“eles faz compra aqui, esses comprador ...região da mata (zona da mata) todinha aí, o litoral todinho compra feijão aqui (em Lajedo), a maioria vai todo pra Palmares, Ribeirão, Barreiros, tem uns comprador todinho que pega direto pra lá. Aí outros aqui... Rio Grande do Norte, Paraíba, Campina Grande, Natal, morre todo ali aquele feijão, o consumidor final. Sertão de Pernambuco também, Araripina, Trindade, Serra Talhada, Triunfo, Tabira, compra aqui, leva e morre lá e o Juazeiro, Juazeiro do Norte, Ceará, compra muito, eles traz fava e leva feijão pra lá. Santa Cruz do Capibaribe, Toritama, tudinho compra aqui, tanto feijão como farinha. Eu
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acho que um raio rotativo de quase uns 400 km daqui de Lajedo no geral, que consome mercadoria daqui”. (AFF1, Feira de Feijão de Lajedo).
O Agreste Meridional de Pernambuco é a mesorregião do Estado maior produtora de feijão de arranca (Phaseolus vulgaris L.) de Pernambuco (PRORURAL, 2012; CONAB, 2018), portanto é um território que produz feijão e distribui esta mercadoria para variadas rotas e destinos até o consumidor final. Diante das informações obtidas junto aos atravessadores entrevistados, o feijão do Agreste Meridional, além de Pernambuco, chega a alcançar oito estados brasileiros, a maioria na região Nordeste, sendo eles: Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe. O único estado do Brasil, fora da região Nordeste, que consome feijão produzido no Agreste Meridional de Pernambuco é o estado do Rio de Janeiro, absorvendo alguma parte da produção de variedades de feijão preto. Entretanto, esse destino do Rio de Janeiro parece que se sustentou muito mais no passado do que em dias atuais.
Em virtude da grande diversidade de variedades existentes no território, os feijões alcançam destinos diferentes e variados de acordo com a preferência das “praças de consumo”. Um atravessador esclarece que existem praças para os diferentes tipos de feijão, tendo o consumidor final dos diferentes estados e regiões preferências por algumas variedades em detrimento de outras, o que faz com que a diversidade de variedades alcancem diferentes destinos.
“Cada um tem a sua praça, cada comerciante, entendeu? A praça da gente é uma, já o outro tem outra praça, compra outra variedade.” (ATV4, Feira de Feijão de Capoeiras).
A seguir mostramos estados e/ou municípios que são destinos de consumo final do feijão produzido no Agreste Meridional de Pernambuco (Figura 32).
Fonte: Elaboração Embrapa Semiárido a pedido do autor.
Figura 32. Mapa das rotas de destino do feijão comum produzido no Agreste Meridional de Pernambuco.
Portanto, a pesquisa nos fez perceber que existem diversos destinos por variedade havendo preferência de consumo por tipo de variedade de região para região, o que formam praças de consumo, conforme mostramos na tabela 18:
Tabela 18. Praças de consumo indicando as variedades mais consumidas por território ou estado.
Região Estado Praças de consumo Municípios Variedades de Feijão Nordeste Pernambuco Região Metropolitana
do Recife
Recife e Ipojuca Cariocas, Favita, Gordo, Leite, Pretos e
Mulatinhos Zona da Mata Sul de
Pernambuco Barreiros, Escada, Palmares, Ribeirão e Vitória de Santo Antão Cariocas e Pretos
Agreste de Pernambuco Bezerros, Capoeiras, Caruaru, Garanhuns, Gravatá, Lajedo, Santa Cruz do Capibaribe e Toritama Caianinha, Cariocas, Leite, Pretos, Rosinhas e Mulatinhos
Sertão de Pernambuco Arcoverde, Tabira, Triunfo, Serra Talhada, Araripina e Trindade.
Bala, Cariocas, Favita, Fogo na Serra, Gordo, Pau e Preto Bala
Ceará Ceará Juazeiro do Norte e
Fortaleza
Cariocas, Favita e Preto Rio Grande
do Norte
Rio Grande do Norte Natal Bala, Enxofre, Favita, Fogo na Serra, Gordo, Pau, Preto, Preto Bala, Mulatinhos
Paraíba Paraíba Campina Grande,
João Pessoa e Remígio.
