Génese do projeto
O projeto Mais Ciência nasceu como uma das ações de melhoria do programa de acompanhamento da ação educativa desenvolvido no Agrupamento de Escolas Mosteiro e Cávado, em Braga, pela Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC), em resultado do processo de avaliação externa que teve lugar em 2013-14. Teve início no ano letivo 2014-15 e prossegue no corrente ano com pequenas alterações em relação ao projeto original.
O relatório final da avaliação externa do Agrupamento apontava como uma das áreas onde o Agrupamento deveria incidir prioritariamente os seus esforços para a melhoria “a adoção e a generalização de metodologias ativas e de projeto como forma de valorização dos processos de ensino e aprendizagem”.
As metodologias ativas, nomeadamente o trabalho laboratorial, experimental ou de campo, assumem no ensino das ciências um papel muito importante, uma vez que permitem aos alunos compreender e experimentar como se constrói o conhecimento científico, isto é, como trabalham os cientistas (Klahr, 2011). Para além do conhecimento substantivo e processual, este tipo de recurso didático também estimula o desenvolvimento de capacidades como, por exemplo, observar, planear, pensar e comunicar; além disso, fomenta atitudes de curiosidade, reflexão crítica e criatividade, fundamentais à aprendizagem, em geral, e à aprendizagem das ciências, em particular (Jorge, 1991). Outro aspeto igualmente importante é o facto de estas metodologias implicarem um envolvimento muito ativo do aluno no processo de ensino- aprendizagem e serem altamente estimulantes e motivadoras, o que potencia aprendizagens mais significativas (Pedrosa,2001).
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Conceção e desenvolvimento do projeto
A ação Mais Ciência foi desenhada, precisamente, com o objetivo de estimular a utilização do trabalho prático, nomeadamente o trabalho laboratorial, experimental ou de campo no ensino das ciências, desde o 1.º ao 9.º ano de escolaridade. Assim, contemplava como meta a realização de cinco atividades práticas em todas as turmas do Agrupamento, uma no 1.º período e duas nos restantes períodos letivos. Para tal, mobilizaram-se a área curricular de Estudo do Meio, as disciplinas de Ciências Naturais e Físico-Química e os professores dos grupos de recrutamento 110, 230, 510 e 520 (Figura 1).
Figura 1. Dissecação de um coração de porco e importância da luz na produção de alimento pelas plantas
O Diretor do Agrupamento nomeou uma docente do grupo 520 que, além de coordenar e monitorizar a ação, desempenhou o papel de interlocutora do Agrupamento junto da equipa da IGEC.
No plano da ação estão elencadas, por ordem cronológica, uma série de atividades/ tarefas imprescindíveis à sua implementaçãono terreno que de seguida se descrevem, brevemente, tal como ocorreram.
A primeira atividade ocorreu no final do mês de outubro e consistiu numa reunião entre a interlocutora e as coordenadoras dos conselhos de ano do primeiro ciclo e das secções disciplinares de Ciências Naturais (integra 2.º e 3.º ciclos) e Físico-Química para dar a conhecer o plano da ação e mobilizar os envolvidos para as atividades/ tarefas a realizar.
Posteriormente, estas coordenadoras reuniram com os grupos de docentes que coordenam apresentando a ação e iniciando o trabalho em conjunto que se seguia. Na primeira quinzena
138 de novembro, definiram-se e calendarizaram-se as cinco atividades práticas previstas para cada ano de escolaridade, o que implicou o preenchimento de uma grelha destinada à posterior monitorização do planeamento e da execução da ação. Até ao final deste mesmo mês, foram planificadas as atividades práticas a realizar no 1.º período e construídos os materiais pedagógicos indispensáveis à sua implementação. Até ao final de janeiro planificaram-se as restantes atividades práticas a realizar nos 2.º e 3.º períodos e construíram- se os respetivos materiais pedagógicos. Todo o material produzido foi enviado à interlocutora da ação.
