(Nas palavras de Montaigne: “Se a falsidade, como a verdade, tivesse apenas uma face saberíamos melhor onde estamos, pois tomaríamos então por certo o contrário do que o mentiroso nos disse. Mas o reverso da
verdade tem mil formas e um campo ilimitado.”) A experiência de um movimento trêmulo e titubeante de tudo aquilo em que nos apoiamos para nosso senso de direção e realidade é uma das experiências mais comuns e mais vívidas dos homens sob um governo totalitário.
(ARENDT, 2009, p.318).
Como foi possível observar a crítica dos acadêmicos é servil a um movimento social, e está fundamentada em má leitura das obras críticas e em fatos isolados, hipotéticos e na análise de livros didáticos. A junção de toda a pesquisa empreendida por esses professores só faria o olhar do pesquisador acadêmico voltar sobre a questão da ética docente, que sofre duramente com falta de estudos na área, tendo em vista que a ética pertence ao saber prático e, portanto, pouco auxilia os novos docentes se os pesquisadores não conseguem consolidar esse campo, pode ser compreendido como uma falta do campo filosófico. Além da ética docente a atualização séria de obras clássicas da educação, uma retomada do que é clássico na própria obra, se apresenta como necessidade haja vista que os professores doutores que estudamos desconhecem que Paulo Freire, explicitamente, combate qualquer tipo de encobrimento da realidade e descreve como isso é feito. Para além dos problemas anteriores, os textos lidos descortinam a necessidade de reavaliação dos livros didáticos como material básico para o docente, essa questão, como já havíamos afirmado, é um campo complexo e há pesquisadores empenhados em pesquisas nisso, entretanto afirmar que se o livro didático apresenta uma única vertente de pensamento, disso decorre que o estudante está sendo doutrinado pelo professor, incide em um erro categorial em que à categoria professor é atribuída um déficit que não é seu, mas do livro.
O que afirmamos é que as conclusões das pesquisas, empreendidas, pelos professores doutores observados, dentro de programas de pós-graduação, ganharam uma dimensão que não lhe é própria. Não desenvolvem uma denúncia acerca dos déficits da área da educação, com propostas responsáveis de intervenção no campo. Resultando a conversão das denúncias em discurso de opinião, adentrando o campo político-partidário, não como guia para a compreensão de um fenômeno, mas como mais uma ala, dentro das alas que formam os discursos, aliada. Haja vista que não apenas professores acadêmicos, mas outros profissionais da área da educação ou não, contribuem com discursos de opinião. No entanto, a titulação acadêmica garante peso de cientificidade ao discurso, assim
parece importante que o Vice-Presidente da Associação Escola Sem Partido, seja um Professor Adjunto Nível III, do Departamento de Teorias e Fundamentos da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília.
Isso significa que o Escola Sem Partido pode ser pensado como um grupo que observou a necessidade de revisão do pensamento pedagógico, congregando outros setores e pessoas da sociedade, a pensar modos de suprir essa necessidade, acabou por encontrar eco entre grupos político-partidários em que o viés ético das políticas públicas é foco de disputa. Tais grupos perceberam nesse movimento uma possibilidade de alargar seu campo de atuação a partir da proposição de uma solução (PECs e PLs da Escola sem partido) para um problema que, tomadas as vias de fato, não existe (a doutrinação ideológica em sala de aula), antes, foi fabricado a partir de uma necessidade real, que está negligenciada em nome de um discurso de denúncia.
A partir daí as especulações mercadológicas são visíveis, o CNPJ 22.743.156/0001-03, além do nome fantasia Escola Sem Partido, é Escola Sem Partido Treinamento e Aperfeiçoamento Eireli-ME, sua atividade econômica é Treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial. Afinal, treinar os professores no campo ético seria de alguma serventia, já que sua formação é inadequada, pois as instituições de ensino superior são incapazes de formar para a docência ética. Ainda, alternativas como a educação domiciliar ou à distância, movimentam o mercado da educação aproveitando o alvoroço que o MESP vem fomentando, evidentemente que os docentes não possuem condições de combater o imaginário coletivo que aceitou a imagem do professor doutrinador.
O Estado, já entregue às iniciativas privadas, não possui condições de lidar economicamente com mais uma mazela na área da educação. O Estado subsidia pesquisas acadêmicas na área; subsidia professores e o aparato para funcionamento das instituições educativas; o Estado subsidia formação continuada para os professores. Se com os subsídios básicos os docentes não passam de doutrinadores, como afirma o MESP, não há necessidade de seguir subsidiando programas de pós-graduação, escolas públicas e formação docente, essa demanda seria facilmente administrada burocraticamente e regulada eticamente por empresas privadas do ramo. Passamos ao ideal de regulação dos processos pelo gerencialismo, em que os resultados são o parâmetro para a tomada de decisões,
logo pouco há de importante no que está prescrito, mas muito há de importante no que se apresenta como necessidade.
A necessidade a ser gerenciada é a doutrinação, a solução deve ser rápida e precisa considerando as peças que estão causando o problema e a possibilidade de investimento no conserto das peças usadas, na substituição das peças ou mesmo na aquisição de um novo modo de promover a educação, talvez um modo mais simples, mais barato e, portanto, mais lucrativo. Assim, concluímos que os discursos de acadêmicos, presentes na sessão Artigos do site do MESP, estão subsidiando um movimento político-partidário, que por sua vez abre um novo nicho no mercado educativo, isto é, a ética pedagógica é alavancada como produto, justificando o enxugamento de investimentos públicos na educação pública e cedendo mais espaço e investimentos públicos para as iniciativas privadas.
7 A FORMAÇÃO HUMANA E A POSSIBILIDADE DE PENSAR A ÉTICA