentos dos indivíduos e criam as diferenciações sociais, a partir de princípios gerais (DOISE, 2011).

A proposta de Doise (1982/2011) aproxima-se da perspectiva teórica aqui adotada na qual a análise da articulação entre memória e processos identitários em um dado contexto social necessita ser investigada nos quatro níveis de análise. Considerou- se que os processos identitários e de memória se desenvolvem pelas e nas relações sociais, seja na relação interindividuais seja nas relações que os sujeitos estabelecem com o seu meio material e simbólico. Assim, para atingir os objetivos propostos foi realizada uma pesquisa plurimetodológica, dividida em dois estudos, de modo a possibilitar a apreensão dos aspectos societais (sistema de crenças, representações, discurso difundido nas diferentes mídias) subjacentes às transformações ocorridas com o instalação do Complexo Suape; os conflitos e divergências gerados por posições grupais diferentes na sociedade e o impacto dessas mudanças nos moradores das áreas ocupadas pela empresa e, mais especificamente, as transformações no registro da memória e da identidade desses sujeitos.

Os dois estudos abrangeram universos diferentes de sujeitos, bem como técnicas diversas de apreensão das informações. Do ponto de vista da análise dessas informações, entretanto, utilizamos a análise de narrativas em ambos os estudos. Partimos do mesmo pressuposto que Bastos e Biar (2015, p. 98) de que

[...] contando histórias os indivíduos organizam suas experiências de vida e constroem sentido sobre si mesmos; analisando histórias, podemos alcançar e aprofundar inteligibilidades sobre o que acontece na vida social. As narrativas podem ser construídas em contextos cotidianos ou institucionais, de forma espontânea ou induzida e sua análise pode fornecer elementos ricos sobretudo em pesquisas ligadas a processos identitários e de interação social. Segundo Bastos e Biar (2015, p. 102-103)

A análise de narrativa configura-se como uma ferramenta útil a esse projeto na medida em que: (i) promove diálogo entre múltiplas áreas do saber; (ii) se debruça sobre a fala dos mais diversos atores sociais, nos mais diversos contextos; (iii) reverbera entendimento do discurso narrativo como pratica social constitutiva da realidade; (iv) nega a possibilidade de se delinear as identidades estereotipadamente, como instituições pré-formadas, atentando para os modos como os atores sociais se constroem para fins locais de performação (Butler 1990) e (v) avança no entendimento

sobre os modos como as práticas narrativas orientam, nos níveis situados de interação, os processos de resistência e reformulação indentitária.

Na perspectiva das autoras, a análise de narrativas é adequada para o trabalho empírico em situações, nas quais se privilegiam as práticas de linguagem que dão suporte às interações sociais e onde ocorrem as negociações identitárias. Assim, tanto na análise de documentos quanto na análise das conversas informais, utilizou- se a narrativa como uma possibilidade de apreensão dos sentidos coletivamente construídos, dos sentidos em disputa e dos sentidos dados aos sujeitos às suas experiências de vida e ao que acontece na vida social.

A análise das narrativas produzidas nos meios de comunicação de massa, nos depoimentos durante a Audiência Pública e nas conversas informais, foi complementada pelas observações realizadas pelo pesquisador durante o período da pesquisa.

Seguindo estas coordenadas, foram realizados dois estudos, apresentados a seguir:

Estudo 1

Este estudo se caracteriza como uma pesquisa documental, cujo foco principal era a apreensão das narrativas oficiais sobre a reconstrução da identidade coletiva dos moradores da cidade do Cabo de Santo Agostinho e a implantação do Complexo de Suape.

Utilizou-se como fontes de informação o site da Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho, Jornais locais (Cabo Press, Jornal de Calheta, Jornal do Cabo, Tribuna Popular, Jornal das Letras, entre outros), documentos da Casa da Memória do Cabo, assim como blogs de moradores da cidade do Cabo (Blog do Marcos Almeida Locutor e Blog de Patrícia Marques Berderode) e o site do PSDB/PE. Usou-se, ainda, os conteúdos de narrativas elaboradas informalmente por moradores da cidade, colhidas quando das incursões do pesquisador pelo município.

Foram analisados os discursos produzidos no período de 2008 a 2015 ligados ao processo referente à tentativa de construção de um mito fundador, o espanhol Vicente Pinzón, proposto como referência comum em torno do qual seriam compostas uma memória fortemente compartilhada e uma identidade comunitária daí decorrente. Foram descritos e analisados, ainda, as diferentes recepções à

narrativa oficial e os usos que dela foram feitas. Finalmente, apresenta-se uma possível articulação entre o Projeto Pinzón e a instalação do Complexo Suape.