Para cada atividade prática foi elaborado um plano de aula, o respetivo protocolo, V de Gowin ou guião de saída de campo, consoante o caso, e um instrumento para avaliar as aprendizagens realizadas pelos alunos. Procedeu-se, ainda, à análise das condições necessárias à implementação das atividades, nomeadamente no que respeita a materiais e equipamentos e ao número de alunos por turma. Para ultrapassar o constrangimento da inexistência de desdobramento nas turmas do 2.º ciclo, estas aulas contaram com a colaboração entre docentes recorrendo ao regime de coadjuvação. Para tal, na secção disciplinar de Ciências Naturais, constituiu-se uma bolsa de docentes disponíveis para coadjuvar os colegas do 2.º ciclo das turmas com maior número de alunos.
Na planificação e construção dos materiais pedagógicos adotou-se uma estratégia de trabalho colaborativo, tendo todas as tarefas sido realizadas em conjunto pelos docentes que lecionavam a mesma disciplina e ano de escolaridade. Estes docentes valorizaram uma planificação bem estruturada das atividades, partindo de uma reflexão prévia sobre quais as capacidades e os conhecimentos que se pretende que os alunos desenvolvam, sobre como se espera que os alunos aprendam e sobre como avaliar o que os alunos aprenderam. Por outro lado, houve a preocupação de envolver os alunos em todas as fases do desenvolvimento das atividades práticas, para que elas não se limitassem à execução de um mero receituário, conscientes de que deve haver lugar à formulação de hipóteses e à previsão de resultados, ao registo de observações e de dados, à interpretação de resultados e à formulação de conclusões.
No final de cada período letivo, foi recolhida e tratada informação sobre os resultados obtidos pelos alunos na avaliação das aprendizagens realizadas com estas atividades práticas, para o que se usou uma grelha de registo dos resultados.
Ao longo do ano letivo, cada docente enviou à interlocutora evidências da realização das atividades nas suas turmas, na forma de fotografias dos ambientes educativos em que
139 decorreram. O trabalho realizado no âmbito da ação foi sendo divulgado à comunidade educativa, através de notícias no blogue e de apresentações nas festas do Agrupamento. No final do ano, organizou-se um portfólio com todos os materiais pedagógicos produzidos, que foi disponibilizado aos docentes envolvidos na ação com o objetivo de facilitar e enriquecer o seu trabalho futuro.
Como resultado da avaliação da ação, foram elaborados dois relatórios – um intercalar, em fevereiro, e um final, em junho – que foram apresentados ao Diretor do Agrupamento e à equipa inspetiva da IGEC. A elaboração destes relatórios contou com o contributo dos professores envolvidos, uma vez que neles foram incluídas as suas reflexões sobre a execução da ação, nomeadamente as melhorias alcançadas, os constrangimentos sentidos e os aspetos a reforçar.
Monitorização e registos
A coordenação e monitorização deste projeto foram da responsabilidade da interlocutora, nomeada pelo Diretor do Agrupamento.
A coordenação destinou-se a clarificar, esclarecer e ajudar a resolver problemas que surgiram ao longo do desenvolvimento da ação e processou-se, sobretudo, por via de correio eletrónico entre as coordenadoras das diferentes estruturas pedagógicas envolvidas e a interlocutora. A monitorização destinou-se a confirmar a execução das atividades calendarizadas, a recolher as evidências da sua realização, a coligir e distribuir os materiais pedagógicos produzidos no seu âmbito e a promover momentos de divulgação à comunidade educativa do trabalho realizado. Para a monitorização foram concebidas grelhas destinadas a registos contínuos e sistemáticos que evidenciassem a implementação das atividades previstas e a evolução dos resultados. Assim, para cada ano de escolaridade e disciplina, construíram-se grelhas destinadas à monitorização do planeamento e execução da ação (Figura 2) e grelhas para registo dos resultados obtidos pelos alunos em cada uma das atividades (Figura 3), cujos dados sofreram posterior tratamento estatístico e análise.
Na grelha para monitorização do planeamento e execução da ação constam três campos que foram preenchidos ao longo do ano letivo.
140 Figura 2. Excertos de grelhas usadas na monitorização do planeamento e execução da ação nas turmas do 1.º ano e nas turmas do 9.º ano.
O campo “Data prevista” destinou-se ao agendamento da atividade prática e foi preenchido por cada um dos professores envolvidos. Este agendamento ocorreu nas reuniões dos conselhos de ano do primeiro ciclo e das secções disciplinares de Ciências Naturais e Físico- Química, na primeira quinzena de novembro.
