Nem tudo é verdadeiro; mas em todo lugar e a todo momento existe uma verdade a ser dita e a ser vista, uma verdade talvez adormecida, mas que, no entanto, está somente à espera de nosso olhar para aparecer, à espera de nossa mão para ser desvelada. A nós cabe achar a boa perspectiva, o ângulo correto, os instrumentos necessários, pois de qualquer maneira ela está presente aqui e em todo lugar. (FOCAULT, 1977, p. 65).
Ao iniciar este capítulo com a citação de Focault, é importante que se compreenda o porquê de sua inserção. Qual seria o ângulo correto para que os personagens da obra de Lorca tivessem uma visão privilegiada dos acontecimentos? Existiria de fato esse ângulo? Sim, pois se formos analisar bem as palavras de Focault, a vida na casa de Bernarda é vista através da janela. E essa perspectiva, isto é, esse olhar, fará com que cada um dos personagens construa a sua visão de mundo em relação ao mundo externo. O que se entende das palavras do autor do livro Microfísica do poder, é que cada experiência e vivência tem o seu lado positivo e negativo, e que cada verdade, muitas vezes, adormecida, está apenas esperando o nosso olhar e, consequentemente, a nossa atitude.
Olhar o mundo através da janela pode ser mais deprimente do que se imagina. O não sair de casa, não ter contato algum com a realidade e com o que ocorre lá fora, bem como a ausência de amigos, pode levar à loucura. Como a escolha de ficar enclausurada não foi das filhas da genitora, a ausência do externo lhes causava grandes frustrações, como ocorre com Martirio. Adela, a última filha, parece ter sido a mais “privilegiada”, no que diz respeito em olhar o mundo através de uma janela. É o que confirma Silva, em seu ensaio “El espacio doméstico como ejercicio del poder y de la represión sexual en
La casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca”, (2000, p. 521): “Adela se niega a
repetir los modelos impuestos, tiene una percepción distinta de la realidad, favorecida incluso por la configuración del espacio, ya que la ventana de su cuarto es la que ofrece mejor visión de la calle.”
Do ponto de vista da obra de Lorca, A casa de Bernarda Alba se passa em um ambiente nada agradável. Ele se parece mais com um ambiente fúnebre. De fato, com os problemas que o país atravessava, ficar em casa talvez fosse a melhor e a mais segura solução. Bernarda e sua família não estariam expostas à guerra e aos conflitos que ocorriam no país. O problema é que a matriarca faz da própria casa uma prisão. O não
sair de casa não consiste em um acordo feito entre elas e as filhas, e sim, uma imposição da genitora.
Gibson (1989, p. 486), apud Montemezzo, em “O poder e as instituições em A casa de Bernarda Alba” (2006), Lorca estava absolutamente convicto dos objetivos que tinha para sua peça, pois:
Ao chamar a peça La casa de Bernarda Alba e não simplesmente
Bernarda Alba, Lorca enfatiza o ambiente em que a tirana existe e age,
e explicita essa intenção no subtítulo definitivo, “Um drama de mulheres nas aldeias da Espanha”. Ao definir a peça como “um documentário fotográfico” o poeta indicava ser ela uma espécie de reportagem, com ilustrações em preto e branco, sobre a Espanha intolerante, sempre pronta a esmagar os impulsos vitais do povo, aqui representados pelas filhas de Bernarda e também pelas criadas (Grifo do autor).
A citação acima é bastante relevante para se fazer uma comparação com a da obra de Lorca. Cobrindo as portas e janelas de sua casa com tijolos, Bernarda impõe uma prisão às suas filhas, pouco se importando com o que as moças querem ou pensam.
O que se passa na obra de Lorca é que o autor cria um narrador que observa o que acontece na casa de Bernarda Alba e com as pessoas que fazem parte da vida dessa senhora. Por isso que ele fala com propriedade, uma vez que Lorca, enquanto autor, também protagonizou os horrores dos conflitos bélicos que sucediam na Espanha nos anos de 1930. A obra retrata esse período e os diálogos entre os personagens revelam o autoritarismo e a repressão sofridos pelas filhas de Bernarda através da figura materna. Observa-se também um comportamento patriarcal em Bernarda sem haver proteção para com as filhas nem ninguém que vive com ela, uma vez que sua intenção é exercer o poder, cometendo abusos e submetendo todos a castrações e humilhações, da mesma forma que acontecia lá fora. Podemos concluir que a casa, criada para contar a história de uma família, consiste em uma metonímia, uma vez que Lorca a coloca como exemplo para chamar atenção de que, o que ocorria na casa, também ocorria do lado de fora.
