As indústrias criativas japonesas no pós-guerra moldaram drasticamente a cultura popular do Japão, transformando-a num meio criativo e exuberante, que com o auxílio do avanço tecnológico permitiu chegar a um número cada vez maior de pessoas e obter um sucesso comercial estrondoso, tanto a nível doméstico, como mais tarde a nível internacional. Esta sofisticação da cultura popular japonesa foi acentuada mais tarde, pelas políticas adoptadas pelo governo e pelas empresas japonesas que provocaram uma mudança no estilo de vida da população japonesa, permitindo que esta passasse a dar mais enfâse às suas práticas culturais (JETRO 2007: 2). Em consequência, os produtos culturais tiveram que sofrer uma transformação para responder às necessidades de uma afluente sociedade japonesa com gostos mais maduros e requintados (ibid.).
Os produtos das indústrias criativas e culturais, como o manga, o anime, os videojogos, a moda, a cozinha, a música, as séries televisivas e o cinema, tornam-se assim uma parte integral da cultura “pop” japonesa. E, nesse sentido, integram-se no conceito de “cultura popular” por constituírem um aspecto fundamental da esfera do quotidiano e da fonte de entretenimento de milhões de pessoas (Craig, 2000: 4). Não quero com isto referir que o conceito de “cultura popular” possa ser simplificado pela frase anteriormente referida, sendo necessário ter em consideração que este termo tem gerado um alargado debate por parte dos estudiosos dos Estudos de Cultura, que procuram definir o conceito com base em categorias diferentes da história e na troca de informação com outras categorias conceptuais como a alta cultura, a cultura de folclore, a cultura de massas, o pós- modernismo, o feminismo e ainda a globalização (Tsutsui, 2010: 4; Storey, 2009:1-14). Para os efeitos desta dissertação, a noção de cultura popular considerada será a de cultura comercial, produzida e consumida em massa (Storey, 2009: 6) e será utilizado o conceito de “arte de massas” de Noel Carroll para contextualizar o manga, devido à forma como este é produzido, reproduzido e colocado em circulação pelos “mass media” (Storey, 2003: 95).
Timothy J. Craig (2000), no seu livro “Japan Pop! Inside the World of Japanese Popular Culture”, coloca a questão sobre o que é que torna a cultura popular japonesa tão distinta e atractiva para outras sociedades. E procura responder, identificando três características singulares da cultura popular japonesa: 1) a sua qualidade e criatividade, 2)
34 os seus conteúdos, temáticas e mensagens, e 3) a frequência com que aparecem determinados temas (Craig, 2000: 6-15). A primeira característica que distingue a cultura popular japonesa é a sua primazia pela qualidade e pela inovação, que Craig associa ao passado estético e artístico japonês (especialmente ao Período Edo), apontando para a continuidade da prevalência de um nível e habilidade artística elevada, com atenção especial ao detalhe (ibid.). Acrescenta também que a cultura pop japonesa deve muito da sua inovação à “ sinergia entre o novo e o velho, o nativo e o estrangeiro, de um género e de outro (…)” (Craig, 2000: 8), significando que a própria cultura popular japonesa é híbrida e provida de várias influências ocidentais (cf. Tsuitsui) que são apropriadas pela imaginação dos artistas e adaptadas para uma realidade local (Tsutsui, 2010: 26). Contudo, nem toda a cultura popular japonesa possui alta qualidade, sendo que muitos dos programas televisivos são medíocres e que, devido à massificação do manga, são várias as histórias despedidas de interesse e de habilidade artística (Craig, 2000: 6; Schodt, 1996: 28). Mas são os vários exemplos de artistas e de trabalhos genuinamente criativos e extraordinariamente bem concebidos presentes em todos os produtos da cultura popular japonesa que ofuscam aquilo que há de pior (Craig, 2000: 6). Esta perspectiva, acaba por reflectir aquela que pode ser considerada uma das muitas contradições do conceito de cultura popular, que é a sua classificação como uma “cultura inferior” quando comparada com a alta cultura (Storey, 2009: 6). Porém, admitindo que o conceito de cultura popular adquire um significado diferente quando classificado consoante o espaço e o tempo, e tendo em consideração a influência do pós-modernismo no conceito actual, começa-se a assistir a um esbatimento da divisão entre alta cultura e cultura popular (ibid.), que é espelhado na genialidade atribuída a determinados produtos da cultura popular japonesa.
A segunda característica identificada por Craig consiste na facilidade com que as audiências mainstream japoneses ou estrangeiras, aceitam as mensagens e os conteúdos transmitidos pela cultura popular japonesa. No entanto, Craig também faz questão de alertar que tal como a sociedade japonesa, a sua cultura popular não é simples nem uniforme, não podendo ser reduzida a exemplos específicos (pois esses exemplos podem acabar por se contradizer) (Craig, 2000: 6). Logo, não perdendo de vista essa complexidade e diversidade, o autor procura dar a conhecer três factores proeminentes e transversais a todos os produtos da cultura popular japonesa. O primeiro consiste na perspectiva optimista da natureza humana que permite retractar a realidade sem filtros
35 (Craig, 2000: 12). Alguns exemplos podem ser encontrados no manga e no anime, que tantas vezes chocam os pais ocidentais pelo excesso de violência ou de nudez integral (Norris, 2009: 254). O segundo diz respeito à intensa presença de mensagens idealistas, que glorificam os sonhos, a juventude, o amor, o desejo, a aventura e o esforço, num percurso que leva à realização de objectivos, muito presente em canções, no manga, no anime, nos videojogos e ainda nas séries televisivas (Craig, 2000: 13). O último factor prende-se com a forma como é retratado o quotidiano, que permite uma identificação quase automática com o dia-a-dia da sua audiência. O melhor exemplo disto encontra-se no manga. Se nos Estados Unidos os comics retratam pessoas extraordinárias a fazerem coisas fantásticas (Schodt 1996: 28), no manga as personagens não passam de pessoas normais, com defeitos e qualidades, sendo que, apesar de poderem ganhar algum poder especial, a narrativa encontra-se tão focada no seu desenvolvimento pessoal, que é impossível o leitor não se identificar com o seu lado humano (Craig, 2000: 13).