O campo “Observações” foi preenchido quando não foi possível a realização da atividade na data em que estava inicialmente agendada. Nesse caso foi registada a data em que a atividade se realizou. Este campo foi preenchido pelos professores envolvidos nos meses de fevereiro e junho.
O campo “Evidências” foi sendo preenchido pela interlocutora, ao longo do ano letivo, à medida que ia recebendo, via correio eletrónico, as evidências da realização das atividades práticas.
A visualização destas grelhas permitia à interlocutora, de uma forma rápida e simples, o conhecimento de como estava a ser implementada a ação no terreno, para além de facilitar a elaboração dos relatórios intercalar e final da ação.
141 Figura 3. Excerto de uma das grelhas usadas para registo dos resultados obtidos pelos alunos.
A grelha para registo dos resultados obtidos pelos alunos em cada uma das atividades (Figura 3) era preenchida pelos professores das turmas no final da classificação do instrumento de avaliação que tinham usado, por simples indicação do número de alunos que havida obtido cada uma das quatro menções previstas.
Esta grelha de registo dos resultados permitiu, ainda, confirmar que, em todas as turmas do 1.º ao 9.º ano, a avaliação das aprendizagens recorria a uma multiplicidade de instrumentos e técnicas que incluía os aplicados à avaliação das aprendizagens no final das atividades práticas, conforme previsto nos planos de aula respetivos.
A análise destes resultados permitiu refletir sobre quais eram as temáticas abordadas ou os tipos de instrumentos de avaliação utilizados em que os alunos evidenciavam mais dificuldades.
Conclusão
A reflexão final realizada em junho de 2015 pelos docentes envolvidos destacou alguns aspetos não previstos no plano inicial da ação, mas que a enriqueceram. Após a avaliação intercalar, realizada em fevereiro, e por sugestão da equipa inspetiva, fez-se um reajustamento da meta inicialmente definida, tendo-se alargado a ação à educação pré-escolar (Figura 4).
142 Figura 4. Flutuação de objetos em água
Neste âmbito planificaram-se e implementaram-se duas atividades práticas no 3.º período, em todos os grupos de crianças. Procedeu-se, ainda, há planificação e construção de materiais pedagógicos para mais duas atividades práticas a desenvolver na área curricular de Estudo do Meio e nas disciplinas de Ciências Naturais e Físico-Química, que ficaram disponíveis para serem utilizadas no ano letivo seguinte.
Por outro lado, foi consensual a opinião quanto à importância dos ganhos efetivos decorrentes desta ação. Alguns desses ganhos foram apontados pelos professores envolvidos: (i) reforço do trabalho colaborativo entre docentes na planificação e construção de materiais pedagógicos; (ii) coadjuvação das aulas com atividades práticas em Ciências Naturais no 2.º ciclo, o que tornou possível a realização de atividades experimentais ou laboratoriais em turmas com um elevado número de alunos; (iii) trabalho colaborativo entre docentes na prática letiva dos professores coadjuvado e coadjuvante, contribuindo para o desenvolvimento profissional de ambos; e (iv) partilha do material pedagógico produzido, facilitando o trabalho futuro de todos os docentes. Também o relatório final de acompanhamento da ação educativa, elaborado pela equipa inspetiva da IGEC destaca o “reforço do trabalho colaborativo e cooperativo entre docentes dos diferentes níveis/ ciclos de escolaridade, promotor da articulação vertical e da sequencialidade das aprendizagens”.
Referências bibliográficas
Jorge, M. (1991). Educação em Ciência: Perspetivas atuais. In M. T. M. Oliveira (org.), Didática da Biologia (pp. 29-41). Lisboa: Universidade Aberta.
143 Klahr, D. (2011). “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”: e quanto à instrução direta?. In D. Klahr et al., O Valor do Ensino Experimental (pp. 9-40). Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Pedrosa, M. A. (2001). Ensino das ciências e trabalhos práticos – (Re)concetualizar…. In A. Veríssimo (coord.), Ensino experimental das ciências: (Re)pensar o ensino das ciências (pp. 19-33). Lisboa: Ministério da Educação.
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