A peça de Lorca e os desdobramentos que ocorrem no ambiente interno da casa pode ser caracterizado como uma metáfora, isto é, a casa, é um ambiente metafórico, uma vez que ela remete ao leitor todo um clima de tensão e por que não dizer de morte, já que o ambiente era completamente sem vigor e sem vida? Para explicar os ocorridos na Espanha naquele período, Lorca explicita a casa e tudo que acontece dentro dela: hostilidade e repressão, bem como estava acontecendo no país. Ou seja, não é apenas
aquilo que se vê na casa, no que diz respeito ao espaço físico, que levará o leitor a fazer as suas considerações. Mas também as atitudes dentro do ambiente, que corroboram com uma verdadeira guerra e prisão.
Continuando a falar de metáfora, o Prof. Dr. da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Paulo Henrique Duque, escreveu, em 2010, um artigo sob o título “A integração conceptual em charges”, no qual ele explica que dentro das charges existem metáforas, ou seja, o que conduz uma interpretação metafórica não é somente o pictórico, e sim, a linguagem verbal e não-verbal. As sugestões externas presentes fora da figura são de grande importância para a compreensão das metáforas que as charges exibem.
Para exemplificar melhor o que foi dito anteriormente, podemos citar um trecho do livro de Lorca, quando a Criada pede a Poncia um pouco de comida para a sua filha: “Entra y llévate también un puñado de garbanzos. ¡Hoy no se dará cuenta!” (GARCÍA LORCA, 1998, p. 83).2 Quando Poncia fala puñado, ela se refere que a comida pode se pegar em pequena quantidade, o que pode parecer que na casa matriarca não havia comida suficiente. Já que, segundo Poncia, ninguém iria dar por falta do alimento (já que estava para acontecer o velório do marido de Bernarda), por que apenas um punhado foi oferecido à Criada? Não seria isso que estava também acontecendo lá fora? Em tempos de guerra, a comida fica escassa em determinadas regiões, especialmente para as pessoas menos favorecidas.
Outra metáfora que pode ser levada em consideração é quando Poncia manda que a Criada limpe muito bem a casa, pois se Bernarda não vi tudo reluzente, é capaz de arrancar de Poncia os poucos cabelos que lhes restam. As palavras de mágoa em Poncia pode ser percebidas quando ela fala: “Tirana de todos los que la rodean. Es capaz de sentarse encima de tu corazón y ver cómo te muere durante un año sin que le cierre esa sonrisa fría que lleva en su maldita cara” (p. 84). A expressão sentarse encima de tu
corazón remete àquela pessoa que é capaz de ver o outro sofrer e não se importar, muito
pelo contrário. Ela é capaz de rir do sofrimento alheio, impondo ainda mais a sua vontade e tirania. Bernarda era uma mulher cruel, que pouco se importava com o sentimento das minorias. Foi assim que aconteceu durante a guerra: indiferença, crueldade e hostilidade para aqueles que pensavam diferente dos que estavam no poder. É interessante também que se perceba a relação entre Poncia e a Criada. Quando Poncia ordena à Criada para
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limpar tudo na casa, ela transfere a opressão que recebe da patroa, mostrando ao leitor que quem é oprimido pode oprimir ao estar em uma condição mais elevada de poder.
Finalmente, A casa de Bernarda Alba consiste em uma metáfora na qual através de muitas leituras é possível identificar essas comparações. Lorca compara o que ocorre dentro da casa com o conflito bélico daquela época, enfatizando a figura de Bernarda como a principal, no que diz respeito ao poder e a tirania, exatamente como o general Francisco Franco fez no país. Exílio e morte para os que não concordavam com a sua forma de governo; exílio de tudo aquilo que é externo para que o controle e o poder de Bernarda sejam mantidos a qualquer custo.
3.2 A imposição do luto e do vestir o preto na casa da matriarca: tristeza ou resposta