Deste modo, em um primeiro momento foram lidos todos os documentos relativos aos temas de investigação. Em seguida buscou-se reconstruir a narrativa oficial sobre a implantação do Complexo de SUAPE, as resistências ao projeto, a construção de Pizon como referência identitária coletiva ao mesmo tempo em que se buscava inferir o jogo interativo e as possíveis intenções na construção da narrativa oficial.

Estudo 2

O segundo estudo teve como fonte de informações dois conjuntos de dados. O primeiro conjunto refere-se às Audiências Públicas que tiveram lugar no período de setembro a dezembro de 2015, na Câmara dos Vereadores do Cabo, patrocinadas pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco, por solicitação do Fórum Suape. Especificamente, as audiências foram realizadas nos dias nove de setembro e um de dezembro. Destas audiências participamos como observador, visando, por um lado, um olhar para as audiências enquanto tal – os participantes, as ausências sentidas e membros convidados, o “clima” geral dos eventos, etc. Ainda nesse sentido, foi importante para um primeiro dimensionamento das articulações dos posseiros com outros grupos sociais, exprimidos através da presença de representações bem como pelas intervenções durante os debates. Por outro lado, estas audiências possibilitaram o contato mais direto com figuras representativas do movimento, contato fundamental para a obtenção dos depoimentos necessários à pesquisa. A iniciativa rendeu os frutos esperados, pois foi encontrada disponibilidade e mesmo interesse para os encontros futuros que se seguiram. Já nesses primeiros diálogos pode-se obter percepções acerca das relações entre os dois grupos, posseiros e Suape. Na primeira audiência, o grande atraso no seu início permitiu que as conversas se estendessem um pouco mais, quando foram feitos esclarecimentos sobre quem éramos e qual o nosso interesse em “bisbilhotar” a vida deles. Até a primeira iniciativa com um dos moradores, sentimos por parte deles uma certa curiosidade pela presença de um “estranho”, pois não fomos de pronto identificados como profissional da imprensa, como uma das autoridades, como militante de algum movimento social parceiro ou

como um apoiado já cuja frequência o fizesse conhecido. Pareciam perguntarem-se “quem é esse?, o que foi sendo respondido nos pequenos encontros antes do início e durante as rápidas saídas para o cafezinho, tornando a relação mais amistosa. Na segunda audiência tal estranhamento não ocorreu, portanto.

Nas audiências, foi observada a expectativa dos presentes quanto ao que aconteceria. Um clima de relativa tensão se mostrou claro. Os posseiros revezavam- se em conversas entre si, negociando sobre os que deveriam ocupar a tribuna e discutindo sobre quais conteúdos deveriam ser priorizados, nos depoimentos. Nesse olhar inicial, sentimos, ainda, uma mistura de constrangimento antecipado, pois se defrontariam com representantes do Complexo Suape, sentidos como “poderosos” (fragmento entreouvido) e a ansiedade em que tal enfrentamento se desse, seja pela raridade da oportunidade seja pela segurança no próprio formato da situação. Ter as audiências patrocinadas por um deputado lhes garantiria a liberdade para se posicionarem sem amarras. A presença da imprensa, de órgãos ligados aos direitos humanos e de estudantes universitários também parece ter sido sentido favoravelmente pelos posseiros, pelo apoio demonstrado. A expectativa de alguns era, ainda, a de que, dali por diante, cessariam as atitudes hostis do Complexo contra eles e que seus direitos doravante seriam respeitados.

Estes comentários são feitos aqui para exemplificar a fecundidade da nossa presença nos eventos. A gênese de algumas das interpretações que tomamos neste estudo, aliás, foram despertadas nestes momentos.

Durante o decorrer das audiências, realizamos anotações daquilo que nos chamou mais a atenção, para posterior cotejamento com o conjunto das demais observações realizadas.

Logo que Atas foram disponibilizadas, obtivemos cópia delas, sendo então as mesmas incorporadas às observações que foram realizadas presentemente. A análise das narrativas foi feita buscando-se enfatizar os diferentes posicionamentos dos sujeitos e, sobretudo, os argumentos utilizados para sustentar seus posicionamentos, o modo de apresentação dos argumentos e o alvo da comunicação, isto é, para quem se dirigiam.