Por fim, a terceira característica consiste na complexidade e sofisticação com que são tratadas as temáticas recorrentes na cultura popular japonesa, sendo estas as relações humanas (demonstrando os desafios de interacção com a família, os amigos e colegas); a atitude positiva relativamente ao trabalho (focando-se nos desafios colocados no percurso para se tornarem bons profissionais), e o crescimento mental e espiritual que uma pessoa adquire ao ultrapassar obstáculos e atingir o sucesso (Craig, 2000: 14.). Por outro lado, Tsutsui (2010) adopta uma perspectiva diferente em relação a Craig, no que toca às temáticas recorrentes. Este identifica quatro temas que distinguem a singularidade da cultura popular japonesa da cultura popular americana: a escolha de cenários apocalípticos e de guerra, o fascínio por monstros e criaturas sobrenaturais, a estética do kawaii (ou fofinho) e a presença de mechas. Estes temas são tão recorrentes na animação e na banda- desenhada japonesa, que chegam a fazer parte da descrição dos seus géneros. No entanto, também se verificam nos outros produtos de cultura popular, como o caso da moda, que é esmagadoramente liderada pelo movimento “kawaii”, procurando utilizar acessórios e roupa para transmitir uma imagem inocente, querida, infantil, muito parecida com aquela das bonecas de porcelana (Tsutsui, 2010: 20). Ou como é o caso do cinema, que introduziu no imaginário global o célebre “Godzilla”, pioneiro nos filmes de monstros, tendo inspirado mais tarde o americano King Kong (ibid.).
36 Em suma, torna-se praticamente impossível descartar a cultura popular japonesa quando se pretende estudar o manga e, nomeadamente, o tipo de mensagem que este transmite para as suas audiências. Ao esclarecer algumas das características distintivas da cultura popular japonesa, ganhamos acesso ao meio de contextualização em que se inserem as respostas das autoras da Banzai durante as entrevistas e a forma como influenciam as suas perspectivas sobre a cultura japonesa.
Manga e os mass media
O termo “arte de massas” (“mass art”) cunhado pelo filósofo americano Nöel Carroll propõe que a arte da cultura popular seja diferenciada da arte da alta cultura, não por ser considerada de qualidade inferior, mas por se tornar imediatamente acessível a um grande número de pessoas e pela sua distribuição feita através dos meios tecnológicos dos “mass media” (Storey, 2003: 95). Deste modo, a arte de massas é uma forma de arte que emergiu na recente sociedade urbana, industrial, capitalista e digital, e pode consistir em variados produtos das indústrias criativas, nomeadamente em filmes e banda-desenhada (MacWilliams, 2008: 6). Com este contexto em mente, Mark W. MacWilliams apresenta três argumentos que justificam como o manga é um exemplo da arte de massas. O primeiro diz respeito à facilidade com que os leitores de manga conseguem compreender as histórias que são transmitidas e descodificar a simbologia dos seus conteúdos (MacWilliams, 2008: 7), entrelaçando-se com o argumento de Nöel, que afirma que a arte de massas é de fácil compreensão (Storey, 2003: 95). O segundo explica como a indústria do manga é uma manifestação local japonesa de um mediascape26 globalizado para a circulação em massa de imagens e narrativas que era originalmente feita por jornais, revistas e livros de banda- desenhada e que agora é feita através de meios electrónicos como a internet, os videojogos e os telemóveis (MacWilliams, 2008: 12). O último argumento demonstra que tal como a arte de massas, também o manga se destina a uma “audiência de massas” (Storey, 2003: 96), que se reflecte nas suas vendas e na sua posição dominante no mercado editorial,
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O termo “mediascape” é utilizado pelo antropólogo Appudurai para descrever a transmissão de imagem e de narrativa através de meios impressos e digitais, e que afectam o imaginário colectivo. Para um estudo mais aprofundado do termo consultar: Appadurai, Arjun (1990) «Disjuncture and Difference in the Global Cultural Economy» Theory, Culture and Society , 7, Middlesbrough, pp. 295-310.
37 constituindo cerca de 20% do total de revistas e 25% do total de livros vendidos em 200627 (cf. MacWilliams, 2008).
Para além da sua efectiva classificação enquanto arte de massas, o manga tem uma presença poderosa nos mass media japoneses e, como tal, tem acompanhado as novas tendências electrónicas para não perder a sua posição central. Actualmente o aparecimento do manga digital permite a leitura de manga em ecrãs de tabletes e telemóveis, oferecendo aos seus leitores uma qualidade de imagem retocada em Photoshop e, ainda, a possibilidade de maior interacção do leitor com a história ao providenciar uma experiência de evento multimédia com som e imagem (Elias, 2012: 89). Apesar de existir a circulação de manga digital a partir de 2006 (ou até um pouco antes), só no ano passado (2013) é que as grandes editoras, como a Shogakukan e a Shūeisha, começaram a distribuir digitalmente e integralmente, as suas revistas de manga mais populares (Japan Book Publishers Association, 2014: 35).
Resumindo, não é errado assumir que o manga desempenha um papel central nos mass media japoneses (ou masu komi), por chegar a toda a população sem discriminar entre idades, géneros, educação e classe social, fazendo de qualquer japonês um consumidor (pelo menos até a um certo ponto da sua vida) (MacWilliams, 2008: 13).