2. PROJECT CONTROL ISSUES
2.1. Introduction
Maria Fé, mais conhecida como Fé, é uma jovem curadora de 39 anos que nasceu em Pirabas-Pará, é a pessoa que mais tive dificuldades em iniciar uma interlocução, sua timidez e os muitos trabalhos realizados na comunidade que impediam constantemente nossas conversas, se constituíram como agravantes. Foi por isso que o já colocado, em relação ao uso que fazia de minha condição de ter nascido em São Caetano e de possuir parentes aí, não surtiu efeito para viabilizar uma rápida e maior aproximação, apesar de já está há alguns anos residindo nesta localidade ela não possui uma identidade odivelense.
O ‘terreiro’, como ela mesma se refere é onde ocorrem os ‘trabalhos’, fica nos fundos do quintal. É uma construção em madeira, coberta com telhas de barro. Há uma entrada dianteira com uma janela ao lado esquerdo; e uma outra entrada neste mesmo lado. Há apenas um grande cômodo.
Ao lado da janela, sendo que mais abaixo desta e do lado de dentro há uma imagem do Preto-Velho, acompanhada de velas acesas próximas a seus pés. No centro do terreiro tem um esteio, o qual possui em sua base uma estrela de oito pontas feita em cimento, que poderão ter nestas pontas velas coloridas acesas, isto vai depender do ‘trabalho’.
Ao fundo há um altar com várias imagens e quadros de encantados e santos. Em frente a este fica uma cadeira na qual Fé senta-se, e de costas para o público, sempre fumando muito e bebendo muita água, experiencia o transe.
À direita do altar está o tambor e o banco reservado ao seu companheiro que irá tocá-lo; ao lado deste ficam mais duas pessoas, um para tocar o triângulo e outro o chocalho. Para estes dois últimos instrumentos nem sempre são as mesmas pessoas que os manipulam, mas precisam ser próximas à Fé.
Na parede da lateral esquerda fica uma prateleira com potes que guardam elementos que são acrescentados à defumação; há alguns copos e taças, estas últimas utilizadas pelos guias e somente por eles para tomar ‘cervejeiro’35 durante todo o ritual, com exceção do momento de preparação da curadora para o transe. Raramente sobram bebidas e dificilmente são compartilhadas com alguém. Às vezes sim, com as pessoas que tocam os instrumentos. Ainda assim, pude observar que estas pessoas na maioria das vezes tomam muito mais goles de cachaça do que de cerveja.
Ao lado desta prateleira há um cabide fixado na parede onde ficam organizados os chapéus, roupas e espadas36 dos possíveis caruanas que poderão chegar naquela noite. Os ‘trabalhos’ realizados iniciam por volta das vinte horas e não raramente, amanhecem. Os familiares da pessoa que solicitou o ‘trabalho’, e também esta, são convidados a permanecer no ‘terreiro’. Redes para a estadia destes são providenciadas caso Fé ainda precise fazer alguns ajustes ao ‘trabalho’ realizado na noite anterior, ajustes estes que somente poderão ser feitos entre Fé e os familiares da pessoa para quem o ‘trabalho’foi realizado.
Antes de entrar no ‘terreiro’ é necessário lavar as mãos com uma mistura de água e ervas que fica em um recipiente de barro sobre um banco do lado de fora do ‘terreiro’. A cantoria começa antes da curadora entrar em cena. O toque frenético do tambor envolve os já presentes, onde estes acompanham com muita vontade as doutrinas já conhecidas.
A família que solicitou a cura costuma chegar cedo aguardando o início do ‘trabalho’, às vezes chega um pouco depois.
As duas serventes, amigas de Fé, defumam todo o ambiente aguardando a entrada da curadora. Mas antes da entrada desta, seu companheiro, Everton, convida todos a ficar de pé e
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Referência à cerveja. Os caruanas que ‘baixam’ no terreiro de Fé constroem um dialeto onde no final das palavras empregam o sufixo eiro . São exemplos: garrafeiro (garrafa), copeiro (copo) e banqueiro (banco), dentre outros.
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São pedaços de tecido em cetim que variam de cor de acordo com a preferência de cada encantado, um exemplo é que a bandeira de Mariana é na cor vermelha, sua preferida. Estas possuem tamanho suficiente para enrolar por completo uma pessoa adulta, de modo que somente o pescoço e a cabeça desta fiquem de fora, cobrindo-a por completo do ombro para baixo.
rezar o Pai-Nosso, Ave – Maria, o Credo, e a Salve-Rainha, deixando aquele ‘trabalho’ nas mãos de vários santos que são citados naquele momento.
Fé entra, ela é uma pessoa um tanto tímida, e é com essa timidez que salda a todos, ao passo que logo se dirige à cadeira que é reservada para ela. Sentada de costas para o público fuma muitos cigarros e de vez em quando bebe água que é servida por uma das serventes. Se mantém durante muito tempo neste estado de concentração profunda.
As roupas utilizadas são confeccionadas por ela mesma. São calças, blusas e vestidos com cortes e detalhes bastante elaborados.