No período de setembro de 2015 a fevereiro de 2016, foram realizadas observações dos moradores da cidade do Cabo. Sem um tema-guia inicial, foram entabuladas

conversas surgidas espontaneamente ou ligeiramente encaminhadas pelo pesquisador. Assim, encontros se deram no Mercado Público, na Estação Ferroviária, em pontos de taxis e em bares. As conversas se deram sem qualquer apontamento por parte do investigador, sendo seu conteúdo, entretanto, posteriormente registrado, respeitando o mais possível as narrativas, mas já com alguma interferência do efeito causado a nós por elas.

Neste mesmo período, foi realizada observação participante em algumas áreas ocupadas disputadas pelo Complexo Suape, particularmente o engenho Serraria. A partir da ajuda de um líder comunitário que aqui se caracterizou como informante- chave, foi possível ter acesso aos sujeitos. As visitas constantes, a observação e as conversas informais possibilitaram a apreensão das narrativas dos moradores das áreas ocupadas pelas empresas que se instalaram na região.

Os primeiros encontros com o líder comunitário foram realizados no seu local de trabalho, quando foi exposto mais detalhadamente o interesse da pesquisa. Seguiram então as visitas à Serraria, onde foi detalhando a geografia da região, os engenhos fronteiriços, o histórico das relações com o Complexo, a citação de um ou caso exemplar de famílias afetadas, a exposição a exposição da sua própria história. Os contatos com os moradores passaram a acontecer, sempre na casa destes, onde se deram conversas informais. Apenas um contato foi feito fora da região, com uma moradora que, tendo sua casa destruída, hoje reside na zona urbana, mas que recorrentemente frequenta familiares que ainda lá residem. No estudo se lançou mão também de depoimentos dados por alguns dos moradores ao Fórum Suape e disponibilizados em vídeo. Com alguns destes personagens tivemos contatos em algum momento do andamento da pesquisa.

Nas situações de observação e conversas espontâneas, buscou-se compreender os posicionamentos dos sujeitos frente às mudanças ocorridas com a instalação do Complexo Suape, qual o impacto nas suas vidas cotidianas, como eles reelaboram as memórias e a identidade nesse contexto de mudanças. Como afirmam Bastos e Biar, (2015, p. 109), a partir dessas narrativas pode-se “elaborar articulações com o

contexto macro-contextual ou sóciohistorico, perguntando-se, por exemplo, como estereótipos são aceitos ou rejeitados, ou como as identidades localmente

instituídas relacionam-se com discursos especializados ou de senso-comum que circulam na sociedade.

A análise de narrativas tem proximidades com outros recursos atualmente admitidos como pertinentes à pesquisa social, tais como a história de vida e a história oral. Na análise de narrativas, estas são tomadas, segundo Bastos e Biar (205. p. 99) como “o discurso construído na ação de se contar histórias em contextos cotidianos ou institucionais, em situações ditas espontâneas ou em situação de entrevista para pesquisa social”. Os que abraçam essa perspectiva entendem que a narrativa é constitutiva da realidade: ela não se presta a representar a realidade, mas antes está ligada à “construção de sociabilidade, a conformação da experiência em padrões públicos de aceitação e a construção de um sentido de quem somos e do mundo que nos cerca” (Bastos e Biar, 2015, p. 101).

Além do que já elaboramos na seção teórica, estas considerações ajudam a ratificar as posições de base assumidas nestes estudos. O uso da análise de narrativas vem ao encontro dessas posições, ao mesmo tempo que justificam nosso recurso metodológico: usar narrativas conseguidas de várias fontes e em situações cotidianas no plano micro, constituem mesmo dois aspectos relevantes nesta abordagem teórico- metodológica. Nas palavras das autoras (2015, p. 104)

Um dos pontos mais fundamentais a ser considerado e que essas pesquisas tomam o contexto micro como objeto pesquisável, isto é, se voltam para a análise das práticas de linguagem que fundam os encontros sociais, onde se constroem as definições da situação e as negociações identitárias de toda ordem.

Acerca dos procedimentos mais comuns de geração de dados, cabe considerar que as narrativas analisadas em trabalhos de natureza discursiva emergem e são flagradas pelo pesquisador nos mais diversos contextos. Algumas pesquisas elegem interações cotidianas (tais como jantares em família e conversas entre amigos), outros com interações institucionais (na escola, na delegacia de polícia, em atendimentos comerciais), outros com grupos focais, alguns com entrevistas de pesquisa. Finalmente, nesse estudo as análises flutuaram ora tomando um contexto relativo a toda população, ora a um grupo específico, ora a descrições e análises focadas em indivíduos.

4. MEMÓRIA, IDENTIDADE E PODER NO CABO DE SANTO AGOSTINHO: A