Bala, Cariocas, Enxofre, Favita, Fogo na Serra, Gordo, Pau e Preto
Alagoas Alagoas Maceió Cariocas e Pretos
Maranhão Maranhão Sem especificação Gordo e Favita
Sergipe Sergipe Sem especificação Cariocas
Bahia Bahia Sem especificação Cariocas
Sudeste Rio de Janeiro
Rio de Janeiro Sem especificação Pretos
Fonte: Elaborado pelo autor
Com base nas informações da tabela acima foi percebido que existem ao menos três praças de consumo mais evidentes, de acordo com os destinos da produção das diversas variedades do território: uma praça de maior proximidade no Agreste de Pernambuco, a segunda que atende o sertão de Pernambuco mais alguns estados do Nordeste como Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará e outra que se constitui em uma praça nacional, destinada aos feijões cariocas e pretos, variedades que são consumidas praticamente em todos os estados do país.
As variedades de feijão mulatinho (bico de ouro, bage roxa, mulatinho legítimo, boi deitado, mão curta, rim de porco...) e rosinhas (caianinha, rosinha, rosinha legítimo) são
praticamente todos consumidos no Agreste Meridional de Pernambuco e algumas outras regiões do Estado em menor escala, entretanto não saindo para outros Estados do Brasil.
As variedades dos chamados feijões “redondos” ou “graúdos” são praticamente consumidos fora do Agreste Meridional, entre eles os feijões Bala Branco, Preto Bala, Fogo na Serra, Gordo, Favita, Enxofre, Leite e Feijão Pau, seguindo para os Estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará e Sertão de Pernambuco. Há relatos de que antigamente esses feijões seguiam para Belém-PA, Maranhão e Piauí, ou seja são feijões que sempre foram produzidos no território, mas consumidos fora dele.
Vale ressaltar que os chamados feijões “redondos” ou “graúdos” são feijões de sementes tradicionais plantadas há gerações por agricultores do território, em especial as variedades de feijão favita, pau, gordo e leite, portanto são variedades amplamente conhecidas entre os agricultores e pela população local das cidades. Entretanto, essas variedades são muito pouco consumidas pela população do Agreste Meridional que prefere os mulatinhos e rosinhas conforme dito acima. Os agricultores entrevistados apontam que apenas consomem esses feijões quando estão “verdes” ou “maduros”, ou seja, por um curto período de tempo, não consumindo estas variedades quando estão secas, justificando por serem feijões “que dão muita massa” e que ao consumi-los causam uma sensação de “estômago pesado”.
“Feijão gordo, favita, não roda aqui na região pra comida não, roda pro comércio. Aqui pra comer é um carioca, preto, um mulatinho. O feijão de consumo mesmo de verdade na região se chama carioca, é um feijão que roda em todo mercado.” (ATV2, Lajedo-PE)
Exemplificando ainda mais essa questão, temos a fala de uma comerciante que explica que os feijões “redondos” e “graúdos”, apesar da existência de diversas variedades produzidas no território, não são de costume da população local consumi-las e que muitas variedades só encontram algum comércio fora do estado de Pernambuco:
“tem uns feijão que o pessoal planta por aí que é bom, mas pra gente vender aqui não vende, porque o pessoal não é acostumado. Tem uns feijão que é pra fora, olha... esse favita aqui a gente botou só um pouquinho pra uns freguês que pediu, mas não vende muito. Feijão pau aqui o pessoal não compra, feijão gordo aqui o pessoal não compra, é pra fora, o pessoal planta aqui, mas faz os pedidos pra fora. Tem que vender o que o pessoal quer” (ATV15, Lajedo-PE). Com relação ao feijão carioca e o feijão preto, estes são praticamente considerados feijões universais, sendo amplamente consumidos por diversas populações de diversos estados e regiões do Brasil.
Ao mesmo tempo em que foram verificados diversos destinos do feijão, muitos atravessadores afirmaram que em termos de quantidade comercializada, grande porcentagem do feijão produzido no Agreste Meridional é comercializada e consumida dentro de Pernambuco e uma menor parte é que realmente chega a ser encaminhada para fora do estado.
Os atravessadores alegam que a quantidade produzida no território não é capaz de abastecer a demanda de consumidores e que por isso é necessário para as empresas empacotadoras comprarem feijão de safras de outros estados do Brasil. Nas entrevistas, os atravessadores afirmam que em média 63,5% do feijão produzido no Agreste é consumido em Pernambuco e 36,5% chega a destinos fora do estado. Isto significa dizer que aproximadamente 1/3 do feijão no qual estão incluídos os “redondos” e “graúdos” de sementes crioulas tradicionais, encontram espaço apenas em canais de comercialização menores e mais restritos em termos de quantidade, que seguem destinos para fora de Pernambuco.