É possível saber quando não é mais a Fé, porque quando está concentrada fica calada. Ao acompanhar as doutrinas, percebe-se que a voz não é mais a da curadora. Canta inúmeras doutrinas, sempre de costas para o público. Algumas vezes enrola em suas mãos um pedaço de tecido em cetim e depois volta a estendê-lo sobre suas coxas. Este tecido é a bandeira acima definida, cada caruana possui a sua em cores diferenciadas motivo que faz ser bastante fácil identificar qual a bandeira que pertence a determinado encantado.
De repente ela se levanta e agarra uma taça oferecida pela servente, a qual será constantemente cheia de cerveja. Dança freneticamente, canta muito alto, e, por vezes, se joga de joelhos no chão. O toque cada vez mais forte dos instrumentos a inspira a dançar e pisar com muita força.
Este clima de “festa” dura um período um tanto longo, cerca de mais de uma hora, até que a curadora, já com o ‘guia na cabeça’ pergunta quem é o ‘filho’ ou ‘filha’ que vai curar. É feito o pedido às serventes que coloquem uma cadeira para a pessoa se sentar. Esta e a curadora ficam frente a frente, numa distância de uns quatro metros.
A pedido do encantado as serventes colocam sal no chão, de modo que a pessoa deva permanecer pisando neste até que aquele lhe dê autorização para parar. É colocada também uma vela acesa embaixo do assento da cadeira.
Mais doutrinas são cantadas e o procedimento terapêutico começa. O caruana com sua bandeira já defumada pelas serventes passa esta no corpo do ‘filho’ como se estivesse fazendo uma assepsia nos braços, pernas, cabeça e tórax. Depois, envolve parte da bandeira em torno do tórax daquele, e as pontas em uma de suas mãos. Daí, pendura-o em suas costas sem a ajuda do outro braço, de modo que as costas fiquem aparelhadas. A servente defuma entre as duas costas, a da curadora e de seu ‘filho’. Retira a bandeira, e de costas, se joga contra as mãos da pessoa a ser curada, esta deve sustentá-la e empurrá-la com força, como se estivesse expulsando algo de ruim para fora de seu corpo e para longe de si.
O caruana pede para alguém do público carregar aquele ‘filho’ mantendo seu corpo na horizontal, o qual deve, agora, sustentar e empurrar com os pés as costas da curadora. O espaço entre os pés e as costas é defumado pela servente com o tauari.
O corpo da curadora representa o mal que a pessoa tenta afastar de si. Esta se senta novamente, e tem o corpo ‘limpo’ com cachaça e defumado com tauari. Durante todo esse processo, sucessivas vezes as serventes jogam no fogareiro pequenos envelopes que denominam de descarga. Quando acontece isso todos devem ficar de pé, esperando o envelope estourar no fogo. Feito isso, as pessoas fazem gestos como se estivessem limpando seus corpos.
A curadora chama primeiramente a pessoa a ser curada, depois a família, para fora do ‘terreiro’. A cantoria, agora, dá-se nos espaços internos e externos. As duas serventes são mobilizadas a ajudar no processo de cura na parte externa do ‘terreiro’. Contudo, uma permanece fora enquanto a outra volta para dentro, assistindo eventualmente o grupo que está fora, pois permanece dentro do terreiro cantando e dançando com muita empolgação, tentando manter o público acordado àquela hora da madrugada.
O que acontece lá fora não posso descrever, só que o momento de retorno para dentro do ‘terreiro’ é bastante aguardado por todos. A pessoa para qual a cura fora realizada retorna, às vezes, com roupas encharcadas ou, vestimentas trocadas.
Depois, a curadora entrou com um prato nas mãos contendo uma espécie de crustáceo, que por uma magia feita por outrem, alojou-se dentro do corpo, prejudicando a saúde. Todos correram para ver, tratava-se de um tamaru, o qual é uma espécie de crustáceo minúsculo, com tamanho bastante inferior ao do caranguejo. O caruana, bastante convencido de seu feito, convida os demais que não se levantaram a ir ver o tamaru.
As cantorias das doutrinas acompanham todo o processo, depois da retirada do crustáceo são realizadas com mais fervor, como que fazendo referência a uma vitória. Depois, o encantado passa a atender a todos que queiram comentar seus problemas em busca de soluções que poderão ser apontadas por este.
Muitas brincadeiras são realizadas com todos até que o caruana se despede e dá lugar para outros, os quais só repetem o processo de assepsia com cachaça em todo o corpo, bem como de defumá-lo, pois na verdade quem realiza a cura é apenas um encantado, os demais somente complementam.
Após a cura o clima de “festa” continua com muitas cantorias de outras doutrinas, bebida e animação, até que os caruanas percebem que ‘seu cavalo’, é a denominação que o curador recebe dos encantados por suportar em suas costas o peso destes, está muito cansado, por isso, se despedem e vão embora.
Neste instante a curadora volta a sentar-se na cadeira reservada para ela, de costas para o público. Everton e as serventes a ajudam chamando pelo seu nome, de modo que ela acorde de um profundo sono, às vezes este despertar é demorado. A família daquele ‘filho’ curado e pessoas mais próximas continuam no ‘terreiro’. Fé agradece a presença e os demais vão embora.